terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Guillaume Durocher - Questões Alemães

por Guillaume Durocher



Martin Schulz, um político social-democrata alemão e presidente do Parlamento Europeu, supostamente disse a um político israelense:

"Para mim, a nova Alemanha existe apenas para garantir a existência do Estado de Israel e do povo judeu".


Uau!


A fonte? Avraham Burg, um empresário israelense e membro do Knesset, no Haaretz ano passado. Então isso é um pouco velho, mas eu não vi isso ser discutido antes, e ajuda a explicar a reação suicida da Grã-Mufti Merkel e da classe política alemã à invasão afro-islâmica da Europa, chamada de "crise imigrante".

Burg nos diz:

"Dê um grande 'obrigado' a Martin Schulz


[...] Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, é um amigo próximo meu. Na maioria das questões relativas ao conflito israelo-palestino nós discordamos. Ele está mais próximo do mainstream israelense, e suas posições se assemelham aos do presidente do Partido Trabalhista Isaac Herzog. Ele uma vez me disse, durante uma conversa franca, 'Para mim, a nova Alemanha existe apenas para garantir a existência do Estado de Israel e do povo judeu'. Ele é um intelectual brilhante e um político consciencioso, e nós não precisamos nos preocupar, ele não vai abandonar sua amizade existencial tão facilmente. [...] Assim, eu quero dizer um grande 'obrigado' a Martin Schulz, um dos últimos e melhores amigos de Israel no mundo".


Bem, Burg estava fazendo esses comentários no contexto da revolta entre políticos e a mídia israelense por causa de um comentário feito por Schulz reclamando (em um discurso bastante pró-israelense) do fato de que israelenses na Cisjordânia (colonos judaicos, para ser mais preciso) podem usar quatro vezes mais água do que os palestinos.

Burg poderia estar exagerando um pouco para ajudar a imagem de seu amigo Schulz durante uma crise midiática. Mas Schulz não fez qualquer tentativa de corrigir a afirmação relatada no Haaretz. Assim ou ele, de fato, a fez em privado ou estava feliz em vê-la relatada sem correção ou outros comentários. Schulz está então contente com ter o público israelense saber que o povo alemão e seu governo, a República Federal da Alemanha, existem "apenas para garantir a existência do Estado de Israel e do povo judeu".

Não deveria o governo alemão existir apenas para servir aos interesses do povo alemão, e não os de um povo estrangeiro ou grupo minoritário?

Schulz é um político social-democrata alemão comum. Como ocupante temporário da função de Presidente do Parlamento Europeu, ele possui uma minúscula quantidade de poder dado a ele sob o estranho regime que é a União Europeia, a pequena recompensa por uma longa carreira de manter a cabeça abaixada e seguir o fluxo da ortodoxia plutocrática e internacionalista.

Enquanto tal, Schulz é tão bom indicador quanto qualquer outro das tendências das classes políticas alemã e europeia hoje. Sua insanidade é também a insanidade da Chanceler Angela Merkel e da elite político-midiática alemã em geral.

Obviamente, a República Federal da Alemanha não é uma incorporação justa ou particularmente "democrática" da vontade espontânea do povo alemão. Ao invés, ela foi fundada sob ocupação estrangeira após a Segunda Guerra Mundial, após os alemães terem sido traumatizados pela incineração de dezenas de milhares de civis, pela limpeza étnica de 9 milhões de alemães na Prússia Oriental, Silésia, Sudetos, e pelo estupro em massa de pelo menos 2 milhões de mulheres alemães pelos Aliados, a coalizão igualitária de liberais e comunistas.

Em resposta, os alemães ocidentais criaram uma ditadura antinacionalista, a República Federal, para que nunca mais as potências ocidentais tivessem motivo para infligir tamanha chacina horrível e sadista sobre seu povo. Políticos alemães como Schulz foram criados a base de "antinazismo" e foram ensinados a acreditar que seu povo, os alemães, eram o povo mais maligno no mundo e que eles tinham o dever de se redimir através de um altruísmo ilimitado e não-recíproco em relação a outros povos.

Os alemães foram, de certa forma, reprogramados após a Segunda Guerra Mundial para se autodestruírem. Esta programação ainda está operando e até mesmo entrou em metástase. "Jornalistas" alemães populares dizem abertamente ter uma missão sagrada de solapar ideias nacionalistas e de direita, não reportar sobre elas objetivamente ou discuti-las criticamente.

Daí, a afirmação de Schulz de que "a nova Alemanha só existe para garantir a existência do Estado de Israel e do povo judeu" e o convite suicida de Merkel para um assentamento islâmico ilimitado na Alemanha.

O caso de Merkel é ainda mais curioso. Ela foi criada na ditadura comunista da Alemanha Oriental, a República Democrática Alemã. Os alemães são um povo talentoso, e a Alemanha Oriental foi a ditadura mais economicamente próspera e rigorosa de todo o bloco comunista, com até 5% da população servindo como informantes do Ministério de Segurança do Estado (Stasi).

Na verdade, o "prusso-stalinismo" da Alemanha Oriental teve sucesso. A taxa de natalidade nativa foi mantida em níveis de substituição por políticas natalistas agressivas e progressivas, incluindo benefícios sociais generosos, um chamado "ano do bebê" de licença pós-maternidade paga, e pressão propagandística em cima de todas as mulheres (incluindo trabalhadoras e educadas) para que tivessem filhos pela Pátria. Por causa dessas políticas, a fertilidade alemã oriental se recuperou até níveis de substituição nos anos 80, níveis próximos da notoriamente obcecada França (e sem depender da fertilidade de imigrantes africanos e muçulmanos, é claro). Em contraste, na Alemanha Ocidental, toda política natalista era tabu por sua associação com o Terceiro Reich. Nascimentos desabaram na década de 70 ao nível de 1.3 e nunca se recuperaram desde então.

Os alemães orientais tinham até mesmo algumas políticas eugênicas, ainda que elas não estivessem no mesmo nível dos comunistas tchecoslovacos. Praga implementou incentivos financeiros consideráveis (o equivalente a 10 meses de salário) para a esterilização voluntária de até 2 mil mulheres por ano, afetando massivamente a taxa de fertilidade elevada da população cigana. (Também houve aparentemente uma pequena minoria de casos de esterilização forçada, pelos quais a República Tcheca tem considerado pagar reparações).

A linha dura do comunismo, via de regra, ajudou a vacinar os europeus orientais e centrais contra a forma mais suave de esquerdismo que se tornou hegemônica no Ocidente desde os anos 60. Assim, o movimento Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente (PEGIDA) é mais forte na Alemanha Oriental, particularmente Leipzig, onde a queda do regime comunista alemão começou há mais de duas décadas. 

Poloneses, húngaros, tchecos, eslovacos e romenos ficam todos assombrados com a perspectiva de assentamento africano ou islâmico imposto pela União Europeia, e seus governos estão levantando vários graus de resistência. Eles riem dos franceses por terem permitido que sua nação fosse afro-islamizada, levando à transformação de igrejas em mesquitas, festivais anuais de queima de carros, e impulsos periódicos de terrorismo matando, dependendo da situação, judeus, cartunistas de esquerda ou bondosos brancos liberais.

Merkel, porém, parece não se importar. Ela é, suspeito, apenas uma marionete refletindo o consenso de uma classe política alemã que não é capaz de pensar em objetivos mais elevados do que vender mais alguns BMWs e ser gentil com estrangeiros para demonstrar que eles se redimiram por seu passado.

Mas quando isso acaba? Thilo Sarrazin, uma figura mais intransigente, profetizou que isso acabará com o fim do próprio povo alemão.

Vamos esperar que os alemães acordam antes que isso aconteça. A Europa não pode, eu creio, ressuscitar sem a Alemanha. E não haverá salvação para a Alemanha a não ser que a classe política atual seja removida e substituída. 

Até então, o povo alemão será governado por indivíduos como Martin Schulz e Angela Merkel. Tão perturbados, tão danificados, que eles acreditam que a nação alemã tem o dever de se destruir. Importando povos da África e do Oriente Médio, eles parecem friamente indiferentes àqueles alemães cujas vidas tem sido arruinadas como resultado. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Alexander Jacob - A Burguesia, o Protestantismo e os Protocolos

por Alexander Jacob



Dois livros publicados no início da década de 1950 por dois aristocratas europeus merecem um estudo cuidadoso por todos os conservadores europeus contemporâneos uma vez que expressam as reações autênticas de nobres autênticos perante as mudanças revolucionárias que a Europa por muito tempo tem sofrido sob o jugo da democracia e do totalitarismo. Estes são Liberdade ou Igualdade: O Desafio de Nosso Tempo de Erik Ritter von Kuehnelt-Leddihn (1952) e O Homem e as Ruínas do Barão Giulio Cesare Evola (1953). Ambos Evola e Kuehnelt-Leddihn se opunham à democracia por suas tendências de nivelamento que consideravam ser uma mera fase de transição para os sistemas totalitários comunista, bem como capitalista. No entanto, enquanto Kuehnelt-Leddihn focava na mania democrática da igualdade - que ele considerava incompatível com a liberdade ou a verdadeira liberdade - sem atribuir claramente esta mania às classes médias, Evola inequivocamente identificava a burguesia e sua natureza mercantil inata - que milita contra o ethos guerreiro das sociedades aristocráticas anteriores - como a fonte dos males da democracia.

Erik von Kuehnelt-Leddihn (1909-1999) foi, como um membro da aristocracia do Império Habsburgo, um monarquista e "arquiliberal" na tradição de Alexis de Tocqueville. Ele dedicou sua carreira principalmente a defender as liberdades que ele sentia serem ameaçadas por doutrinas democráticas e socialistas. Entre 1937 e 1947 ele viveu e ensinou na América, retornando para a América regularmente após esse tempo, a partir de sua Áustria natal, a fim de lecionar e continuar a sua missão de melhorar a compreensão americana da mente e da mentalidade dos europeus. Ele esteve associado com o Instituto Acton para o Estudo da Religião e Liberdade e, antes disso, com o Instituto Ludwig von Mises a partir do qual o Instituto Acton tinha se ramificado como um desdobramento cristão. Ele estava constantemente ciente da diferença entre a ordem monárquica católica a que pertencia e os vários sistemas democráticos e totalitários que brotavam ao redor dele na Europa pós-1914, e sua principal preocupação era combater o impulso de nivelamento da democracia que leva ao totalitarismo e a privação de liberdades.

Já em 1943, durante a guerra, ele tinha escrito um trabalho sobre a história política chamada A Ameaça do Rebanho, ou Procrustes Solto (Milwaukee, WI:. The Bruce Pub Co.) que discutiu os defeitos da democracia e do socialismo na Europa, bem como nos Estados Unidos e Rússia. Vou limitar as minhas observações, principalmente, para o segundo de seus estudos políticos, a Liberdade ou Igualdade: O Desafio de Nosso Tempo (Caldwell, ID: The Caxton Printers, 1952), e me referir ao primeiro apenas para comprovação contextual. A primeira parte de Liberdade ou Igualdade é dedicado a um exame da ligação indissolúvel entre a democracia e tirania. Em seu trabalho anterior, A Ameaça do Rebanho, ele destacou a conexão entre a burguesia da Europa e o desenvolvimento do capitalismo. Ele apontou especialmente para a Reforma Protestante como esse movimento que libertou o espírito capitalista através do reforço do prestígio dos judeus usurários na sociedade europeia. Os países protestantes do norte da Europa se desenvolveram particularmente com velocidade extraordinária em Estados capitalistas, enquanto o sul ficou para trás em sociedades mais tradicionais:

"A cidade-Estado teocrática de Genebra de João Calvino ainda tinha alguns traços aristocráticos, mas sua alma já era essencialmente oclocrática e burguesa. À época de sua morte nós encontramos uma civilização de classe média altamente desenvolvida e uma cultura de caráter capitalista e semirepublicano nos países do vale do Reno - na Suíça, no Palatinado, na Alsácia , na Holanda - mas um processo similar sob a mesma influência acelerada também pode ser observado em distritos longínquos: sul da França, Ilhas Britânicas, e na Hungria oriental (51)".

O problema desse novo governo do dinheiro e da tecnologia era que, diferentemente do sul católico, ele era culturalmente estéril:

"À parte uns poucos poetas nós vemos esses seguidores de Calvino contribuindo muito pouco às artes e letras. Eles careciam de pintores, músicos, arquitetos originais; a hilariedade era para eles suspeita e seu humor era limitado".

Também surgiu ali no norte o perigoso slogan do "progresso":

"..as antigas sociedades hierárquicas e pessoais foram marteladas em massas sem forma pelos dois grandes produtos do 'progresso' - a megalópole e a fábrica. 'Progresso' é (a) um ideal coletivista e (b) um ideal urbano..."

E logo no esteio dessa recém-forjada ideia de "progresso" veio a noção de "humanidade":

"'Humanidade' enquanto tal mal existia enquanto princípio vivo na Idade Média porque o homem não tinha em relação a eternidade qualquer existência coletiva. Indivíduos se sacrificavam por suas famílias, seus senhores feudais, reis, cidades, direitos, privilégios, religião, sua amada Igreja ou a mulher amada, na verdade, por tudo ou qualquer um com quem tivessem uma relação pessoal. Esse amontoado anônimo de areia chamado 'humanidade' era desconhecido ao homem medieval e até o conceito de 'nação' não era equivalente a uma massa cinza de cidadãos unilinguais sendo vista como uma hierarquia de estrutura complexa...O coletivo singular 'humanidade' só foi criado após a Reforma como uma unidade viva".

A burguesia responsável pelo capitalismo e pela democracia, porém, não era simpática em relção as classes baixas, que eram mais próximas da aristocracia:

"A burguesia capitalista do século XIX (principalmente, se considerarmos as classes média-alta) defendia um sistema eleitoral que excluísse as classes mais baixas até mesmo de uma influência indireta sobre o governo. O 'democrata' de classe média frequentemente teme o trabalhador manual, que não raro se aliava ao aristocrata, e ele usualmente odeia o camponês politicamente, parcialmente por conta da aversão arraigada dos elementos agrários contra a cidade, paricalmente por conta da estrutura e tendências conservadoras-patriarcais da população rural".

Assim, o fogo-fátuo da "humanidade" tornou os homens não mais "fraternais", mas menos:

"A cultura e civilização democratistas os rebaixou a um amontoado não-hierárquico de areia mas, paradoxalmente, isso não os aproximou. Só o pensamento de um criador comum e uma origem comum pode unir seres humanos". 

Esta é, de fato, a fonte da alienação das democracias modernas:

"No hierárquico Tirol, as pessoas estão muito mais próximas umas das outras do que na 'democrática' Nova Iorque, e mesmo o albanês praticando sua vendetta é um melhor vizinho do que o habitante de Berlim ou Estocolmo atuais".

Interessantemente Kuehnelt-Leddihn traça os primórdios da democracia popular ou "oclocracia" ao pensamento materialista de João Calvino e à negação do próximo mundo pelos pensadores iluministas que fomentaram a Revolução Francesa:

"Há pouca dúvida de que ateísmo, agnosticismo, e a negação do outro mundo são parcialmente responsáveis pelo rápido desenvolvimento técnico que nos proporcionou, à parte dos primorosos instrumentos para destruição em massa, vários meios de superar tempo e espaço".

Distribuição massificada de commodities através da tecnologia torna tudo disponível para todos porque "ninguém deve ter o direito de se orgulhar de ser o único possuidor de uma coisa específica" e o resultado sociológico é uma rápida coletivização:

"A 'democracia' em suas primeiras fases é intrinsecamente uma luta contra privilégios e depois o democratismo continua esta luta amarga e despersonalizante contra tudo e todos, com a ajuda da magia demoníaca da técnica".

A educação universal também é identificada por Kuehnelt-Leddihn como uma das características "coletivistas" da democracia:

"...ao invés de se ater ao princípio hierárquico no mais aristocrático de todos os domínios - a educação intelectual - todo um corolário de compromissos com o espírito de massa foi feito neste campo; a educação se tornou assim finalmente nada além de outro fator de nivelamento, tal como a industrialização".

Também é significativo que as classes médias eram especialmente opostas à Igreja Católica por conta de sua natureza hierárquica e sua preocupação com mistérios, que em uma democracia tem que ser racionalizados pelas massas semi-educadas. Como ele nota,

"Também é necessário ter em mente que a classe mais antagônica à Igreja tem sido durante os últimos séculos a classe média, ou burguesia. É a classe média na França, Áustria, Alemanha, Boêmia e Morávia que mostra a maior proporção de protestantes".

Diferentemente de Evola, Kuehnelt-Leddihn não considera o liberalismo como uma característica distintiva da democracia mas, pelo contrário, ele considera a obsessão característica da democracia como sendo o desejo por igualdade, que como mencionado acima contradiz o desejo natural por liberdade. A liberdade ele define em Liberdade ou Igualdade como a liberdade de desenvolver a própria personalidade:

"...a maior quantidade de autodeterminação que em uma dada situação é factível, razoável e possível. Como meio de salvaguardar a felicidade do homem e proteger sua personalidade é um fim intermediário, e assim forma parte do bem comum. É óbvio que sob estas circunstâncias ela não pode ser brutalmente sacrificada às demandas de eficiência absoluta, nem aos esforços de um máximo bem estar material".

Neste contexto, ele toma cuidado particular em distinguir a democracia anglo-saxã da continental, pois a primeira é dirigida desde cima e retém o caráter de uma "república aristocrática", enquanto a outra tende à democracia de massas, que leva ao totalitarismo. Ele também nos lembra que:

"...algumas das melhores mentes na Europa (e na América) foram assombradas pelo medo de que houvesse forças, princípios e tendências na democracia que eram, ou por sua própria natureza ou, pelo menos, em suas potencialidades dialéticas, inimiga de muitos ideais humanos básicos - a liberdade sendo um deles".

Os principais defeitos da democracia derivam de suas preocupações materialistas, assim sua produção em massa, militarismo, nacionalismo étnico, racialismo e todas as tendências "simplificadoras" que tendem a uma uniformidade ou igualdade, o que ele chama de "identitarismo". Ele cita a observação de Lorde Acton de que "Liberdade é a palavra de ordem da classe média, igualdade da baixa". Isso, porém, é diferente de sua própria observação em A Ameaça do Rebanho de que "Liberdade é o ideal da aristocracia, tal como igualdade é para a burguesia e fraternidade para o campesinato". De fato, se igualdade fosse a demanda primeira das classes baixas como Lorde Acton havia sugerido, o nivelamento que Kuehnelt-Leddihn aponta claramente não se deve a eles, mas sim às elites que as organiza como "massas e homens que são 'similares e iguais', atraídos por prazeres pequenos e vulgares". Sua citação de Alexis de Tocqueville em Liberdade ou Igualdade, de fato torna isso claro:

"...acima dessa raça de homens está um poder imenso e tutelar, que toma com osua atribuição garantir suas gratificações, e vigiar seu destino. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e manso. Seria como a autoridade de um parente, se, como essa autoridade, seu objeto fosse preparar os homens para a maturidade; mas ele busca, ao contrário, mantê-los em perpétua infância: ele está contente em que as pessoas se regozijem, desde que eles não pensem em nada além de gozo. Para sua felicidade tal governo voluntariamente trabalha, mas ele escolhe ser o único agente e árbitro dessa felicidade: ele provê sua segurança, prevê e abastece suas necessidades, facilita seus prazeres, administra suas principais preocupações, dirige sua indústria, regula a herança de propriedade, e subdivida suas heranças - o que resta além de poupá-los todos do cuidado de pensar e do trabalho de viver?".

Vemos a partir desta descrição do funcionamento da democracia que o esta é uma caricatura maternalista do ideal político paternalista que veremos é proposto por Evola. Mesmo que Kuehnelt-Leddihn não culpe, como Evola, a burguesia por este nivelamento forçado das classes mais baixas, ele faz notar que a produção em massa capitalista e o militarismo nacionalista são criações dos capitalistas burgueses, ao invés do proletariado.

Podemos notar também que ele considera o nacionalismo racial como uma forma de "proletarização", onde nações inteiras são elevadas a um status pseudo-aristocrático. No entanto, pode ser inferido a partir de sua própria discussão sobre as diferentes atitudes em relação ao nacionalismo e racismo entre católicos e protestantes (veja abaixo) que esse nacionalismo e racismo não são tanto as características das classes mais baixas como daqueles que exploram o sistema democrático, que devem ser principalmente as classes médias capitalistas.

Em geral, Kuehnelt-Leddihn não acentua as revoluções perigosas da burguesia em Estados monárquicos ou aristocráticas nem seu efeito pernicioso sobre as classes mais baixas, pelas quais ele tem pouca simpatia. Ele também não relaciona claramente os judeus na sociedade europeia com as transformações de monarquias para democracias e sociedades coletivistas pelas quais países europeus tem passado na história recente, ainda que ele apressadamente sugira as raízes do materialismo e no obscurantismo no Velho Testamento que marcam as democracias protestantes. Sua principal preocupação é a defesa da liberdade individual e social, ele estuda a transformação gradual de governos democráticos em tiranias. Se nos Estados democráticos ditadores reais não surgem em cena, o totalitarismo se manifesta, no entanto, no aparato burocrático do Estado, que atende às necessidades de bem-estar social das classes mais baixas. Aqui, novamente, ele é, na superfície, pelo menos, mais indulgente para com as classes médias já que ele não observa que uma burocracia estatal benevolente pode atender às verdadeiras necessidades das pessoas ao mesmo tempo em que ela também pode interferir nas ambições financeiras das classes médias.

No desenvolvimento da democracia em uma tirania totalitária Kuehnelt-Leddihn corretamente nota o papel crucial desempenhado pelo protestantismo. Diferente de Evola, que não discute a natureza ou perigos do protestantismo em sua crítica do catolicismo moderno, Kuehnelt-Leddihn coloca a culpa pela degeneração democrática no protestantismo. Ele nota que, ideologicamente, as democracias dependem de princípios relativistas que são eles próprios característicos de movimentos protestantes:

"...relativismo, que o pensador e lógico claros rejeitam, desempenha um enorme papel no reino político e espiritual da democracia. Nós deixamos para o psicólogo determinar as implicações femininas de tal relativismo. Mas o relativismo e a aptidão para se comprometer caminham juntos, e uma recusa absoluta de compromenter fundamentais (um traço católico, ao invés de protestante) logo traria a maquinaria democrática à paralisia".

Enquanto católicos são irredutíveis em relação a dogma, protestantes são mais subjetivos em sua abordagem de questões doutrinárias. Católicos são consequentemente mais convictos de seus princípios e não veem o latitudinarianismo com bons olhos. Como ele nota,

"...o dogma católico, exceto por um 'aumento em volume', permaneceu imutável, e os comentários em cima dele tem variado apenas dentro de certos limites. O protestantismo, por outro lado, está em constante processo de evolução. Enquanto a fé dos católicos pode ser exposta ao processo de 'diminuição da fé', a dos protestantes também está sujeita ao 'estreitamento da fé'."

Assim a chave para o real entendimento das culturas católicas do continente europeu e das Américas do Sul e Central é, para o protestante bem como para o católico das ilhas britânicas e da América do Norte, um entendimento e apreciação dos valores culturais, artísticos e intelectuais do humanismo, do renascimento e do barroco.

A insistência protestante de que a "religião é uma questão privada" está completamente oposta à preocupação da Igreja com a "totalidade da cultura humana", a própria cultura sendo distinguida da civilização, que cuida meramente dos confortos materiais da humanidade:

"Porém, enquanto a civilização é basicamente falta de fricção, suavidade, conforto e diversão material, nós temos que olhar para o Cristianismo tradicional - com sua oposição violenta à eutanásia, ao aborto, à contracepção, ao pacifismo, ao individualismo - com osendo algo 'desconfortável'."

Protestantismo e calvinismo também possuem uma tendência vetero-testamentária para tomar o sucesso terreno como sinal de favor divino, o que está ausente em nações católicas, "onde o pediente é um membro 'útil' da sociedade e o comercialismo não é muito apreciado".

Protestantes temerosos de fragmentação social naturalmente tendem ao menor denominador comum que marca sistemas coletivistas. Católicos, por outro lado, são mais pessoalmente desenvolvidos do que protestantes, que através de sua tendência de comprometer, solidariedade, cooperação, vizinhança, tendem a ser mais conformistas que católicos, e mesmo mais preconceituosos. De fato, uma das características distintivas da própria democracia - para Kuehnelt-Leddihn bem como para Evola - é que ela é "anti-personalista" e "coletivista" e sua tendência de exercer "pressão horizontal" resulta em sistemas totalitários.

Não é surpreendente, assim, que "Calvino estabeleceu em Genebra o primeiro Estado policial verdadeiramente totalitário na Europa". A Revolução Francesa também era de inspiração protestante:

"Também é óbvio que a substância ideológica da Revolução Francesa é quase em sua totalidade o produto da dialética protestante. Ainda que haja alguns elementos cartesianos e jansenistas menores na filosofia política de 89 e 92, os principais impulsos vieram da América, da Grã-Bretanha, da Holanda e da Suíça".

É por isso também que, como Kuehnelt-Leddihn nos lembra, "o Conde Keyserling chama a América de socialista em um sentido mais profundo e chega à conclusão de que 'a maioria dos americanos quer obedecer como nenhum soldado já o quis'."

Os católicos, por contraste, são antidemocráticos por natureza:

"é virtualmente certo que as nações católicas, com seu amor por liberdade pessoal, seu pessimismo terreno, seu orgulho e ceticismo, jamais em seus corações aceitem a democracia parlamentar".

Os países católicos privados da monarquia tendem ao burocratismo, à anarquia ou a ditaduras partidocráticas, mais do que à democracia:

"Nós devemos nos perguntar se nos casos mais extremos, quando temperamento violento é combinado com total incompatibilidade ideológica (Espanha, Portugal, Grécia, América do Sul), um governo de cima com base burocrática não é a única salvaguarda contra a alternativa da anarquia e da ditadura partidocrática".

O catolicismo é essencialmente paternalista e hierárquico, qualidades que Evola também prescreve para seu Estado conservador orgânico. Católicos favorecem patriarcas, mas não policiais, eles podem até mesmo ser frequentemente anarquistas e militar contra o Estado. Enquanto a uniformidade dos partidos políticos dominantes nos países protestantes facilita o nacionalismo, bem como o totalitarismo, os católicos não são nacionalistas populares nem favorecer a centralização, mas sim o federalismo. Kuehnelt-Leddihn dá o exemplo do federalista alemão Constantin Frantz (1817-1891) que se opunha a regimes totalitários centralizados e ele nos lembra que os prussianos também não eram pan-germanistas, mas sim dinásticos.

A solução política para os problemas inerentes do governo democrático que é proposta por Kuehnelt-Leddihn é uma monarquia hereditária com órgãos locais de autogoverno. Ao contrário de ditadores, monarcas são restritos pela lei cristã e aqui a doutrina da imperfeição humana, ou "pecado original" serve como uma influência moderadora nas monarquias, assim como em democracias. A monarquia, como o catolicismo, é paternalista e não "fraternal". A razão da superioridade de tal regime paternalista, típico também de ordens católicas, é que obriga o governante a ser mais responsável do que os líderes democraticamente eleitos são. Monarquias não são oligárquicas, plutocráticas ou propensas à corrupção já que o dinheiro não governa o Estado como nas democracias. Além disso, o monarca não só representa a responsabilidade política mas também promove "grandes" estadistas dentro de seu governo possuído de um compromisso comparável aos deveres de um Estado. A monarquia é também mais eficiente com sua burocracia do que uma democracia é e mais capaz de realizar grandes empreendimentos.

Monarcas são na maioria dos casos biologicamente superiores e e o governo hereditário constitui uma regra orgânica que é contrária ao governo partidário variável. Eles são treinados para governar desde a infância e tem uma educação moral e espiritual para o seu ofício. Ao mesmo tempo, eles têm um maior respeito pelos súditos e protegem as minorias, uma vez que não dependem de nenhum apoio da maioria. Monarquias também tendem a ser internacionalmente e etnicamente mistos servindo assim como uma força unificadora.


Como democracias dependem do que o historiador socialista judeu Harold Laski chamou de um "quadro comum de referência" ou consenso, há, de fato, menos a liberdade de expressão em democracias do que nos Estados monárquicos. Isto é particularmente verdadeiro de Estados católicos que são marcados por diferentes níveis de iluminismo e, assim, não caem na armadilha do utopismo protestante. O catolicismo não acredita que todos são capazes da mesma educação e compreensão, pois é constantemente consciente da noção de imperfeição humana ou "pecado original". A liberalidade da Igreja Católica em geral surge da generosidade e não do raciocínio relativista que forçosamente reconcilia os opostos.

Infelizmente as liberdades maiores desfrutadas em monarquias católicas tradicionais foram limitadas por em tempos recentes por regimes protestantes. Mas Kuehnelt-Leddihn nos lembra que apenas 13% da população do continente europeu é seguidora de credos protestantes. E deve-se ter em mente que "os países da Europa continental todos precisam de uma missão, uma finalidade última, um objetivo metafísico, que mesmo eleições, exportações ampliadas, mais calorias e melhor tratamento odontológico não vão tornar desnecessário".

É de vital importância, portanto, que deve-se "buscar ajudar o continente europeu a encontrar sua própria alma". Após a discussão de Kuehnelt-Leddihn sobre monarquismo e catolicismo e sua oposição natural ao republicanismo e ao protestantismo, devemos assumir que o que é necessário é uma restauração, na medida do possível, do sistema monárquico católico. "Só assim pode o continente esperar se tornar de novo o que costumava ser, uma terra livre e real".

***

As posições políticas do aristocrata siciliano Julius Evola (1898-1974) tem sido razoavelmente obscurecidas por seus interesses em sistemas esotéricos como o hermetismo, o budismo zen e o yoga. As pessoas tem uma noção geral de que ele era um simpatizante tanto do movimento fascista italiano quanto do nacional-socialista alemão, mas uma leitura mais atenta de suas obras tardias, especialmente sua principal obra política O Homem e As Ruínas revelará que ele era mais próximo da ideologia fascista, especialmente como representada pelo filósofo Giovanni Gentile do que dos pensadores racialistas do Reich nacional-socialista como Alfred Rosenberg ou Walther Darré.

Mais forçosamente do que Kuehnelt-Leddihn, Evola identifica a burguesia como a fonte dos problemas do mundo moderno, já que eles são os principais representantes das doutrinas do liberalismo baseadas na primazia do indivíduo. O liberalismo é uma filosofia materialista e utilitarista na medida em que toma em consideração apenas as necessidades materiais dos indivíduos que constituem a sociedade. Suas falsas campanhas de liberdade são desmentidas pelo fato de que o capitalismo explorador é um resultado natural do materialismo burguês:

"O ponto de virada foi o advento de uma visão da vida que, ao invés de manter as necessidades humanas dentro de limites naturais em vistas do que realmente vale a pena buscar, adotou como seu mais elevado ideal uma elevação artificial e multiplicação das necessidades humanas e dos meios necessários de satisfazê-las, em total desconsideração pela crescente escravidão que isso constituiria inexoravelmente para o indivíduo e para a coletividade".

O individualismo fomentado pelo liberalismo resulta em um atomismo e fragmentação da sociedade que é então combatido por formas de totalitarismo que são igualmente inadequadas em suas preocupações meramente quantitativas e econômicas. O totalitarismo é, segundo Evola, ordem imposta de cima sobre um povo sem forma. Marx estava realmente certo ao atacar as burguesias, mas errou seriamente ao forçar o proletariado a servir como pedra de fundação de uma sociedade utópica caracterizada por uniformidade estéril:

"O totalitarismo, para poder se afirmar, impõe uniformidade. Em última análise, o totalitarismo se apoia e depende do mundo inorgânico da quantidade ao qual a desintegração individualista levou, e não do mundo da qualidade e da personalidade".

Assim, o totalitarismo destroi todos os vestígios de desenvolvimento orgânico que os Estados burgueses anteriores possam ter mantido de seu passado aristocrático:

"O totalitarismo, apesar de reagir contra o individualismo e o atomismo social, traz um fim definitivo à devastação do que pode ainda sobreviver em uma sociedade da fase 'orgânica' anterior: qualidade, formas articuladas, castas e classes, valores de personalidade, liberdade autência, ousadia e iniciativa responsável, e feitos heroicos".

A exaltação do "trabalhador" em sistemas socialistas, bem como coletivistas, é também uma universalização da natureza essencialmente servil do pensamento econômico liberalista. A solução para os problemas inerentes em qualquer ordenamento burguês da sociedade consiste no desenvolvimento da personalidade, ao invés do individualismo entre o povo. Entre nações, também, autarquia deveria ser encorajada, ao invés do internacionalismo do comércio global:

"É melhor renunciar à atração de melhorar as condições econômicas e sociais gerais e adotar um regime de austeridade do que se tornar escravo de interesses estrangeiros ou ser capturado em processos mundiais de hegemonia econômica e produtividade inconsequentes que estão destinados a varrer aqueles que os iniciaram".

O controle necessário da economia só pode ser realizado pelo Estado. Os conflitos de classe nos quais Marx focou deveriam ser corrigidos por um sistema corporativo ou um sistema de estamentos como na Idade Média:

"O espírito fundamental do corporativismo era o de uma comunidade de trabalho e solidariedade produtiva, baseada nos princípios da competência, qualificação e hierarquia natural, com o sistema em geral caracterizado por um estilo de impessoalidade ativa, desprendimento e dignidade".

De importância primeira no sistema corporativo da história europeia é o fato de que "a usura de 'bens líquidos', o equivalente do que hoje é o emprego bancário e financeiro de capital, era considerada um negócio judaico, longe de afetar todo o sistema".

Em outras palavras, a usura judaica foi, se utilizada por Estados, sempre considerada como um elemento de párias da sociedade europeia. A solução da Evola à injustiça social do capitalismo focava na eliminação dos capitalistas parasitas e na desproletarianização dos trabalhadores:

"as condições básicas para o restabelecimento das condições normais são, por um lado, a desproletarianização do trabalhador e, por outro lado, a eliminação do pior tipo de capitalista, que é um receptor parasitário de lucros e dividendos e que permanece alheio ao processo produtivo".

Ao contrário de Marx, que procurou transformar o proletariado em proprietários e diretores de empresas, Evola afirma que a erradicação adequada dos males do capitalismo deve começar com a redução da motivação desenfreada por lucro das empresas e seus diretores por parte do Estado. Todas as empresas, portanto, devem, em geral, ser responsáveis perante o Estado. Todas as questões econômicas nacionais devem ser tratadas na Câmara Baixa dos parlamentos enquanto a Câmara Alta deve ser o único representante da vida política da nação. O último corpo não pode ser um eleito, mas deve ser nomeado - e para a vida. Na verdade, esta Câmara Alta deve agir como o que Evola chama de elite governante ou "Ordem" de uma nação.


Evola imagina esta Ordem em termos guerreiros e a subordinação da classe mercantil para a guerreira é uma característica essencial de sua doutrina política. Naturalmente, os guerreiros não são os mesmos que os soldados, que são apenas funcionários militares pagos. Guerreiros são governados por conceitos de honra e lealdade para com a nação, tais como foram encontrados recentemente nos escalões militares prussianos. O Estado é de fato um fenômeno essencialmente político-social masculino, em contraste com a sociedade, que é principalmente feminina. O núcleo do Estado será formado por Männerbunde ou elites dominantes do sexo masculino:

"A razão para a posição exclusiva de homens governantes em um Estado é que toda verdadeira unidade política aparece como a encarnação de uma idéia e um poder, distinguindo-se, portanto, de toda forma de associação naturalista ou 'direito natural', e também de toda a agregação social determinada por meros fatores sociais, econômicos, biológicos, utilitários, ou eudemonísticos".

Este poder é em suas origens sagrado, como foi por exemplo no conceito de imperium no Império Romano pois ele expressa uma ordem transcendente, um conceito que será familiar para os alunos do filósofo fascista, Giovanni Gentile.

Democracia e socialismo sinalizam uma mudança perigosa do governo do Estado masculino para o da sociedade feminina e do demos. Um Estado não é uma "nação" tampouco, já que uma nação é tipicamente uma mátria (motherland), mesmo que ocasionalmente seja chamada de pátria (fatherland) em alguns países. Os romanos, francos, bem como os árabes que espalharam o Islã foram todos constituídos de Männerbunde em primeiro lugar, e só quando eles degeneraram em democracias eles se tornam "nações".


Uma vez que qualquer revolução conservadora precisa restaurar a primazia do ethos guerreiro ela deve começar por se opor ao mercantil da burguesia:

"a idéia 'conservadora' a ser defendida deve não só não ter ligação com a classe que substituiu a aristocracia caída e exclusivamente tem o caráter de uma mera classe econômica (isto é, a burguesia capitalista), mas ele também deve ser resolutamente oposta a ela. O que precisa ser "preservado" e defendido de uma "forma revolucionária" é a visão geral da vida e do Estado que, baseando-se em valores e interesses superiores, definitivamente transcende o plano econômico e, portanto, tudo o que pode ser definido em termos das classes econômicas".

Isso também demandaria a formação de uma nova elite ou Ordem:

"A tarefa essencial que temos pela frente requer formular uma doutrina adequada, a defesa de princípios que têm sido exaustivamente estudados, e, a partir destes, dar nascimento a uma Ordem. Essa elite, diferenciando-se em um plano que é definido em termos de virilidade espiritual, determinação, e impessoalidade, e onde toda obrigação naturalista perde seu poder e valor, vai ser a portadora de um novo princípio de uma autoridade superior e soberania; ele será capaz de denunciar a subversão e a demagogia em qualquer forma que elas aparecem e reverter a espiral descendente dos quadros de nível superior e a ascensão irresistível do poder das massas. A partir desta elite, como se de uma semente, um organismo político e uma nação integrada vão surgir, apreciando a mesma dignidade que as nações criadas pela grande tradição política europeia. Qualquer coisa menos do que isso representa apenas um atoleiro, diletantismo, irrealismo, e obliquidade".

Desconsiderando as normas de um Estado socialista o Estado conservador orgânico deve ser um "heróico" que não é baseado no núcleo familiar, mas nas Männerbunde que produzem os líderes do Estado. Estes homens, que até mesmo renunciariam a uma vida familiar para uma dedicação à tarefa de governar:

"Na medida em que um movimento conservador-revolucionário está em causa, existe uma necessidade para os homens de estarem livres  destes sentimentos burgueses. Estes homens, através da adoção de uma atitude de compromisso militante e absoluto, devem estar pronto para qualquer coisa e quase sentir que a criação de uma família é uma 'traição'; esses homens deveriam viver livres de impedimentos, sem quaisquer laços ou limites à sua liberdade. No passado, havia ordens seculares onde o celibato era a regra...o ideal de uma 'sociedade guerreira', obviamente, não pode ser o o ideal pequeno-burguês e paroquial de "casa e crianças"; pelo contrário, eu acredito que, no domínio pessoal o direito a um amplo grau de liberdade sexual para estes homens deve ser reconhecido, contra o moralismo, o conformismo social e 'heroísmo de chinelos'."

Não há perigo de extinção da linha de governantes ainda que eles sigam uma vida celibatária já que "o exemplo daquelas ordens religiosas de vários séculos que abraçavam o celibato sugere que uma continuidade pode ser garantida com meios outros que a procriação física. Além daqueles que devem estar disponíveis como tropas-de-choque, seria certamente auspicioso formar um segundo grupo que garantiria a continuidade hereditária de uma elite escolhida e protegida, como a contraparte da transmissão de uma tradição político-espiritual e cosmovisão: a antiga nobreza era um exemplo disso".

O Estado conservador orgânico estará baseado não em indivíduos, mas em pessoas, cuja razão de ser é sua personalidade e seu desenvolvimento superior. Essa realização da personalidade de um indivíduo é equivalente a sua liberdade. A pessoa "livre" é de fato livre dos clamores de sua natureza inferior e demanda um autodomínio completo. A pessoa mais altamente desenvolvida ou diferenciada é a pessoa ou líder absoluto:

"A 'pessoa absoluta' é obviamente o oposto do indivíduo. A unidade atômica, desqualificada, socializada ou padronizada a qual o indivíduo corresponde é oposta na pessoa absoluta pela síntese atual das possibilidades fundamentais e pelo controle pleno dos poderes inerentes na ideia de homem (no caso limitador), ou de um homem de uma dada raça (em um domínio mais relativo, especializado e histórico): isto é, por uma extrema individuação que corresponde a uma desindividualização e a certa universalização dos tipos correspondentes a ele. Assim, esta é a disposição necessária para incorporar a autoridade pura, assumir o símbolo e o poder da soberania, oua forma de cima, nomeadamente o imperium".

Assim, diferentemente de Kuehnelt-Leddihn que defendia a monarquia hereditária, Evola parece favorecer um ditador esclarecido ou alguém que pertença a uma nova ordem aristocrática de homens. O Estado formado por esta elite não será apenas orgânico, mas também hierárquico e firmemente baseado no princípio de autoridade. De fato, este princípio é o núcleo de qualquer Estado orgânico, que deve necessariamente crescer a partir de um centro definido:

"Um Estado é orgânico quando possui um centro, e este centro é uma ideia que molda os vários domínios da vida de maneira eficaz; é orgânico quando ignora a divisão e autonomização do particular e quando, por virtude de um sistema de participação hierárquica, cada parte dentro de sua relativa autonomia realiza sua própria função e desfruta de uma conexão íntima com o todo. Em um Estado orgânico podemos falar de um 'todo', nomeadamente algo integral e espiritualmente unitário que articula e se desdobra, mais do que de uma soma de elementos dentro de um agregado, caracterizado por um conflito desordeiro de interesses. Os Estados que se desenvolveram nas áreas geográficas das grandes civilizações (fossem eles impérios, monarquias, repúblicas aristocráticas, ou cidades-Estado) em seu ápice eram quase sem exceção desse tipo. Uma ideia central, um símbolo de soberania com um princípio de autoridade positivo correspondente era sua fundação e força animadora".

A base de toda autoridade é ela própria uma qualidade "transcendente", como Gentile também insistiu:

"Inversamente, a visão orgânica pressupõe algo 'transcendente' ou 'de cima' como base de autoridade e comando, sem o que automaticamente não haveria conexões imateriais e substanciais das partes com o centro; nenhuma ordem interior de liberdades singulares; nenhuma imanência de uma lei geral que guia e sustenta pessoas sem coerção; e nenhuma disposição supraindividual do particular, sem o que cada descentralização e articulação eventualmente representaria um perigo para a unidade de todo o sistema".

Apenas um Estado orgânico pode absorver todas as múltiplas diferenças e conflitos que podem existir dentro de um Estado:

"Mesmo contrastes e antíteses tiveram sua parte na economia do todo; como eles não tinham o caráter de peças desordenadas, eles não questionam a unidade supra-ordenada do organismo, mas agia como um fator dinâmico e vivificante. Mesmo a 'oposição' do sistema parlamentar britânico dos primórdios foi capaz de refletir um significado semelhante (ela foi chamado de 'oposição mais leal de Sua Majestade'), embora ela tenha desaparecido mais tarde no regime parlamentar partidarista". 

O nacionalismo também deve ser evitado, se for do tipo populista, em vez de um baseado no conceito de uma nação espiritual:

"No primeiro caso, o nacionalismo tem uma função niveladora e anti-aristocrática; é como o prelúdio de um nivelamento mais amplo, cujo denominador comum não é mais a nação, mas sim o Internacional. No segundo caso, a idéia da nação pode servir como base para uma nova recuperação e uma importante primeira reação contra a dissolução internacionalista; ela defende um princípio de diferenciação que ainda precisa ser mais bem realizado em direção a uma articulação e hierarquia dentro de cada pessoas". 

Sua visão de uma Europa regenerada é uma de um império sagrado orgânico, ou imperium, centrado não "nos conceitos de pátria e nação (ou grupo étnico)", que "pertencem a um plano essencialmente naturalista ou 'física'", mas sobre "uma sensação de ordem superior, qualitativamente muito diferente do sentimento nacionalista enraizado em outros estratos do ser humano":

"O esquema de um império em um sentido verdadeiro e orgânico (que deve ser claramente distinguido de cada imperialismo, um fenômeno que deve ser considerado como uma extensão deplorável do nacionalismo) foi exibido anteriormente no mundo medieval europeu, que salvaguardava os princípios tanto de unidade como de multiplicidade. Neste mundo, os Estados individuais têm o caráter de unidades orgânicas parciais, gravitando em torno de um unum quod non est pars (um que não faz parte, para usar a expressão de Dante) - ou seja, um princípio de unidade, autoridade e soberania de um natureza diferente daquela que é própria de cada Estado em particular. Mas o princípio do Império pode ter uma tal dignidade única, transcendendo a esfera política, no sentido estrito, fundador e legitimando-se com uma idéia, uma tradição, e um poder que é também espiritual". 

Os principais obstáculos para a formação de uma nova Europa são a hegemonia americana cultural, o jugo de um governo democrático, e "a profunda crise do princípio da autoridade e da idéia do Estado". Mas mesmo que a tarefa de unificar a Europa possa ser formidável ela deve ser tentada, com o planejamento e organização realizada de cima para baixo, pelas novas "Ordens" de elite das várias nações que a constituem.

No que respeita às fundações religiosas de um Estado ou Império, Evola é notavelmente pessimista em sua estimativa do poder do catolicismo de fornecê-las já que ele a considera excessivamente comprometida hoje com um caminho democrático liberal que privou-a da sua força política tradicional. Na verdade, ele considera o movimento anti-guibelino ou guelfo da Idade Média como a própria fonte da secularização do Estado moderno. Assim seria melhor "viajar de forma autônoma, abandonando a Igreja a seu destino, considerando sua incapacidade real para conceder uma consagração oficial a uma verdadeira, grande, tradicional e super-tradicional direita".

Apesar de seu tratamento insensível da Igreja Católica e seu potencial como uma base religiosa para um Estado conservador, Evola examina em maior detalhe os efeitos subversivos de outra seita internacional, o Judaísmo, cujas ambições políticas foram expostas nos chamados Protocolos de Sábios de Sião (1903), que, mesmo que não sejam baseados em fatos, representariam uma representação literária dos objetivos totalitários dos judeus. Como Evola explica:

"O único ponto importante e essencial é o seguinte: este texto é parte de um grupo de textos que, de várias maneiras (mais ou menos fantástica e às vezes até mesmo fictícia) expressaram a sensação de que o transtorno dos últimos tempos não é acidental, uma vez que corresponde a um plano, as fases e instrumentos fundamentais dos quais são descritos com precisão nos protocolos".

O principal mal do projeto dos judeus internacionais é a sua completa economização da vida moderna:

"A economização da vida, especialmente no contexto de uma indústria que se desenvolve em detrimento da agricultura, e uma riqueza que é concentrada sobre o capital líquido e finanças, procede de um projeto secreto. A falange dos modernos 'economistas' seguiu este projeto, assim como aqueles que espalham uma literatura desmoralizante atacam valores espirituais e éticos e desprezam todo princípio de autoridade". 

Não só foi o marxismo uma ferramenta útil dos judeus, mas também as doutrinas filosóficas e biológicas que promoveram o ateísmo como a biologia evolucionista de Darwin e o niilismo de Nietzsche. Os judeus empregam diversas táticas de subversão, recorrendo a falsificar doutrinas do chamado "tradicionalismo" e "neo-espiritualismo":

"O conteúdo deste 'tradicionalismo' consiste de hábitos, rotinas, resíduos sobreviventes e vestígios do que já foi, sem uma compreensão real do mundo espiritual e do que neles não é meramente factual, mas tem um caráter de valor perene".

O efeito sobre o indivíduo destes vários movimentos subversivos é para "remover o suporte de valores espirituais e tradicionais da personalidade humana, sabendo que quando isso é feito, não é difícil transformar o homem num instrumento passivo das forças e influências diretas da frente secreta".

A maneira mais eficaz de combater a subversão do judaísmo internacional ou do sionismo é para os novos guerreiros aprender a operar no plano metafísico, mantendo uma "lealdade incondicional a uma idéia", uma vez que é "a única protecção possível da guerra oculta; onde essa lealdade é insuficiente e onde os objetivos contingentes de 'política real' são obedecidos, a frente de resistência já está comprometida". Como ele adverte aqueles que desejam empreender uma revolução conservadora ou contra-revolução, "nenhum lutador ou líder na frente de contra-subversão e da Tradição pode ser considerado maduro e apto para suas tarefas antes de desenvolver a faculdade de perceber este mundo de causas subterrâneas, para que ele possa enfrentar o inimigo na base adequada. Devemos lembrar o mito dos Sábios dos Protocolos: em comparação com eles, homens que vêem apenas 'fatos' são como animais irracionais. Há pouca esperança de que algo pode ser salvo quando entre os líderes de um novo movimento não há homens capazes de integrar a luta material com um conhecimento secreto e inexorável, que não está a serviço de forças obscuras, mas fica em vez do lado do princípio luminoso da espiritualidade tradicional".

Vemos, portanto, que, ao contrário Kuehnelt-Leddihn, Evola centra-se na burguesia como a principal fonte da degeneração democrática da Europa moderna, assim como sua discussão sobre as dimensões "ocultas" da subversão continuada ajuda a concentrar-se no judaísmo internacional como os principais agentes da subversão que devem ser combatidos em uma contra-revolução. Infelizmente Evola não coloca muita esperança em uma monarquia hereditária ou no catolicismo como as bases gêmeas de sociedade europeia tradicional, mas sim procura construir uma nova ordem de cavaleiros que trará fortes líderes esclarecidos para os Estados europeus.


A falta de entusiasmo para o catolicismo na discussão de Evola do Estado é, contudo, corrigida pela análise perceptiva de Kuehnelt-Leddihn da diferença entre catolicismo e protestantismo. Em forte contraste com a atitude negativa de Evola à Igreja moderna, o relato de Kuehnelt-Leddihn da história política coloca uma ênfase acentuada na religião estabelecida, e, especialmente, sobre o catolicismo, em sua formulação do Estado conservador. Qualquer tentativa contemporânea de voltar a Europa à sua singular vitalidade pré-democrática pode, portanto, ter que começar não apenas das advertências de Evola sobre os perigos da burguesia mercantil e da guerra clandestina dos judeus contra as tradições aristocráticas europeias, mas também a partir das revelações de Kuehnelt-Leddihn dos efeitos deletérios que o relativista e materialista temperamento do protestantismo teve na sociedade europeia moderna.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Aleksandr Dugin - Iniciantes Absolutos

por Aleksandr Dugin



1 - David Bowie, o Iniciado

David Bowie é conhecido como músico e ator; poucas pessoas sabem que ele é membro de uma organização iniciática que adere aos princípios do "Caminho da Mão Esquerda" e à "Thelema". Portanto, não é surpreendente que suas canções, vídeos e designs estéticos possuem uma dimensão oculta.

Sua canção "Absolute Beginners" (Iniciantes Absolutos) - é um exemplo típico desse tipo de mensagem em múltiplos níveis onde a estética emocional e psicológica externa oculta um núcleo esotérico secreto.

2 - Falsificação

"Absolute Beginner" - literalmente "iniciante absoluto" - uma frase que contem dentro de si uma contradição lógica completa. O que é absoluto não "inicia", porque algo verdadeiramente absoluto não possui início ou fim, não surge ou desaparece. E inversamente, o que tem um início essencialmente não é absoluto, mas relativo. É uma questão filosófica.

Há já uma controvérsia em um nível puramente quotidiano: uma tentativa de "recomeçar" por parte de nossos contemporâneos, seu protesto fraco e inexpressivo contra sua própria degeneração, envelhecimento, estonteamento, contra o pano-de-fundo de uma civilização que rapidamente vai se congelando, onde ninguém se opõe ou tenta se opôr à entropia, é algo extremamente questionável. As crianças, como Hesíodo predisse, já nascem hoje com cachos acinzentados e desde o berço almejam lavar carros e abrir contas bancárias. Todos os sinais do fim da Idade do Ferro. Que "novo início" há aqui? Um absoluto também.

O próprio Bowie, apesar de sua inteligência e talento, dificilmente poderia afirmar ser seriamente uma alternativa. Ele fascina exatamente como um decadente, como aprofundado em uma perversão narcisista perturbadora, como um esquisitão melancólico anglossaxão, mas certamente não como um heroi ou portador do "novo". Não há nele qualquer "absoluto" ou "início", mas sim o odor exótico da decomposição da carne, envolvida em bugigangas globalistas.

Iniciante Absoluto é um conceito tomado por David Bowie do arsenal de doutrinas gnósticas. Ele inspirou uma boa canção e um clip estranho.

3 - Doutrina da Estrela

Iniciante Absoluto, aquilo que não é e não pode ser, é porém o eixo do proibido, o conhecimento heroico que é partilhado por meio de uma corrente secreta. Através da imagem estática banal da metafísica, no fundo do relativo mutável, no topo do constante absoluto, a vontade paradoxal especial de certos devotos verão no risco para a mente e para a vida uma perspectiva excitante. Há algo que corta através do dualismo lógico e religioso - há um Início Eterno, um raio misterioso que está "fechado" de um lado e "aberto" no outro. Nesse raio todas as grandes proporções e o encontro dos três mundos perdem seu significado. Cima e baixo se invertem, o incrível e impossível casamento do céu e do inferno ocorre, sobre o qual escreveu o gênio Blake.

A isso se dá o nome de "Doutrina da Estrela".

Os seguidores "thelemitas" do francês Rabelais e do inglês Crowley (nomeadamente deles Bowie tomou emprestado o conceito da música, ele próprio sendo membro da OTO) acreditam que "todo homem e toda mulher é uma estrela". A personificação da finitude e da relatividade, um claro perdedor tipológica, termina sua história repleto da vulgaridade do Banco Mundial e do Mercado Global, imitação biológica aberta do ser angélico puro e orgulhoso - o homem da outra mão ("thelêmica"), carregando dentro de si uma "estrela", um raio de gelo. Através da confusão miserável de sua pequena e frágil alma pulsa uma luz estranha, impossível, estonteante.

É a luz de um Início Absoluto, aquele que não pode ser.

4 - Raios Negros

O solo foge sob os pés. Os valores tradicionais se degeneram e se profanizam de tal forma que não há mais como confrontar o apático niilismo. Conservadorismo e progresso, as duas faces do mesmo processo de degeneração. De uma outrora vibrante história restam a fome, a luxúria e a polícia. Todos os sinais indicam que estamos muito longe do Início. Seja velho ou novo. A paixão está completamente exaurida.

O que tem em mente, os "thelemitas", cujas ideias perturbadoras estão longe do otimismo "new age" e dos teósofos aposentados, quando eles dizem que cada uma das "estrelas" possui a possibilidade paradoxal de "um novo início"? É claro que essa não é qualquer "iluminação" vulgar, "descoberta da verdade", etc. Olhe para esses "convertidos" de todas as religiões e cultos, um olhar amedrontado, lampejos de uma feliz estupidez, gestos estranhos, corpos claramente doentios por dentro... eles se afastam, sibilando e em convulsões, sem conquistar nada.

O raio negro da estrela thelêmica desliza por uma trajetória diferente. Ela não está fixa a partir de fora, ela não é apreendida por ferramentas familiares. Ela deliberadamente assusta e repele, disfarçando-se (provocativamente) em trajes antinômicos. Ela rapidamente abandona aquele que quer enquadrar a inspiração intitiva transfiguradora em um sistema. Ela não pode ser institucionalizada. Mas ela sempre e absolutamente tremeluz em seu ritmo aeônico contra a vontade dos ciclos e da massa concentrada das eras sombrias. Ela própria escolhe formas e corpos para se manifestar, buscar por ela é inútil, sua escolha é arbitrária e espontânea, não depende de méritos, virtudes ou feitos, é indiferente a "perspectiva moral" e avanços em exercícios de respiração. Início Absoluto sem sexo, idade, ocupação, posição. Rasgando como uma navalha o véu da tola pilha de átomos, um despertar cristalino.

5 - Alternativa Traída

A questão é, de fato, central. Sem futuro, não é apenas uma tese grotesca cativante de movimento juvenil, que agora já perdeu completamente o fôlego. A tese do "fim da humanidade", desenvolvida por Francis Fukuyama, na verdade é o mesmo, apenas tomado em uma nota otimista. A exaustão é a principal descoberta da pós-modernidade. O triunfo da simulação, a alegria doentia. Predadores maliciosos da mentira eletrônica estupram tanto a realidade que acabarão sua manipulação social na campanha de máquinas insanas. No fim, toda a literatura fantástica do século XIX se tornou lugar-comum técnico no século XX, o mesmo podemos esperar do século XXI. Especialmente quando consideramos que a maioria dos principais escritores de ficção científica (de Jules Verne a Lovecraft) foram membros de poderosas organizações esotéricas ativamente envolvidas em dar a aparência já posta à civilização.

Nenhum dos escritores de ficção científica e futuristas prevê um "Novo Começo". As previsões são terríveis, quanto mais distante o futuro é, mais horrível ele parece. E o homem se apressa no narcisimo não-salvífico, sob a colcha de fórmulas claramente espúrias e consoladoras. Enquanto isso, abutres coloridos pairam sobre o colapso dos banqueiros e da TV. Encantadores de corpos. Acreditar em mitos televisivos é se tornar um idiota, não acreditar é ficar louco de solidão (todos ao seu redor acreditam). No star in sight, nenhuma estrela à vista.

O sistema soviético reagiu de forma muito indiferente e tosca à tentativa desesperada da "nova esquerda" de oferecer uma ideologia alternativa à ordem burguesa, por meio de uma modernização (e revisão) das doutrinas anticapitalistas tradicionais. Preguiçosos apparatchiks ignoraram as tentativas desesperadas de inconformistas de irromper com um projeto positivo. Já então, percebendo a derrota inevitável do sistema soviético, a "nova esquerda" se voltou para o esoterismo, para o gnosticismo, as outras disciplinas (não-ortodoxas para esquerdistas).

A "Nova Direita" se desenvolveu em uma trajetória similar, tendo rejeitado o chauvinismo, a xenofobia e a orientação mercadológica da "velha direita" e descobrindo para si os valores da revolução e do socialismo. Mas os partidocratas soviéticos (futuros "democratas" ou "comunistas do PCFR") acusaram o "novo", tanto da direita como da esquerda, de "niilismo", enquanto eles próprios rapidamente afundavam o país em pântanos de "reformas" e traições nacionais. Novamente, como milhares de vezes na história, os verdadeiros niilistas acusaram de niilismo os que buscavam superar o niilismo.

O resultado foi triste. Sem a ajuda de Moscou, "novatos" inteligentes e honestos, porém impotentes, foram esmagados pelo Sistema. Debord cometeu suicídio, Foucault e Deleuze morreram no obscurantismo. Os outros se degeneraram em "policiais do pensamento" (Bernard Henri Levy, Glucksmann, Habermas e outros vermes). Sem o doloroso espírito da revolta flamejante, a própria Moscou escorregou para os braços do Governo Mundial.

Em tudo, sem qualquer Início, qualquer sugestão, qualquer chance. Na melhor das hipóteses, pessimistas inteligentes esperam que o desastre iminente será suave, como uma eutanásia. O que, em princípio, todos os "democratas" e "patriotas" tem contra o "homem unidimensional" de Marcuse? Como "os muitos" no início do "Zaratustra" de Nietzsche ansiando pelo "último homem", todos os setores de nossa sociedade colocariam o "homem unidimensional" no comando da "coalização governamental".

E as músicas de Bowie seriam ouvidas por ex-jovens (agora já na casa dos trinta), bebericando Heineken.

6 - Fim da Ilusão

Sem Alternativa, sem Novo Início. Nada fora (tudo ao redor é falso). Nada dentro (as forças da alma foram esfriadas). Não obstante, as vinhas da ira estão maturando e as redes de conspiração estão se tecendo, uma conspiração global contra esse presente odioso.

É uma conspiração da Estrela. Em qualquer idade, em qualquer lugar, em qualquer estado, em qualquer momento, em qualquer situação, em qualquer posição, "todo homem e toda mulher" pode começar, pode abrir o Início Absoluto, ser perfurado pelo Raio Negro, sem fim, passando pelos ciclos e eras em oposição a toda lógica, toda predisposição externa, todo sistema causal. Qualquer impulso vital, qualquer busca apaixonada, qualquer estado estridente pode subitamente transbordar, se tornado excessivo, desenfreado. Ganância e generosidade, ascetismo e devassidão, ciúme e lealdade, raiva e ternura, doença e saciedade, podem se tornar um Início Absoluto, um terrível acorde trovejante de uma Nova Revolução, uno e indivisível, direita e esquerda, exterior e interior.

Só é imperativo não permitir que após o ápice venha uma nova recessão. A intensidade só deve se elevar, após o clímax deve vir um clímax ainda maior, o superaquecimento das individualidades deve incendiar o mundo exterior com o fogo da rebelião, rebelião que é (segundo Sartre) o único poder capaz de salvar o homem da solidão.

O Início Absoluto é independente da objetividade, porque ele não tem noções de "cedo" ou "tarde", "aqui" e "lá". Melhor ainda se não houver "nada a oferecer, nada a tomar".

O fim do ciclo é, no fim das contas, o fim de uma ilusão, como disse Guénon.

A canção de Bowie acomapnha a leitura do "Livro da Lei" (Liber Al vel Legis), o amargor do absinto, que Crowley chamava de única substância iniciática entre as bebidas alcoólicas ("Deusa Verde"), um rebote inesperado de ero-comatismo, fanatismo belo e doloriso da célula política extremista, sombra acidentalmente caída, como uma Cruz Celta.

O Início Absoluto está à distância de uma mão (esquerda).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Gustavo Aguiar - O Capitalismo como Regime Significante do Signo sob o Viés Esquizoanalítico

por Gustavo Aguiar



“Este gênio encerrado em seu calabouço infame,
Este grito, este esgar, espectros cujo enxame
Sempre aos ouvidos seus, rebeldes turbilhona,

Homem sempre a sonhar que o horror não abandona,
Eis teu emblema, alma de frêmitos obscuros,
Que o Real asfixia em seus quatro muros!”

- Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal)

Volta e meia somos assaltados por sentenças estarrecedoras que pintam o capitalismo industrial como um “mal necessário”, algo de que não podemos fugir sem que parcela significativa da nossa existência seja pulverizada, despedaçada, e, por maior que seja a vontade de nos rebelarmos contra a tirania do deus-mercado, ela é sempre apaziguada pelo despotismo da mais-valia existencial. Até que ponto vale a pena trabalhar para a manutenção desse estado de coisas? O quão baixo nós, sedentários, pessoas presas ao solo, ao território de origem, precisaremos descer na escala da irreflexão para que nos sintamos suficientemente tiranizados pelos parasitas integrantes daquilo que Bauman oportunamente denominou elite móvel extraterritorializada? Vale a pena se “nomadizar” ao sabor de interesses puramente materialistas? Esses interesses serão em algum momento satisfeitos, ou será que a tirania do capital especulativo foi convenientemente arquitetada para nos catapultar em direção ao horizonte inalcançável do eterno devir?

Procuraremos as respostas para essa saraivada de indagações nos três principais condutores semióticos da esquizoanálise deleuzo-guattariana, quais sejam: 1) o que descreve, em linhas gerais, a dinâmica de funcionamento do regime significante do signo, em cujo contexto inseriremos o capitalismo industrial, evidenciando de que modo ele consegue se impor despoticamente sobre a polivocidade semiológica dos demais regimes significantes, e em que medida ele depende do “supliciado” (classes subprivilegiadas) para se auto-perpetuar mediante a assiduidade cúltica dos “sacerdotes” (burgueses, pequeno-burgueses e lumpemproletariado). 2) o que descreve a dinâmica de funcionamento da mecanosfera ou rizosfera a partir de um conjunto de máquinas abstratas e agenciamentos maquínicos que desempenham, respectiva e sucessivamente, as funções diagramática e maquínica, dois componentes essenciais da pragmática esquizoanalítica. 3) o que descreve o núcleo autopoietico dos agenciamentos coletivos como vetor matricial do procedimento heterogenético de multiplicação de subjetividades, e como isso prescreve um paradigma ético-estético infinitamente superior ao tecno-cientificismo, fonte de legitimidade do primado do grande Capital em prejuízo ao primado da criatividade.  

Gilles Deleuze e Félix Guattari não são o que poderíamos chamar de filósofos na estrita acepção do termo, até mesmo porque a filosofia, tendo se convertido em um ramo dentre outros no tronco da burocracia acadêmica (à qual Guattari, um autodidata, nunca chegou a pertencer), perdeu, há muito, seu caráter transdisciplinar. O núcleo da proposta contida em obras como Mille plateux: Capitalisme et schizophrénie e Caosmose: um novo paradigma estético consiste justamente em resgatar esse sentido de transdisciplinaridade, fornecendo um diagnóstico passível de ser aplicado em várias disciplinas, e não somente à psiquiatria, de onde ela se originou. Em Mille plateux, Guattari, em parceria com Deleuze, constrói um verdadeiro aparato conceitual que viria, mais tarde, a confluir para a fundamentação de Caosmose, sua obra-prima. Passaremos, doravante, a percorrer as páginas de ambos os escritos com o intuito de deles extrair o que for relevante para os fins da presente investigação.

Antes de explicar porque identificamos o sistema capitalista como um regime significante do signo, impende sublinhar os aspectos gerais do significante, buscando extrair deles uma definição compacta. Nos dizeres de Deleuze e Guattari:

“O regime significante do signo é definido por oito aspectos ou princípios: 1) o signo remete sempre ao signo, infinitamente (o ilimitado da significância, que desterritorializa o signo); 2) o signo é levado pelo signo e não cessa de voltar (a circularidade do signo desterritorializado); 3) o signo salta de um círculo ao outro, e não cessa de deslocar o centro ao mesmo tempo que se relacionar com ele (a metáfora ou histeria dos signos); 4) a expansão dos círculos é sempre assegurada por interpretações que fornecem o significado e fornecem novamente significante (a interpretose do sacerdote); 5) o conjunto infinito dos signos remete a um significante maior que se apresenta igualmente como falta e como excesso (o significante despótico, limite de desterritorialização do sistema); 6) a forma do significante tem uma substância, ou o significante tem um corpo que é Rosto (princípio dos traços de rostidade, que constitui uma reterritorialização); 7) a linha de fuga do sistema é afetada por um valor negativo, condenada como aquilo que excede à potência de desterritorialização do regime significante (princípio do bode emissário); 8) é um regime de trapaça universal, ao mesmo tempo nos saltos, nos círculos regrados, nos regulamentos das interpretações do adivinho, na publicidade do centro rostificado, no tratamento da linha de fuga”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, pgs. 56 e 57) 

Ao contrário do que se poderia imaginar, o capitalismo não constitui um centro de poder positivo de onde emanam outros centros, nem um princípio econômico em torno do qual os demais regimes significantes deveriam gravitar ; é ele produto significante de phylum (fluxos) maquínicos, tanto quanto sua antítese, a economia planificada. A diferença entre ambos é que o grande Capital, como regime de significante do signo que remete sempre ao signo em uma espécie de procedimentalidade tautológica obstaculiza pré-linguisticamente a possibilidade dos códigos emitidos pelos demais regimes percorrerem a totalidade dos estratos (platôs) que compõem a rizosfera. É que, uma vez emitidos (desterritorializados ou descodificados), os códigos passam pelo crivo de uma série de aparelhos ou máquinas incumbidas de promoverem sua recodificação. Contudo, o capitalismo industrial parece possuir a tendência de inibir a virtualidade dos phylum transportadores de codificações heterogêneas. Nas palavras de Félix Guattari, “a escolha do Capital, do significante, do Ser, participa de uma mesma opção ético-política. O Capital esmaga sob sua bota todos os outros modos de valorização. O significante faz calar as virtudes infinitas das línguas menores e das expressões parciais. O Ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos Universos de valor que, entretanto,proliferam sob os nossos olhos. Existe uma escolha ética em favor da riqueza do possível, uma ética e uma política do virtual que descorporifica, desterritorializa a contingência, a causalidade linear, peso dos estados de coisas e das significações que nos assediam”. (GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 41) 

Podemos nos reportar à metáfora do bode emissário para abstrair os contornos operacionais dessa hegemonia capitalística sobre os demais Universos de referência nos seguintes termos: O totem de um regime significante do signo que, como vimos, remete infinitamente a si mesmo, é representado, em seu momentum de reterritorialização interpretativa, por “traços de rostidade”, haja vista que “o rosto é o ícone próprio ao regime significante, a reterritorialização interior ao sistema. O significante se reterritorializa no rosto. É o rosto que dá a substância do significante, é ele que faz interpretar, e que muda, que muda de traços, quando a interpretação fornece novamente significante à sua substância. Veja, ele mudou de rosto. O significante é sempre rostificado”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, p. 54) A multiplicidade de rostos que o deus-déspota (regime significante) arrogou, a priori, a si mesmo, se revela através da “interpretose” do sacerdote. O sacerdote manipula a imagem de deus conforme lhe é conveniente por meio de sua atividade interpretativa. Tal nos permite enxergar o burguês, o pequeno burguês e o lumpemproletariado como sacerdotes par excellence em uma sociedade capitalista altamente globalizada, em que essas três classes, nomadizadas, desterritorializadas, se fundem em uma única e mesma elite móvel, hegemônica e ciberespacial. O deus-déspota possui, ainda, um contra-corpo, representado pela figura do supliciado (classes subprivilegiadas), de cujo sacrifício o significante se retroalimenta autopoieticamente. O supliciado é, em última instância, “(...) aquele que perde seu rosto, e que entra em um devir-animal, um devir molecular cujas cinzas espalhamos ao vento. Mas diríamos que o supliciado não é absolutamente o termo último; é, ao contrário, o primeiro passo antes da exclusão”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, p. 55) A exclusão propriamente dita é encarnada pela figura do bode emissário, aquele que, transpondo a linha de fuga do signo significante, excede o grau máximo de desterritorialização suportado pelo deus-déspota, de maneira ainda mais arrojada do que seu contra-corpo seviciado, reprimido e martirizado. “Ele [o supliciado] se suplicia, fura seus olhos, depois vai embora. O rito, o devir-animal do bode emissário mostra-o bem: um primeiro bode expiatório é sacrificado, mas um segundo bode é expulso, enviado para o deserto árido. No regime significante, o bode emissário representa uma nova forma de aumento da entropia para o sistema dos signos: está carregado de tudo o que é ‘ruim’, em um dado período, isto é, de tudo o que resistiu aos signos significantes, de tudo o que escapou às remissões de signo a signo através dos círculos diferentes; assume igualmente tudo aquilo que não soube recarregar o significante em seu centro, leva consigo tudo o que transpõe o círculo mais exterior. Encarna, enfim, e sobretudo, a linha de fuga que o regime significante não pode suportar, isto é, uma desterritorialização absoluta que esse regime deve bloquear ou que só pode determinar de forma negativa, justamente porque excede o grau de desterritorialização, por mais forte que este já seja, do signo significante (...) Vocês nunca terão escolha senão entre o eu do bode e o rosto de deus, os feiticeiros e os sacerdotes”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo eesquizofrenia, vol. 2, pgs, 55 e 56)

Em uma sociedade de produção, a figura do bode emissário poderia muito bem servir para designar os anseios revolucionários em provocar uma espécie de ruptura com o sistema dominante, a fuga dos domínios hermenêuticos dos sacerdotes e feiticeiros. Contudo, a globalização, consoante aduz Zygmunt Bauman em Globalização: As consequências humanas, marcou o período de transição para o paradigma da sociedade de consumo, na qual o consumidor “(...) é uma criatura acentuadamente diferente dos consumidores de quaisquer outras sociedades até aqui. Se os nossos ancestrais filósofos, poetas e pregadores morais refletiram se o homem trabalha para viver ou vive para trabalhar, o dilema sobre o qual mais se cogita hoje em dia é se é necessário consumir para viver ou se o homem vive para poder consumir. Isto é, se ainda somos capazes e sentimos a necessidade de distinguir aquele que vive daquele que consome”. (BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As consequências humanas, pgs. 88 e 89) Em outras palavras: a sedentarização das classes subprivilegiadas, ou a execução do bode sacrificado no ritual macabro dos sacerdotes, vai de encontro ao seu anverso: a elite consumidora que, justamente para eternizar a tirania espacio-temporal do deus-déspota, o destinatário de seus tributos, precisa estar em constante mobilidade, criando sempre novos itinerários na medida em que haure os velhos. Desnecessário acrescentar que as chances dos despossuídos reivindicarem sua emancipação no contexto de um paradigma social tipologicamente consumidor se tornam praticamente nulas, o que transformaria o bode emissário em uma representação aérea, flutuante, destituída de sujeito especificado. Acontece que não estamos em busca de um sujeito, mas de um método capaz de oferecer uma fuga do sistema sem que seja necessário aboli-lo. Antes de apontar este método, vejamos como funciona o processo que acabamos de descrever metaforicamente, e através de quais máquinas ele se torna efetivamente operacionalizável. As informações de que dispomos até o presente momento dizem respeito à desterritorialização e reterritorialização dos códigos enquanto estruturas linguisticamente comunicáveis do significante do signo, e que a fórmula geral do regime significante é, conforme síntese de Deleuze e Guattari: “o signo remete ao signo, e remete tão somente ao signo, infinitamente”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, p. 50) Mas de onde sai o signo antes de percorrer todo esse trajeto e pelo crivo de qual ordenação ele passa antes de se reterritorializar, de adquirir uma nova compleição ou rostidade? É o que, doravante, procuraremos responder.

Deleuze e Guattari denominam mecanosfera (ou rizosfera) o agregado de agenciamentos maquínicos, que, por sua vez, efetuam máquinas abstratas. São basicamente essas duas estruturas encarregadas de transportar (fazer circular) o conteúdo enunciativo de um estrato ao outro, razão pela qual se localizam em uma dimensão interestrática, de descodificação, de tal sorte que “os signos não constituem apenas uma rede infinita, a rede dos signos é infinitamente circular. O enunciado sobrevive ao seu objeto: o nome, a seu dono. Seja passando para outros signos, seja posto em reserva por um certo tempo, o signo sobrevive a seu estado de coisas como a seu significado, salta como um animal ou como um morto para retomar seu lugar na cadeia e investir um novo estado, um novo significado do qual é extraído mais uma vez”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, p. 52) Denomina-se “plano de consistência” (ou planômeno) a estrutura produtora de continuums de intensidade que irá regenciar os phylum desterritorializantes. E aqui já podemos vislumbrar a quais critérios estariam submetidas as funções diagramática e maquínica, levadas a cabo, respectivamente, pelas máquinas abstratas e pelos agenciamentos coletivos de enunciação. “A máquina abstrata ora se desenvolve no plano de consistência cujos contínuos, emissões e conjugações constrói, ora permanece envolvida num estrato do qual ela define a unidade de composição e a força de atração ou preensão. O agenciamento maquínico é completamente diferente, se bem que em estreita relação: primeiro ele opera as co-adaptações de conteúdo e expressão num estrato, assegura as correlações biunívocas entre segmentos de ambos, pilota as divisões do estrato em epistratos e paraestratos; depois, de um estrato ao outro, assegura a relação com o que é subestrato e as correspondentes mudanças de organização; finalmente, ele é voltado para o plano de consistência porque efetua necessariamente a máquina abstrata em tal ou qual estrato, entre os estratos e na relação destes com o plano. Era preciso um agenciamento, por exemplo a bigorna do ferreiro mencionada pelos Dogons, para que se fizessem as articulações do estrato orgânico.  É preciso um agenciamento para que se faça a relação entre dois estratos. Para que os organismos se vejam presos e penetrados num campo social que os utilize: as Amazonas não têm que cortar um seio para que o estrato orgânico se adapte a um estrato tecnológico guerreiro, por exigência de um terrível agenciamento mulher-arco-estepe?” (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia,vol. 1, p. 87)

Toda essa performance, eivada de uma certa complexidade funcional, ocorre na superfície de estratos que não pertencem a níveis ou instâncias diferentes de singularização, e sim a um mesmo terreno, a uma mesma base ou plataforma, é dizer: a um mesmo plano de consistência incumbido de converter signos e partículas (partigos, na terminologia deleuzo-guattariana) em compostos orgânicos que viriam a formar os contornos semânticos do Ecúmeno, o outro lado da “lagosta”, no qual não nos aprofundaremos por fugir às latitudes do objeto em tela. Todo esse percurso virtual define o módulo de organização do fractal, do capitalismo como regime significante do signo, que, consoante verificamos, sempre sobrevive ao seu significado. É como se o signo passasse “por cima” do significado durante esse procedimento. Em Caosmose, Guattari chega à conclusão de que os agenciamentos maquínicos não só podem funcionar como de fato funcionam como agenciamentos coletivos, aplicáveis, em igual medida, a paradigmas sociais, e é nesta conjuntura sócio-econômica que o capitalismo logra dinamizar-se e hiperxomplexificar-se, até alcançar a hegemonia absoluta, tornando-se um regime semiótico autossuficiente. Importante frisar que a semiótica significante funciona paralelamente a outras espécies de regimes semióticos, que podem ser: semiótica pré-significante, semiótica pós-significante e semiótica contra-significante.

Resta ainda esmiuçar, neste segundo ponto, as funções diagramática e maquínica, executadas pelas máquinas abstratas e pelos agenciamentos maquínicos. Deleuze e Guattari se reportam a Noam Chomsky para postular os quatro componentes funcionais essenciais da pragmática esquizoanalítica, quais sejam, nesta ordem de ocorrência: componente gerativo, componente transformacional, componente diagramático e componente maquínico. “O conjunto da pragmática consistiria em fazer o decalque das semióticas mistas no componente gerativo; fazer o mapa transformacional dos regimes, com suas possibilidades de tradução e de criação, de germinação nos decalques; fazer o diagrama das máquinas abstratas colocadas em jogo em cada caso, como potencialidades ou como surgimentos efetivos; fazer o programa dos agenciamentos que ventilam o conjunto e fazem circular o movimento, com suas alternativas, seus saltos e mutações”. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, p. 91)

O componente gerativo é típico da correlação de semióticas híbridas, concretamente articuladas sob a forma de proposição ou enunciação, cujo conteúdo depende topograficamente do regime no bojo do qual será veiculada (significante, pré-significante, pós-significante ou contra-significante). Um mesmo enunciado pode obter conotações e denotações completamente diferentes em diferentes regimes de subjetivação. O componente transformacional, típico das semióticas puras, realiza o translado de um enunciado para outros regimes semiológicos, possibilitando, em contrapartida, que um determinado regime absorva elementos suscetíveis de tradução no que couber. O componente diagramático, apontado por Deleuze e Guattari como o estudo das máquinas abstratas sob a perspectiva das matérias física e semioticamente “não formadas” secreta potências linguisticamente mirabolantes, pertencentes “(...) tanto [a] regimes muito rebuscados, metafóricos e imbecilizantes, quanto [a] gritos-sopros, improvisações ardentes, devires-animais, devires-moleculares, transsexualidades reais, continuums de intensidade, constituições de corpos sem órgãos...” (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 2, pgs. 91 e 92) E, por último, temos o componente maquínico, levado a cabo por agenciamentos que efetuam as máquinas abstratas; que organiza, concatena ou semiotiza o conteúdo abstratamente veiculado. É o agenciamento que planifica os estratos, que os fazem corresponder ao plano de consistência.

Procederemos agora a uma última distinção antes de explicar como o capitalismo garante sua hegemonia industrial sobre os demais regimes semióticos, ditos “inferiores”. Félix Guattari toma de empréstimo do biólogo Francisco Varela duas expressões que serão empregadas no contexto maquínico (não-biológico) para evidenciar as mutações das subjetividades produzidas no seio do organismo que acabamos de descrever. São elas: alopoiese e autopoiese, e podem ser apreendidas nos seguintes termos:

“Francisco Varela caracteriza uma máquina como o ‘conjunto das inter-relações de seus componentes independentemente de seus próprios componentes’ (...) Ele distingue dois tipos de máquinas: as ‘alopoiéticas’, que produzem algo diferente delas mesmas, e as “autopoiéticas”, que engendram e especificam continuamente sua própria organização e seus próprios limites. Estas últimas realizam um processo incessante de substituição de seus componentes porque estão submetidas a perturbações externas que devem constantemente compensar. De fato, a qualificação de autopoiética é reservada por Varela ao domínio biológico; dela são excluídos os sistemas sociais, as máquinas técnicas, os sistemas cristalinos etc. – tal é o sentido de sua distinção entre alopoiese e autopoiese. Mas a autopoiese, que define unicamente entidades autônomas, individualizadas, unitárias e escapando às relações de input e output, carece das características essenciais aos organismos vivos, como o fato de que nascem, morrem e sobrevivem através de phylum genéticos”. (GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 50)

A constatação de que a autopoiese carece dos atributos imprescindíveis para a caracterização dos organismos biológicos levou Guattari a relacioná-la aos agenciamentos maquínicos sob um viés simultaneamente ontogenético e filogenético próprio “de uma mecanosfera que se superpõe à biosfera”. (GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 50) Para Guattari, o núcleo maquínico do agenciamento coletivo (que, como analisamos, efetua ou semiotiza a máquina abstrata) é, a princípio, um núcleo autopoiético. Em seara filogenética, as máquinas se proliferam historicamente mediante rizoma; elas se auto-reproduzem evolutivamente em várias direções através de vetores ou paradigmas sociais distintos. É assim que estruturas relativamente simples, como, por exemplo, o brinquedo de uma criança do império chinês, desencadeiam o auge da produção de máquinas a vapor nos países da Europa setentrional. Neste ponto, basta lembrarmos do efeito borbololeta desenvolvido pela teoria do caos, segundo o qual o bater de asas de uma borboleta pode interferir no curso natural dos acontecimentos, e, quiçá, provocar um furação no outro lado do mundo. “É no cruzamento de universos maquínicos heterogêneos, de dimensões diferentes, de textura ontológica estranha, com inovações radicais, sinais de maquinismos ancestrais outrora esquecidos e depois reativados, que se singulariza o movimento da história. A máquina neolítica associa, entre outros componentes, a máquina da língua falada, as máquinas de pedra talhada, as máquinas agrárias fundadas na seleção dos grãos e uma protoeconomia aldeã...” (GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 51)

Todavia, a dimensão ontogenética nos revelará que a protomáquina não evolui em ritmo programado, ela não faz rizoma de si mesma observando um padrão de desdobramento sincrônico, mas uma dispersividade “heterocrônica”, motivo pelo qual ela às vezes se perde no curso de seu encadeamento rizomático, no desabrochar de sua metamorfose, ou nos ecos de sua orquestra polifônica. “Essas virtualidades diagramáticas fazem-nos sair da caracterização da autopoiese maquínica por Varela em termos de individuação unitária, sem input nem output, e nos levam a enfatizar um maquinismo mais coletivo, sem unidade delimitada e cuja autonomia se adapta a diversos suportes de alteridade. A reprodutibilidade da máquina técnica, diferentemente da dos seres vivos, não repousa em sequências de codificação perfeitamente circunscritas em um genoma territorializado. Cada máquina tecnológica tem seus planos de concepção e de montagem mas, por um lado, estes mantém sua distância em relação a ela e, por outro lado, são remetidos de uma máquina a outra, de modo a constituir um rizoma diagramático que tende a cobrir globalmente a mecanosfera”. (GUATTARI, Féliz. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 53)  

O núcleo autopoiético das máquinas industriais na conjuntura de uma sociedade globalizada, a partir de cuja inter-relação heterocrônica com complexos maquínicos estruturalmente diferenciados ela consegue se impor despoticamente sobre eles, obstaculiza o potencial criativo de regimes de subjetividade não condizentes com seus imperativos de rostificação ou reterritorialização. É como se o capitalismo tivesse o “poder” de congestionar os poros do esquizo que se-lhe afiguram, de uma forma ou de outra, desfavoráveis, por onde escapam as ramificações ou derivações do rizoma, subordinando o funcionamento da mecanosfera ao seu alvitre. A oferenda do primeiro bode realizada pelos sacerdotes (é dizer, a sedentarização, o confinamento espacial dos despossuídos pelas classes abastadas) confere cada vez mais mobilidade e poder de locomoção à elite consumidora. O ziguezaguear dos agentes itinerantes detentores desse privilégio aquisitivo perfaz a hegemonia do significante (o deus-déspota), que já não precisa mais se alimentar de sacrifícios de bodes. Ele agora metaboliza velocidade, deslocamento, mobilidade ao mesmo tempo em que procura desesperadamente barrar, ou, pelo menos, limitar ao máximo, o alcance da linha de fuga do segundo bode, o bode emissário.

O deus-déspota, como já sabemos, é o capitalismo. Mas quem seria o bode emissário? Ora, o próprio núcleo autopoiético do agenciamento maquínico, encarregado de fazer proliferar oscilações nos continuums de intensidade, radicularizando universos de referência movediços que se traduzirão em subjetivações heterogenéticas. Ele estava tão perto de nós que não podíamos enxergá-lo, mas agora que estamos familiarizados com ele, podemos não só enxergá-lo como também sentir a realidade que partilhamos sendo engolida pela virtualidade do eterno devir autopoieticamente engendrada; sentimos a propulsão do impulso criativo sendo buscada fora do regime significante. Mas esse núcleo autopoiético deve ser encarado sob condições diversas das estabelecidas pelo cientificismo, que apresenta a biosfera como o grau máximo de desterritorialização do significante do signo, olvidando que além dela existe um horizonte virtual de infinitas possibilidades que se estende até a mecanosfera, fonte de todo o devir-criativo; afinal, é a virtualidade que atrai a estrutura da realidade para perto de si, e não o contrário. Nos dizeres de Guattari:

“A autopoiese maquínica se afirma como um para-si não humano através de focos de protossubjetivação parcial e desdobra um para-outrem sob a dupla modalidade de uma alteridade ecossistêmica “horizontal” (os sistemas maquínicos se posicionando como rizoma de dependência recíproca) e de um alteridade filogenética (situando cada estase maquínica atual de encontro a uma passadificada e de um Phylum de mutações por vir). Todos os sistemas de valor – religiosos, estéticos, científicos, ecosóficos... – se instauram nessa interface maquínica entre o atual necessário e o virtual possibilista. Os Universos de valor constituem assim os enunciadores incorporais de compleições maquínicas abstratas compossíveis às realidades discursivas. A consistência desses focos de protossubjetivação, portanto, só é assegurada na medida em que eles se encarnem, com mais ou menos intensidade, em nós de finitude, de grasping caósmico, que garantam, além disso, sua recarga possível de complexidade processual. Dupla enunciação, então, territorializada finita e incorporal infinita”. (GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 66)

Depreende-se, portanto, que a tirania do capital especulativo se retroalimenta a partir da emissão de imperativos de mobilização a serem recepcionados por uma elite nômade extraterritorializada, em flagrante supressão de outros sistemas ou universos de valor, de outros focos produtores de subjetividade que se originam na teia caósmica da heterogênese. Ao reivindicar a hegemonia global sobre os demais regimes semiológicos, o capitalismo industrial deixa transparecer sua tendência inibitória, despótica e anti-criativa, esmagando sob sua bota quaisquer meios e modos de expressão que não contribuam, direta ou indiretamente, para o agigantamento de seu influxo totalitário, para a limitação ou enquadramento da virtualidade, responsável pelo desdobramento das cadeias rizomáticas, pela fabricação genuína de ramificações tuberculares.  Para além da mecânica diagramático-maquínica das máquinas abstratas e dos agenciamentos coletivos de enunciação, para além do continente assombrado do deus-déspota, a mecanosfera prolonga-se ao infinito, fornecendo continuamente possibilidades heumenêuticas mais complexas do que a interpretação realizada pelos sacerdotes e feiticeiros em proveito do único deus que conhecem: o deus-mercado. A caosmose surge como um paradigma ético-estético de superação ao tecno-cientificismo homogeneizante. 

REFERÊNCIAS:

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As consequências Humanas. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1999.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. editora 34: São Paulo, 1995

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia, vol 2. editora 34: São Paulo, 1995.

GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. Editora 34: São Paulo 2012.