sábado, 28 de maio de 2016

José Ignacio Moreno Gómez - O Princípio Solidarista de José Antonio Primo de Rivera e de Leon Duguit

por José Ignacio Moreno Gómez



Não se destacou suficientemente a enorme influência da nova Sociologia do Direito, especialmente a do Sindicalismo Solidarista de Durkheim e, acima de tudo, de Léon Duguit, na formação do pensamento do fundador da Falange. Retirando a pretensão antimetafísica do pensador francês, que põe em risco o ser mal interpretada sua negação dos direitos subjetivos, e em contraste com a fundamentação teológica que o líder falangista faz da liberdade e da dignidade da pessoa humana, o paralelismo entre as propostas de um e outro são evidentes, tal e como pretendo expor à continuação.

Direito e Política


Há que insistir, para entender em profundidade José Antonio Primo de Rivera e seu pensamento, que a vocação primigênia do chefe falangista não foi a política, mas o Direito. É por meio do estudo de juristas e filósofos, que se inicia em sua etapa de estudante e continua posteriormente, como chega o fundador da Falange a construir o andaime de estrutura firme e constante a partir do qual realizará sua construção política. José Antonio estuda as reflexões de juristas como Stammler, Ihering, Kelsen, Jellinek, Hariou, Durkheim ou Duguit sobre a regulação dos direitos reais como objeto da ciência jurídica, e se propõe, seguindo filósofos e teólogos como Santo Agostinho, Santo Tomás, Platão, Kant, Hegel ou o positivista Comte, se existe alguma relação desses direitos com aqueles outros princípios metajurídicos que encarnam um ideal de Justiça e que, por isso, não são objeto do Direito, mas da Política. José Antonio se aparta do positivismo quando nos adverte em sua conferência sobre Direito e Política, pronunciada na inauguração do curso do Sindicato Espanhol Universitário de 1935, que todo jurista tem a necessidade de ser político, pois não é honesto, nos diz, incitar à fraude dizendo professar, como único critério organizador da sociedade, a juridicidade. Mas, ao mesmo tempo, uma vez abraçado um ideal (político) de Justiça, terá que cuidar de procurar uma "técnica limpa e exata, pois no Direito toda construção confusa leva escondida uma injustiça". Pode-se afirmar que a aproximação à política do falangista foi, antes de tudo, uma exigência de foco jurídico. José Antonio admitiu, seguindo Stammler, que os fenômenos jurídicos haviam de ser referidos à ordenação de certos meios para conseguir fins pretendidos, a velha ordinatio rationis de Santo Tomás, acrescentando a distinção kantiana entre conteúdo e forma, e defendeu, metajuridicamente, a capacidade dos fatos revolucionários de produzirem uma legitimidade jurídica de origem; princípio que aplicaria à defesa da Ditadura de seu pai, assim como à aceitação do fato revolucionário do 14 de abril como legitimador da 2ª República espanhola, que nasceu rompendo o ordenamento constitucional anterior.


Fascismo ou Solidarismo?


Quando, mais tarde, José Antonio publica em El Fascio seu artigo "Orientações para um novo Estado", não nos fala um seguidor daqueles que, a partir de coordenadas hegelianas, propugnavam um Estado totalitário de soberania plena. Sua proposição tem um enfoque, jurídico e político, que em nada recorda à posição mussoliniana que identificava o povo com o corpo do Estado e o Estado com o espírito do povo, e que reservava todo poder, sem divisões ou restrições, para o Estado, atitude próxima, por paradoxal que possa parecer, à dos defensores do mito da soberania popular. A crítica de Primo de Rivera a essa ideia de soberania, que logo repetirá em A Comédia e em inúmeros escritos posteriores, é a mesma que expõe Léon Duguit em suas lições sobre Soberania e Liberdade. Em José Antonio não existe essa submissão da razão à vontade tão característica do fascismo e dos adictos à soberania nacional. O discurso de José Antonio não é fascista. Seria solidarista?


A Soberania e o Princípio de Solidariedade


O princípio sobre o qual se vertebrarão os sistemas jurídicos dos Estados futuros, segundo a nova sociologia francesa do Direito, terá de ser um princípio de solidariedade. Duguit proclamava que estava em caminho de se iluminar uma nova sociedade baseada no rechaço do direito subjetivo como noção básica do sistema político. Seria o direito objetivo a regra fundamental da sociedade nova. Para Duguit, o fundamento da norma permanente do Estado se encontrava no conceito solidário de liberdade e na divisão do trabalho; quer dizer, nas distintas funções a realizar em uma sociedade unida por laços de solidariedade e cooperação. A liberdade é concebida como um dever, não como uma espécie de soberania individual, mas com mais exatidão, como uma função. Para Duguit, a doutrina da soberania é, na teoria e na prática, uma doutrina absoluta. Rousseau sacralizava o sofisma da ditadura da maioria, de um sufrágio universal que impunha tiranias em nome da democracia parlamentar. O sistema jurídico-político ao qual Duguit aspirava não podia se fundar sobre o conceito de soberania, mas sobre a dependência recíproca que une os indivíduos; quer dizer, sobre a solidariedade e a interdependência.


Liberdade e Serviço


A autonomia individual é um serviço; a atividade dos governantes é o serviço público, afirma Duguit. José Antonio, na conferência que pronuncia em 1935 sobre Estado, Indivíduo e Liberdade, avisa que se o Estado se encastela em sua soberania e o indivíduo na sua, o pleito não tem solução. A única saída, justa e fecunda, para o líder falangista, é que não se proponha o problema da relação entre o indivíduo e o Estado como uma competição de poderes e direitos, mas como um cumprimento de fins e de destinos: "Aceita esta definição do ser-portador de uma missão...floresce a nobre, grande e robusta concepção do serviço... Se alcança a personalidade, a unidade e a liberdade próprias servindo na harmonia total". Primo de Rivera está formulando os mesmos princípios solidaristas de Léon Duguit, amarrando-os com a doutrina de Santo Tomás e da escola de Salamanca.


O Estado Sindicalista Descentralizado

No terreno político, o Estado não justifica sua conduta, como não a justifica um indivíduo, nem uma classe, senão na medida em que não se adapta em cada instante a uma norma permanente, explica o falangista a quem acusam de divinizar o Estado. Assim é como o homem pode fundar todo o sistema político-social sobre o postulado de uma regra de conduta que se impõe a todos. Existe uma "lei orgânica da sociedade", objetiva e positiva, por cima da vontade dos indivíduos e da coletividade, nos diz Duguit. Sobre essa regra se realiza a transformação do Estado, através de uma organização social que deve se basear na descentralização ou federalismo sindical. O sindicato se converte, pois, na corporação elementar da estrutura jurídica ideada pelo jurista francês, e passa de ser um "movimento classista" a desempenhar funções concretas capazes de limitar a ação do governo central.

Léon Duguit em La représentation sindicale au Parlament (1911) concretizou, finalmente, essa ideia de um novo regime político erigido sobre a representação funcional do sindicalismo que, após a revolução russa, se convertia no único meio de assegurar as liberdades próprias da civilização ocidental (Souveraineté et Liberté, 1922). José Antonio é já um sindicalista, neste mesmo sentido, antes de conhecer Ledesma, e é essa a ideia de sindicalismo que permanece em seu pensamento, também após ter se fundido com o grupo das JONS, ainda que se aprofunde mais nela e a radicalize após ler Sorel.

Economia Solidária

Algo similar à transmutação solidarista do contrato social, ocorre com a propriedade privada. No terreno da economia, Duguit rechaçava tanto a luta de classes quanto o direito absoluto à propriedade: ninguém tem "direitos subjetivos" para impôr sua vontade de maneira absoluta. A propriedade é o produto do trabalho e ninguém tem direito a deixá-la improdutiva. A propriedade sobre o capital não é um direito, mas uma função, dirá o francês, para quem a propriedade privada adquire uma função social ao se transmutar de propriedade-direito em propriedade-função. Para José Antonio, a propriedade é um atributo humano distinto ao capital, que é um mero instrumento.

O Estado de Bem-Estar

Sob a inspiração do princípio solidarista, se passa de uma concepção negativa da ordem pública, como a que se tinha no Estado liberal-individualista, à necessidade de ajustar a ideia do contrato social ao postulado do bem comum (ad bonum commune), e a entender que as liberdades individuais vem limitadas pelo princípio solidário da função social. Quando Duguit anuncia a superação do Estado liberla, que desapareceria naquele dia em que a evolução social elvasse os governados a pedirem a seus governantes algo mais que os serviços de defesa, polícia e administração de justiça, está estabelecendo os fundamentos do Estado do Bem-Estar, que viria após a Segunda Guerra Mundial e que hoje encontramos quase desaparecendo. José Antonio vai mais além, pois a finalidade do Estado que ele defende não se limita a procurar um bem-estar puramente materialista, mas que tem como objetivo supremo assegurar condições que permitam aos povos voltar à supremacia do espiritual.

Rumo a um Novo Estado

Duguit foi acusado de anti-estatismo e de anarquizante. Desde o realismo político, Carl Schmitt o situou entre os precursores do "pluralismo desagregador". José Antonio, defendendo ideias parecidas, tem sido qualificado de fascista, totalitário e defensor do pan-estatismo.

Mas assistimos hoje à crise dos Estados nacionais e das organizações internacionais, cada vez com menor margem de manobra para garantir o bem-estar dos cidadãos; presenciamos o auge de um neoliberalismo (principalmente na economia), que estende sua sombra escura de desconfiança à capacidade do Estado de ordenar a sociedade, e que pretende recortar cada vez mais as funções desse; tentam nos inculcar uma fé renovada na quimérica e fracassada mão invisível de Adam Smith, que nos é proposta novamente como panaceia mágica para alcançar o bem de todos mediante o equilíbrio mecânico de egoísmos contrapostos; comprovamos o poder enorme dos grandes trustes multinacionais e transnacionais, e dos grupos de pressão, com uma liberdade de ação cada vez menos limitada nos mercados globalizados.

A ausência de uma armação verdadeiramente fraterna e humana na vertebração das sociedades nos convida também a considerar que o princípio solidarista de Duguit e, acima de tudo, o de José Antonio Primo de Rivera necessita, com prontidão, ser repensado e postos de novo para calibrar, para que essa solidariedade orgânica que eles consideravam como a regra fundamental, seja situada como pedra angular em um novo conceito de Estado e como pilar de uma nova sociedade. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Carlo Terracciano - Jean Thiriart: Profeta e Militante

por Carlo Terracciano



"Eu escrevo para uma espécie de homem que ainda não existe, para os Mestres da Terra..." (F. Nietzsche, a Vontade de Poder)

O desaparecimento súbito de Jean Thiriart foi para nós como um relâmpago em um céu sereno, para nós, militantes europeus que, no curso de muitas décadas sucessivas, aprendemos a apreciar este pensador da ação, especialmente desde seu retorno à política ativa, após um bom número de anos em "exílio interior" onde ele meditou e reformulou suas posições prévias. 

Ainda mais, sua morte nos surpreendeu, seus amigos italianos que ele conheceu pessoalmente em sua viagem a Moscou em agosto de 1992, onde formamos jntos uma delegação europeia ocidental próxima às personalidades mais representativas da Frente de Salvação Nacional. Essa frente, graças ao trabalho do infatigável Aleksandr Dugin, líder geopolítico e místico da revista Den (Dia), veio a conhecer e valorizar um bom número de aspectos do pensamento de Thiriart e os difundiu nos países da ex-URSS e da Europa Oriental. 

Pessoalmente, eu tenho a intenção, nas linhas seguintes, de honrar a memória de Jean Thiriart sublinhando a importância que seu pensamento teve e sempre tem em nosso país, a Itália, nos anos 60 e 70 no domínio da geopolítica. Na Itália, sua reputação se apoiava essencialmente em seu livro, o único que havia realmente dado uma coerência orgânica a seu pensamento no domínio da política internacional: "Europa: Um Império de 400 Milhões", editado por Giovanni Volpe em 1965, quase 30 anos atrás.

Apenas três anos haviam se passado desde o fim da experiência francesa na Argélia. Este evento dramático foi a última grande mobilização da direita nacionalista, não apenas em solo francês, mas em outros países da Europa, incluindo a Itália. As razões profundas da tragédia argelina não foram compreendidas pelos anti-gaullistas que lutaram pela Argélia francesa. Eles não entenderam o que estava em jogo geopoliticamente na questão e que as potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial pretendiam redesenhar os mapas para sua vantagem, acima de tudo os EUA. 

Quantos desses militantes da Argélia francesa entenderam, em sua época, qual era o inimigo principal da França e da Europa? Quantos desses homens entenderam intuitivamente que, no esquema histórico, a perda da Argélia, seguida pela perda da Indochina, como o colapso de todo o sistema europeu veterano-colonial, foram consequências diretas da derrota militar europeia em 1945? Foi, na verdade, uma derrota não só da Alemanha e da Itália, mas da Europa como um todo, incluindo Grã-Bretanha e França. Nem uma única colônia do velho sistema colonial, que por sua vez se tornaram sujeitas a uma nova forma, mais moderna e sutil, de imperialismo neocolonialista.

Ao ponderarem os eventos de Suez (1956) e da Argélia, os "nacional-revolucionários", como eles se chamam, concluíram formulando várias considerações e análises sobre as consequências dessas duas situações tráticas, considerações e análises que os diferenciam ainda mais da "direita clássica" do pós-guerra, animada por um anticomunismo visceral e pelo slogan de defesa do Ocidente, branco e cristão, contra o ataque simultâneo do comunismo soviético e dos movimentos de libertação nacional dos povos de cor do Terceiro Mundo. De certa forma, o choque político e cultural da Argélia pode ser comparado ao que foi, para a esquerda, a totalidade dos eventos na Indochina, antes e depois de 1975. A velha visão da política internacional perfeitamente integrada na estratégia econômica, global e geopolítica da talassocracia americana, os fascistas como pós-fascistas (ou pelo menos fingindo sê-lo), segundo seu projeto geoestratégico de dominação global. Tudo para chegarmos hoje à "Nova Ordem Mundial", similarmente já abortada e que parece ser a caricatura invertida e satânica da "Nova Ordem" eurocêntrica de criação hitleriana.

A Nova Direita francesa, só para dar um exemplo, começou seu caminho no momento dos eventos na Argélia, para embarcar em uma longa marcha de revisão política e ideológica, que resultou na viagem recente de Alain de Benoist a Moscou, um passo obrigatório para todos os revolucionários europeus dissidentes em relação ao sistema global. A aproximação, então, foi feita por Benoist, apesar de seus relapsos e negativas subsequentes, apoiadas por alguns de seus acólitos mais esquálidos, que ainda evidentemente não entenderam completamente a real importância desses encontros entre europeus ocidentais e russos a nível planetário e preferem se perder em disputas de quintal estéreis, que não tem motivações além das pessoas, revelando pequenos ódios e ressentimentos idiossincráticos. Nesse domínio tal como em outros, Thiriart já havia dado o exemplo, ao contrastar as diferenças naturais existentes entre os homens e as escolas de pensamento interessantes, o supremo interesse da luta contra o imperialismo americano e o sionismo.

Retornando à Itália, devemos relembrar a situação que reinava nesse distante ano de 1965, quando a obra de Thiriart foi publicada: as forças nacional-revolucionárias, então integradas no Movimento Social Italiano (MSI), foram então vítimas de um provincialismo antigo-fascista, provincialismo cinicamente utilizado pela hierarquia política do MSI, completamente subserviente à estratégia dos EUA e da OTAN (uma linha política que será subsequentemente seguida fielmente, até mesmo no curso do breve parêntese da liderança "rautista", supostamente inspirada pelas teses nacional-revolucionárias de Pino Rauti, liderança que apoiou a intervenção de tropas italianas no Iraque, ao lado do exército americano). 

Os líderes dessa direita colaboracionista usaram grupos revolucionários na base, essencialmente compostos de gente bem jovem, para criar militantes projetados destinados a, eventualmente, reunir os votos necessários para enviar deputados "entristas" ao parlamento, para servirem como apoio a governos reacionários de centro-direita. E tudo isso, certamente, não estava nos interesses da Itália ou da Europa, mas apenas no da potência ocupante, os EUA. E novamente, nós recebemos um micronacionalismo centralizador e chauvinista, utilizado para o benefício de interesses estrangeiros e cosmopolitas!

Também era a época em que a extrema direita ainda era capaz de mobilizar nas ruas italianas milhares de jovens que proclamavam que Trento e Trieste foram e permaneciam italianas, ou para comemorar a cada ano os eventos na Hungria em 1956! Maio de 1968 ainda estava longe, parecia a anos-luz de distância! A direita italiana, em seus prospectos, não via que essa revolução era prometida. Em tal contexto político e humano, antigo-nacionalista, provinciano e, na prática, filo-americano (que então se abriria na farsa pseudo-golpista de 1970, que levaria consequentemente, no curso de toda a década, os tristemente famosos "anos de chumbo", a seu cortejo de crimes estatais), a obra de Jean Thiriart teve, para um grande número de nacionalistas, o efeito de uma bomba; um choque elétrico salutar que fez com que o extremismo nacionalista encarasse problemas, que certamente não era novos, mas que foram esquecidos ou haviam caído em desuso. Hoje, nós não podemos nem tomar nota dos efeitos políticos práticos que se desdobraram do pensamento de Thiriart, mesmo se esses efeitos, primeiramente, fossem muito modestos. Nós dizemos que a partir da publicação do livro de Thiriart, o tema europeu se tornou aos poucos o patrimônio ideal de toda uma esfera que, nos anos seguintes, se desenvolveria nos temas antiglobalistas de hoje.

Sem exageros nós podemos afirmar que é nessa época que os temas da Europa-Nação, de uma luta anti-imperialista que não era da "esquerda", da aliança geoestratégica com os revolucionários do terceiro mundo, foram desenvolvidos. A adoção desse tema é ainda mais assombroso e significativo quando sabemos que a aventura da Jeune Europe começou com uma luta contra a FLN argelina. Thiriart havia, neste esquema, mudado completamente de campo, sem apesar de tudo modificar substancialmente sua cosmovisão, ele que, algumas décadas antes, havia deixando as fileiras da extrema-esquerda belga para se unir em colaboração com o Terceiro Reich germânico, sem perder de vistas o fator soviético. Essas acrobacias político-ideológicas lhe garantiram acusações de "agente duplo", sempre às ordens de Moscou!

Na Itália, a seção italiana da Jeune Europe (Giovane Europa) foi rapidamente estabelecida. Apesar da origem política da maioria de seus militantes, Giovane Europa não tinha afiliação direta com a Giovane Italia, a organização estudantil do MSI (copiada, por sua vez, da Giovane Italia de Mazzini no século XIX); ao contrário, Giovane Europa era praticamente a antítese, a alternativa oposta. Uma vez que a experiência militante da Giovane Europa terminou, a maioria de seus molitantes se encontrou no Movimento Politico Ordine Nuovo (MPON), oposto à linha política que defendia a participação parlamentar, como os partidários de Pino Rauti queriam, que haviam retornado às fileiras do MSI de Almirante.

Se considerarmos o papel único que o pensamento de Julius Evola teve no esquema ideológico e cultural na Itália, nós não devemos esquecer que Jean Thiriart impulsionou, de sua parte, uma tentativa única de renovar as forças nacionais nesses anos e nos anos vindouros. Mesmo Giorgio Freda reconheceu suas dívidas, no esquema das ideias, para com o militante e pensador belga.

Outro aspecto particular e muito importante do livro "Europa: Um Império de 400 Milhões", é ter antecipado, em muitas décadas, um tema fundamental, recentemente chegado ao debate, notavelmente na Rússia, graças às iniciativas de Aleksandr Dugin e da revista Den, e na Itália, graças às revistas Orion e Aurora: geopolítica. 

A primeira frase do livro de Thiriart, na versão italiana, é exatamente dedicada a essa ciência essência que tem como seus objetos os povos e seus governos, uma ciência que esteve submetida, após o período da guerra, a um longo ostracismo, sob o pretexto de ter sido o instrumento da expansão nazista! Uma acusação, no mínimo, incongruente já que sabemos que em Yalta os vencedores repartiram os espólios da Europa e do resto do mundo com base em considerações geopolíticas e geoestratégicas. Thiriart estava perfeitamente consciente, ao escrever seu primeiro capítulo, significativamente chamado "De Brest a Bucareste. Apagar Yalta": "No contexto da geopolítica e da civilização comum, como será demonstrado depois, a Europa unitária e comunitária se estende de Brest a Bucareste". Ao escrever essa frase, Thiriart propôs os limites geográficos e ideais de sua Europa, mas depois ele ultrapassaria estes limites, para chegar a uma concepção unitária do grande espaço geopolítico, ou seja, Eurásia. 

Mais uma vez, Thiriart demonstrou que ele era um antecipador lúcido de temas políticos que só amadureceram lentamente entre seus leitores, pelo menos alguns deles...

Mas não é só isso! 

Conjuntamente ao grande ideal da Europa-Nação e à redescoberta da geopolítica, o leitor é obrigado a olhar de novo para os grandes espaços do planeta. Foi outro mérito de Thiriart ter ultrapassado o trauma europeu da era da descolonização e ter encontrado, para o nacionalismo europeu, uma aliança estratégica global com os governos do terceiro mundo, não subservientes ao imperialismo, em particular na zona islâmica árabe, no norte da África e no Oriente Médio. É verdade que aqueles que descobriram a geopolítica não poderiam fazer nada além de ver os eventos do mundo sob uma nova luz, uma nova perspectiva. E é neste contexto, por exemplo, que devemos compreender as numerosas viagens de Thiriart ao Egito, à Romênia, etc., bem como seus encontros com Zhou Enlai e Ceaucescu ou com os líderes palestinos. Em todo lugar em que fosse possível fazer algo, Thiriart buscou tecer uma rede de informação planetária e alianças em uma perspectiva anti-imperialista. Ademais, nós notamos ao mesmo tempo que a revolução cubana, com sua originalidade, exerceu de sua parte sua própria influência.

Com este estilo sintético, quase telescópico, Thiriart ele mesmo traçou em seus textos as linhas essenciais da política externa da Europa unida futura: "As linhas diretivas da Europa unitária: com a África: simbiose; com a América Latina: aliança; com o mundo árabe: amizade; com os EUA: relações baseadas na igualdade"

À parte da utopia que era sua esperança de relações iguais com os EUA, nós notaríamos que sua visão geopolítica era perfeitamente clara: ele queria grandes blocos continentais e esteve distante em toda sua visão de uma pequena Europa "atlântica e ocidental" que, como hoje, é apenas um apêndice oriental da talassocracia ianque, tendo o Oceano Atlântico como centro de gravidade, reduzida à função de "lago interno" dos EUA. 

Certamente, hoje, após a aventura política de Thiriart, algumas dessas opiniões geopolíticas, no milieu "nacional", poderiam parecer evidentes, banais, para alguns, simplistas e integráveis para outros. Mas tirando o fato de que tudo isso dificilmente era claro para o conjunto de "nacionalistas" (é suficiente pensar em certas ressurgências racistas/biologicistas e anti-islâmicas de pseudo-nazismo, utilizadas e instrumentalizadas pela propaganda americana e sionista para um fim anti-europeu), nós não cansamos de repetir que com trinta anos, essa opinião puramente geopolítica de Thiriart, incólume de quaisquer conotações racistas, se apresentam muito originais e corajosas, em um mundo bipolar, aparentemente opondo dois blocos ideológicos e militares antagônicos, em uma perspectiva "horizontal" de conflito entre Oriente e Ocidente e sob a ameaça de aniquilação militar mútua, acima de tudo para os "aliados" das duas maiores potências na Europa.

Podemos afirmar hoje que se muitos entre nós, na Itália, progressivamente passaram a superar essa falsa visão dicotômica de conflito planetário, e bem antes do colapso da URSS e do bloco soviético, é graças principalmente ao fascínio que as teses propagandas por Thiriart exerceram na época, com suas intuições brilhantes. 

Efetivamente, nós podemos falar em "brilhantismo", na política como em todos os outros domínios do conhecimento humano, quando se prevê e expõe (do latim exponere, pôr para fora, colocar em evidência) os fatos ou eventos que ainda estavam ocultos, desconhecidos, confusos para outros e apenas gradativamente emergiam de seu estado oculto para acontecer claramente para o mundo em um futuro mais ou menos distante. Neste capítulo, nós queremos simplesmente relembrar as afirmações de Thiriart sobre as dimensões geopolíticas do futuro Estado europeu, contidas no capítulo (10, §1) chamado "As Dimensões do Estado europeu. A Europa de Brest a Vladivostok" (pp.28 a 31 da edição francesa):

"A Europa desfruta de uma grande maturidade histórica, ela a partir de então conhece a vaidade de Cruzadas e guerras de conquista na direção do Oriente. Após Carlos XII, Bonaparte e Hitler, ela pode medir os riscos de empreendimentos similares e seu preço. Se a URSS quer manter a Sibéria, ela deve fazer paz com a Europa, com a Europa de Brest a Bucareste, eu repito. A URSS não tem e terá cada vez menos força para manter tanto Varsóvia e Budapeste de um lado, e Tchita e Khabarovsk do outro. Ela deve escolher ou se arriscar a perder tudo".

Ainda:

"Nossa política diferia da do general De Gaulle porque ele cometou ou cometê três erros: Colocar a fronteira da Europa em Marselha e não na Argélia; Colocar a fronteira do bloco soviético/Eropa nos Urais e não na Sibéria; Finalmente, querer lidar com Moscou antes da libertação de Bucareste" (pg. 31)

À leitura desses dois breves extratos, não podemos dizer que Jean Thiriart carecia de perspicácia e previsão. Mas essas frases foram escritas, repetimos, em uma época em que militantes europeus sinceros, mesmo os mais audaciosos, mal conseguiram conceber uma unidade europeia de Brest a Bucareste, isto é uma Europa limitada à península ocidental da Eurásia; para Thiriart, isso já representava tão somente um passo, uma plataforma para lançar um projeto muito mais vasto, o de unidade continental imperial. Não falemos, portanto, de direitos nacionalistas, incluindo os de hoje, que apenas repetem infinitamente seu provincialismo, sob o olhar vigilante de seu patrão americano.

Já se passaram trinta anos, Thiriart vai mais longe: ele denunciou todo o absurdismo geopolítico do projeto gaullista (De Gaulle foi mais um responsável direto pela derrota da Europa, em nome do chauvinismo antigo-nacionalista do Hexágono) de uma Europa se estendendo do Atlântico aos Urais, endossando essa visão continental absurda, própria de professores de geografia, que traça em mapas de papel uma fronteira imaginária até os picos dos Urais, que jamais detiveram ninguém, nem os hunos, nem os mongois, nem os russos.

A Europa se defende nas margens dos rios Amur e Ussuri; a Eurásia, isto é, Europa mais Rússia, tem um destino claramente traçado pela história e geopolítica do Oriente, na Sibéria, no extremo oriente da cultura europeia, e este destino se opõe ao Ocidente da civilização americana da Bíblia e do Business. Quanto a história de encontros e confrontos entre povos, não é nada além da geopolítica em ato, tal como a geopolítica não é nada além dos destinos históricos dos povos, nações, etnias e imperios, mesmo religiões, em potência. De passagem, nós devemos acrescentar que a concepção de Jean Thiriart, dado que ela estava ainda ligada a modelos "nacionalistas" influenciados pela França revolucionária, era finalmente mais "imperial" do que imperialista. Ele sempre recusou, até o fim, a hegemonia definitiva de um povo sobre todos os outros. 

A Eurásia de amanhã não será mais russa do que mongol, turca, francesa ou germânica: já que quando todos esses povos exerceram hegemonia singular, eles falharam. As falhas devem servir como lições.

Quem poderia, trinta anos atrás, ter previsto com tamanha precisão a fraqueza intrínseca desse colosso militar-industrial que era a URSS, que parecia à época sempre lançada na conquista de novos espaços, em todos os continentes, em competição dura com os EUA, que depois a ultrapassaria? 

Com o tempo, finalmente, tudo foi revelado como um imenso blefe, uma miragem histórica provavelmente fabricada a partir do zero por forças globalistas no Ocidente para manter povos na servidão com, sua chave, constantes chantagens por terror. Tudo isso para manipular os povos e nações da Terra para o benefício do interesses estratégico supremo, apresentado como única "verdade": o da superpotência planetária que são os EUA, base armada territorial do projeto globalista. Finalmente, falando na língua da geopolítica, foi a "política da anaconda" que prevaleceu, como definida no passado, com as mesmas palavras, pelo geopolítico alemão Haushofer, e definida hoje pelos geopolíticos russos, à cuja cabeça está o coronel Morozov; os americanos e globalistas sempre buscam remover o pivô territorial da Eurásia de saídas potenciais para mares quentes, antes de abocanhar pedaço por pedaço o território da "telurocracia" soviética. O ponto de partida para essa estratégia de abocanhar: Afeganistão.

Jean Thiriart já havia trazido à luz, em seu livro em 1965, as razões brutas e cruas que animam a política internacional. Não é por acaso, de qualquer maneira, que um de seus modelos foi Maquiavel, autor do Príncipe. Certamente, pessimistas nos dirão, se o Thiriart analista político havia sabido antecipar e prever, o Thiriart militante, organizador e líder político do primeiro modelo de uma organização europeia transnacional, falhou nisso. Ou porque a situação internacional à época não estivesse suficientemente madura (ou podre), como afirmamos hoje, ou porque não houve "santuário" de partida, como Thiriart havia julgado indispensável. Na verdade, ele carecia na Jeune Europe de um território livre, um Estado completamente estrangeiro às condições impostas pelas superpotências, que pudesse servir de base, de refúgio, de fonte de provisão para os militantes europeus do futuro. Um pouco como Piemonte foi para a Itália. 

Todos os encontros de Thiriart a nível internacional objetivava isso. Todos falharam. De forma realista, Thiriart renunciou à participação política, retomando seu discurso e aguardando que a ocasião se apresentasse, e mesmo uma melhor ocasião, de ter um grande país a partir do qual ele pudesse propôr sua estratégia: a Rússia. O destino desse cidadão belga de nascimento, mas europeu por vocação, foi estranho: ele foi sempre "atemporal", surpreso por eventos. Ele sempre os previu, mas foi sempre ultrapassado por eles.

Sua concepção de geopolítica eurasiana, sua visão que designava globalmente os EUA como o inimigo objetivo absoluto, pôde ser percebida como indicações de um "visionarismo" iluminado, freado somente por um espírito racional cartesiano, e racionalizante em última instância.

Seu materialismo histórico e biológico, seu nacionalismo europeu centralizador e totalitário, seu fechamento para temas ecológicos e animais, suas posições pessoais em relação a especificidades etnoculturais, sua hostilidade principiológica a todo pathos religioso, sua ignorância de dimensões metapolíticas, sua admiração pelo jacobinismo da Revolução Francesa, tudo isso são pedras de tropeço para um bom número dos antiglobalistas francófonos: tudo isso constituía os limites de seu pensamento e os resíduos de concepções antigo-materialistas, progressistas e darwinistas, cada vez mais distantes das escolhas políticas, religiosas e culturais contemporâneas, entre os homens e povos engajados, por toda a Eurásia e mundo, na luta contra o globalismo. As ideias "racionalistas" que Thiriart endossava foram, ao contrário, o solo político e cultural sobre o qual o globalismo germinou no curso de séculos passados. Estes aspectos do pensamento de Thiriart revelavam seus limites, durante os últimos meses de sua existência, notavelmente nos colóquios e conversas em Moscou em agosto de 1992. Seu desenvolvimento intelectual parece ter sido definitivamente preso na época do historicismo linear e progressivo, com sua mitologia de um "futuro radiante para a humanidade".

Tal visão racionalista não lhe permitiu compreender fenômenos tão importantes quanto o renascimento islâmico ou o novo "misticismo" russo eurasiano, bem como suas projeções políticas de teor altamente revolucionário e antiglobalista. E nem falemos no impacto das visões tradicionalistas de um Evola ou um Guénon. Thiriart, assim, transmitia sua deficiência "cultural", o que não nos impediu de nos encontrarmos em Moscou em agosto de 1992, onde colhemos suas inúmeras intuições políticas. 

Algumas de suas intuições foram feitas junto a jovens militantes europeus que foram encontrar os protagonistas da vanguarda "eurasiana" da Frente de Salvação Nacional Russa, reunidos ao redor da revista Den e do movimento de mesmo nome. Nós descobrimos, assim,na capital do antigo império soviético que ele foi perfeitamente reconhecido como pensador de vanguarda pelos russos. Os ensinamentos geopolíticos de Thiriart haviam germinado na Rússia, é indubitável, enquanto no Ocidente eles sempre foram ignorados, ou mesmo desprezados. Thiriart teve um impacto profundo nas distâncias glaciais da Rússia siberiana, no coração do Velho Mundo, perto ao pivô central da telurocracia eurasiana.

É uma ironia na história das doutrinas políticas, que se ergue no momento de sua atualização prática ou é a enésima confirmação desse velho adágio, "ninguém é profeta de seu próprio século?" O longo "exílio interior" de Thiriart parecia, assim, terminado, ele havia se retirado da política ativa definitivamente e havia superado essa aposentadoria que, desde o início, foi uma grande farsa. Ele nos inundou com documentos escritos, gravações de depoimentos orais. A inundação nos pareceu intermináve! Como se ele buscasse compensar pelo tempo perdido em silêncio desdenhoso. 

Movido por um entusiasmo juvenil, às vezes excessivo e cansativo, Thiriart se comprometeu a dar lições de história e geopolítica, ciências exatas e ciência política, e quaisquer outras disciplinas imagináveis, para o público geral e jornalistas, para parlamentares e escritores, para políticos da ex-URSS e militantes islâmicos da CEI, e também, certamente, para os italianos presentes, que haviam, ao mesmo tempo que ele, conhecido mudanças de opinião, aparentemente inesperadas. E tudo isso aconteceu na Rússia de hoje, onde tudo, a partir de então, é possível e nada é garantido (e que pode ser, quem sabe, a Rússia de amanhã quando este artigo aparecer); nós lidamos realmente com uma Rússia suspensa entre um passado glorioso e um futuro sombrio, mas plena de possibilidades inimagináveis. Foi lá que Jean Thiriart encontrou uma nova juventude.

Em uma Moscou que sobrevive dia após dia entre apatia e febrilidade, parecendo aguardar por "algo" cujo nome ou rosto não conhecemos; uma cidade onde tudo acontece, onde tudo pode acontecer em uma dimensão especial, entre o céu e a terra. Em solo russo tudo e seu oposto pode emergir: salvação e perdição, renascimento ou o fim, um novo poder ou a desintegração total de um povo que foi imperial e foram transformados hoje em plebeus miseráveis. Ao fim, é este, e apenas este, que é o destino de todos os povos europeus e, finalmente, do planeta Terra. A alternativa é muito clara: nós teremos um novo império eurasiano que nos guiará na luta pela libertação de todos os povos do planeta ou assistiremos ao triunfo do globalismo e da hegemonia americana pelo próximo milênio. Foi ali que o escritor e político Jean Thiriart encontrou a esperança de pôr em prática suas intuições passadas, dessa vez em escala muito mais vasta. 

Neste solo russo, onde o exército messiânico dos povos da Eurásia, novo avatar de um ciclo de civilização ou o Anticristo da profecia de João pode surgir, nós teremos um espaço para toda alquimia e experiência política, inconcebível se olharmos com os olhos de um ocidental. A Rússia hoje é um imenso laboratório, um território político virgem que pode fertilizar os enxertos que vem de longe, um território virgem onde liberdade e poder buscam se unir e tentar uma nova síntese: "O caminho da liberdade passa pelo do poder", Thiriart sublinhou em seu livro fundamental:

"Assim, não deve ser esquecido, ou é necessário ensinar aos que são ignorantes. A liberdade do fraco é um nobre mito, uma engenhosidade para uso demagógico ou eleitoral. Os fracos nunca foram livres e nunca serão. Só a liberdade do forte existe. Quem quer ser livre deve querer ser poderoso. Aquele que quer ser livre deve ser capaz de deter outros homens livres, porque a liberdade é invasiva e tende a se expandir sobre a de vizinhos fracos".

Ou ainda:

"É criminoso, do ponto de vista da educação política, tolerar que as massas possam ser intoxicadas por mentiras debilitantes como aquelas que consistem em 'declarar paz' aos seus vizinhos, imaginando que eles possam manter sua liberdade. Cada uma de nossas liberdades foi adquirida após lutas repetidas e sangrentas e cada uma delas só poderá ser preservada se demonstrarmos a força capaz de desencorajar aqueles que nos querem tomá-las. Mais do que os outros, nós desfrutamos de muitas liberdades e rejeitamos inúmeras limitações. Mas nós sabemos o quanto essas liberdades são perpetuamente ameaçadas. Seja como indivído, ou como nação, nós conhecemos a fonte da liberdade e que ela é o poder. Se quisermos preservar a primeira, devemos cultivar a segunda. Eles são inseparáveis". (p. 301-302)

Eis uma página que, por si mesma, poderia garantir a seu autor um posto acadêmico em história das ciências políticas. Quando tudo parece possível novamente e quando o jogo das grandes estratégias políticas retorna à vanguarda, em um tabuleiro de xadrez tão grande quanto o mundo, quando Thiriart mal havia vislumbrado a possibilidade de dar vida a sua grande ideia de unidade, ali surgiu o último golpe do destino: morte. Apesar de sua inevitabilidade, é um evento que sempre nos surpreende, que nos deixa com uma sensação de pesar e incompletude. No caso de Thiriart, o fato da morte fez o espírito vagar e imaginamos tudo que este homem de elite poderia ter ainda trazido para nossos combates, tudo que ele poderia ter ainda ensinado àqueles que partilhavam de nossa causa, mesmo que em simples trocas de opinião, mesmo que apenas fazendo proposições em questões políticas e culturais. No fim das contas, cabe a nós sublinhar a completude da obra de Thiriart. Mais do que qualquer outro, ele havia sistematizado completamente seu pensamento político, ao mesmo tempo sempre permanecendo plenamente coerente com suas próprias premisas e permanecendo fiel ao estilo que ele deu a sua vida. 

Para ele não podemos dizer qualquer coisa post mortem que ele já não houvesse dito, nem adaptando seus textos e suas teses às demandas políticas do momento. O fato permanece, indubitavelmente, que sem Jean Thiriart, nós não seríamos o que nos tornamos. Em efeito, nós somos todos herdeiros no esquema de suas ideias, que conhecemos pessoalmente ou através de seus escritos. Nós temos sido, de um momento ou outro de nossa vida política ou missão ideológica, os devedores de suas análises e intuições meteóricas. Hoje, nos sentimos todos como órfãos.

Neste instante, queremos recordar um escritor político, um homem que era simplesmente apaixonado, ríspido, com vitalidade transbordante, um rosto sempre iluminado com um sorriso juvenil e uma alma animada por uma paixão flamejante, a mesma que queima em nós, sem vacilar, sem a menor incerteza ou dobra. 

O caso de Jean Thiriart? É a encarnação viva, vital, de um homem de elite que levou seu olhar à distância, que viu mais além, para além das contingências do presente, onde as massas permanecem prisioneiras. Eu quis pintar o retrato de um profeta militante. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Alfonso Beltrán - Alessandro Pavolini: O Fascismo Intransigente

por Alessandro Pavolini



"O fascismo é revolução e não Vendeia, povo e não casta, trabalho e não dinheiro" (Berto Ricci)

"Para trás não se volta, disse o Duce! E para frente, quando se vai?" (Mino Maccari)

"O importante é morrer bem. Morrer bem e com honra. Morrer pelo Duce" (Alessandro Pavolini)

Sob o título L'ultimo Poeta Armato (1) publicou-se recentemente na Itália um interessante estudo sobre Alessandro Pavolini, Ministro-Secretário do Partido Fascista Republicano (PFR) durante a breve e tormentosa etapa de governo da República Social Italiana (RSI), também conhecida como "República de Salò".

Não haveria nada de surpreendente neste fato, se não fosse pela circunstância extraordinária de que se trata do primeiro trabalho sério sobre a vida e a obra do personagem, talvez, mais influente e atrativo da RSI (chegou a ser qualificado como o "Saint-Just de Salò" ou, inclusive, "Lin Biao com camisa negra") saído de um autor e de uma editora que podem ser adscritos sem dificuldade ao complexo mundo político-cultural denominado "neofascismo".

Como é possível que com quase sessenta anos de seu trágico desaparecimento nenhum estudioso qualificado dessa área político-cultural haja sentido a necessidade, não de reivindicar ideológica e humanamente a figura de Pavolini, mas nem ao menos de plasmar por escrito o essencial de seu pensamento e da natureza de sua obra?

Até o momento, sobre Pavolini, à parte condenações unânimes vindos do antifascismo e silêncios cúmplices do neofascismo, existia somente uma biografia onde se narrava de forma novelesca os episódios fundamentais da vida e morte do hierarca fascista, cujo título era já, por si mesmo, bem explícito: Pavolini: O Superfascista.

Publicada pela primeira vez em 1982, escrita a partir de uma aberta hostilidade política, não carecia, porém, de expressões de admiração sincera pela personalidade do único dirigente de Salò preso com armas em mãos e fazendo uso delas antes de ser ferido, capturado e finalmente fuzilado junto a outros ministros e dirigentes fascistas especialmente comprometidos com a linha intransigente e revolucionária que o secretário do PFR encarnava.

"Salò Negra" versus "Salò Tricolor"

Em seu bem documentado estudo, Massimiliano Soldano não entra nas razões que levaram ao esquecimento, à negação, à erradicação até, da figura humana e política de Alessandro Pavolini dentro do ambiente político neofascista, mas aporta significativos elementos de juízo para ratificar uma tese pouco conhecida, mas que não carece de interesse, e que explicaria tomadas de decisão e opções políticas, tanto durante, como depois da experiência história da RSI.

Segundo esta tese, teriam existido, para efeitos interpretativos, duas "Salò". Por um lado, a "Salò Negra", agrupada ao redor do Partido e da liderança de seu Secretário; e pelo outro, a "Salò Tricolor", que afirmava a proeminência da nação, contraposta à facção, quer dizer, ao fascismo, e que se reconhecia nas figuras de militares "apolíticos" e nas proprias Forças Armadas como garantia da continuidade nacional.

As figuras mais representativas dessa última tendência seriam precisamente dois destacados expoentes da casta militar italiana: o marechal Rodolfo Graziani, comandante das forças militares de Salò e Ministro de Defesa; e o príncipe Junio Valerio Borghese, comandante da X Flotilha MAS, uma das mais importantes unidades militares do Régio Exército Italiano até 1943 primeiro e da RSI depois do infame armistício de 8 de setembro do mesmo ano.

Não por casualidade, após a derrota das forças do Eixo e a posterior proclamação da "república democrática italiana", será esta "Salò Tricolor" que encarnará a suposta "continuidade ideal com a República Social Italiana", convertendo-se assim na fonte de duvidosa legitimidade para as forças políticas que reivindicavam a herança do último fascismo.

De fato, Graziani e Borghese, se sucederão na presidência tanto do Movimento Social Italiano (MSI) como das associações de ex-combatentes de Salò, mas nenhum dos dois, assim como muitos outros militares e civis que se identificaram com eles, havia aderido à RSI por razões políticas e ideológicas (nunca foram fascistas, nem nunca se afirmaram como tal) mas por valorações de ordem pessoal e sentimental (meramente patrióticas), quando não para cometer atos de sabotagem interna contra o esforço de guerra da Alemanha nacional-socialista e do fascismo italiano.

O Fascista de "Boa Família"

Alessandro Pavolini nasceu em Florença, em 27 de setembro de 1903 no seio de uma família da alta burguesia toscana. Seu pai, Paolo Emilio, acadêmico italiano, era um dos mais célebres filólogos de seu tempo, especialista em línguas indo-europeias, poliglota e homem de imensa cultura, entre outras coisas, uma autoridade mundialmente reconhecida em sânscrito.

Neste ambiente familiar, elegante e culto, crescerá o jovem Alessandro, frequentando desde a adolescência os salões e círculos da aristocracia florentina e da intelectualidade burguesa mais refinada. Nada podia pressagiar que o jovem de "boa família" se converteria com o passar do tempo no mais radical e intransigente líder do fascismo revolucionário, o mais comprometido com suas tendências sociais (na verdade, socialistas) e o mais firme partidário da linha proletária.

O fascismo florentino, tumultuoso e inquieto, verá em setembro de 1920 o ingresso no partido do jovem intelectual burguês, que participará plenamente nas lutas intestinas do fascio toscano. Em outubro de 1922 se integra nas esquadras florentinas que marcham sobre Roma. De regresso a sua cidade, continua ascendendo no organograma local do Partido Nacional Fascista (PNF), publica seu primeiro livro ("Giro d'Italia", 1927) e se converte, em 1929, em federale da província.

Como máxima autoridade política de Florença realiza importantes iniciativas de caráter civil e, especialmente, cltural. Em meio a uma viva polêmica estética fará construir a nova e funcional Estação Central de Florença. Também serão criaturas suas o circuito automobilístico de Mugello e o estádio municipal de Campo de Marte. Ainda hoje, apesar do tempo transcorrido, sobrevivem em Florença acontecimentos culturais pensados, projetados e postos em marcha pelo futuro comandante das Brigadas Negras: o Maio musical, o encontro anual de "calcio medieval" e a mostra de artesanato em Ponte Vecchio.

No mesmo ano de sua nomeação como federale, Pavolini funda um semanário chamado Il Bargello, órgão da federação fascista florentina, que aparecerá até o ano de 1943 e que será, sem dúvida, "o periódico fascista mais interessante e mais aberto" (Petacco). No mais, o fascio toscano havia dado mostras já de uma inquietude político-cultural e de uma vivacidade ideológica que escapava aos burocráticos esquemas da normalização e institucionalização do regime de Mussolini e do PNF após 1925. La Conquista dello Stato de Malaparte, Il Selvaggio de Maccari ou L'Universale de Berto Ricci, são boa mostra do inconformismo da publicística fascista local.

O Fascismo-regime havia transformado a revolução em administração, marginalizando os partidários do fascismo-movimento que viverão, a partir de então, em uma espécie de exílio interior até a proclamação da RSI.

O Fascismo como Revolução do Povo

"Nosso semanário quer ser um periódico à florentina, não uma revista à americana. Vinho novo e, acima de tudo, vinho nosso", declarará no primeiro editorial de Il Bargello seu diretor, Alessandro Pavolini.

A temática da revista será comum a muitas outras iniciativas espalhadas pelo continente europeu naqueles anos e participará de uma cultura política comum a boa parte da intelectualidade inconformista do entre-guerras, a qual posteriormente será qualificada, um pouco sumariamente, como "fascismo de esquerda".

O fascismo como Revolução do Povo ou como fenômeno universal, como revolução radical contínua ou como vanguarda revolucionária de massas enquadradas totalitariamente em uma batalha antiburguesa e antidemocrática que deveria levar a um mundo novo. Tal é a temática de fundo da revista criada pelo comissário federal florentino.

Por isso, não duvida em aglutinar as três revoluções em marcha na Europa do primeiro pós-guerra: "Massas revolucionárias, disciplinadas e ardentes, enchem as praças e os estádios de Roma, Moscou e Berlim. Camisas negras, blusas soviéticas e camisas pardas. Fascios litórios, estrelas vermelhas, cruzes gamadas. E milhões de faces e gritos. E três almas coletivas".

Nada distinto do que escreveria, alguns anos depois, Ramiro Ledesma Ramos em seu Discurso às Juventudes da Espanha dentro de sua digressão sobre o perfil subversivo da nova Europa revolucionária. E com eles, outros tantos teóricos do pensamento antidemocrático [1].

Da coerência fascista e radical do pensamento pavoliniano já naquela época dá mostra o seguinte fragmento do livro de Soldani: "Contrariamente a quanto se escreveu, o amadurecimento ideológico e pessoal de Pavolini não tem nada a ver com a de Galeazzo Ciano, assim, será precisamente em 1938 (período de êxito para o Ministro do Interior) quando começará o distanciamento intelectual entre os dois: uma fratura insanável por causa, principalmente, do diferente modo de entender o fascismo. O primeiro sinal desse desacordo (...) se manifestará durante a crise espanhola e a guerra civil (...). Durante sua breve etapa espanhola, de fato, havia ficado impressionado pela figura de García Lorca, por suas poesias e por sua trágica morte. [Pavolini] Não admirava Franco, nem a Espanha franquista à que se negava a considerar como um Estado Novo, quer dizer, revolucionário segundo a acepção fascista (...)"

Em realidade, os motivos do apoio do regime de Mussolini ao levante militar de Franco nunca foram de ordem ideológica, como tampouco o foi a hostilidade contra a Segunda República espanhola [2]. Não era algo excepcional, Berto Ricci, um dos principais intelectuais do fascismo radical durante os anos 30, fazia eco dessa falta de compromisso do fascismo com as tendências reacionárias do momento: "As famosas perseguições no México, na Espanha, na Rússia, etc., nos comovem muito pouco e, de qualquer modo, não acreditamos que seja o caso de fazer disso uma questão nacional.

Só uma crítica histórica superficial pôde equiparar o franquismo e os regimes autoritários do entre-guerra por um lado, com o fascismo e o nacional-socialismo pelo outro. E não é demais recordar, neste sentido, que a Espanha franquista não reconheceu nunca a República Social Italiana.

Em 1935, Pavolini, piloto de guerra, participa na campanha da Etiopia. Continua publicando contos e narrativas diversas. Colabora como correspondente internacional na imprensa oficial da época. Viaja ao norte e ao centro da Europa, à Turquia e ao Oriente Próximo, à América do Sul. Escreve naqueles anos seu mais belo e conhecido romance Scomparsa d'Angela.

O Minculpop

Não por azar foi citado anteriormente o conde Galeazzo Ciano. Ciano, genro do Duce, é a estrela ascendente do regime fascista durante os anos 30. Em 1934, Pavolini foi eleito deputado para a Câmara dos Fascios e das Corporações, travando amizade com o então Ministro de Imprensa e Propaganda. Será essa amizade, baseada na paisagem comum e na posse de uma refinada cultura, que impulsionará o jovem poeta e novelista florentino a ascender no organograma político do regime até alcançar sua nomeação como Ministro de Cultura Popular (Minculpop) em 1939, um mês depois do início da Segunda Guerra Mundial [3]. Um cargo com bastante responsabilidade e certo peso específico dentro do Estado.

Afirma Petacco: "O Minculpop que Alessandro Pavolini herda de Dino Alfieri é, na ocasião, uma máquina bem lubrificada que permite ao regime controlar um dos setores mais delicados da nação. Dependem do Ministério de Cultura Popular a imprensa, a rádio, o teatro, o cinema e o turismo. E se trata de uma dependência total. O Minculpop estabelece a linha que todos os periódicos devem seguir, escolhe seus diretores, assinala jornalistas a contratar ou demitir".

Mas, ao fim, se trata de um posto burocrático e, para um poeta que ama a ação, não é um destino que satisfaça suas ambições pessoais e estéticas.

Como Minculpop, assistirá às pouco gloriosas vicissitudes italianas na guerra, constatará o lento declínio do regime da diarquia, entabulará amizade com seu homólogo alemão Joseph Goebbels, expoentes do "romantismo de aço", suas vidas correrão paralelas até o trágico fim de ambos, fieis até a morte a seus respectivos chefes, e conhecerá na meca do cinema italiano, o Cinecittà, a mais famosa atriz fascista do momento, Doris Duranti, com a qual viverá um tórrido romance pouco antes da morte do Ministro.

Em 6 de fevereiro de 1943 é retirado de seu cargo e nomeado diretor do Il Messagero de Roma. À frente desse diario lhe surpreende a queda de Mussolini e de seu regime em 25 de julho. Os acontecimentos se precipitaram e o rei, após aceitar a demissão do Duce e prendê-lo por motivos de "segurança", nomeia o marechal Badoglio como novo Chefe de Governo. Badoglio é um inimigo jurado de Pavolini desde que este denunciara perante o Duce as críticas vertidas pelo marechal em 1940, questionando a capacidade militar de Mussolini na condução da campanha grega.

O novo Chefe de Governo, elemento típico da casta militar monárquica, não é dos que esquecem. Após prometer, falsamente, aos alemães prosseguir a guerra a seu lado, começa a ajustar contas com todos os irredutíveis do fascismo. Ettore Muti, às da aviação italiana, medalha de ouro e heroi da revolução fascista, cairá morto em circunstâncias obscuras nas mãos dos carabineiros enviados por Badoglio para prendê-lo. Pavolini é o seguinte da "lista negra" de Badoglio, mas o deposto diretor do Il Messagero, em paradeiro desconhecido desde 25 de julho, já havia chegado à embaixada alemã em Roma, à espera de partir, por via aérea, para a Alemanha. Ali, será transferido pelos alemães à Prússia Oriental, não muito longe da Wolfschanze, o QG do Führer, compartilhando exílio com outras figuras do fascismo intransigente, Roberto Farinacci, Giovanni Preziosi, Renato Ricci e o próprio filho do Duce, Vittorio.

Na Alemanha conhecerão a traição final da infame monarquia piemontesa e do governo Badoglio quando em 8 de setembro este assina unilateralmente o armistício com os Aliados. "Um assunto sujo", como definido pelo próprio general Eisenhower. Nessa mesma noite, após se reunirem com o Führer no "refúgio do Lobo", Pavolini e Vittorio Mussolini emitem, a partir de um vagão de trem transformado em estação de rádio perto de Königsberg, a primeira mensagem à nação italiana anunciando a formação de um novo governo fascista, o castigo dos traidores de 25 de julho e a continuação da guerra ao lado do aliado alemão, que já havia procedido por sua conta a desarmar e internar as tropas italianas, ocupando o território não invadido ainda pelos anglo-americanos. A guerra continua.

Pavolini: Secretário do Partido Fascista Republicano

Em 12 de setembro, Benito Mussolini é libertado e levado à Alemanha após uma espetacular operação dirigida pelo general de paraquedistas Kurt Student e executada brilhantemente por um comando especial da SS liderado pelo famoso Otto Skorzeny. Chega o dia 14 a Rastemburg, onde é recebido por Hitler primeiro, e pelo "governo fascista provisório" depois.

No dia seguinte dita as primeiras ordens, assumindo a direção do fascismo na Itália e nomeando Alessandro Pavolini secretário provisório do Partido, que dois dias depois tomará o nome de Partido Fascista Republicano. Prediz o castigo dos traidores. Ordena a destituição de todas as autoridades e cargos públicos nomeados pelo governo capitulacionista de Badoglio; e liberta os oficiais do Exército de seu juramento de lealdade ao rei traidor, Vittorio Emmanuel, que havia fugido com sua corte para o sul do país, pondo-se sob a proteção das hordas invasoras anglo-americanas.

24 horas depois, o novo secretário do Partido parte para Roma com a missão de reabrir a sede histórica do fascismo romano, o palazzo Wedekind.

Desde esse dia até o de sua trágica morte, Pavolini viverá somente por e para o fascismo republicano.

Resume a ingente tarefa de Pavolini o historiador Silvio Bertoldi, antifascista implacável, dessa maneira: "De todos os chefes da República Social, Pavolini é o único decidido a ir até o final. Os outros são como certos padres: às vezes creem, às vezes não. Ele crê e basta". Percorre a Toscana e as províncias padanas despertando entusiasmos adormecidos, detendo os que fogem, mobilizando os fieis.

Em 23 de setembro fica constituído o novo governo republicano no qual o novo secretário terá nível ministerial com a prerrogativa acrescentada de que os decretos governamentais deverão ser aprovados por ele antes de ser executados. Isso suporá um poder decisivo em mãos do Partido e de seu secretário, ao qual o próprio Mussolini definia como leal, pobre e valoroso. Porém, no fundo, o Duce o "...temia, também, por seu fanatismo cego, seu rigor ideológico e seu desprezo pelos compromissos e pelas meias medidas. É inclusive provável que Mussolini sofresse com um complexo de culpa diante de um homem que, mais que qualquer outro, naquele momento, encarnava o fascismo mais extremo e desesperado" (Petacco).

O novo secretário nacional do PFR possui já uma ideia clara do que deve ser o novo fascismo republicano: "Pavolini pretende criar um partido novo, restrito, uma "ordem de crentes e combatentes" baseado mais em dados qualitativos do que quantitativos, e que não repetirá os erros do precedente partido de massas. Este novo organismo político devia ser "acima de tudo um partido de trabalhadores, um partido proletário animador de um novo ciclo sem mais obstáculos plutocráticos (...)" e inspirador de reformas "mais que sociais, propriamente socialistas" (Rimbotti).

O Congresso de Verona - Nasce a República Social Italiana

Em 14 de novembro de 1943, o Partido Fascista Republicano celebrará no Castelvecchio de Verona seu primeiro e único Congresso. É, na realidade, uma tumultuosa e tensa Assembleia presidida pela necessidade de castigar os traidores de 25 de julho, que serão finalmente julgados e executados nessa mesma cidade, e de assentar as bases de um fascismo livre dos compromissos do passado.

A liberdade de expressão dos delegados é absoluta. Preside a reunião o próprio Pavolini, que pretende que este Congresso seja um passo prévio para a convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte (que, por causa da guerra, nunca se levará a cabo). Leva consigo um documento redigido por ele mesmo, com a colaboração de Mussolini e do antigo comunista e conselheiro pessoal do Duce, Nicola Bombacci, que resume em 18 pontos a natureza do novo Estado social e republicano.

É o célebre programa-manifesto de Verona. Dividido em três partes (matéria constitucional e interna, política externa e matéria social) ao redor dele se concentrará a linha revolucionária da RSI (a Salò negra) encarnada pelo PFR; e contra ele e contra Pavolini se irá criando uma atmosfera de oposição interna (a Salò tricolor) que tentará sabotar os esforços do partido de levar adiante, ponto por ponto, o programa.

Afirma Massimiliano Soldani: "Assim, como consequência do dinamismo e da intransigência moral da secretaria política, alguns setores do sistema republicano iniciaram uma guerra subterrânea contra o Partido, coagulando qualquer resistência de natureza ideológico-metodológica em um único bloco, para tratar de frear e redimensionar as tentativas de reforma pavolinianas".

As duas frentes dessa guerra subterrânea estavam configuradas do seguinte modo, sempre segundo Soldani:

"(...) [A área] revolucionária (representada por Pavolini, pelo Ministério de Cultura Popular [Mezzasoma], por Barracu e, após o relevo de Buffarini, pelo novo Ministério do Interior de Zerbino) e a moderada (da qual formavam parte o alto comando do ENR, Exército Nacional Republicano, o Ministério de Economia Corporativa, o Ministério de Agricultura, etc.). Paradoxalmente, era precisamente dentro do máximo órgão executivo onde se entrecruzavam as alianças necessárias para retardar, quando não sabotar, a atividade política".

A imagem idílica, utópica, que hoje se quer dar da RSI a partir de alguns meios, choca com a realidade histórica de um sistema, que tendo nascido certamente em circunstâncias desesperadas, seguia refletindo as contradições herdadas do Ventennio, ainda que a correlação de forças agora fosse em teoria favorável ao setor radical, ao fascismo-movimento.

As forças que operavam contra o programa da "socialização", por exemplo, eram bastante poderosas e não duvidavam em alternar artimanhas dilatórias junto com ameaças veladas. Não só os industriais, por razões óbvias, estavam contra o ritmo da "socialização" exigido por Pavolini e pelo Partido. O próprio Ministério de Economia Corporativa não duvidava em lançar areia nos rolamentos, sem esquecer tampouco a presença na Itália do todo-poderoso Rilstund und Kriegsproduktion (RuK), organismo dirigido pelo general Leyers, cuja obsessão era manter e incrementer o volume da produção industrial de guerra das empresas italianas em nome da mobilização total de recursos econômicos para fazer frente aos gastos requeridos pela máquina militar do Reich. E isso sem falar na cúpula militar de Salò, sempre disposta a sabotar os esforços políticos e sociais do partido [4]. Derrubar Pavolini era o passo prévio para desativar a experiência revolucionária da RSI.

Diz, a este respeito, Soldani: "Este secretário do Partido, definitivamente, produzia medo. Medo no exército, na burocracia do Ministério de Assuntos Exteriores, no das Corporações e em um conjunto de poderes alternativamente complementares e antagonistas".

A conjuração desse heterogêneo conjunto de forças conseguiu, finalmente, um triunfo pírrico quando a "ala dissidente" do PFR, comandada por Balisti e Borsani, obteve a exoneração na secretaria do Partido de Pavolini em janeiro de 1944. Mas isso foi uma miragem. Mussolini recapacitou e voltou a confirmar o revolucionário florentino à frente dos destinos do PFR. Não haveria retorno.

Retrocedamos novamente no tempo. Durante o Congresso de Verona, em plenas deliberações, uma notícia comoveu a sala. Iginio Ghiselini, federale de Ferrara, havia sido assassinado em uma emboscada quando se dirigia precisamente a Verona. A notícia corre como pólvora entre os delegados. Se erguem gritos exigindo vingança e os mais exaltados querem ir a Ferrara para realizar uma represália feroz. A duras penas, Pavolini consegue manter a ordem: "Silêncio!", exclama, "Se há que fazer algo, serei eu o primeiro a fazê-lo, mas não se grita na presença de um morto". Logo em seguida, envia a Ferrara uma comissão encabeçada pelo advogado Vezzalini (um dos mais duros do Partido, futuro fiscal no processo contra "os traidores de 25 de julho") e outros squadristas para apurar responsabilidades e castigar os culpados.

Pavolini é consciente já da impossibilidade de fazer frente com argumentos aos bandos homicidas autodenominados "partisans", que assassinam à traição quadros e militantes do recém-reconstituído fascismo. "Eu não sou sanguinário ou maníaco; minha formação mental é muito diferente. Mas tenho a sensação concreta de que ou se atua assim ou não se chega às consciências...", dirá perante os delegados que clamam por vingança. Alertando em continuação: "À violência de nossos inimigos, responderemos com nossa violência multiplicada".

O Congresso de Verona constituirá, espiritualmente, um "retorno às origens do fascismo: aos fascios constituídos como "esquadras de ação". Squadristizare il partito, será o santo-e-senha dos novos dirigentes do PFR. De forma mais poética o expressará Pavolini: "O squadrismo foi a primavera de nossa vida. Quem foi squadrista uma vez o será sempre..."

O Partido Armado - As Brigadas Negras

Alessandro Pavolini passará à "história geral da infâmia" do antifascismo por uma de suas mais radicais intuições, que não é, em realidade, mais que a consequência lógica de uma guerra civil desejada e executada pelo antifascismo militante, por um lado; e, pelo outro, pela vontade expressa manifestada em Verona de squadristizar o partido: as Brigadas Negras.

Transformar todo o partido em um único e compacto corpo armado é um pensamento que se apodera de Pavolini desde os inícios de seu secretariado.

Existia, sim, já uma Milícia, a Guarda Nacional Republicana de Renato Ricci, ex-dirigente da Opera Nazionale Balilla, e firme partidário da politização e fascistização do exército; ao ponto de ter tido um violento confronto pessoal com o marechal Graziani, ministro de Defesa e defensor da "apoliticidade" dos militares profissionais.

Sem embargo, a GNR carecia de homens e recursos adequados para desempenhar suas tarefas com eficácia.

A ideia de armar os militantes do partido e redimensionar militarmente toda sua estrutura política aparece novamente com força, em princípios do verão de 1944, quando os aliados, após terem tomado Roma, se lançam sobre a Toscana. Pavolini mandará armar os militantes florentinos e criará em todo o território ocupado núcleos de "resistenza nera", a fim de fustigar as forças inimigas.

A defesa de Florença, por parte das esquadras militarizadas de camisas negras, será uma das mais belas e dramáticas páginas da história da RSI.

Em 20 de julho de 1944 eclode o complô militar contra Hitler. Em 25 de julho (data já significativa) se torna público o decreto de constituição do Corpo Auxiliar das Camisas Negras, que será mais conhecido como "Brigadas Negras" em contraposição às brigadas de partisans, católicos, liberais, socialistas e comunistas que infestam já o território da República de Salò.

Seu comandante general não é outro que o próprio secretário do Partido. Seu Estado Maior, a própria direção política do PFR. Os comissários federais serão seus comandantes, e comandantes de esquadra os comissários de fascio e de distrito. Não existem distinções de grau. O uniforme é o do Partido, completado com um suéter negro de lã e um gorro montanhista negro com o símbolo da caveira.

Não será esta a única criação pessoal do secretariado do partido durante o ano 44. O Ente Fascista de Assistência (ENF), destinado a socorrer famílias golpeadas pela tragédia da guerra, e o Serviço Auxiliar Feminino (SAF), organismo que centralizava o esforço de guerra das mulheres fascistas republicanas, serão duas emanações orgânicas diretas da linha revolucionária do PFR.

O modelo organizativo das Brigadas Negras está próximo ao do Exército Vermelho idealizado por Trotsky. "Como Trotsky - afirma Pavolini - devemos transformar o partido em um exército revolucionário".

Fiel a seu estilo, o novo comandante general das Brigadas Negras se põe imediatamente em marcha. Percorre incansavelmente a zona ainda controlada pela RSI, junto com seu fiel guarda-costas, De Benedectis, em seu veloz Alfa Romeo sem capota, visitando e conversando com todos os seus novos brigadistas. Sua popularidade na base do partido armado é já considerável. "Leal, pobre e valoroso" até o final.

Do arrojo do outrora delicado poeta, dá boa conta a seguinte anedota. Durante uma visita às esquadras piemontesas das Brigadas Negras em agosto de 44, Pavolini e outros líderes políticos e militares são surpreendidos pelo ataque de efetivo armados de um bando partisan. Produz-se um encarniçado tiroteio e Pavolini, metralhadora em mãos, se lança contra os bandidos, que por sua vez emboscavam os fascistas. Se produzem baixas, entre elas, a do próprio Pavolini ferido pela metralha de uma granada lançada pelos partisans. Estes não reconhecem entre os feridos o comandante das Brigadas Negras. A ausência obrigatória de distintivos no uniforme dos brigadistas negros evita sua captura. Horas depois é resgatado e, após uma curta convalescência, se incorpora de novo à luta política.

Velhos e novos squadristas reconhecem já nele o chefe carismático e valoroso de que precisam. Sobre as Brigadas Negras se estendeu o mesmo manto de silêncio que o que cobriu o próprio Pavolini por parte daqueles que reivindicaram genericamente a herança do último fascismo social e republicano.

O que foram as Brigadas Negras? Será o próprio Pavolini, em dezembro de 1944, que explica:

"As Brigadas Negras são um exército sem distintivos, estando nós, squadristas, persuadidos de que um comandante é tal se manda e se é obedecido independentemente do grau que tenha. O único distintivo é o exemplo (...) As Brigadas Negras não são o Partido que vai ao povo, é uma milícia do Partido que é povo, uma milícia operária e revolucionária, de mecânicos, artesãos, de jornaleiros, de pequenos empregados, em luta de morte contra as plutocracias aliadas dos bolcheviques e contra os plutocratas que subvencionam os bandidos (...) As Brigadas Negras são uma família, essa família tem um antepassado: o squadrismo; um brasão: o sacrifício de sangue; uma progenitora: a ideia fascista; uma guia, um exemplo, uma devoção absoluta e um afeto supremo: Mussolini".

As Brigadas Negras tomarão, ademais, cada uma o nome de um caído do fascismo republicano. Assim, a "Aldo Resega" de Milão, a "Muti" de Ravenna, a "Ghiselini" de Ferrara, etc.

Fascismo Social ou Socialismo Fascista?

Os inimigos das Brigadas Negras, além dos bandidos partisans e dos anglo-americanos, serão os mesmos que os do partido e os de seu secretário.

Citemos apenas um exemplo revelador: "(...) Adriano Bolzoni, em uma obra autobiográfica, quis recordar que, junto a seus camaradas da 'Barbarigo', cantava uma canção cujo refrão repetia: 'Disparai por Deus contra os bárbaros, disparai contra as Brigadas Negras'."

Se isso cantavam os efetivos de uma unidade de combate da Décima MAS, a força mais compacta e disciplinada do Exército Nacional Republicano, comandada pelo célebre Junio Valerio Borghese, imaginemos as condições em que as Brigadas Negras deviam desempenhar sua missão junto a unidades militares que faziam profissão de ódio ao fascismo e aos fascistas.

Presos em um falso patriotismo de marca burguesa, os representantes da casta militar e seus cúmplices do aparato administrativo e estatal nunca tiveram a menor intenção de chegar até o fim na luta contra as plutocracias burguesas e capitalistas ocidentais, tal como exigia a propaganda da RSI.

O patriotismo das Brigadas Negras não é já aquele do "Ventennio": nacionalista-burguês, micro-imperialista, quase de opereta: "A palavra Patria - afirma Pavolini em um discurso - é uma grande palavra, como a palavra mãe, mas todos podem invocá-la e não é suficiente declarar-se a favor da Itália quando existe também uma Itália de Badoglio e de Palmiro Togliatti. Nossas divisões que voltam da Alemanha levam sobre as baionetas uma ideia política". Essa ideia política, esse novo patriotismo, é o fascismo, pelo qal luta e morre a "Salò Negra".

Assim, não será estranho que sejam aqueles elementos nacional-burgueses os que boicotam, de forma discreta, mas eficiente, um dos últimos projetos do Duce e de seu secretário: o chamado Reducto Alpino Republicano (RAR).

Basicamente, tratava-se, diante da evidência de uma guerra irremediavelmente perdida, de refugiar-se na Valtellina, uma região alpina italiana com fama de inexpugnável. Ali, os últimos fieis da RSI e do Duce, junto com as tropas alemães destacadas no norte da Itália, resistiriam ao assalto final das hordas americanas e dos bandos mercenários partisans, ultimando com seu sacrifício, a sorte do fascismo. "Na Valtellina se consumarão as Termópilas do fascismo", reconhecerá Pavolini.

Mas pelas costas de Pavolini e do Duce, a única coisa que se consumava era a traição. Os alemães já haviam começado, na Suíça, conversas secretas com os Aliados através do general da SS Wolff, para preparar a rendição de suas tropas na Itália. Graziani se negava a dirigir suas tropas para o RAR, buscando render suas tropas aos americanos: "Entre militares nos entendemos sempre" repete. É hora do "salve-se quem puder". De fato, alguns militares começaram a colocar as divisas militares do Régio Exército por cima das próprias do ENR. A "mudança de jaqueta" é literal.

Em 25 de abril de 1945, Pavolini se enfrenta ao comandante da Décima MAS, Borghese: "Que vais fazer agora?" - pergunta - "Nos renderemos", responde o futuro "príncipe negro". E estavam a ponto de chegar às vias de fato.

Soldani reconhece que: "...Não é nossa intenção nos determos nos últimos dias de vida da RSI e de seus máximos hierarcas, mas um dado vale por todos: quase todos os generais, inclusive naturalmente Graziani, ministro de Defesa da RSI, membro do diretório do Partido, comandante do corpo de exército Liguria, assim como maior defensor da conscrição obrigatória, sobreviveram às depurações do pós-guerra. Ademais, este último deverá sua salvação aos serviços secretos americanos, com as quais estava em contato desde 26 de abril". 

Paralelamente, os partisans, especialmente os comunistas, iam eliminando fisicamente àqueles fascistas mais fortemente comprometidos com a linha socialista e intransigente da RSI em um tipo de "anti-seleção" contrarrevolucionária que se revelaria funesta para os interesses das classes mais desfavorecidas da sociedade. São as matanças finais, conhecidas como "primaveras de sangue".

Baste, como exemplo, o de Giuseppe Solaro, jovem comissário federal de Turim, estreito colaborador de Pavolini, que aplicará os decretos socializadores na FIAT do todo-poderoso Agnelli. Em abril de 1945, será enforcado pelos partisans "na presença de seus familiares e seu cadáver arrastado pelas ruas da cidade".

Apesar do caos instaurado dentro da RSI, produto da iminência da derrota final, o secretário do PFR tem tempo de convocar o segundo e último Diretório Nacional do Partido em 30 de março de 1945.

Tem este conclave um claro caráter recapitulador da natureza histórica do fascismo e seu papel específico dentro das ideologias do século XX. Segundo Pavolini e o grupo próximo a ele, o fascismo havia assumido um preciso valor revolucionário e por isso podia definir-se como um movimento tendencialmente socialista. Sem embargo, tal definição ideológica encontra o rechaço inclusive de alguns colaboradores de sua linha, incapazes já de seguir em suas argumentações ao mais intransigente de todos os fascistas. Não em vão, na RSI, se assiste à recuperação integral por parte da secretaria do PFR e seus órgãos de propaganda do pensamento político do Risorgimento italiano e de suas figuras mais importantes, os Mazzini, os Pisacane, os Garibaldi, assim como da primitiva tradição sindicalista soreliana e republicana dos fascios, que a política "concordatária" e conservadora do ventennio havia marginalizado [5]. 

"Sob este aspecto, o fascista Pavolini superava indiscutivelmente o regime passado, conseguindo dar nível de lei às declarações de princípio: uma predisposição revolucionária que, ainda devendo enfrentar-se com a linha reacionária de alguns ministros, não será nunca em absoluto abandonada".

De fato, o comandante das Brigadas Negras não duvidará em pôr-se ao lado daqueles que, como o velho sindicalista Grossi, atacavam os ministros técnicos da RSI, Tarchi da Economia, Moroni da Agricultura ou Pellegrini das Finanças, por suas descaradas táticas burocrático-dilatórias. O próprio Grossi recorda as palavras encomiásticas de Pavolini: "Grossi está entre aqueles que melhor compreenderam a finalidade política e social da socialização". Mas também a solidão e a incompreensão do ministro secretário. "Aquelas palavras de Pavolini foram vigorosas e amargas ao mesmo tempo; deixavam entrever o comportamento ambíguo de parte das hierarquias político-administrativas da RSI".

A "socialização", portanto, não era mais que um meio útil, uma aplicação social de um projeto revolucionário mais vasto que, na concepção do mundo, do partido e da sociedade, assumida por Alessandro Pavolini, deveria levar à criação de um verdadeiro Estado republicano dos trabalhadores, de uma autêntica comunidade nacional-popular, parte constitutiva da futura União de Repúblicas Socialistas Europeias, ambicioso esquema continental no qual durante o último período da guerra trabalham as elites da Nova Ordem europeia. 

***

Os últimos dias de Mussolini e seu regim são bem conhecidos. Livros, revistas, séries de TV ou filmes, evocaram a sua maneira a prisão, execução e o posterior vergonhoso ultraje a seu cadáver. 

A sorte de seu secretário correrá paralela à do Duce, constituindo o testemunho final de uma coragem e de uma lealdade que não se deteve nem diante da morte. "O importante é morrer bem. Morrer bem e com honra. Morrer pelo Duce", havia assegurado Pavolini a seus camisas negras em Como, um dia antes de a coluna ítalo-alemã em que ia o Duce, Clara Petacci e alguns de seus ministros e hierarcas ser interceptada por efetivos da 520ª brigada partisan "Garibaldi". Os partisans permitem passagem somente aos alemães. Como é sabido, Mussolini e sua amante se integram na coluna alemã com a intenção de atravessar as colunas inimigas. Serão descobertos e fuzilados pouco depois.

Abandonados a sua sorte, Pavolini e os seus deliberam. O caminhão blindado em que viajam os dirigentes fascistas começa a se mover. Os partisans abrem fogo. Explodem as granadas em sua passagem. O veículo fica imobilizado. Dentro do carro jazem vários squadristas mortos. Alguns querem se entregar. Sem embargo, o secretário do PFR não tem intenção alguma de se render. "Devemos morrer como fascistas, não como velhacos" grita, enquanto salta do caminhão disparando sua metralhadora contra os bandidos. O seguem vários de seus correligionários. Os partisans respondem ao fogo. Um após o outro, os fascistas vão sendo capturados, exceto Pavolino que, sem deixar de disparar, tenta ganhar a borda do lago Como. Ferido, exausto, se lança nas águas gélidas do lago, até alcançar umas pedras, desde onde segue esgotando sua munição. Horas depois é finalmente preso, semiconsciente, meio ferido e com sintomas de congelamento. Levado ao município de Dongo, onde já foram agrupados os fascistas capturados anteriormente, escuta impávido à sentença que condena a ele e a seus camaradas à pena capital, ditada em pessoa pelo tristemente célebre Walter Audisio, apelido "coronel Valerio", que umas horas antes acaba de executar a Mussolini e Claretta Petacci.

Os ministros Mezzasoma, Casalinuovo, Zerbino, os federali Utimpergher e Porta, o secretário do Duce Gatti, o medalha de ouro e subsecretário de Estado Barracu, o professor Coppola, o conselheiro e amigo pessoal do Duce Bombacci, assim até chegar a quinze, são levados em fila indiana até o lugar de execução. Deixemos que Petacco narre os últimos momentos de Pavolini e dos seus: "A longa fila dos condenados está agora em silêncio diante do pelotão de execução. Nenhum dá sinais de debilidade. Pavolini, entre Zerbino e Casalinuovo, se 'ergue orgulhoso e rigido'", como comenta um testemunho ocular. Em um certo momento, tem forças inclusive para ordenar "firmes!" a seus companheiros. A "bela morte está para chegar". É o fim.

Transportado com os outros cadáveres para Milão, o de Alessandro Pavolini ficará também exposto junto ao de Mussolini e dos outros hierarcas, pendurados de cabeça para baixo diante das turbas sub-humanas que na praça Loreto celebram sabá triunfal.

Seu corpo será enterrado no cemitério de Musocco, Milão, em companhia de vários milhares de camaradas fascistas assassinados pela frente vermelha e pela reação. Por vontade expressa de sua família, seus restos continuam ali.

Notas

1 - "Nós não amamos Hitler por ele representar na Alemanha um elemento de ordem; o amamos por ele representar um elemento de desordem na Europa" (Berto Ricci, “La Rivoluzione Fascista. Antología di scritti politici”, SEB, 1996)

2 - Cf. Ismael Saz Campos, “Mussolini contra la 11 República”, IVEI, 1986.

3 - Amizade e gratidão que não serão óbices para que Pavolini assuma a responsabilidade de mandar seu antigo amigo ao paredão, evitando que a petição de graça escrita pela mãe do conde Ciano chegasse às mãos de Mussolini, o que poderia ter ocasionado problemas de consciência para o Duce.

4 - Graficamente, Rimbotti expõe o problema: "A RSI teve todos contra si: os industriais, a Igreja, os trabalhadores, os próprios alemães, sem contar os exércitos anglo-americanos, na terra e no ar".

5 - Apóstolo da "revolução dentro da revolução", Pavolini confessará a sua amante, Doris Duranti, seus verdadeiros objetivos sociais: "o fascismo no qual eu acredito...não existe ainda, (...) outro dia Mussolini disse uma coisa que desagradou a muitos, mas não a mim. Ele disse que a cartilha de racionamento não será abolida nem mesmo após a vitória, assim os Agnelli e os Donegani comerão como seus trabalhadores. Produzir com a inteligência ou com as mãos é o mesmo, quem não produza, não terá lugar na Itália que estamos construindo".

Bibliografia

 ·        Massimiliano Soldani, “L Vltimo Poeta Armato. Alessandro Pavolini, Segretario del PFR’, SEB, 1999

·        Arrigo Petacco, “I1 Superfascista. Vita e Morte di Alessandro Pavolini’, Mondadori,1998

·        Giorgio Bocca, “La Repubblica di Mussolinl’, Laterza, 1977

·        Silvio Bertoldi, “Saló. Vita e morte de la RSf’, Rizzoli, 1976

·         Luca Leonello Rimbotti, “Il Fascimo di Sinistra”, Settimo Sigillo, 1989

·         Vincenzo Vinciguerra, “Camerati, addio”, Avanguardia, 2000

·        Salvatore Francia, “L ‘Altro Volto della RSI”, Barbarossa, 1988

·        Pino Romualdi, “Fascismo Repubblicano”, Sugarco, 1992

·        Marino Vigano, “Il Congresso di Verona’, Settimo Sigillo, 1994