quinta-feira, 28 de abril de 2016

Francisco Albanese - O Perigo Subjacente na Islamofobia

por Francisco Albanese



Certo setor do identitarismo europeu mais próximo ao liberalismo clássico se esforça em demonstrar constantemente que não é islamófobo (em resposta às acusações dos setores muçulmanos, progressitas e outros derivados de esquerda), luta inútil, entendendo que, desde seu olhar, o ser humano é livre para pensar o que quiser. Não obstante, sua islamofobia é sim evidente, o que aumenta o perigo da autodestruição cultural. Não há que se desculpar, mas sim ficar consciente dos perigos que existem em se deixar levar pelas reações alérgicas.

Pessoalmente, não poderia me considerar um islamófobo. Islamófobo seria se eu desejasse que se realizasse uma cruzada global contra o Islã para fazê-lo desaparecer, como alguns sonham e até exigem. Eu sou algo muito mais discreto: para mim, não é nenhum inconveniente que o Islã prolifere, junto a suas regras arcaicas, em países fora da órbita europeia e das zonas brancas da América. Como não creio que a civilização ocidental seja algo global, comum e de qualquer um (porque não sou nem universalista, nem igualitarista), tampouco aspiro a que todos os seres humanos neste planeta se amparem em nosso modo de ver o mundo. Se outros países decidem adotar o Islã, realmente não é meu problema, nem de nenhum dos que aqui se congregam. Se outros creem que um sistema medieval lhes cai bem para ordenar seus assuntos, suponho que estejam em seu direito de fazer sua vontade, mesmo que isso signifique esconder o rosto de suas mulheres e não poder consumir certos alimentos.

Nutro antipatia pelo Islã, considero desagradável sua presença dentro de nossas fronteiras, da mesma maneira que nutro antipatia por outros credos e religiões estrangeiras, que não foram pensadas nem por europeus, nem para europeus. Não obstante, não poderia manifestar minha antipatia por uma religião ao mesmo tempo que faço vista grossa a outros fatores negativos que são mais importantes e significativos que a presença ou ausência do Islã.

A islamofobia é reacionária e, de modo geral, a reação nunca ataca o problema, mas as suas consequências. Neste caso, o problema real seria o influxo de credos não-europeus no solo europeu e também ua adoção por parte de europeus (sem esquecer aos europeus com confissões não-europeias no interior das fronteiras da Europa), onde a entrada e presença do Islã seria a consequência do anterior. O problema do influxo está intimamente relacionado com um fator altamente perigoso, o qual é invisibilizado pela islamofobia, que ataca somente à manifestação visível e cultural: pensar que o Islã é o problema e que retirando o Islã da equação se acaba o conflito, é ignorar o fato de que o Islã não surgiu por geração espontânea, mas que é fruto de uma evolução de séculos de um grupo em particular. Na medicina, isso seria m erro (falso negativo), já que, logo após um diagnóstico, ao não se detectar a presença do Islã, se presume que o problema já se acabou.

O Islã não se originou ao azar, mas em um determinado ponto do globo, das mãos de um povo específico. Esta manifestação cultural é semelhante à relação do fenótipo com o genótipo: o primeiro é uma manifestação do segundo, posto que do total de genes que porta um organismo, alguns desses se expressam no que podemos ver (a aparência). Compreendendo isso, devemos compreender também que o mesmo material genético-étnico que produziu o Islã (e todos os seus derivados) pode produzir algo semelhante.

Um partidário da política de portas abertas pode perfeitamente ser islamofóbico pois, para ele, só é prioritário que o ser humano mude seu código de conduta e se adapte aos cânones europeus. Se o indivíduo deixa o Islã para trás, é recebido com os braços abertos pelos partidários dessas políticas, sendo ativistas e promotores, então, da Grande Substituição: sendo igualitaristas, não lhes importa se o povo que deu origem a tais cânones desaparece enquanto ditos cânones se mantenham, algo ainda mais perigoso que a entrada de "refugiados" com odiosas condutas não-europeias. Um "refugiado" que não abandone suas condutas originais provocará rechaço dentro da população europeia nativa, desincentivando assim a mistura com essas populações imigrantes. Não obstante, se estes "refugiados" abandonam suas condutas e adotam valores europeus, ocidentais e primeiro-mundistas, as massas inconscientes dos danos derivados do suicídio étnico e da substituição da população nativa ficam desprotegidas devido a que não se consegue detectar nenhum indicador que torne evidente as diferenças entre as populações imigrantes e as populações nativas.

Tal como uma alergia, deve-se atacar o influxo de agentes alérgenos, pois ainda que se acalmem estes agentes, não existe a garantia de que as brotoejas vão desaparecer pra sempre. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Jafe Arnoldski - Tragédia & Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte II)

por Jafe Arnoldski



Uma Reconsideração Heurística do Marxismo e da Modernidade na Eurásia


Na introdução a esta série, nós apresentamos e fornecemos algumas afirmações cursórias sobre o tópico geral de nossa investigação. Nós chamamos atenção para a aplicação problemática da tese de Marx sobre a "poesia do passado" (como apresentada no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte) e a confusão dominante sobre a relação entre a superestrutura (ideologia, a "poesia") e a base (forças classistas objetivas) que se manifesta quando marxistas analisam e tentam identificar a trajetória de movimentos sociopolíticos, particularmente dos que são sincréticos na era moderna e pós-moderna, que geralmente desafiam estereótipos estéticos normativos, apresentando "pistas" superestruturais aparentemente "heterodoxas" e talvez "contraditórias", estas por causa do precedente falho disposto por Marx em contradição a seu próprio esquema, confunde marxistas em suas análises e não raro os leva a categorizações errôneas de movimentos ou Estados "progressistas" como "reacionários".


Nesta fase, nós nos aprofundaremos nos sustentáculos teóricos do marxismo enquanto ideologia da modernidade, com o objetivo de descobrir os paradoxos que subjazem o precedente estabelecido por Marx no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. Nós vamos prosseguir, então, apresentando os contornos gerais junto aos quais nosso estudo se desdobrará conforme examinamos o marxismo através de suas próprias lentes, reconsideraremos sua percepção de movimentos sociopolíticos heterodoxos e as implicações práticas e teóricas aí, e traçar a trajetória da hermenêutica paradoxal do marxismo na direção de uma ideologia política sincrética.

Marxismo, o Século XX e a Quarta Teoria Política


Há muito tempo já se tornou claro que a Primeira Teoria Política (1TP), o liberalismo, emergiu do século XX como a ideologia vitoriosa da modernidade. Este fato inevitável e suas implicações práticas tem sido analisados por um número de estudiosos em uma ampla variedade de campos. As outras duas principais teorias sociopolíticas, marxismo (com seus vários derivados) e fascismo (com suas várias correntes), foram postas uma contra a outra, demonizadas a partir de todas as direções, e sofreram derrotas decisivas em esferas cruciais em diferentes épocas pelo massivo complexo militar, ideológico e político-econômico da 1TP, que desde os anos 90 se tornou a norma aterradora para amplas faixas da população mundial. Agora, porém, conforme este "Fim da História" vai se revelando cada vez mais insustentável, intolerável e indesejável, atenção crescente vai se dando para as várias ideologias antiliberais da modernidade, com um olho para resgatar e analisar criticamente seus elementos nominais, bem como os antiliberais e antimodernos paradoxais.




Esta, por exemplo, é parte da obra em desenvolvimento da Quarta Teoria Política, que busca dissecar a 2TP e a 3TP, remover seus núcleos hermenêuticos derivados da modernidade, e assim absorver criticamente aquelas entre suas teses que possam ser mensuradas contra as realidades de criticar o liberalismo e a pós-modernidade sem arrastar a bagagem de seus preconceitos modernistas. Esta também é parte do po projeto de sincretismo político que busca reconsiderar os ritmos de coincidência entre as três teorias sociopolíticas da modernidade, sintetizar um novo entendimento dessas ideologias políticas, e empregar criticamente análises antiliberais para o fim de informar a nascente 4TP.



De particular interesse para nós no contexto e esquema de tal projeto é o marxismo. O marxismo foi a única das três ideologias políticas primárias da modernidade que desenvolve uma estrutura ideológica ampla e sistemática que se prestou para analisar de forma habilidosa uma gama bastante ampla de fenômenos. Em comparação com o obscurantismo dos jingoísmos do liberalismo e com alguns dos apelos emocionais fascistas a certos arquétipos finalmente canalizados em um projeto fundamentalmente modernista, o marxismo ofereceu a mais "científica" de todas as filosofias políticas "cientificistas" da modernidade. Ademais, um estudo da evolução do marxismo ao longo dos séculos XIX e XX, e mesmo de seus vários remanescentes "dogmáticos" hoje, revela que ele provou ser o esquema analítico mais dinamicamente autocrítico de todas as ideologias antiliberais. Em termos de movimentos sociopolíticos e projetos analíticos, o marxismo se provou mais duradouro que outras ideologias. Suas análises da lógica e trajetória do capitalismo, sua crítica do imperialismo moderno, e outras teses já foram até transplantadas para os arsenais de outras teorias e projetos políticos aparentemente contraditórios. Ademais, o liberalismo e os próprios liberais, reconhecendo, ou, mais precisamente, temendo a presciência de certas projeções marxistas, fizeram uso da própria estrutura marxista para melhor entender como fortificar suas posições e neutralizar qualquer oposição antiliberal.

Onde o marxismo falha, porém, e isso pode responder por boa parte das inadequações dos experimentos socialistas do século XX, é na compreensão e reconsideração dele próprio. Conquanto Marx e seus seguidores expuseram e formularam de forma brilhante teses contra aspectos cruciais do liberalismo, do capitalismo e do imperialismo capitalista, e até conseguiram liderar algumas revoluções com base na estrutura analítica autocrítica e dinamicamente aplicável, o marxismo, sem falar nos marxistas, comumente falharam em apreender as dimensões mais profundas de suas experiências revolucionárias. Ao invés, as premissas inerentemente modernistas do marxismo foram levadas à sua conclusão lógica e as grandes revoluções socialistas do século XX ou falharam em resistir ou reexaminaram criticamente seus preconceitos em relação aos paradigmas fundamentais da modernidade. O produto final, que assola a maior parte da esquerda do século XXI, foi uma série de "revisões" que, ao invés de escavar o "marxismo real", castrou e prendeu o marxismo ainda mais nas garras do liberalismo, finalmente colocando algumas de suas encarnações políticas em linha com a burguesia, com a política liberal e com a confusão e desilusão da pós-modernidade.

Marxismo e Modernidade - Contornos Introdutórios


É de supremo interesse que quando Vladimir Lênin se gabou de que "a doutrina marxista é onipotente porque ela é verdadeira", [2] seu ângulo para tal perspectiva pouco tinha a ver com o ângulo a partir do qual intelectuais e líderes revolucionários marxistas posteriores procederiam quando se engajando em exercício ideológico ou mobilização insurrecional. Para Lênin, o marxismo era "onipotente" e "verdadeiro" não porque era a motivação ideológica última para "servir o povo", "construir o Exército Vermelho" ou "reunir o povo ao redor do Partido e do Líder", mas porque ele era um "sucessor legítimo" para e representava a conclusão lógica e ampla do "melhor que o homem produziu no século XIX, como representado pela filosofia alemã, pela economia política inglesa e pelo socialismo francês".


Na percepção de Lênin, o valor do marxismo enquanto ideologia não era seu apelo idealista, apaixonado aos instintos rebeldes dos trabalhadores explorados, das "nacionalidades oprimidas", ou dos inconformistas alienados e incansáveis da intelligentsia, mas sua conformidade com, continuação da, e aplicação revolucionária (interpretar o mundo com o objetivo de mudá-lo) das ciências mais desenvolvidas produzidas pela modernidade. Que o caráter moderno do marxismo era a joia mais valorizada, incansavelmente defendida, para o maior e mais vitorioso líder comunista revolucionário do século XX deve imediatamente chamar a atenção de qualquer um que busque entender as origens, trajetória e natureza do marxismo enquanto ideologia revolucionária. Afinal, um dos argumentos mais amplamente vocalizados por seus defensores é precisamente que o marxismo é uma "ciência" que, com base em absorver e sintetizar criticamente todas as "descobertas" até então, tanto na escola analítica, como na escola continental, de filosofia europeia, representa um arsenal autocrítico de pensamento e práxis revolucionárias capazes de explicar e guiar a humanidade a uma nova fase na evolução histórica.

A dialética se desdobra diante de nós. O marxismo, ao digerir os produtos mais "progressistas" do pensamento moderno, simultaneamente os leva até sua conclusão lógica, finalmente revelando as contradições em suas manifestações abstratas (ideológicas), bem como concretas (socioeconômicas e políticas). A partir daí, o marxismo aponta para a irreversibilidade, inevitabilidade e desejabilidade de uma derrubada revolucionária do modo existente de produção (capitalismo) e sua ideologia (liberalismo), abrindo assim uma nova fase no desenvolvimento humano, que é aguardada para resolver essas contradições através de um novo modo de produção (socialismo -> comunismo).

Ao chamar pela reconstituição revolucionária da sociedade humana contemporânea, não apenas como uma inevitabilidade lógica, historicamente sancionada, mas também como um imperativo revolucionário, o marxismo pode ser considerado uma ideologia que é "contra o mundo moderno". Porém, é normalmente tomada como dada a medida em que isso é limitado, e os paradoxos que se tornam evidentes aí, sem mencionar as consequências dessa realidade para os experimentos socialistas do século passado. Na medida em que o mundo moderno é predominantemente capitalista, o marxismo, com sua proposta de uma substituição revolucionária do capitalismo pelo socialismo, é indubitavelmente uma ideologia de oposição. Porém, como Lênin esclarece bem profundamente, o marxismo em si é um produto da própria transição de paradigma filosófico e histórico, a modernidade, que estabeleceu as bases teóricas, epistemológicas e antropológicas para todas as três teorias políticas da modernidade: liberalismo, marxismo e fascismo. Enquanto o marxismo critica e analisa a lógica e trajetória da manifestação socioeconômica do liberalismo, o capitalismo, ele simultaneamente, enquanto ideologia da modernidade, partilha de alguns dos postulados fundamentais do liberalismo, sem mencionar o fato de que elogia e absorve os "avanços científicos" que acompanharam a derrubada dos resquícios da sociedade pre-moderna pelo liberalismo.

Essa realidade torna o marxismo apenas circunstancialmente, ou parcialmente, antagônico à trajetória da modernidade. Ademais, isso significa que, apesar de sua reivindicação partilhada com o liberalismo de ser uma ideologia universalmente aplicável, o marxismo foi um produto das experiências europeias da Renascença, da Reforma, da Revolução Científica e do Iluminismo, cuja soma total produziu a modernidade e as revoluções derivadas no pensamento e na organização da sociedade humana. Para elaborar este ponto e colocá-lo no âmbito específico de nossa discussão, vamos revisar brevemente exatamente o que significa "modernidade".

Modernidade pode ser compreendida tanto como uma era histórica, bem como um paradigma filosófico. De fato, foi precisamente a transição em paradigma filosófico na Europa Ocidental que assinalou o início de uma nova fase histórica como resultado das transformações ideológicas, tecnológicas, políticas e socioeconômicas dialeticamente conectadas com (no sentido de engendrando, bem como sendo refletido por) mudanças dramáticas no âmbito do pensamento. As proposições revolucionárias por modificarem a compreensão que os humanos tinham do mundo ao seu redor, como produzidas pelos movimentos acima mencionados e seus pensadores, justificavam e refletiam transformações na base das sociedades europeias. Suas teses, que primeiro e mais importantemente incluíam humanismo, secularismo, materialismo, progressismo e universalismo, bem como um eurocentrismo conjurado a partir de uma Tradição Ocidental falsificada, finalmente estabeleceram as fundações para todas as três das "grandes ideais" da modernidade. O marxismo está saturado com e foi elaborado com base nesses postulados.



O marxismo acabou sendo a tendência antiliberal mais duradoura e a mais comparativamente bem sucedida do século XX. Revoluções de centenas de milhões de pessoas foram realizadas sob seu estandarte e lideradas por seus pensadores; ele ofereceu um caminho não-capitalista de desenvolvimento socioeconômico para várias sociedades, e demandou enormes concessões e reações por parte do liberalismo e do capitalismo. Mesmo hoje, os movimentos e analistas que se mantiveram fieis a seus princípios continuam a exercer enorme influência e projetam poder considerável em partes seletas do mundo.

Não obstante, permanece um fato que o liberalismo e o capitalismo venceram a batalha pelo século XX. Apesar de todos os sucessos desse ou daquele país socialista ou movimento político marxista, foi o liberalismo que reivindicou o "Fim da História" e prosseguiu para construir uma nova ordem mundial em seus termos.

Em Busca do "Marxismo real"

Hoje, uma reconsideração e "revolucionização", em oposição a uma "revisão" pró-liberal, pró-capitalista ou pró-modernista, é necessária não apenas para retificar os erros dessa formidável tendência antiliberal do século XX, mas também para incorporá-la no impulso crescente de uma nova luta filosófica, ideológica, política e socioeconômica contra todas as bases e manifestações do mundo moderno que o marxismo previamente reduzia ao capitalismo.

À primeira vista, isso pode de fato parecer ser uma "revisão" do marxismo. Após uma análise mais profunda, porém, nós descobrimos que isso não significa descartar ou sair da estrutura analítica marxiana, mas usá-la para alcançar o que grandes marxistas do século XX foram incapazes de fazer: explorar os núcleos profundos e paradoxais do marxismo, que o situam enquanto uma ideologia condicionalmente e parcialmente antimoderna e ressuscitar certos elementos que jazem enterrados ou disfarçados sob o marxismo puramente "materialista" que vê a história do homem através de lentes liberais.

Isso envolve um número de ângulos. Isso significa invocar e analisar o marxismo "mitológico", "escatológico" ou "esotérico" que o marxismo nominal e o Marx do século XIX afirmaram ter superado e "posto de pernas para o ar". Isso significa dar um novo olhar para as razões pelas quais as revoluções "marxistas" e historicamente socialistas aconteceram em sociedades subdesenvolvidas, "pré-modernas". Isso similarmente demanda uma justaposição do marxismo com vários movimentos nominalmente não-marxistas que, apesar de usualmente identificados com a "direita" política, na verdade partilham de certas trajetórias e perspectivas complementares que reforçam ou, paradoxalmente, se interseccionam e confirmam uma à outra e sugerem a possibilidade de um sincretismo político capaz de reconciliar a foice e martelo industriais do comunismo com os antigos e esotéricos símbolos da Tradição. Isso necessariamente inclui um reconhecimento da coincidência entre a luta entre Capital e Trabalho e outras forças historicamente antagônicas, como fundar a luta do Trabalho na terra, em um marxismo continental contra o mar do liberalismo atlantista.

Em certa medida, isso não só significa ler Marx "a partir da direita" ou ler pensadores direitistas antiburgueses e antimodernos "a partir da esquerda", mas também buscar pelo embutimento dessas ideologias e projetos na carne dos "inimigos da sociedade aberta" i.e., os inimigos não só do capitalismo e da burguesia, mas da própria modernidade. Em geral, isso significa um exame dos erros qualitativos do marxismo desde a perspectiva de trabalhar através de seu próprio pensamento qualitativo e do revolucionamento subsequente de sua visão da história do mundo, o que colocaria Marx não apenas em linha com sua própria ciência proposta, mas na verdade exorcizaria a "ciência" fundamentalmente liberal de Marx e revelaria o marxismo oculto, o marxismo que toca os arquétipos profundos da consciência, da história e da escatologia até então não descobertos dentro do próprio marxismo. Só com base em tal retificação ideológica podemos então prosseguir para estudos de caso como previamente proposto pela série.

O produto final de tal marxismo revitalizado seria um "socialismo eterno", i.e., um socialismo livre dos preconceitos e limitações modernistas que finalmente o estrangularam, desacreditaram e o confundiram na teoria e na prática no século XX.

Alguns pensadores e movimentos já tentaram realizar este projeto. Nas décadas de 20 e 30, os nacional-bolcheviques da Alemanha e da Rússia e alguns eurasianistas tentaram transformar não apenas as concepções do marxismo enquanto ideologia, mas também diluir seus elementos modernistas para chegar a uma nova ideologia política.

Na década de 90, Gennady Zyuganov, como líder do Partido Comunista da Federação Russa em colaboração com tais intelectuais como Aleksandr Dugin, buscou reconceitualizar o socialismo soviético sobre uma nova base que permitisse a importância dos fatores "civilizacionais" e "espirituais" russos e mais profundos. Os movimentos "vermelho-marrons" na Rússia no início do século XXI também contribuíram para este processo. Dugin explorou e propôs orientações e perspectivas para escavar o que ele chama de "marxismo real" que, apesar de ignorado por marxistas "ortodoxos" ou "nominais", na verdade teve a maior influência sobre os socialismos do século XX. O próprio Centro para Estudos Sincréticos também buscou embarcar em uma "ressurreição" desse "marxismo das formas para além das imagens e coisas". 



Tal marxismo não remove as teses e análises cruciais de seu contexto histórico, seu embasamento, mas na verdade leva suas raízes ainda mais fundo no solo para atingir o centro encoberto dos verdadeiros significados de "revolução", "o povo", o "proletariado", "Terceira Internacional", o "ópio do povo", o "espectro rondando a Europa", e o slogan "Marx não está morto". Só uma abordagem assim pode resgatar o marxismo das garras da "política de identidade", determinar movimentos políticos genuinamente positivos (em oposição ao termo modernista de "progressista", e oferecer a teoria revolucionária para um movimento revolucionário, um "socialismo do século XXI" contra o mundo moderno em todos os seus aspectos. Tal produto inevitavelmente formaria parte de uma Quarta Teoria Política objetivando decifrar o paradigma, as contradições, os elos fracos, e a reconstituição revolucionária da ordem mundial existente que afirmou a morte de Marx e o Fim da História na década de 90.

Assim, nós propomos iniciar este trabalho teórico e integrá-lo em nossa critica das percepções marxianas de movimentos sociopolíticos nominalmente não-marxistas e nossa escavação das possibilidades no próprio marxismo "morto". 


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Imad Fawzi Shueibi - A Ordem Mundial Vacilante e seus Impactos

por Imad Fawzi Shueibi



No intervalo entre duas ordens mundiais, há uma guerra mundial e um período de transição seguido por um controle internacional cada vez mais rígido.

O Ocidente formou uma Ordem Mundial em 1648 após o Tratado de Vestfália e a Guerra de Trinta Anos. O Tratado de Vestfália estabeleceu quatro princípios fundamentais:

* 1. A soberania absoluta do Estado-Nação, e o direito fundamental à autodeterminação política.

* 2. A igualdade legal entre Estados-Nações. O menor Estado é, portanto, igual ao maior, independentemente de sua fraqueza ou força, riqueza ou pobreza.

* 3. A obediência internacional a tratados, e a emergência do "Direito Internacional Vinculante".

* 4. A não-intervenção nas questões internas de outros Estados.

Posteriormente, uma nova ordem mundial foi estabelecida. Ela foi chamada de "Paz dos Cem Anos" de 1813 a 1914, e moldou as Regras Internacionais do Jogo; Jogo da Guerra, Jogo da Paz e as Regras de Conflito.

O início da Primeira Guerra Mundial foi uma indicação do fim da Ordem Internacional prévia e o início de uma nova, e com o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Liga das Nações, uma nova Ordem Mundial foi estabelecida.

Com o colapso da União Soviética, a Ordem do Pós-SGM findou e um período de transição se iniciou. Durante este período, os Estados Unidos da América considerava tudo relacionado ao Pós-SGM como parte do passado; i.e., o Princípio de Soberania de Vestfália. Assim, o Tratado de Vestfália foi abolido, bem como o direito de resistir, como o que conheceu a França em sua resistência à ocupação alemã. Tudo isso se transformou no sentido de que o princípio de soberania foi substituído pelo Direito de Intervenção Humanitária e a resistência foi substituída por negociações, e até mesmo considerada terrorismo.

Isso foi intensificado ainda mais com a derrubada das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, quando os neocons moldaram a teoria de seus mestres Leo Strauss e Alan Bloom para formar uma nova ordem mundial unipolar. Essa orientação precisava de uma arena de operações, que veio a ser o Oriente Médio. Eles começaram com o Iraque, e prosseguiram para o Líbano, e então o efeito dominó começou a rolar. Porém, sua principal preocupação era pôr as mãos na Síria.

Com essa mudança, a fase de não-polaridade se iniciou.

O século XX começou multipolar, mas logo se tornou bipolar, e com o fim da Guerra Fria a ordem mundial se tornou unipolar; i.e., uma ordem mundial na qual apenas uma única super-potência domina. O momento de unipolaridade que o mundo tem conhecido desde a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS foi bastante breve; foi apenas um "momento" na história. As coisas continuaram até que chegamos a um mundo de não-polaridade, no qual o poder está distribuído entre algumas potências.

Se a ordem for multipolar, ela pode ser cooperativa, e ela pode gerar harmonia entre as potências, que apesar de serem poucas, estarão trabalhando segundo regras estáveis, cujo violador estará sujeito a penalidades. Essa ordem pode ser também competitiva e girar ao redor de uma balança de poder. Ela pode estar mais predisposta ao conflito quando essa balança se abalar. Porém, o caso da não-polaridade não deixa espaço para cooperação; ao invés, ele leva ao caos.

Há mais potências hoje do que Estados, mas apenas alguns poucos pólos entre esses não são Estados nacionais. Em tal tipo de ordem, os Estados nacionais perdem seu monopólio de poder. Os Estados se deparam com o desafio vindo do topo e apresentado por organizações internacionais e regionais, além do desafio vindo de baixo e apresentado por milícias, corporações e ONGs.

O mundo de hoje não possui polaridade, como resultado inevitável da globalização. Esta aumento a quantidade, a velocidade e a relevância dos fluxos através das fronteiras em relação a quase tudo.

Com a presença de muitos partidos com poder óbvio tentando exercer sua influência, seria difícil adotar respostas massivas, porque o mundo estará flutuando em um caos onipresente.

Quanto mais não-polaridade existir, mais não-polaridade se gerará. Deixando o mundo hoje neste estado de não-polaridade por conta própria tornará até mesmo mais complicado com o tempo. A difusão de desordem fará com que os sistemas consistindo de mais de um partido sigam avançando mais arbitrariamente.

Riscos do Caos Internacional

A mensuração da eficiência e da eficácia de qualquer liderança internacional que se manifesta na habilidade de grandes países determinarem as regras da Ordem Internacional assume, primeiro, então o papel de regular os conflitos internacionais e controlar ou mesmo impedir seu acontecimento com o maior nível de eficiência e o menor custo. Porém, tomando a experiência de duas décadas e meia revela o verdadeiro fiasco na efetividade da liderança internacional, ou seja, a ausência de "ordem"; pelo contrário, uma situação internacional caótica. Assim, não há lugar para um único polo dominar realmente e não há nem mesmo um sistema que permita que o mundo seja dividido entre duas potências, nem a experiência ou possibilidade de se aceitar um mundo multipolar.

Essa situação internacional caótica significa a manutenção da severidade de conflitos nos lugares que costumavam ser áreas para testes de balões de influência, como o Oriente Médio, ou que tenham conflitos através de um terceiro, que transforma a região em uma arena de combate.

Esse conflito não terminará a não ser que as potências internacionais cheguem a um acordo. A emergência do ISIS (Daesh), porém, demanda uma emenda às regras de conflito, que atualmente não são claras.

A Dimensão Científica do Caos


A ideia começa com o termo "caos" em si, cuja estranheza não faz diferença, desde que ele seja o segredo por trás de todos os desastres e catástrofes que afetaram todo o mundo e os que ainda vem por aí.


Este conceito está relacionado ao conceito do "efeito borboleta" no qual um minúsculo evento pode mudar toda a história. É isso que o caos está fazendo; ele começou um processo de modificação da face da história e de criação de algo com que o mundo jamais esteve familiarizado desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os teóricos dos Estados Unidos hoje não escolheram arbitrariamente a palavra "caos" para significar a anarquia onipresente e avassaladora. Eles até acrescentaram a palavra "criativo" a ele, para lhe dar uma conotação ainda maior, criando assim um novo efeito borboleta que pode ser a causa de um grande desastre que aflige toda a humanidade.

"Caos" não significa "desordem" desde que esta signifique algo que pode ser posto de novo em ordem. Com o "caos" não há qualquer possibilidade de se organizar ou colocar em ordem. É o "estado de existência primeva" mencionado na Bíblia a partir do qual todo o universo emergiu. Sem a mão de Deus, este mundo não teria sido ordenado, ou quase ordenado. Isso foi afirmado no Gênese como segue: "E a Terra era sem forma, e vazia; "E a Terra estava informe e vazia; e as trevas cobriam o abismo".

Era caos real antes da Mão do Criador ou Demiurgo colocar tudo em ordem.

Simplesmente, a questão toda se centra ao redor de transformar o mundo em algo caótico sem poder organizativo com exceção do dos Estados Unidos.

Uma teoria estranha, não é?

Ela de fato o é.

Alguns americanos querem que o mundo fique desordenado, com os EUA como o único organizador, sem levar em consideração as ameaças que esta situação representa para o mundo todo, incluindo os próprios EUA.

Eles dizem que essa é a natureza do mundo, e que a ideia vem do próprio cosmo e da própria existência.

Mas não se iniciou o mundo desde um ponto organizado que levou ao Big Bang, que levou à criação de galáxias até o tempo presente; i.e, uma nova galáxia nascendo a cada minuto? Na macrofísica, nós sabemos que ele é extremamente organizado, mas na microfísica nós o encontramos completamente disperso e em total caos. Este é um dos paradoxos científicos modernos, especialmente na física quântica.

Para colocar de forma diferente e falar de forma mais precisa, segundo os teóricos supramencionados, a existência é originalmente caótica porque ela começa desde um ponto considerado o pico da organização a partir de onde o Big Bang se inicial, e então ela se transforma em caos avassalador. Para se identificar com este universo, a Terra deve se tornar inteiramente desorganizada. Apenas os EUA estarão desfrutando de uma grande ordem, como o Big Bang, enquanto toda a existência terrena estará hierarquizada no caos; i.e, alguns lugares razoavelmente caóticos, outros menos caóticos e alguns muito caóticos.

Para alguns americanos, o aspecto biológico da Teoria do Caos está na própria vida.

Não é verdade que uma criança nasce fisicamente e fisiologicamente bem, e com o passar do tempo ela cresce, e os sinais de senilidade começam a se manifesta? Então, o seu corpo desenvolve câncer, que é um tipo de caos interno controlado pelo cérebro, mas quando o cérebro perde o controle, essas células cancerígenas se tornam destrutivas. Elas destroem o cérebro ou invadem todo o corpo, que acaba na more ou por uma doença que não tinha efeito no passado ou por um ataque do coração que não teria ocorrido se o corpo estivessem em perfeita ordem. Este é o caos letal. A AIDS, por exemplo, é uma doença fatal que indica falta de imunidade. É uma indicação flagrante de que a imunidade pode entrar em colapso e não pode ser tomada como dada, tal como a ordem.

Entropia


Os criadores da Teoria do Caos e os que defendem a sua difusão por todo o mundo veem um aspecto físico da teoria, que é a entropia.


A ideia vem da segunda lei da Teoria de Termodinâmica, que afirma que qualquer mudança que ocorra em um sistema físico automaticamente estará acompanhada de uma elevação em sua entropia; i.e., um aumento nos níveis e caos que ocorrem nele. Assim, modificar significa sofrer com falta de ordem, ou com o acontecimento de caos.

A pergunta que se deve fazer aqui é: e quanto aos humanos, e a humanidade?

Teóricos americanos dizem que eles não dão atenção a isso desde que as pessoas não sejam mais que ferramentas, e que é assim que as coisas naturalmente acontecem.

Se você disser que pessoas morrerão, eles responderão que elas morrem mais cedo ou mais tarde, então por que não caoticamente?! Não morreram já milhões de pessoas desde o início da existência? Não morreram elas por doenças, pelo que se diz que foi a natureza o instrmento de sua morte?

Não houve uma terrível carnificina durante a Segunda Guerra Mundial que resultou na morte de 80 milhões de pessoas e em 128 milhões de feridos e aleijados? Por que vocês estão surpresos com o caos?

O que é estranho em relação a isso é o estabelecimento das Nações Unidas, que tenta colocar o mundo em ordem e reduzir sua natureza caótica.

Se você, assustado, perguntar sobre essa indeterminação, dirão que ninguém conta quantos morrem em guerras. A mortalidade é só uma estimativa. Morre-se na guerra porque se está destinado a isso, tal como se morre naturalmente. É a física quem diz.

Isso não é só sangue frio, mas frieza mental.

Os americanos diriam que a física diz que o caos é a norma, enquanto a estabilidade e a ordem são a exceção, e eles forneceriam evidência da termodinâmica.

Qualquer sistema fechado tende a mudar ou se transformar automaticamente com a elevação de sua entropia ou caos até que ele atinge o estado de igual distribuição de caos em todos os seus pontos, tal como a temperatura, densidade e outros aspectos iguais que a água tem quando água fria e quente são misturadas. Alcançar um equilíbrio na difusão do caso, provavelmente, levará tempo.

Assim, os americanos criam caos e outros o adotam e aplicam. Os outros o recebem apenas para refleti-lo, colocando o mundo em um círculo vicioso para o qual nenhum início ou fim é reconhecido, e não se sabe quem começou.

Não-Polaridade

A não-polaridade é a exceção que bem pode se tornar a norma. Mas ela tem perigos reais:

Ela pode levar a conflitos armados regionais que estarão longe de serem controlados; duráveis, viáveis e se espalhando rapidamente de um lugar para o outro sem regras. Assim, eles poderiam ser governados pelas regras das realidades inesperadas, pelo efeito borboleta, pelo efeito dominó e pelo caos.

A não-polaridade poderia ser um estímulo para empurrar uma super-potência a assumir um risco militar em um lugar geograficamente diferente do seu com a esperança de decisivamente transformar o estado de não-polaridade em um estado de multipolaridade ou unipolaridade "mesmo que por um tempo". Ela também poderia empurrar na direção de uma guerra mundial ou uma coexistência com o terrorismo como uma realidade inevitável. O exemplo disso é a coexistência com o Talibã e abrir embaixadas para ele. Assim como pode vir a haver coexistência com o Daesh.

Na não-polaridade, há um tipo de fluidez internacional que pode abrir o caminho para a coexistência com o que costumava ser terrorismo para considerá-lo status quo.

O estado de incerteza é máximo agora em nossas expectativas do que ainda está por vir.

Fragmentação ao invés de desintegração

O que acontece agora no Oriente Médio é fragmentação, não desintegração, levando em consideração a grande diferença entre os dois conceitos. O que ocorre na região é "fragmentação" na medida em que não há unidade coesiva entre os constituentes de alguns países graças ao conflito. Não há nem mesmo entendimento internacional ou uma vontade de impedir isso. Ainda assim, há algumas superpotências que se recusam a modificar a geopolítica e não concordaram com uma nova Yalta. Portanto, nenhuma nova divisão ou países aparecerão a curto prazo a não ser que o cenário internacional mude. Essas novas entidades podem aparecer na ausência de uma vontade local ou regional de impedi-las, o se houver um estado de fluidez internacional que seja incapaz de impôr uma decisão ou alcançar m entendimento básico sobre uma nova geopolítica.

O caldeirão básico que faz eclodir o caos contemporâneo é o Oriente Médio. Comparar o que acontece na região agora com o que aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial ou a Guerra Fria não é exato, porque a situação se assemelha à Guerra dos Trinta Anos quando aquele conflito resultou na destruição de grandes partes da Europa na primeira metade do século XVII.

Se considerarmos a situação na Europa à época, saberemos que nos anos vindouros, provavelmente haverá vários Estados fracos incapazes de controlar vastas áreas de seus territórios, e também haverá várias milícias e grupos terroristas trabalhando em ampliar sua influência, sem mencionar guerras civis e guerras entre países. Identidades sectárias e sociais encontrarão lugar e até ultrapassarão as identidades nacionais. Jogadores locais continuarão a interferir nas questões internas de seus países vizinhos, impulsionados por imensas reservas de recrsos naturais. Jogadores estrangeiros, porém, serão incapazes ou desinteressados em permitir que a região se estabilize.

Assim, o ruim pode facilmente ficar pior caso os EUA sejam relutantes ou incapazes de serem mais sábios ou de recorrerem a opções mais frutíferas. Não há nem mesmo uma única solução para os problemas porque a natureza dos desafios diferem de uma região para a outra e de uma questão para a outra.

Na verdade, soluções de qualquer tipo podem, na melhor das hipóteses, ser gerenciadas, mas não alcançadas.

O Oriente Médio ruma para a desintegração e fragmentação, e o Califado pode se tornar realidade, assim, negociações e reconhecimentos podem seguir. Isso pode também resultar em outros Califados Islâmicos invocando o Arquétipo, e você poderá descobrir que os Estados ricos são o ponto de foco e o desejo há muito perseguido desse califado que se multiplica cada vez mais.

Arquétipo

O arquétipo são todas as representações inconscientes nos seres humanos; i.e., é tudo que indivíduos ou grupos recebem inconscientemente, sejam símbolos míticos ou semi-míticos de indivíduos ou comunidades antigos. Tudo isso é caracterizado como sendo moral e prazeroso, longe de ser danoso ou materialista. Essa concepção do arquétipo é o que se busca restaurar hoje, ainda que ele pertença ao passado e não haja como testar sua validade.

Aqueles que representam o arquétipo inconscientemente e buscam invocá-lo e refleti-lo em sua realidade presente não leem a história. Se eles a leem, eles só leem o que fortalece as imagens arquetípicas para revivê-las, mas não para destrui-las. Essas pessoas vivem o passado em se dia presente e apenas concebem suas imagens mais encantadoras.

Com o arquétipo, prazer e equilibrio psicológico são atingidos no inconsciente. Com ele, indivíduos ou grupos atingem equilíbrio no mundo terreno e o transformam em um mundo angélico. Assim, há uma fuga do que é real para o que é desejado, "por meio de sua representação mítica".

O arquétipo constitui o substrato ao qual se unem todos os humanos e sobre o qual os indivíduos "dentro e sob esta construção" podem construir suas experiências futuras. É a paixão que transforma a ideia em realidade. É por isso que há insistência em aplicá-la para ligá-la ao mundo físico.

Neste sentido, o Estado Islâmico se torna o arquétipo a partir do qual a anarquia cega e ilimitada inventada pelos EUA entra em erupção. O jogo de procurar por um lugar para o Estado Islâmico custará à região longos anos de sofrimento, caos e insurreição, e afetará muitas partes do mundo. Ele será acompanhado por uma reputação cada vez pior para o Islã e os árabes, e as consequências serão terríveis.

Este mundo é realmente perigoso, na medida em que ele representa uma ameaça às nações. Suas consequências atingirão cada lugar no planeta a não ser que essa insanidade pare. Isso demanda o estabelecimento de uma ordem internacional que possa controlar os impactos da não-polaridade e detê-la nas fronteiras da teoria niilista que considera o caos como ordem. 

sábado, 9 de abril de 2016

Dez Fatos sobre a Conexão ONU-LGBT

Fonte: Revista Katehon



1) Em julho de 2013, o Departamento do Alto Comissário para Direitos Humanos lançou uma campanha de informação pública de nome "Livres e Iguais", que foi projetada para combater a homofobia e a transfobia, e promover um respeito maior pelos direitos de pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT).

2) Em abril de 2014, o Secretário-Geral Ban Ki-Moon, em Mumbai durante a última fase da campanha global da ONU "Livres e Iguais", lançou uma mensagem especial, que dizia: "Em todo lugar para onde vou, eu tenho clamado pela revogação imediata de todas as leis que criminalizem relações consensuais entre adultos de mesmo sexo. Essas leis violam direitos básicos à privacidade e à liberdade em relação a deiscriminação. Sejam executadas ou não, elas encorajam ativamente atitudes intolerantes, dando à homofobia um selo de aprovação estatal".

3) Em setembro de 2014, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas adotou uma resolução histórica para os direitos LGBT durante sua 27ª sessão, a segunda moção do tipo em sua história. A resolução, que foi intensamente promovida pelos EUA, foi proposta por Uruguai, Colômbia, Brasil e Chile. Países de cada continente no mundo se uniram como apoiadores. 

4) Em setembro de 2015, 12 agências da ONU pediram pelo fim da violência e discriminação contra adultos, adolescentes e crianças lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI) e estabeleceram passos específicos para proteger estes indivíduos.

Além do Alto Comissariado de Direitos Humanos, a declaração conjunta foi endossada pelas seguintes entidades da ONU: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Programa Conjunto da ONU sobre HIV/AIDS (UNAIDS), Programa de Desenvolvimento da ONU (UNDP), Organização Educacional, Científica e Cultural da ONU (UNESCO), Alto Comissariado da ONU para Refugiados (UNHCR), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Entidade das Nações Unidas para Igualdade de Gênero e Empoderamento de Mulheres (ONU Mulheres), Programa Mundial de Comida (WFP), Organização Mundial da Saúde (OMS).

5) Em 29 de setembro de 2015, a ONU organizou o evento do Grupo de Alto Nível LGBT "Sem deixar ninguém para trás: Igualdade & Inclusão na Agenda de Desenvolvimento Pós-2015". Ele representou uma tentativa de promover a agenda LGBT em um nível global dentro dos Estados membros.

6) Em 10 de dezembro de 2015, Mogens Lykketoft, presidente da 70ª sessão da Assembleia Geral, durante um discurso público chamado "O Custo Econômico da Exclusão LGBT", disse que "segundo uma pesquisa encomendada pelo Banco Mundial, o prejuízo econômico causado pela exclusão LGBT poderia representar bilhões de dólares em PIB perdido, enquanto promover uma maior inclusão LGBT promete trazer benefícios econômicos reais e substanciais".

7) O relatório do Secretário Geral "Uma Humanidade: Responsabilidade Partilhada", pedia que os governos incluíssem o direito ao aborto e direitos LGBT em seus esforços de lidar com os objetivos humanitários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um novo plano maciço de desenvolvimento da ONU de 15 anos adotado pela Assembleia Geral ano passado.

8) A cúpula humanitária da ONU que será realizada em maio de 2016 em Istambul poderá ser usada por Ban Ki-Moon para abrir caminho para obter aceitação tática de sua abordagem dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em um cenário no qual as nações que resistam ao aborto e aos direitos LGBT estarão em desvantagem. Essa cúpula foi convocada por Ban Ki-Moon e é controlada inteiramente por sua equipe, em particular pelo Departamento do Coordenador de Assistência Humanitária (OCHA) e pelo Secretariado da Cúpula Humanitária Mundial.

9) A ONU está pressionando ativamente os governos de países com valores familiares tradicionais, especialmente no Terceiro Mundo. Em 27 de dezembro de 2013, o Departamento de Direitos Humanos da ONU apelou ao presidente de Uganda para que ele não assine a Lei Anti-Homossexualismo, e pediu ao país que garanta a proteção de pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) da violência e discriminação.

"Indivíduos LGBT na Uganda são uma minoria vulnerável e marginalizada, já se deparando com violência e discriminação. Se assinada pelo presidente, essa nova lei reforçaria o estigma e o preconceito, e institucionalizaria a discriminação", disse Ravina Shamdasani, representante do Departamento do Alto Comissário de Direitos Humanos.

10) Burocratas da ONU apresentaram em fevereiro de 2016 uma série de selos postais da ONU que representavam homossexualismo, transexualismo e "famílias" homossexuais no QG da ONU em uma grande fanfarra e a alto custo em uma cerimônia excêntrica incluindo um coral gay de 33 membros cantando canções de amor contra um fundo de dançarinos nus e deuses gregos.

Delegações de pelo menos 86 países tentaram impedir o lançamento dos selos no dia do evento. Cartas lançando objeções aos selos foram enviadas a Ban Ki-Moon em 3 de fevereiro e permaneceram sem respostas por duas semanas.

Previsivelmente o Secretário-Geral, um defensor radical da aceitação social do homossexualismo, rejeitou quaisquer acusações de transgressão ou exagero, e pediu a emissão dos selos "em linha com o mandato" da Administração Postal das Nações Unidas.

Aliás, nenhum tratado da ONU inclui direitos LGBT ou protege de forma explícita ou implícita os homossexuais. 76 países no mundo explicitamente proíbem a sodomia em suas leis.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Marcelo Gullo - A Deterioração Estrutural do Poder Norte-Americano e seu Impacto no Sistema Internacional

por Marcelo Gullo



A partir do fim da Guerra de Secessão (1865) existiu, nos Estados Unidos, uma perfeita harmonia entre os interesses do Estado norte-americano e os da alta burguesia industrial norte-americana. Uma aliança que, logo após a Guerra de Secessão, pôs em marcha um grande processo de industrialização impulsionado pelo Estado e protegido da competição externa por fortes restrições tarifárias, alfandegárias e subsídios, tanto encobertos como escancarados. Este processo de industrialização gerou uma enorme imigração europeia para os Estados Unidos, retroalimentando um mercado interno em criação e crescimento permanentes e gerando um verdadeiro "círculo virtuoso de crescimento", coisa que, por sua vez, consolidou ainda mais a união originária de interesses entre a alta burguesia e o próprio Estado norte-americano. Aquilo que era bom para a alta burguesia norte-americana era, também, bom para o próprio Estado norte-americano.

A análise histórica objetiva não deixa dúvida alguma de que, depois da finalização da Guerra Civil, os Estados Unidos adotaram decididamente como política de Estado o protecionismo econômico e que, graças a este sistema, protagonizaram um dos processos de industrialização, por sua rapidez e profundidade, mais assombrosos da história. Em 1875, as tarifas alfandegárias para produtos manufaturados oscilavam entre 35% e 45%. Logo em 1913, houve uma diminuição das tarifas, mas a medida foi revertida, apenas um ano depois, quando se iniciou a Primeira Guerra Mundial. Em 1922, a porcentagem paga sobre bens manufaturados de importação, subiu 30%. Em 1925, a taxa alfandegária média sobre produtos manufaturados era de 37% e, em 1931, de 48%.

Os Estados Unidos foram, até depois da Segunda Guerra Mundial, o bastião mais poderoso das políticas protecionistas e seu lar intelectual. Convertido logo após a Segunda Guerra Mundial na maior potência industrial do mundo, na economia industrial de mais alta produtividade e, estando, tanto o aparato industrial europeu como o japonês, seriamente destruídos, os Estados Unidos, tal como havia previsto o presidente Ulisses Grant, depois de ter usufruído do protecionismo econômico, depois de ter obtido do regime protetor tudo o que este pôde dar, adotou o livre-comércio e se converteu no bastião intelectual do livre-comércio. (1)

Com a adoção do livre-comércio durante 30 anos, os Estados Unidos obtiveram enormes benefícios. Ainda que seja necessário esclarecer que, como havia feito a Grã-Bretanha em seu momento, os Estados Unidos atuaram, também, com duplicidade deliberada pois, enquanto pregavam o livre-comércio seguiam mantendo, para muitos produtos, uma enorme proteção alfandegária que tornava o mercado norte-americano uma fortaleza inacessível. Depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se esmeraram, através de suas universidades mais prestigiadas, em sustentar para os outros países os princípios do livre-comércio e da livre atuação do mercado e seus grandes economistas condenaram como contraproducente qualquer intervenção do Estado na economia. Imprimindo a essa ideologia de preservação de sua hegemonia a aparência de um princípio científico universal da economia, tal como em seu momento havia feito a Grã-Bretanha, lograram, com êxito, persuadir de sua procedência a muitos outros Estados que, assim, se constituíram, passivamente, em mercado para os produtos industriais norte-americanos e permaneceram como simples produtores de matérias-primas.

Na década de 1970, a completa recuperação industrial da Alemanha e Japão, tolerada por Washington, durante a Guerra Fria, por uma necessidade geopolítica imperiosa, fez com que os Estados Unidos não pudessem obter do sistema de livre-comércio todos os benefícios que haviam planejado mas não representou um grave perigo para a economia norte-americana que seguia sendo altamente competitiva em numerosos itens.

O sistema econômico mundial, construído pelos Estados Unidos logo após a Segunda Guerra Mundial para seu inteiro benefício, só vai entrar em crise quando, na década de 70, se produza o grande aumento dos preços do petróleo. Se produziu, então, o fenômeno inédito da estagflação (inflação com recessão), o aparecimento dos chamados petrodólares e a proeminência, a partir de então e, até nossos dias, do capital financeiro e especulativo sobre o capital industrial. É também, em meados da década de 70, que começa a se produzir a integração ou dissolução da velha alta burguesia industrial norte-americana em uma nova elite mundial transnacionalizada e, a medida em que as empresas norte-americanas se convertiam aceleradamente em empresas transnacionais, se produzia uma mutação total de seus DNAs respectivos. A importância desse fenômeno nos obriga a nos determos na descrição do mesmo.

O Aparecimento de uma Nova Elite Mundial Transnacionalizada

É na década de 70 que irrompem no cenário internacional, com força inusitada, atores não-estatais como as ONGs (em inúmeras ocasiões instrumentos do poder suave dos Estados centrais), as internacionais dos grandes partidos políticos e as empresas transnacionais. Todos estes atores começam, sem dúvida alguma, a ter um protagonismo crescente no cenário internacional. Sem embargo, entre todos eles, produto do processo acelerado de globalização econômica que começa a se perfilar nesses anos, vão se destacar, por seu peso específico, as empresas transnacionais cuja expansão a nível mundial, como sublinha Henri Favre, que começam a provocar a partir da década de 70, que as velhas altas burguesias nacionais, a norte-americana, a alemã, a inglesa, a francesa, a italiana, etc., se fossem progressivamente integrando em uma nova elite mundial transnacionalizada que não só incluía, e inclui, aos acionistas das grandes empresas transnacionais (que, por definição, são apátridas qualquer que seja o país em que tenha sua sede social a empresa), mas também aos dirigentes dessas. Importa ressaltar que, como resultado da proeminência das grandes empresas transnacionais no sistema econômico internacional, acontece então, que um dirigente empresarial norte-americano, membro da nova elite mundial transnacionalizada, possa ter mais interesses em comum com um dirigente empresarial chinês ou europeu que com seu próprio governo, o que tende a complexificar as relações entre os Estados nacionais e as empresas transnacionais. Isso se agrega ao fato de que boa parte do capital das transnacionais (a maioria no caso do das europeias) começa a estar possuído por estrangeiros (se esta palavra ainda tem sentido quando se refere aos acionistas de uma companhia transnacional), quer dizer, por não residentes no país em que ditas transnacionais tinham, e tem, sua sede social.

Importa precisar, também, que as empresas transnacionais tendem a criar uma verdadeira cultura própria à empresa, de tal maneira que, por exemplo, um executivo da filial de Taiwan possa ser ascendido a diretor da filial do México e logo a presidente da empresa em Nova Iorque ou Paris. A criação de uma verdadeira cultura própria à empresa transnacional começa a provocar que os executivos da mesma tendam a se sentir membros de uma grande família transnacional, de tal maneira que as lealdades em relação à empresa transnacional tendem a se fortalecer às custas das lealdades pela cultura de origem. A lealdade pela empresa se fortalece, então, às custas das lealdades pela pátria. Dessa forma se foram criando as condições para que se pudesse produzir, em determinadas circunstâncias, uma contradição entre os interesses da empresa transnacional (e da elite que a conduz) e os do Estado no qual a empresa havia nascido e tem sua sede social.

Quando o caçador cai em sua própria armadilha

Com a chegada de Ronald Reagan à Casa Branca, que sela a aliança da elite político-militar norte-americana não já com a velha burguesia industrial norte-americana, mas com a burguesia financeira internacional, os Estados Unidos adotam como doutrina de Estado, o neoliberalismo (2). Para sair da crise econômica a elite política, intelectual e militar norte-americana crê que os Estados Unidos devem fomentar uma nova divisão do trabalho a nível internacional onde os Estados Unidos se reservariam para si próprios a produção da alta tecnologia, que exigia gastos em investigação gigantescos que só o grande Estado norte-americano podia subsidiar, e o controle de quatro grandes monopólios a saber:

1) Os monopólios que operam no campo do controle dos fluxos financeiros de envergadura mundial.

2) Os monopólios que operam no acesso aos recursos naturais do planeta, neste caso em aliança com o poder britânico.

3) Os monopólios que operam no campo das comunicações e dos meios de comunicação.

4) Os monopólios que operam no campo das armas de destruição em massa. (3)

Com o controle desses monopólios, a elite norte-americana pensava que os Estados Unidos poderiam anular as conquistas da industrialização da periferia, desvalorizando o trabalho produtivo incorporado a essas produções ao mesmo tempo que sobrevalorizavam o pretenso valor agregado incorporado às atividades levadas a cabo pelos novos monopólios. Se produziria então, uma nova hierarquia na repartição da renda em escala mundial, mais desigual que nunca, subjugando às indústrias da periferia e reduzindo-as ao status de atividades menores. (4)

Foi, então, no esquema dessa nova divisão internacional do trabalho concebida pela elite político-intelectual estado-unidense que, no início dessa década de 80, começa a se produzir, nos Estados Unidos da América do Norte, um lento processo de desindustrialização quando, as principais empresas, que tinham instalada tanto sua sede social como sua produção industrial para o mercado norte-americano no território dos Estados Unidos, em busca de uma maior mais-valia, começam a transferir a produção industrial dos Estados Unidos para os países da Ásia. Certo é que, este processo de traslado de empresas norte-americana fora de suas fronteiras, já que se havia produzido, com anterioridade, para a América Latina, por exemplo. Assim, durante as décadas de 1960 e de 1970, numerosas empresas norte-americanas haviam instalado fábricas para a produção de bens industriais, principalmente no Brasil, Argentina e México. Mas as empresas norte-americanas se transferiam para fabricar produtos destinados à venda nesses mesmos mercados. O giro que se produz a partir dos anos 80 é absolutamente diferente porque a partir da década de 80, as empresas originariamente norte-americanas, mas transformadas já em empresas transnacionais começam, principalmente na Ásia, a produzir para os Estados Unidos. Quer dizer que as empresas transnacionais, instaladas na Ásia, começam a fabricar, com trabalho estrangeiro barato, produtos que, logo, se venderiam no próprio mercado norte-americano.

Até a década de 1980 o que era bom para a alta burguesia industrial norte-americana era bom para os Estados Unidos mas, posteriormente a estes anos e até nossos dias, o que é bom para o capital industrial norte-americano, que instalado fora dos Estados Unidos está obtendo enormes lucros graças ao baixo custo da mão-de-obra, não é bom para o povo dos Estados Unidos que começou a sofrer os efeitos do desemprego endêmico e não é bom para os Estados Unidos que sofrem com um déficit comercial crônico.

A nosso entender, a crise que atravessam hoje os Estados Unidos, mais além de qualquer recuperação possível da economia norte-americana, é, mais que uma crise econômica, uma crise estrutural do poder norte-americana.

Desde nossa ótica, estamos perante uma crise estrutural do poder norte-americano porque, pela primeira vez desde 1865, há uma contradição entre os interesses da alta burguesia norte-americana e os interesses nacionais do Estado norte-americano. Isso não havia ocorrido nunca, até agora.

Um Erro na Concepção Estratégica

Paradoxalmente a elite política e militar norte-americana, influenciada fundamentalmente pelo pensamento estratégico de Alvin Toffler (5), fomentou e apoiou à alta burguesia, quando esta, em busca de uma maior mais-valia, começou a transferir a produção industrial dos Estados Unidos para os países da Ásia. A ideia substancial do pensamento estratégico de Toffler, aceito em grande medida pela elite política e militar norte-americana, se baseava em que o poder passava, agora, pela tecnologia de ponta. (6)

Esta ideia, que em princípio é certa, possui, não obstante, um erro. Desde o ponto de vista da construção do poder nacional, a constituição de um complexo aparato tecnológico não devia se realizar em prejuízo do aparato industrial. Adotar um não devia significar abandonar o outro. Sem embargo, partindo de que o poder consistia, exclusivamente, na posse da tecnologia de ponta, os Estados Unidos começaram a se especializar, através de um grande Impulso Estatal proveniente do complexo militar-espacial, exclusivamente nela, abandonando sua aplicação na indústria básica, perdendo assim, progressivamente, a liderança industrial. (7)

Convém recordar de passagem que o Estado norte-americano subsidiou este desenvolvimento tecnológico dado que as companhias privadas não teriam podido fazê-lo, nunca, por si mesmas (os computadores e a internet, para mencionar só alguns exemplos, foram desenvolvidos, em princípio, para o complexo aeroespacial-militar norte-americano). Se tratava de um subsídio "encoberto" que, através do sistema militar-espacial, receberam as companhias tecnológicas privadas norte-americanas. (8)

Se bem é certo que o poder passa pela dominação da alta tecnologia, o que não se contemplava nessa análise, realizada pela inteligência norte-americana, é que se estava convertendo aos Estados Unidos em uma sociedade exclusivamente dedicada aos serviços e que, estes serviços, naturalmente voláteis, deslocavam à mais estável e inelástica produção industrial, a qual por sua vez é a principal fonte de emprego permanente e muito mais ampla quanto a sua capacidade de absorver pessoal da mais ampla gama de capacitações. Então, a medida em que os Estados Unidos transferiam seu processo de industrialização para a Ásia, se desindustrializavam e perdiam um dos degraus de seu poder nacional. Desde esse momento, e a partir da supremacia de sua moeda, começaram a "viver de empréstimo".

Desde a chegada de Ronald Reagan, com uma balança comercial cada vez mais desfavorável, a economia dos Estados Unidos começa a viver de uma incessante emissão monetária, com a qual os Estados Unidos importam todos os produtos industriais que consomem. Dólares que terminam dinamizando a economia das potências rivais, enquanto que, nos Estados Unidos, cada vez mais trabalhadores perdem seus postos de trabalho. O desemprego não toma dimensões dramáticas de imediato, porque uma porcentagem dos desempregados industriais são absorvidos pelo setor de serviços mas, com o passar do tempo, os serviços, voláteis e de demanda fundamentalmente elástica por essência, também vão desaparecendo, fazendo com que o desemprego se torne crônico.

Esta é a origem profunda da crise do poder norte-americano. Os problemas financeiros que hoje vemos são, assim, uma consequência e não a causa. A verdadeira origem estrutural da crise está na transferência da produção industrial dos Estados Unidos à Ásia, porque a mais-valia que obtinha a alta burguesia norte-americana era enorme, em comparação à que podia obter nos Estados Unidos. Resulta evidente, então, que desde o ponto de vista político e econômico, os Estados Unidos já não é o que era ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, nem o que imaginou que podia ser, logo do desaparecimento da União Soviética.

É possível um Estado pós-industrial realmente poderoso?

Desde fins da década de 50, os Estados Unidos, graças à reação desencadeada por um novo Impulso Estatal, conseguiram começar a construir um setor de alta tecnologia. Dessa forma, começaram a elevar, novamente, o umbral de resistência que as outras unidades políticas do sistema necessitavam alcançar para manter sua capacidade autonômica.

Sem embargo, é preciso esclarecer que a superestimação da Alta Tecnologia como fator de poder levou à elite política e militar dos Estados Unidos a cometer o erro de subestimar a importância do setor industrial como fator de poder. Se superestimamos a importância da Alta Tecnologia como fator de poder e descuidamos do aparato industrial, debilitamos a pirâmide do poder. Uma economia baseada exclusivamente na Alta Tecnologia exclui uma massa laboral enorme que tende, necessariamente, a se pauperizar.

Em efeito, a errônea concepção de que seria possível um Estado exclusivamente pós-industrial capaz de prescindir de seu anterior fator dinâmico, a indústria, é, possivelmente, o principal fator do notório debilitamento da economia norte-americana e, consequentemente, do poder nacional dos Estados Unidos da América do Norte. A crença de que só produzindo tecnologia e derivando setores crescentes da população à área de serviços para transferir o fator industrial a outros países mais atrasados que se foram convertendo, paulatinamente, em provedores de todo tipo de bens elaborados, gerou uma estrutura laboral e produtiva, notoriamente débil.

A Alta Tecnologia, por definição, é excludente de mão-de-obra, e a pouca que requer necessita de um grau de capacitação extremamente elevado, pouco factível de ser alcançado por um alto número de habitantes.

Assim, as grandes massas laborais vão perdendo seus empregos e passando a setores de serviços, notoriamente dependentes dos vaivéns econômicos, e baixando, consequentemente, a qualidade de seu emprego e sua capacidade de consumo e reinvestimento. Uma economia que não gera rendas genuínas em quantidades suficientes, como só a indústria e o mercado interno gigantesco que os Estados Unidos souberam criar em seu momento, termina sendo incapaz de sustentar o círculo virtuoso de crescimento. (9)

Hoje, os Estados Unidos, graças à reação desencadeada por um novo Impulso Estatal, se estão convertendo no primeiro Estado "pós-industrial" da História mas, ao mesmo tempo, a superestimação desse fator, paradoxalmente, está minando gravemente a base original do poder nacional norte-americano.

É que a derivação da indústria para outros países está fazendo com que os Estados Unidos se vejam submetidos a vaivéns indesejáveis em sua economia. Uma economia cada vez mais especulativa, e com pior qualidade de renda que tende a se manter só mediante um déficit crescente.

Em definitiva, se os Estados Unidos não recompuserem a tempo seu setor industrial, terão derrubado, por um erro na percepção do valor da Alta Tecnologia, uma das bases fundamentais de sua pirâmide de poder.

Em síntese, a interpretação de Toffler, poderia se ver superada pela realidade da incapacidade do novo fator para prover de rendas e energias suficientes à economia norte-americana. A crise das Ponto.Com nos primeiros anos do século e a das hipotecas de má qualidade em 2007/2008, estariam dando pauta da falta de uma base industrial, que assegure o que está acima.

Como hoje já não é possível conceber um Estado autônomo sem a incidência determinante do manejo tecnológico próprio, vai ficando demonstrado que tampouco é possível sustentar um Estado poderoso, prescindindo da estrutura industrial que não só o possibilitou, mas que através de uma produção e emprego genuínos tornam possível sustentar-se no mais alto nível tecnológico. Algo assim, como é impossível chegar ao degrau mais alto da escada se são retirados os degraus inferiores nos quais o mais alto se apoia.

Nossa tese fundamental, acreditamos corroborada pela realidade atual dos Estados Unidos, seria a de que o poder nacional se constroi mediante a acumulação de fatores e não mediante a substituição de uns por outros como pretende Toffler. Para a construção do poder nacional, a edificação da Alta Tecnologia é condição necessária, mas não suficiente.

O Abandono do Neoliberalismo no Berço do Neoliberalismo


A crise estrutural do poder norte-americano levou ao abandono, no plano fático, da doutrina econômica do neoliberalismo, que, por outro lado, era uma espécie de "ideologia oficial" do Estado norte-americano, que postulava como princípio científico que o Estado não devia, jamais, intervir no mercado. Sem embargo, apesar de que os Estados Unidos seguem sendo o porta-estandarte do neoliberalismo, foi graças à crise que, por exemplo, "naves insígnia" do poder norte-americano, como a General Motors, se converteram praticamente em empresas de propriedade do Estado norte-americano. Contrariando a doutrina neoliberal e o suposto princípio científico de que o Estado não deve intervir no mercado, a administração Obama procedeu a resgatar da falência a General Motors, da qual o Estado norte-americano passou a possuir nada menos que 70% das ações. Assim também, outro grande ícone dos Estados Unidos, o Citibank, foi também salvo da falência. E são só exemplos ressonantes.


Estes simples exemplos nos demonstram, por uma parte, que estamos diante da crise mais profunda da ideologia neoliberal, porque, ademais, esta crise se produz no próprio berço do neoliberalismo e, por outra parte, que nos encaminhamos para um momento no qual os Estados periféricos terão a possibilidade de rechaçar de forma absoluta, e diante de seu patente fracaso, o paradigma neoliberal.

Por que? Pela simples razão de que os defensores desse modelo neoliberal não encontrarão forma de defendê-lo para aplicá-lo na Periferia, dado que o mesmo fracassou no próprio Centro. Hoje, é o Estado norte-americano que desembolsa somas milionárias para resgatar a General Motors, o sistema bancário e tantas outras empresas. Tudo ao contrádo do que eles mesmos pregaram durante 30 anos. É o Estado que interfere decisivamente na economia para salvar uma indústria norte-americana, para salvar um banco norte-americano, e o que vai interferir, caso necessário, para salvar uma universidade norte-americana.

A Caducidade da Ordem Monetária Internacional


Desde que se iniciou "oficialmente" a crise econômica internacional, com o famoso colapso do mega banco de investimentos "Bear Stern" em setembro de 2008, se sucederam uma série de reuniões do chamado "G-20". Em todas elas, os Estados Unidos tiveram como objetivo o de deixar fora da discussão o grande problema de fundo: a caducidade da ordem monetária internacional instaurada ao terminar a Segunda Guerra Mundial, quer dizer a ordem monetária baseada no reinado indiscutível do dólar como moeda mundial de reserva e câmbio (10). Terminada a Segunda Guerra Mundial, a hegemonia do dólar foi a expressão natural do vitorioso poder norte-americano. Tal hegemonia monetária foi uma consequência lógica do poder estrutural dos Estados Unidos. Aniquilado o Japão, derrotada a Alemanha e completamente exausta a Grã-Bretanha, devido à calculadamente tardia entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a hegemonia do dólar constituiu, simplesmente, a expressão superestrutural do poder estrutural dos Estados Unidos. Em 1945, era o poder político, econômico e militar norte-americano o que sustentava a hegemonia do dólar como moeda de reserva e de câmbio. A partir de 2009, se torna patente que agora é a hegemonia do dólar que sustenta o poder político, econômico e militar norte-americano. Hoje, a hegemonia norte-americana se sustenta graças ao dólar, que detém ainda, o provilégio de persistir como principal moeda mundial de intercâmbios.


A realidade atual indica que é o dólar que hoje sustenta ao poder norte-americano e não, aquilo que seria lógico, o poder norte-americano sustentar sua moeda. Este é um fato novo que, à luz dos acontecimentos, resulta uma mudança substancial, irreversível por razões estruturais, pois não assistimos, como já afirmamos, a uma mera crise conjuntural do poder norte-americano, mas a uma crise estrutural do mesmo.

Importa, por último, destacar que a proeminência do capital financeiro dentro da estrutura do poder estadunidense, fez com que, até agora, a dirigência política, em lugar de tratar de reconstruir as bases estruturais da economia norte-americana, só haja conseguido criar, mediante uma emissão monetária gigantesca, um "Muro de Dinheiro", a fim de tratar de conter a derrubada da economia norte-americana e, como lógica consequência, do próprio poder norte-americano. (11)

A Caducidade da Atual Ordem Política Internacional


Importa ressaltar que a crise estrutural do poder norte-americano se produz simultaneamente ao extraordinário desenvolvimento industrial e tecnológico do denominado grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e que este fato poderia levar, até o ano de 2025, no caso de esses países continuarem com suas atuais taxas de crescimento, fato que os converteria em Estados-Continentes plenamente industrializados, à incorporação plena dos membros do BRIC ao seio da estrutura hegemônica do poder mundial, que até agora havia estado integrada exclusivamente por Estados Unidos, os Estados mais industrializados da Europa e Japão, e à formação de um novo Sistema Internacional multicêntrico, quer dizer, à conformação de múltiplos centros de poder mundial e à conflagração, por consequência lógica, de novas periferias ao redor desses novos centros de poder.


Resulta então altamente provável que a crise estrutural do poder norte-americano conduza à formação de um Sistema Internacional Multipolar. Estes novos pólos de poder se constituirão, logicamente, no novo diretório, formal ou informal, do mundo. Este diretório, formal ou informal, do mundo estará conformado pelos Estados Unidos que foi o primeiro Estado em se constituir como um Estado continente industrial e que, apesar da crise, conservaram fatores de poder decisivos. A Rússia, um Estado continente em processo de recuperação, a partir de Putin. A China, um Estado continente em processo de industrialização acelerada. A Índia, que praticamente com a mesma quantidade de habitantes que a China é, também, um Estado continente em processo de industrialização. Finalmente, um candidato a integrar este diretório seria o núcleo duro da União Europeia, quer dizer Alemanha e em menor medida a França, (Estados que construíram a união monetária para seu total benefício, razão pela qual Espanha, Itália, Grécia, Portugal e os outros Estados que integram a união ficaram completamente subordinados aos ditados de Berlim e Paris) se conseguem coordenar uma política externa e de defesa comum. Por certo, o Brasil aspira a ocupar um lugar nessa mesa. É preciso remarcar que o Brasil, que se pensa, desde o começo de sua vida independente, como uma potência mundial (12), é hoje o único país da América do Sul que tem vocação de ator global, que quer ter um destino de potência mundial e que está construindo, passo a passo, o poder necessário para respaldar sua aspiração. Recordemos, de passagem, que a Argentina enterrou essa vocação de potência que hoje tem o Brasil, com a morte do presidente Juan Domingo Perón, em 1º de julho de 1974.

Os Estados que se sentem nessa mesa integrarão a nova estrutura hegemônica do poder mundial em processo de maturação. (13)

Uma leitura objetiva da história da Política Internacional permite afirmar com clareza que sempre foram, e seguirão sendo, as condições reais de poder que determinaram a localização e o papel dos Estados no Sistema Internacional, incluídas nessas condições a cultura de uma sociedade e sua psicologia coletiva. Portanto, uma avaliação realista dos elementos que compõem o poder nacional dos distintos Estados presentes no cenário internacional faz prever que o Sistema Internacional, em meados da próxima década, estará caracterizado pela existência de seis centros de poder e que estará marcado por uma forte assimetria, na qual provirão dos respectivos centros as diretrizes regulatórias das Relações Internacionais e para os novos centros se encaminharão os benefícios, enquanto as respectivas periferias serão as provedoras de serviços e bens de menor valor, ficando, desse modo, submetidas às normas regulatórias dos novos centros.

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1 - Ainda que, mesmo em 1960, os Estados Unidos mantinham uma tarifa alfandegária média de 13%.

2 - Importa destacar que essa nova aliança deu como resultado particular que a maioria dos chamados políticos federais (senadores, deputados, governadores, funcionários do governo federal) sejam milionários ou dependam da classe mais rica dos Estados Unidos para obter seu trabalho em Washington. Segundo o Center for Responsive Politics, entre 40 e 50 % dos legisladores federais são milionários (1% da população total o é); a riqueza pessoal média dos 100 senadores é de 13.6 milhões de dólares; a de um representante, de 3.4 milhões. Como resultado geral, essa aliança fez com que os Estados Unidos ocupe o posto 39 (de 136) entre os países mais desiguais quanto à distribuição de renda (o primeiro, Namíbia, o mais desigual, enquanto os países escandinavos são os mais iguais, México, por exemplo, ocupa o lugar 27); nessa lista, os Estados Unidos estão acompanhados de perto por países como Filipinas, Jamaica, Uganda, Costa do Marfim, Irã, Malásia e Nigéria, segundo cálculos do índice GINI compilados pela ONU.

3 - O esquema da nova divisão internacional do trabalho pensada pela elite norte-americana e a conceitualização dos quatro grandes monopólios nós tomamos do grande economista egípcio Samir Amin.

4 - Sobre isso ver: AMIN, Samir, O Hegemonismo dos Estados Unidos e o Desaparecimento do Projeto Europeu, Madri, Ed. El viejo Topo, pgs. 40 e 41.

5 - Alvin Toffler começou a influenciar de maneira notável à elite política e militar norte-americana no ano 1970 com a publicação de seu primeiro livro chamado "O Choque do Futuro" onde sustentava a tese de que a aceleração da História acarretava suas próprias consequências, com independência das orientações reais de mudança, e que a simples aceleração dos acontecimentos e dos tempos de reação produz seus próprios efeitos, tanto se as mudanças se percebem como boas ou como más. Logo, em sua obra "A Terceira Onda", publicada em 1979, Toffler divide a história da civilização em só três partes: uma fase agrícola de "primeira onda", uma fase industrial de "segunda onda" e uma fase tecnológica anti-industrial de "terceira onda", que recém estava começando. Para Toffler, o aparecimento da "terceira onda" se converte na chave para interpretar as mudanças dramáticas que se produzem em seu entorno. A premissa revolucionária que lhe permite interpretar e discernir o sentido dos acontecimentos. As mudanças que ele observa na família, na sociedade, no Estado, desde a quebra da família tradicional, a difusão de cultos, o incremento do horário flexível, o aparecimento dos movimentos separatistas, a crise do Estado-Nação, não são, para Toffler, mudanças isoladas entre si, frutos do azar, mas partes de um fenômeno muito mais amplo, "A morte do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização". (TOFFLER, Alvin, A Terceira Onda, Barcelona, Plaza&Janes, 1981).

Anos mais tarde, Alvin Toffler, em seu livro "A Mudança de Poder", com o qual fecha uma trilogia dedicada a explorar o impacto do "futuro" na sociedade contemporânea, concebe o poder como um banco de três pés, conformado pela riqueza, pela violência e pelo conhecimento. Imagem que o leva a elaborar o conceito de "poder do equilíbrio". TOFFLER, Alvin, A Mudança do Poder, Barcelona, Sudamericana, 1999, p.41

6 - Toffler sustenta que: "A era industrial seccionou o mundo em uma civilização dominante e dominadora da segunda onda e uma infinidade de colônias rudes, mas subordinadas da primeira onda (Toffler entende por sociedades da primeira onda às sociedades agrícolas não industrializadas)... nesse mundo, dividido entre civilizações da primeira e da segunda onda resultava perfeitamente claro quem ostentava o poder".

Na atualidade, afirma Toffler, "...a humanidade se dirige cada vez mais rápido para uma estrutura de poder totalmente distinta que criará um mundo totalmente dividido não em duas, mas em três civilizações claramente separadas, em contraste e competição: a primeira, simbolizada pela enxada, a segunda pela cadeia de montagem e a terceira pelo computador". TOFFLER, Alvin, As Guerras do Futuro, Barcelona, Ed. Plaza&Janes, 1994, p.41.

7 - A cidade de Pittsburg é um exemplo paradigmático do processo de desindustrialização que viveu os Estados Unidos. Pittsburg era conhecida como o "Ruhr estadunidense". Quer dizer: "...o coração da região do aço e do carvão. Sua indústria entrou em colapso na década de 80 e se perderam a metade dos empregos industriais, que hoje representam 8% da força laboral. Trinta anos depois Pittsburg se converteu em um dos centros da indústria de alta tecnologia e da saúde norte-americanas, com 35 universidades e 100 centros de investigação. A indústria sobrevivente se concentra na robótica, na eletrônica e na nanotecnologia". CASTRO, Jorge. "O G20, em busca de retomar o controle das finanças mundiais. Clarin, Buenos Aires, 9 de setembro de 2009, p.15.

8 - As investigações da corrida espacial colocaram às empresas estadunidenses na vanguarda tecnológica, outorgando-lhes uma vantagem competitiva extraordinária, ao mesmo tempo que modificaram a vida quotidiana em todo o planeta Terra. O laser, a fibra ótica, as tomografias computadorizadas, o forno de microondas e até as comidas congeladas tiveram ali sua origem. As técnicas para desidratar e congelar alimentos foram desenvolvidas pela NASA para que os astronautas levassem sua comida em celas pequenas e pudessem prepará-las facilmente. Também foram frutos da investigação espacial os equipamentos de diálise para o rim que purificam o sangue, as técnicas que combinam a ressonância magnética e tomografias computadorizadas para fazer diagnósticos fidedignas, as câmaras de televisão em miniatura que os cirurgiãos colocam em suas cabeças para que seus alunos observem uma operação, as camas especiais para pacientes com queimaduras e até as toalhas térmicas que se usam nos hospitais. A ivnestigação da fibra ótica permite hoje escutar um CD com um leitor laser, que as centrais de celulares transmitam dados ou que se emita informação bancária e financeira, em tempo real, desde e para qualquer lugar do mundo. Como destaca Noam Chomsky: "Desde a Segunda Guerra Mundial, o sistema do Pentágono, incluindo à NASA e ao Departamento de Energia, foi usado como um mecanismo óptimo para canalizar subsídios públicos para os setores avançados da indústria...por meio dos gastos militares, o governo de Reagan aumentou a proporção estatal no PIB a mais de 35% até o ano de 1983, um incremento maior do que 30%, comparado com a década anterior. A guerra das galáxias (proposta por Reagan) foi assim um subsídio público (secreto) para o desenvolvimento da tecnologia avançada... O Pentágono, sob o governo de Reagan, apoiou também o desenvolvimento de computadores avançados, convertendo-se, nas palavras da revista 'Science', 'em uma força chave do mercado' e 'catapultando a computação paralela massiva do laboratório para o estado de uma indústria nascente, para ajudar, dessa maneira, à criação de muitas 'jovens companhias de supercomputação". CHOMSKY, Noam e DIETRICH, Heinz, A Sociedade Global, Buenos Aires, Editorial 21, 1999, p.36

9 - Uma das consequências mais notáveis do processo de desindustrialização norte-americano é o assombroso aumento da pobreza infantil. O Fundo de Defesa das Crianças em seu último informe anual chamado "O estado das crianças dos Estados Unidos 2011" revela que uma em cada cinco menores de idade nos Estados Unidos vive na pobreza. Isso significa que 15.5 milhões de crianças e adolescentes (menores de 18 anos) vivem na pobreza e que a cada 32 segundos nasce outro para se somar a essas condições. O informe enfatiza que os mais afetados são as crianças de cor, ou seja, de minorias raciais e étnicas que hoje representam 44% de todas as crianças estadunidenses, mas que serão maioria para o ano de 2019. "Os menores de idade negros enfrentam uma das piores crises desde a escravidão, e de muitas maneiras as crianças hispânicas e indígenas americanas não estão muito atrás", adverte Marion Wright Edelman, presidente do Fundo de Defesa das Crianças (CDF, por suas siglas em inglês).

10 - Nos primeiros dias de janeiro de 2011, o presidente chinês Hu Jintao, em uma entrevista concedida conjuntamente ao The Wall Street Journal e ao The Washington Post, qualificou sem eufemismos ao sistema monetário internacional baseado no dólar como um "produto do passado" e assegurou que "um processo moderadamente longo, levará a moeda chinesa a se afirmar no plano internacional". CLARIN, 17 de janeiro de 2011, p.19.

11 - Walter Moore, em um interessante artico chamado "Cai o Muro do Dinheiro norte-americano" afirma: "O PIB dos Estados Unidos que no ano 2008, segundo o Banco Mundial, era de 14.305.700 milhões de dólares, diminuiu durante o ano de 2009, em 1.9% (ou seja, 0,275 bilhões de dólares). O déficit fiscal chegou, no mesmo período, a 3 bilhões de dólares e o déficit comercial a 0,57 bilhões de dólares. Todas essas perdas foram pagas com emissão de dólares, graças ao que, desde o ano de 2007, a base monetária dos Estados Unidos se multiplicou em 250%. Segundo o Banco Mundial, no ano de 2008, seu déficit efetivo chegou a 10,2% de seu PIB, ou dito de outra maneira, os Estados Unidos estão emitindo dinheiro por 110% de seu PIB, para pagar seus provedores internos (déficit fiscal) e a seus provedores externos (déficit comercial), e isso não computa a enorme quantidade de dólares que outros países guardam em seus tesouros. Mas essa enorme massa de dinheiro não se destinou a mobilizar o sistema produtivo (a economia real), mas a impedir que entrem em colapso os grandes bancos e organizações financeiras. E o resultado está à vista, os bancos mostram balancetes com grandes lucros, enquanto que a quantidade de desempregados norte-americanos cresceu até quase 10% da população economicamente ativa... A bolha monetária criada pela Reserva Federal norte-americana é gigantesca... se estima que por cada dólar que circula nos Estados Unidos, haja 22 dólares dando voltas pelo mundo. O que implica que, a medida em que o prestígio do dólar se debilita, seus possuidores tentarão comprar bens nos Estados Unidos para preservar o valor de seus papeis com bens reais. E ainda que só a metade dessa enorme massa de dinheiro ingressasse ao circuito monetário dos Estados Unidos, multiplicaria mais de dez vezes a quantidade de dinheiro em circulação, o que geraria nos Estados Unidos um processo inflacionário de tipo similar à hiperinflação sofrida pela economia argentina durante a década de 1980". MOORE, Walter, Se derruba o Muro de Dinheiro norte-americano.

12 - O Brasil emergiu do regime colonial, "...como um Estado-Império que formou a nação, atribuindo-se um destino manifesto de potência, não através da dilatação das fronteiras físicas (do que já não necessitava mais, ainda que anexasse, no início do século XX, o território do Acre, com certa de 500.000 quilômetros quadrados), ainda que sim, com sua consolidação e, psoteriormente, com o esforço do desenvolvimento econômci, apontando para aproveitar e transformar as riquezas naturais dentro das existentes e a conquistar, de acordo com aquela percepção, um status de maior autonomia no sistema internacional de poderes. O fato de que, ao se separar de Portugal, mantivesse sem ruptura da ordem política a unidade de sua vasta extensão territorial e que desfrutasse de plena estabilidade política quase todo o tempo do Império durante o século XIX, cimentou em suas elites e em seu povo, uma consciência de grandeza, suficiência e superioridade diante dos demais países da América Latina". MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto, Argentina, Brasil e Estados Unidos, Da Tríplice Aliança ao MERCOSUL, Buenos Aires, Grupo Editorial Normal, 2004, pgs. 543 e 544.

13 - Sem embargo, é preciso esclarecer que a esse novo multicentrismo não se chegará, sem passar por um intenso período de confronto, dado que, para os Estados Unidos, aceitar uma redução de seu papel no cenário internacional ou, inclusive, uma "repartição" de responsabilidades com a Europa, Japão, Rússia, China, Índia e Brasil, entranharia uma reforma do sistema monetário internacional, a perda do privilégio do dólar e, portanto, longe de permitir uma recuperação sustentada e estrutural de sua economia, afogaria o fluxo que opera em seu favor levando-o ao colapso econômico abrupto que implicaria, por sua vez, no colapso estratégico militar por incapacidade de sustentar o gasto de sua maquinaria bélica.

Nossa principal hipótese é que, os Estados Unidos, devido, entre outros fatores, à crise estrutural que atravessam, vão passar, paulatinamente, de ser uma potência global, a ser uma potência regional. Sem embargo, é necessário remarcar que os Estados Unidos não se vão resignar, pelo menos facilmente, a passar, de potência global a potência regional. É razoável supôr que o poder norte-americano apresentará batalha, uma batalha possivelmente cada vez mais virulenta, em todas as frnetes possíveis. Em tal sentido é que acreditamos que o Sistema Internacional atravessará por um período de grande turbulência. Durante este período, os Estados Unidos da América do Norte usarão tanto seu poder suave, como seu poder duro, a fim de atrasar sua passagem de potência global a potência regional.

Em tal sentido é que, por exemplo, tentam expulsar a China da África Oriental. Esta operação já começou pelo Sudão, aproveitando a terrível violação sistemática dos direitos humanos, que durante anos cometeu o governo sudanês, aliado tradicional de Pequim, contra a população cristã do sul do Sudão, se patrociou a partição do Sudão em dois Estados independentes.

Quanto a Eurásia, os Estados Unidos vão tratar de evitar algo que, para a Europa é fundamental: a aliança com Rússia. A Europa precisa da Rússia e a Rússia precisa da Europa. Enquanto a Rússia encontraria na Europa a tecnologia e os capitais de que precisa para seu pleno desenvolvimento, a Europa encontraria no enorme território russo, a energia e as matérias primas de que necessita para seguir sobrevivendo em um mundo que se encaminha para uma "crise de passagem".

Uma "crise de passagem" é aquela em que, tanto o velho padrão energético, como o velho padrão de industrialização, não terminam de morrer e os novos padrões, chamados a substituí-los, não terminam de nascer. É um período de crise existencial, porque a disponibilidade de diversos minerais escassos e indispensáveis para o processo industrial dependerá a existência mesma das grandes potências. Esta "crise de passagem" só poderá ser superada pela Europa, em aliança com a Rússia. Este cenário representa, para os Estados Unidos, o perigo de perder seu tradicional vassalo europeu.