sábado, 25 de junho de 2016

Fernando José Vaquero Oroquieta - Carlismo: O Movimento de um Povo Católico por seu Rei

por Fernando José Vaquero Oroquieta



No último domingo 8 de maio, algumas dezenas de pessoas se reuniram, convocados pelo Partido Carlista, em memória e homenagem das duas vítimas mortais dos acontecimentos de Montejurra do ano de 1976: 40º aniversário, nada menos. Fatos, lembremos, ainda não esclarecidos em sua totalidade e dos quais atores políticos muito diversos obtiveram certos benefícios: desde a aparente superação definitiva de um pleito dinástico centenário, em benefício de Juan Carlos I, então, e Felipe VI hoje, até a captação de quadros e eleitorado por parte de alguns partidos.

Outra vez mais, a ladeira de Montejurra foi testemunha, neste domingo de maio, da presença de boinas vermelhas. Mas, que longe ficava aquele ano de 1974 em que 40 mil pessoas se concentraram ali ao redor de seu porta-bandeira, Carlos Hugo, e suas irmãs!

Apesar de cifras tão díspares, e seu enraizamento social correspondente, Montejurra vem sendo o reflexo débil de um movimento popular extraordinário; fundamental na História da Espanha.

Por isso quisemos refletir sobre o mesmo, assinalando algumas chaves que possam permitir compreender melhor uma História da qual todos os espanhois somos, em alguma medida, tributários.

Para a historiografia dominante (caso, entre outros, de Jordi Canal i Morell, Martin Blinkhorn, etc.) o carlismo foi um movimento contrarrevolucionário orientado para a guerra civil. Mas, com um olhar e conclusões contraditórias com a apresentação ideológica e apriorística anterior, um grupo de historiadores, os quais encontramos em grande medida ao redor da Revista de História Contemporânea Aportes, vem realizando diversas investigações de resultados muito diversos.

Este preconceito ideológico, que etiqueta negativamente o carlismo, também encontramos em outros meios; inclusive no seio da própria Igreja Católica espanhola. Desse modo, por exemplo, se ignora com silêncios ou omissões que foram carlistas muitos dos alunos entusiastas da, à época, nova Doutrina Social católica de Leão XIII; o que se concretizou em sindicatos, cooperativas, editoras, mutualidades e obras sociais de vários tipos e alcance. E tudo isso sem esquecer que um grupo significativo de "mártires" da guerra civil espanhola, beatificados no último ano, eram carlistas.

Dois Testemunhos sobre o Carlismo

Para enquadrar este estudo, reproduziremos dois testemunhos muito interessantes

O navarro Gregorio Monreal, histórico militante nacionalista basco hoje em Geroa Bai, que foi catedrático de História do Direito na Universidade Pública de Navarra e antigo reitor da do País Basco, em uma longa entrevista publicada na revista de extrema-esquerda Hika (número duplo 121/122, abril/maio de 2001, páginas 14 a 18), realizava a seguinte reflexão familiar sobre o carlismo: "...E vou dar-te um exemplo que tiro de meu próprio meio familiar, concretamente de minha mãe, procedente do vale de Yerri, sancta sanctorum do carlismo. Essa família, que não havia tido nunca relação com a cultura liberal, se dividiu quase meio a meio entre UPN e HB".

Por outra parte, o escritor navarro Miguel Sánchez-Ortix, recebedor do prêmio Príncipe de Viana 2001 da Cultura, respondia em 1 de julho de 2001 da seguinte maneira à pergunta: "Por que resgata o carlismo?", ao jornalista do Diário de Navarra: "Fundamentalmente porque está na raiz de nosso presente. Me resulta muito enigmático que o movimento carlista, que sangrou nessas terras durante 150 anos, que está na origem da última Guerra Civil, que todas as sequelas que deixou em Navarra de rupturas familiares, ruínas econômicas, a emigração à América que provocou... Que tudo isso, em uma manhã, a de 9 de maio de 1976 em Montejurra, deixasse o carlismo ferido de morte, é um assunto muito enigmático. Para onde foi toda essa massa de gente que nos anos 60 acuda a Montejurra aos milhares? Há que ver que houve uma transferência, estimo, tanto para o socialismo, como para o Herri Batasuna". E, à seguinte pergunta do jornalista, "E essa transferência foi por medo?", responde: "Não. Não tem nada a ver com medo. Pode ser que fosse uma ideologia que tinha muito pouco futuro em um mundo que mudou tanto. O tecido social de Navarra mudou demais. Não sei se a ideologia carlista, por muito estimável que seja, pode seduzir às pessoas".

Não é nenhuma temeridade afirmar que o denominado "carlismo sociológico" desapareceu quase totalmente. Não obstante, encontramos antigos carlistas, ou filhos de carlistas, em todo o espectro político navarro, tanto em suas bases, como em seus níveis dirigentes. De fato, alguns dos mais qualificados representantes da política navarra nos anos 70 e 80 do século passado podiam ser incluídos nessa categoria. Recordemos, a título simplesmente de exemplo, Federico Tajadura, dirigente da esquerda do PSOE, Jaime Ignacio del Burgo (jurista, escritor e político de longa trajetória na centro-direita navarra), Florencio Aoiz Monreal (de família carlista de Tafalla e porta-voz de Batasuna em sua épocA), Juan Cruz Alli (líder do disolvido partido Convergencia de Democratas de Navarra, ex-presidente do governo de Navarra) e tantos outros.

Podemos nos perguntar, com que critério, desde que impulsos ideológicos ou existenciais, se adscreveram tantos, como antigos carlistas, a umas ou outras forças políticas percebidas como mais "atuais"? Por acaso se pode afirmar que aqueles de convicções navarristas e espanholistas mais acentuadas engrossaram as fileiras da União do Povo Navarro; não em vão, hoje em dia, em algumas zonas do norte de Navarra, a base desse partido é basicamente gente de antiga pertença carlista. Por outro lado, muitos jovens, da etapa final do carlismo "socialista", engrossaram as fileiras do Herri Batasuna e suas sucessivas "marcas". Por sua vez, alguns outros se integraram, o que se pode explicar pelo sentimento social do carlismo, nas fileiras do PSN-PSOE e outros partidos à esquerda.

O Movimento Carlista

Desde tamanha disparidade e dispersão, como podemos definir e caracterizar o carlismo? A resposta é importante, pois a mesma poderia nos proporcionar algumas pistas fundamentais para entender seu aparente e brusco desaparecimento e a complexa situação política e social pela qual passa Navarra.

Para isso, partiremos de uma declaração oficial do próprio carlismo, emitida em um momento especialmente delicado de sua história. Assim, mediante o Real Decreto de 23 de janeiro de 1936, Don Alfonso Carlos estabelecia a Regência com as seguintes precisões:

"Tanto o Regente em suas obrigações como as circunstâncias e aceitação de Meu sucessor, devem sujeitar-se respeitando como intangíveis aos fundamentos da legitimidade espanhola, a saber:

I - A Religião católica, apostólica, romana com a unidade e consequências jurídicas com que foi amada e servida tradicionalmente em Nossos Reinos.
II - A constituição natural e orgânica dos Estados e corpos da sociedade tradicional.
III- A federação histórica das distintas regiões e seus foros e liberdades, integrantes da unidade da Pátria espanhola.
IV - A autêntica monarquia tradicional, legítima de origem e exercício.
V - Os princípios e espírito e, na medida do praticamente possível, o próprio Estado de direito e legislativo anterior ao mal chamado Direito Novo".

Agora vejamos alguma resposta científica emitida a partir da abundante historiografia especializada.

A historiadora Aurora Villanueva, em seu livro O Carlismo Navarro durante o Primeiro Franquismo (Actas, Madri, 1998), o caracteriza da seguinte maneira: "Configurado politicamente ao redor de fidelidades pessoais, ao pretendente e sua dinastia, o carlismo constituiria o sinal de identificação daqueles que, no universo individualista característico do sistema político e cultural liberal, participavam de uma visão tradicionalista da vida e do mundo. Uma 'comunhão' de pessoas aglomerada ao longo da história sobre o eixo da lealdade a certas ideias e uma dinastia" (pg. 531). Fidelidade, antes de tudo, à legitimidade dinástica e a um ideário muito preciso; ambos elementos em simbiose perfeita.

De sua parte, o prolífico historiador Josep Carles Clemente considera, em sua abundante bibliografia, que o carlismo se caracterizava, ademais dos anteriores elementos, por se tratar de um movimento popular e de protesto. Originado no seio do legitimismo espanhol do século XIX, integraria em seu ideário indubitáveis conceitos ideológicos modernos (desde nosso ponto de vista, herança expressa do cristianismo): federalismo, profundas aspirações sociais, sentido de protesto. As relações desse povo com seus líderes, assegura Clemente, quase nunca teriam sido exemplares, ainda que em geral, os defensores máximos do carlismo teriam sim respondido aos anseios de seu povo. Tradicionalismo, integrismo, franco-juanismo, teriam sido, opina o citado historiador, tendências ideológicas inseridas posteriormente no carlismo, mas com uma intencionalidade instrumentalizadora de tão generoso movimento; mas que não responderiam ao sentimento geral da base.

Clemente conclui sua elaboração afirmando que foi com o já falecido Carlos Hugo que o povo carlista teria alcançado o mais alto grau de fusão com seus líderes naturais, já despojados dos elementos dissonantes; o que não impediu sua debandada geral por ocasião do fracasso eleitoral do partido em 1979. Em consequência, para este autor, os carlistas concentrados no último 8 de maio seriam os últimos e diretos representantes desse "povo em marcha" que percorreu boa parte dos séculos XIX e XX.

Os autores tradicionalistas, de sua parte, proporcionam uma perspectiva bastante distinta. Consideram, em seu conjunto, que a rápida evolução ideológica, da Comunhão ao "socialismo autogestionário e federalista" do Partido Carlista, teria sido forçada e "contra natura". Dita transformação, impulsionada por um pequeno grupo de líderes e quadros, que utilizaram o instrumento dos "cursinhos" dos anos 60 e 70 empenhados em uma "modernização" a todo custo, os teria levado à trincheira contrária; o que teria provocado, ou acelerado, a desarticulação desse povo e inclusive do chamado "carlismo sociológico".

Para alguns desses autores, e para a atual Comunhão Tradicionalista Carlista, esta. refundada já há 30 anos no Congresso de El Escorial, seria o agrupamento herdeiro desse carlismo extraordinário que assombrou aos próprios e a estranhos.

Em todo caso, retomemos a pergunta inicial, como é possível que um movimento político popular, centenário, vigoroso, que atravessou provas tremendas, desapareça quase de um só golpe?

Já mencionamis que a historiadora Aurora Villanueva descreve o carlismo como um fenômeno político, sociológico e ideológico completo. Paradoxalmente, foi nos períodos liberais da história recente da Espanha que o carlismo pode se expressar e desenvolver ideologica, orgânica e sociologicamente. Villanueva descreve em seu texto, documentadamente, o processo agônico de desintegração que sofreu, em Navarra, esse carlismo que não conseguiu se adaptar à semiclandestinidade em que o regime de Franco o colocou; depois de terminada totalmente a guerra civil. Por outra parte, as convicções religiosas e semitradicionalistas do regime puderam contribuir para a desmobilização de setores importantes do carlismo; os quais se sentiriam acomodados no mesmo.

Nesse estado de coisas, e nas décadas seguintes, o carlismo sofreu novas fraturas: falcondismo, carlosoctavismo, juanismo... Analisando os fatos descritos em seu livro, concluímos que a sorte do carlismo foi jogada por umas poucas dezenas de protagonistas, no que concerne Navarra, a "Israel do carlismo"; permanecendo em boa medida alheia a tudo isso sua massa popular, acomodada a um regime que afirmava, ao menos no papel, boa parte de seus princípios.

Enquanto isso, a sociedade espanhola se transformava aceleradamente: se consumava o êxodo do campo à cidade, diminuindo assim a influência do clero rual (muito implicado, como no caso de Navarra, no sustento do carlismo); a família tradicional iniciava uma lenta, mas inexorável transformação; novos ares sopravam no seio da Igreja; etc.

Uma Hipótese

A estas alturas de nosso estudo, como caracterizar, sinteticamente, o carlismo?

Resumindo os diferentes elementos comuns assinalados anteriormente, a nosso juízo o carlismo seria um "movimento de um povo católico por seu rei". O povo tradicional espanhol, mobilizado durante mais de um século a serviço de seus ideais e da "Dinastia Legítima". E, no que se refere a sua crise, assinalemos que tal não pode se separar da que sofre a Espanha e a própria Igreja Católica.

Desde essa perspectiva, o tradicionalismo e, posteriormente, o socialismo autogestionário carlista dos anos 70, não teriam sido senão tentativas de ideologização de um movimento em crise e certa indefinição doutrinária desde seus primórdios.

Esfumaçada a liderança e atrativo do "rei legítimo", questionada em seus fundamentos a "unidade católica" sustentadora da Espanha à raiz de novas correntes impulsionadas a partir do Vaticano II, atomizado e disperso em consequência seu povo, persistem, mesmo hoje, famílias e pessoas e profundas convicções ideológicas. Pelo contrário, boa parte do antigo povo carlista se diluiu, com maior ou menor convicção, nas fileiras de outras forças políticas que consideraram mais afins a sua sensibilidade; tudo isso em consonância com o movimento geral da sociedade.

Avançando nessa hipótese, deve se destacar, antes de tudo, a profunda religiosidade do movimento carlista; enquanto que outros componentes doutrinários, à parte a dinâmica dessa relação povo-rei, seriam ingredientes ideológicos mais acidentais.

Francisco Javier Caspistegui Gorasurreta em seu livro O Naufrágio das Ortodoxias, o Carlismo, 1962-1977 (EUNSA, Pamplona, 1997) explica como o impacto das novas correntes teológicas derivadas do Vaticano II foram determinantes na rápida evolução ideológica experimentada pelo carlismo nas décadas de 60 e 70. A transformação de alguns movimentos eclesiásticos rumo a posturas de extrema-esquerda afetou também mutos dos homens e mulheres do carlismo. Exemplifica tal hipótese na trajetória de duas pessoas: Antonio Izal Montero (carlista navarro que assumiu com paixão as novas correntes da Igreja) e Alfonso Carlos Comín (figura paradigmática do progressismo católico catalão dos anos 60 e de grande influência em determinados ambientes intelectuais "comprometidos"; filho de um dirigente carlista aragonês).

Desse modo, na página 46 do texto citado, se recolhe um parágrafo esclarecedor: "O carlismo não ia ser uma exceção neste ambiente de mudança, ainda mais em se tratando de um movimento cuja estrutura social marcadamente diferenciada entre dirigentes e dirigidos, faria com que sua ampla e pouco ideologizada base aceitasse com rapidez as transformações que iam introduzindo-se na variável sociedade espanhola do momento. Ademais, a debilidade de estruturas ideológicas fazia com que o que houvesse de político em sentido doutrinário se diluísse no muito mais pujante carlismo sociológico, mais apto às mudanças ante influxos diversos, pouco condicionado pelos escassos esquemas doutrinários existentes no carlismo, ainda que sem deixar de lado as possibilidades que uma doutrina como a carlista, apesar de suas limitações, oferecia para a renovação, insistindo em um rechaço ao imobilismo enquanto tal...".

No que concerne o veículo da transformação ideológica operada, em suas páginas 52 e 53 o concretiza assim: "Através dele (o religioso) faria ato de presença um elemento que, aos poucos, de forma real ou imaginária, como mito do dissolvente ou como efeito de uma realidade mutante, se apossou das obsessões e ilusões de boa parte do carlismo, contribuindo de maneira importante para a aceleração das mudanças nele. O mito do progressismo ia se introduzir no carlismo, utilizado como desculpa para a crítica ou como via para a reforma. Este progressismo de raiz religiosa ia muito unido ao processo de atualização que afrontava a Igreja desde o começo do pontificado de João XXIII".

Aqueles anos de regência foram muito críticos para o carlismo, ao que se somou a semiclandestinidade da Comunhão e a despolitização do regime franquista; segundo víamos antes. Apesar disso, a figura de Xavier de Borbón-Parma seguiu agregando boa parte das adesões das "primeiras figuras" do carlismo, ainda que se produzissem algumas defecções políticas importantes; caso do que foi Chefe Regional de Catalunha e impulsionador, posteriormente, da denominada Regência de Estella, Mauricio de Sivatte. Mas essa adesão mingua progressivamente, ao longo dos anos 60, com a saída de diversas figuras significativas da Comunhão por motivações diversas.

Um dado concreto avaliza essa religiosidade fundamental do movimento carlista: ainda hoje, boa parte das vocações ao sacerdócio surgidas nos últimos anos em Navarra, assim como à vida contemplativa, o foram no seio de famílias carlistas. Famílias que souberam transmitir o legado carlista; parelho a sua profunda e indubitável experiência católica.

Voltemos a nossa tese. Conforme essa concepção do carlismo seria necessário diferenciar três elementos hmanos, estruturais consubstanciais, que o integrariam: o povo, os líderes, o rei.

A sintonia povo-rei teria sido, em geral, magnífica. Mas a continuidade dinástica se interrompe em 1936 por causa da morte de Dom Alfonso Carlos de Borbón Austria-Este, estabelecendo-se uma regência. Este novo período histórico do carlismo, iniciado em plena guerra civil, coincidindo com o esforço militar que absorveu todas as suas energias durante anos tão transcendentais, se prolonga até o chamado "Ato de Barcelona" (31 de março de 1952). Dessa forma, e em pleno franquismo, se produziu a assunção do caudilhismo monárquico da Comunhão, ante seu Conselho Nacional, pelo até então regente Dom Xavier de Borbón-Parma, pai de Dom Hugo Carlos (mais tarde Carlos Hugo); após muitas dúvidas e vacilações.

Essa interrupção na continuidade da "dinastia legítima" coincidiu, na época, com a desmobilização de boa parte das massas carlistas posterior ao término da guerra civil; com uma Comunhão Tradicionalista ilegal. Neste sentido, Aurora Villanueva proporciona algumas novas chaves de máximo interesse. Assim, na página 536 de seu livro: "E é que ambos, carlismo e franquismo, procediam do mesmo universo mental: o tradicionalismo cultural do fim do século XIX e início do XX. Daí que o esforço dos líderes carlistas por manter o carlismo organicamente diferenciado alcançasse tão somente os setores de militantes mais politizados, enquanto que as bases, do carlismo sociológico, encontravam fácil acomodação no regime de Franco. Quiçá aqui resida a razão última da perda de sinal de identidade carlista durante o regime franquista".

A reativação do carlismo com um novo pretendente à cabeça (Dom Xavier) e, anos depois, com m projeto político diferenciado já em oposição aberta ao franquismo, após certa reconciliação prévia, coincide com o processo de transformação social operado na Espanha e com as mudanças da Igreja Católica. Tudo isso impulsionou a rápida evolução ideológica do carlismo (retificação ou definição, segundo seus impulsionadores), que acarretou o distanciamento progressivo de seus elementos inequivocamente tradicionalistas; perante o desconcerto de boa parte da base desse povo em desintegração. 

O papel dos líderes teria que ser questionado em maior medida; a história nos desenha múltiplos dissensos, cisões, mudanças de estrategia, expulsões, mudança de partido, etc., protagonizados por muitos deles. Todos esses movimentos fracassaram, entendendo-os como projetos coletivos, sendo, ao contrário, polo de atração do povo carlista a pessoa concreta do porta-estandartes que encarnava a continuidade da dinastia legítima e a mesmíssima autopercepção das Espanhas.

Resumamos, pois. A sintonia povo-rei, base do movimento histórico carlista, se rompe por um conjunto de causas:

1 - Por fatores estruturais internos da própria realidade carlista (a interrupção dinástica, as relações flutuantes com o franquismo, e a renovação de suas elites).

2 - Pelas novidades doutrinárias externas que afetaram, de forma determinante, ao "corpus" ideológico carlista (novas correntes teológicas desenvolvidas na Igreja a partir do Vaticano II; que questionaram o princípio básico carlista da "unidade católica" da Espanha).

3 - Por fatores externos derivados da dinâmica social histórica em que se desenvolve este povo concreto (as mudanças profundas que transformaram a Espanha, passando de uma sociedade rural a outra industrial, com o desaparecimento consequente do até então influente clero rural carlista; a progressiva desarticulação da família tradicional em prol de um modelo familiar nuclear muito mais individualista, conforme padrões sociais procedentes das chamadas sociedades "avançadas"; o impacto quotidiano das ideologias de "68"; finalmente, a incidência brutal individual e social do consumismo e do individualismo próprios da sociedade pós-moderna e pós-industrial.

Fatores tão complexos e rápidos pressionaram simultaneamente e sem freio algum, sobre o povo carlista, determinando que a família tradicional, principal custódia do carlismo durante várias gerações não fosse capaz de transmitir, salvo exceções contadas, seu legado; como tampouco foi capaz de comunicar uma experiência religiosa atraente em tantos casos.

Algumas Conclusões

Hoje em dia, fica algo vivo do carlismo? De forma organizada, sobrevivem três pequenos grupos: o Partido Carlista (último e minúsculo representante do carlismo socialista, federalista e autogestionário); a refundada Comunhão Tradicionalista Carlista; e o núcleo agrupado ao redor da chamada Secretaria Política de S.A.R. Dom Sixto Henrique de Borbón, a quem reconhece como Porta-Estandarte da Tradição.

Sociologicamente, por acaso, poderíamos aventurar que alguns tiques da mentalidade navarra em particular, se encontram intimamente entrelaçados com o carlismo sociológico: sentido de grupo, gosto pelo próprio, generosidade e entrega pessoal, certas imagens e lugares comuns do léxico, apego às tradições, espontaneidade, substrato religioso...

Não obstante, as novas gerações navarras, salvo exceções contadas, mostram um assombroso desconhecimento da história e saga carlistas de seus pais e avós.

Na dinâmica das relações humanas, a presença e companhia gerada por pessoas excepcionais pode chegar a materializar, pelo atrativo que são capazes de transmitir entre os homens e ao longo do tempo, um movimento que atravesse um período histórico. Essa dinâmica elemental determinou a operatividade concreta na transformação do catolicismo, e também o esteve, na história do carlismo.

Refletindo sobre a saga popular do carlismo, e analisando seu peso na história de Espanha e Navarra, não podemos menos que nos sentir tributários de todos esses carlistas, antepassados diretos nossos, que lutaram de forma consequente com seus ideais. Inclusive podemos chegar a afirmar que, em boa medida, graças eles, nossa tradição histórica concreta (a espanhola) e religiosa (o catolicismo) nos chegaram até nossos dias de uma forma viva, reconhecível e tangível. Trata-se, definitivamente, de um precioso legado para os navarros de hoje e todos os outros espanhois.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Andrew Korybko - Guerras Híbridas e Segurança Democrática

por Andrew Korybko



Guerras híbridas são, em realidade, algo completamente diferente daquilo que a maioria das pessoas pensa que elas são. Minha visão é que aquilo que todas as pessoas falam – guerra de informação, guerra econômica, guerra institucional- e que em realidade já foi praticado antes, hoje em dia está sendo integrado através de uma ação conjunta de guerra. Portanto, minha definição de guerra híbrida trata de sua implementação prática no processo de transformar uma revolução colorida em uma guerra não convencional com o intuito de alcançar uma mudança de regime ou federalismo sob o eixo de uma identidade em um estado alvo.

 “A lei da guerra híbrida”, como eu a denomino, é que “o grande objetivo por detrás de toda guerra híbrida é interromper os projetos multipolares de alianças transnacionais através de conflitos de identidade (étnica, religiosa, regional, política, etc.) provocados externamente no estado em transição alvo”, e nós podemos observá-la na prática pelos esforços dos EUA para obstruir os projetos de integração russa na Ucrânia e a sabotagem do chamado Friendship Pipeline iraniano através da Síria. E ainda, todos os corredores de infraestrutura que coletivamente compreendem a estrutura global do chamado One Belt One Road da China, outrora considerada “A Nova Rota da Seda”, são alvos óbvios também, especialmente a área de interesse compartilhado, foco estratégico tanto para Rússia quanto para a China, localizada nos Bálcãs e na Ásia Central.

Agora que eu lhe falei o que são as guerras híbridas, deixe-me contar como elas operam. Organizações não governamentais (ONG’s) e agências de inteligência trabalham para cultivar grupos de frente nos âmbitos políticos e sociais dentro dos estados alvo, construindo essas redes até o ponto em que elas se tornem suficientemente fortes para desafiar as autoridades legítimas.  Antes que quaisquer hostilidades comecem, ONG’s e agências de inteligência se ocupam da tarefa de estimular um sentimento de diferença profundamente enraizada em meio ao povo, que geralmente está centrada em alguma forma de identidade, seja real ou imaginada, ou exagerada, com o objetivo de gerar um ressentimento antigoverno mais intenso.

Uma vez que as pré-condições da infraestrutura social e informacional alcançaram o estágio em que os financiadores externos estão confiantes em seu potencial de interromper a situação política do estado alvo, uma provocação é organizada com o objetivo de criar um motivo plausível para trazer à frente o movimento antigoverno e aberta iniciar o projeto de desestabilização de maneira aberta. Se a revolução colorida, ou a pressão “suave” não for bem sucedida em colher os frutos desejados, então esse movimento é eventualmente transformado em uma guerra não convencional, ou pressão “forte”, através de uma série de ações organizadas.

Quando isso acontece, alguns dos revolucionários se transformam em terroristas insurgentes que então são apoiados por estados pró-americanos, que enviam mais soldados, armamentos, e assistência material para seus representantes. Nós vimos esse processo acontecer na Síria após o fracasso da “Primavera árabe”, quando a revolução colorida se transformou em uma guerra terrorista e na Ucrânia logo depois do golpe de fevereiro quando as regiões ocidentais estavam em revolta aberta contra Kiev. Atualmente, esse padrão de eventos está se repetindo na Macedônia e há uma grande possibilidade de estourar no vale de Fergana em um futuro próximo. Para lembrar a todos vocês, isso está acontecendo com o objetivo de interromper ou tomar o controle de projetos importantes para a infraestrutura de áreas de trânsito essenciais, utilizando os meios inter-relacionados de mudança de regime, federalismo de identidade e caos incontrolável.

Mesmo sendo perigosas e representando uma ameaça, isso não significa que as guerras híbridas sejam inevitáveis e não possam ser contidas. Os métodos de contenção a essa ameaça são o que eu chamo de segurança democrática, e eu acredito que esse é um campo novo e animador que necessita urgentemente de apoio governamental para desenvolver-se. Até então, eu identifiquei três formas primárias para derrotar as guerras híbridas, mas eu tenho certeza que pesquisas futuras irão revelar outras estratégias efetivas.

A primeira coisa a ser feita é que as ameaças híbridas, no sentido que eu as defini, devem ser identificadas e expostas em seus estágios incipientes. Isso significa que todas as organizações não governamentais dentro de nosso país e de nossos aliados interessados devem ser registradas ou investigadas a respeito de financiamento estrangeiro, e que todas as organizações que representam uma ameaça à segurança nacional e estejam operando ilegalmente devem ser imediatamente banidas. Nós já alcançamos isso, então precisamos dar um passo adiante e criar uma base de dados internacional junto com nossos aliados com o objetivo de vigiar todas as ONG’s e suas atividades, sejam elas legais ou ilegais. E ainda, nós temos que demonstrar publicamente as conspirações dos EUA ao fomentar guerras híbridas encorajando os nossos profissionais da mídia, academia e segurança a trabalharem de maneira conjunta e informar coletivamente a nossa população a respeito das ameaças assimétricas que ela enfrenta, já que informação avançada e conhecimento são os meios de dissuadir e prevenir que cidadãos ingênuos e bem intencionados sejam levados a participar desses movimentos perigosos.

Em segundo lugar, nós precisamos ter certeza que os nossos representantes responsáveis pela segurança estejam treinados nos métodos apropriados para desmembrar as células que levam à frente as guerras híbridas, particularmente em dispersar revoluções coloridas e responder a atividades de guerras não convencionais. É muito importante que eles possam lidar com distúrbios de uma maneira delicada e evitem incitar de maneira inadvertida respostas violentas pelo uso de força desproporcional. Os instigadores frequentemente tentam enganar as autoridades fazendo-as cometerem erros e negligências que eles possam explorar através das mídias sociais gerando uma onda adicional de sentimento antigoverno e utilizando esse sentimento para canalizar mais atividades nas ruas. Seja através desses meios ou outros, a sua meta última é reunir o máximo de pessoas possível nas ruas para que elas possam funcionar como escudos humanos ao protegerem os agitadores mais violentos e evitar que eles sejam presos.

Finalmente, a última estratégia de segurança democrática que eu descobri é o encorajamento de movimentos patrióticos da sociedade civil que se manifestem em larga escala e apoio público ao próprio governo. Nós vimos isso de maneira mais clara na República da Macedônia, onde milhares de pessoas protestaram contra os colaboradores da revolução colorida e demonstraram ao mundo que eles não querem uma mudança de regime em seu país. É importante que governos ao redor do mundo ajudem a estimular esses movimentos como defesas pró-ativas em oposição às conspirações das revoluções coloridas, já que eles servem como primeira linha de defesa em resposta à essas ameaças.
Além disso, essas tecnologias de “reverter revoluções coloridas” também podem ser praticadas por cidadãos patriotas que exercem pressão para que seus governos reneguem acordos pró-ocidentes que sejam controversos. Por exemplo, os povos da Sérvia e Montenegro experimentaram através da disciplina e aplicação seletiva dessas táticas a tentativa de convencer os seus líderes a revogarem os seus compromissos com a OTAN, sendo cuidadosos ao não exigir uma mudança de regime ou utilizar meios violentos. O uso positivo da tecnologia das revoluções coloridas definitivamente merece maior atenção.


A última coisa que eu gostaria de dizer para todos vocês é que a Rússia possui o verdadeiro potencial para se tornar o centro global dos estudos e treinamentos em segurança democrática, e se os nossos especialistas podem dominar essas tecnologias e adquirir uma compreensão plena de como elas funcionam, nós podemos compartilhar esse conhecimento valioso com nossos aliados e aumentar a nossa importância estratégica no mundo. É possível que um dia venhamos a treinar os representantes dos nossos parceiros do âmbito militar, social e sua inteligência aqui em Moscou e portanto, fazer de nosso país a vanguarda que garantirá o futuro multipolar coletivo. No entanto, para que isso ocorra, nós necessitamos do apoio imediato das instituições para o financiamento de projetos de pesquisa relacionados e a mobilização em tempo integral de analistas qualificados nessa tarefa. Se nós formos bem-sucedidos em construir uma estrutura de segurança democrática integrada que seja mais forte que a estrutura das revoluções coloridas que os EUA já construíram, então a Rússia pode se tornar a líder indiscutível na resistência global frente às guerras híbridas. 

sábado, 18 de junho de 2016

Jeff Wallder - Perón ou Morte!

por Jeff Wallder



O general Juan Perón foi uma vez descrito como o único ditador do século XX que jamais fuzilou ninguém. Ele foi o excêntrico presidente argentino do pós-guerra que enfrentou os grandes latifundiários, os grandes empresários, juntas militares, multinacionais globais e o governo americanoa para poder redistribuir a riqueza de seu país de forma mais justa entre os trabalhadores argentinos.

Durante seu período no poder foi criado o sistema público de saúde, a previdência social foi tornada universal, a educação se tornou gratuita, e os trabalhadores (e estudantes trabalhadores) receberam férias pagas pela primeira vez e resorts especiais foram construídos que ofereciam temporadas de 2 semanas por 15 centavos o dia a trabalhadores.

Mesmo quando forçado a sair da presidência e a ir ao exílio em 1955, Perón manteve sua influência sobre a política governamental através de seus descamisados no sindicato CGT e sucessores simpáticos a quele que governaram em sua ausência forçada antes de seu retorno triunfante a Buenos Aires em 1973.

As reformas sociais de Perón lhe garantiram a lealdade e afeição duradouras de uma enorme camada do povo argentino em uma escala inconcebível hoje. Mesmo em 2013, quase 40 anos após sua morte, quatro de cada cinco dos maiores partidos políticos do país se descreviam como peronista.

A "doutrina justicialista" de Juan Perón foi inspirada pelo socialismo sindical do Estado Corporativo de Mussolini durante a visita pré-guerra à Itália e Alemanha. Mas apesar de na década de 60 ele se referir a seu credo econômico como "nacional-socialismo", Perón sempre manteve sua distância do fracasso do fascismo europeu. Sua maior perícia pessoal foi a habilidade extraordinária de controlar e manipular facções rivais dentro do movimento peronista, e os utilizou para avançar sua agenda em prol do bem-estar da nação argentina.

Evita!

Porém, mencionem "Perón" fora da América do Sul hoje e as pessoas pensam instintivamente em Eva Perón, a ex-atriz que se tornou a segunda esposa de Juan Perón. Conhecida universalmente como Evita, ela foi a principal defensora sul-americana pelos direitos das mulheres e crianças e trabalhou incansavelmente em seu favor até sua morte prematura em 1952. Este ícone da feminilidade argentina, que deu às mulheres o voto e o benefício de maternidade pela primeira vez, e sua Fundação Eva Perón, foi reverenciada sem precedentes em casas da Patagônia ao Rio da Prata.

Estranhamente, este eclipse parcial de Juan Perón na percepção moderna por sua bela e eloquente esposa se deve parcialmente a um famoso ex-sindicalista do oeste londrino. Uma tarde, ele ouviu dois jovens pretendentes a dramaturgos, Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, discutindo uma ideia para um musical sobre Eva Braun, esposa de Adolf Hitler. Ao ouvir isso, o organizador se apoiou em uma mesa de café e lhes garantiu que se eles escrevessem um musical sobre a mulher de Hitler ninguém os apoiaria e suas carreiras musicais seriam curtas. Considerariam eles escrever um musical sobre Eva Perón, ele perguntou? O resto, como se diz, é história.

O Rei sobre a Água

Durnate o curso do período de Perón como Secretário do Trabalho e do Bem-Estar (1943-1946) e suas duas primeiras presidências (1946-1955), ele embarcou em um pacote radical de reformas econômicas baseadas na "Terceira Posição" do socialismo sindical. Ferrenhamente anticomunista, sua doutrina justicialista era igualmente oposta ao capitalismo. O justicialismo deu aos trabalhadores argentinos um enorme poder de controle na administração das empresas para as quais eles trabalhavam, e como acionistas eles recebiam uma parcela maior da riqueza que eles ajudavam a criar. Ao mesmo tempo, uma nova iniciativa de construção garantia que as escolas modernas e clínicas médicas fossem acessíveis para todos, e os vastos projetos habitacionais de baixa renda da Argentina deram lares para mais pessoas por ano do que qualquer outro país no mundo.

As reformas ambiciosas do general Juan Perón e sua esposa Evita não tiveram aprovação universal. Proprietários de terras e fábricas (e seus filhos oficiais nas Forças Armadas) entraram em aliança aberta com o governo americano projetada para causar a derrocada da administração peronista. O embaixador americano à Argentina, Spruille Braden, manteve uma campanha de hostilidade impiedosa ao regime seguindo a diretriz do Departamento de Estado dos EUA.

A oportunidade sorriu para os antiperonistas em 1955 após o governo argentino aprovar leis dando aos filhos ilegítimos os mesmos direitos que os filhos legítimos e insistir que a Igreja Católica pagasse impostos. O Vaticano respondeu com a excomunhão imediata de Perón. Isso enfureceu muitos descamisados e nas revoltas que se seguiram a Catedral de Buenos Aires e doze outras igrejas foram incendiadas. Perón ficou horrorizado com esse exagero.

A hora da espada veio em setembro de 1955. O exército em Córdoba entrou em revolta e a marinha bombardeou a capital, resultando na morte de 350 civis inocentes. A CGT pediu por uma milícia de trabalhadores armados para proteger Perón e a revolução sindicalista: a nação estava à beira da guerra civil. Em 20 de setembro, Perón, que apesar de seu estilo político agressivo não gostava de violência e do uso da força, decidiu poupar a nação de um banho de sangue inaudito. Ele foi para casa na Casa Rosada, colocou sua escova de dente e navalha em uma sacola e foi para o exílio, na Espanha, pelos próximos 18 anos.

Durante este tempo, Perón pode ter estado fora do governo, mas ele certamente não estava fora da arena política. Ele continuou a ser considerado o líder espiritual do Partido Justicialista e manteve a lealdade total da CGT. Uma grande parte de cada dia no exílio era passada recebendo funcionários do partido, discutindo estratégia política e controlando as facções conflitantes dentro do Movimento Peronista. A mais conhecida tática de Perón era sempre concordar absolutamente com a perspectiva de cada pessoa, e então ir em frente e fazer o que ele pretendia originalmente.

A Argentina sem Perón se tornou virtualmente ingovernável: líderes políticos e militares vieram e foram embora tão regularmente quanto as estações. Concessões conquistadas pelo trabalhador foram se erodindo e a insatisfação era ampla.

Em 1973, uma eleição foi realizada na Argentina na qual todos os partidos eram livres para participar (apesar de Perón não ter permissão para se fazer presente). Apesar de sua ausência de 18 anos, o Partido Justicialista de Perón emergiu como claro vencedor e seu candidato presidencial, Hector Campora, foi empossado em 25 de maio.

O primeiro ato de Campora foi aprovar leis aumentando todos os salários. Então, ele pegou um avião para Madri para escoltar Perón de volta à Argentina e sua terceira presidência.

O Retorno do General do Povo

Em junho de 1973, o Generalíssimo Franco se encontrou com Perón pela primeira e única vez para se despedir dele no Aeroporto de Madri. Dentro do avião com Perón e Campora estava uma comitiva de 150 pessoas. Essas inclíam peronistas veteranos, funcionários importantes do partido da época, dois políticos não-peronistas, um boxeador, um cantor de tango, uma modelo, um diretor de cinema, um historiador, um poeta, a terceira esposa de Perón, Isabella e seu guarda-costas croata. O corpo embalsamado de Evita também estava junto.

Em Buenos Aires, uma multidão de 1 milhão e meio de pessoas se reuniu no Aeroporto de Ezeiza, nas estradas contíguas e em cada ponto alto para saudar o retorno de seu campeão, foi a maior reunião política a céu aberto na história registrada. A multidão estava em um ânimo festivo: o sol raiou, bandas tocaram, havia cantoria e danças, um retrato de 30 metros de Perón foi erguido e vendedores vendiam cachorros quentes e limonada gelada. Então as coisas começaram a dar errado.

Dentro do Partido Justicialista havia dois movimentos juvenis: a "Juventude Peronista", de esquerda, e a "Juventude Peronista Sindical", de direita, entre os quais não havia amizade. Eles começaram a provocar um ao outro, um lado cantou "Perón, Evita, a Pátria Socialista", e o outro respondeu com "Perón, Evita, a Pátria Peronista". A minúscula diferença em palavras era demais para que suportassem e o contronto começou entre jovens peronistas fanáticos, a maioria dos quais nem havia nascido quando Perón havia governado pela última vez.

Então, armas apareceram dos dois lados e o tiroteio começou. Subitamente, atiradores de elite de outras facções peronistas se uniram à batalha objetivando eliminar seus próprios rivais odiados. A polícia tentou restaurar a ordem, corpos caíram de árvores e em meio ao "Massacre de Ezeiza", centenas de pombas brancas reservadas para a cerimônia de saudação foram soltas acidentalmente. Apoiadores segurando bandeiras declarando "Perón ou Morte" soltaram suas placas e correram por suas vidas. Até hoje, ninguém sabe exatamente quantos morreram, mas certamente foram centenas.

O avião de Perón teve que ser desviado para um aeroporto militar. Suprimindo sua raiva, ele dirigiu direto para a Casa Rosada desde onde ele aparecia de hora em hora para receber a adulação das massas imensas. Em sua primeira transmissão à nação, ele denunciou os "promotores de violência e de doutrinas estrangeiras" que haviam tentado infiltrar o Partido Justicialista. Ele então expôs sua "Visão Dourada" para a nação, que era apoiada pelo Partido Radical, o segundo maior da Argentina. Três meses depois, ele foi empossado para seu terceiro mandato como presidente, com sua esposa Isabella, uma ex-dançarina de tango, como vice-presidente.

O Terceiro Mandato de Perón

Pelo resto de 1973 e a primeira metade de 1974, Perón começou a reestabelecer a sua doutrina justicialista. Mas seu tempo foi cada vez mais tomado pela restruturação do partido para livrá-lo da luta sectária entre os rapazes da esquerda e da direita. Um grande acordo comercial com Cuba e au tonomia para universidades rebeldes eram sinais de que Perón não havia perdido sua habilidade de surpreender os argentinos com novas iniciativas. Porém, sua maior surpresa ocorreu em 1 de julho de 1974, quando ele subitamente morreu de um infarto fulminante aos 78 anos de idade.

Isabella Perón assumiu como presidente, mas estava sob fortei nfluência da figura raputinesca de López Rega. Mesmo apoiada por seus poderes místicos, Isabella não podia se comparar a Evita ou Juan Perón. Em março de 1976, ela foi deposta por uma junta militar que imediatamente iniciou uma selvagem campanha de sangria que ignorou todas as formalidades judiciais. Nenhuma distinção foi feita entre terroristas e peronistas, e mais de 9 mil argentinos foram assassinados ou desapareceram.

Mas o peronismo sobreviveu até mesmo a isso. Novamente, o Partido Justicialista começou a recuperar ímpeto até que em 1989 seu candidato Carlos Menem foi eleito presidente: um posto mantido por 10 anos.

Como a história se lembrará de Juan Perón? Seu biógrafo definitivo, Joseph Page, dá sua resposta: "Ele legitimou as aspirações de milhões de argentinos anteriormente excluídos da vida civil. Ele deu aos trabalhadores uma auto-consciência duradoura...trouxe bem-estar para os pobres, e permitiu às mulheres ver nos papeis que ele atribuiu a sua segunda e terceira esposas novas possibilidades de realização. Neste sentido, ele se afastou do enraizado machismo de seus compatriotas.

"Ele era também, no fundo, um pacifista...uma curiosa contradição na essência de sua natureza. Ele rejeitava patentemente a violência como instrumento de Estado...é inegável que o homem outrora considerado o Hitler da América do Sul jamais levaria seu país a uma guerra".

"Harry Morley" voa para a Argentina

Em 31 de outubro de 1950, o voo BA351 da BOAC levantou do Aeroporto de Londres e chegou a Buenos Aires às 19:40 do dia seguinte. Segundo a lista de passageiros, havia um "Harry Morley" no avião.

Porém, seu nome não enganou o MI5. Tão cedo quanto 9 de outubro eles haviam pego a partir de um grampo telefônico no QG do Movimento da União que Alf Flockhart, um dos secretários políticos de Oswald Mosley, estava marcando um bilhete aéreo para a Argentina para ele, e que "Harry Morley" estaria na lista de passageiros.

O MI5 imediatamente enviou uma lista com 8 dos principais apoiadores de Mosley na Argentina e em outros lugares da América do Sul para o SIS e em 26 de outubro informou o Ministério de Relações Exteriores.

Ao chegar a Buenos Aires, Mosley foi entrevistado e disse que sua visita estava somente ligada à venda de livros na Argentina e no Chile e que ele estaria ficando com amigos. Uma mensagem enviada pela embaixada britânica a Londres em 4 de novembro comentava que a visita de Mosley havia sido bastante divulgada na imprensa argentina que afirmava que ela havia sido instigada por membros do governo argentino. Porém, a embaixada acreditava que isso não parecia ser o caso, não havia qualquer indicação de algum interesse governamental argentino e depois a imprensa passou a dizer que ele era um visitante inconveniente.

Em 17 de novembro, o señor Pombo da embaixada argentina em Londres foi levado para jantar por alguém do Ministério de Relações Exteriores e ele "confirmou" que Mosley estava apenas se encontrando com certos alemães. Depois, o MI5 reportou que Mosley voltou para a Grã-Bretanha no Aeroporto Hurn em 26 de novembro, tendo passado 2 dias na Espanha.

A visita de Mosley de 1 mês na Argentina foi mencionada por muitos jornais britânicos e americanos, incluindo o semanário "União", do Movimento da União. Nenhum deles indicava que Mosley estaria indo se encontrar com o presidente Juan Perón.

Mas apesar de todos os seus grampos e interceptações, o MI5 e o Ministério de Relações Exteriores foram enganados. Mosley realmente se encontrou com Perón que, se tivesse sido sabido, poderia ter seriamente atrapalhado as negociações argentinas por preços de carne mais elevados com o governo trabalhista britânico, que considerava Mosley seu inimigo mortal. Subitamente, a "garantia" do señor Pombo e a rápida mudança de tom da imprensa argentina pode ser vista como um plano orquestrado de desinformação do governo Perón.

Mas como sabemos que Mosley e Perón se encontraram? E qual foi o motivo?

O Acordo Mosley-Perón

O primeiro indício do encontro veio três meses após a queda de Perón em 1955. O "European Stars and Stripes", o jornal do exército americano de ocupação na Europa, reportou que investigadores da nova junta argentina haviam atacado a casa de Hans Ulrich Rudel, que havia acabado de fugir para o Paraguai.

Rudel era o antigo ás da Luftwaffe que sozinho destruiu 532 tanques soviéticos, 2 cruzadores e um navio de batalha. Após a guerra, ele havia se mudado para a Argentina, trabalhando como piloto de testes da Fábrica de Aviões Militares de Córdoba, junto do ex-comandante Adolph Galland.

Entre os doucmentos de Rudel deixados para trás estavam cartas sobre os encontros realizados na Argentina alguns anos antes entre Rudel e Perón (indicando concordância completa em questões políticas), Rudel e Oswald Mosley, e Oswald Mosley e Perón. Porém, como o "European Stars and Stripes" não era muito lido pelos britânicos, a revelação passou despercebida.

Mosley não mencionou o encontro com Perón em sua autobiografia 'Minha Vida'. Mas na biografia de Robert Skidelsky, 'Mosley', publicada em 1975, o ano da morte de Perón, há uma breve menção confirmando que eles se encontraram. O falecimento do presidente havia liberado Mosley do voto de segredo que ele havia observado estritamente mesmo que a razão para ele houvesse passado há muito tempo.

Mas o que Mosley e Perón discutiram em seu encontro na Casa Rosada em 1950, sem o conhecimento do MI5 e do Ministério de Relações Exteriores da Grã-Bretanha?

Hans Ulrich Rudel contou a história de suas incríveis experiências de guerra em "Piloto Stuka", uma biografia best-seller distribuída pela Editora Euphorian do Mosley. Os investigadores do governo da junta, como reportado no "European Stars and Stripes", notaram que em seu encontro Mosley havia pedido a Perón permissão para que Rudel visitasse a Europa para promover seu livro que isso havia sido acordado. Mas na mente de Mosley havia uma questão muito mais importante na agenda.

Desde a guerra ele havia defendido uma Europa Unida autossuficiente contendo toda a capacidade industrial, energética, material e alimentar necessária para proteger sua economia do trabalho barato do Terceiro Mundo. Para uma autarquia completa, isso também incluiria a "Europa Ultramarina" para englobar o Canadá, a Australásia e parte da África do Sul. Mas isso não era tudo, Mosley visualizava a inclusão dos países pró-europeus da América Latina em uma única "Europa Nação". Para começar, isso incluiria Argentina, Uruguai e Chile.

Eu lembro de suas palavras sobre o tema faladas há 50 anos para uma audiência popular na Prefeitura de Kensington: "E é lá na América do Sul, também, que apenas duas coisas realmente importam. Uma é o comunismo, e a outra é nossa grande ideia europeia!" Os aplausos que se seguiram devem ter chegado até o Royal Albert Hall..

A busca de Perón por unidade política com outros países da América do Sul começou logo no primeiro ano de sua segunda presidência, quando ele defende publicamente a união econômica entre Argentina, Chile e Brasil. Ele considerava uma confederação de Estados latinos como a única maneira de conseguir um desenvolvimento livre da dominação pelo imperialismo capitalista ou comunista. Em uma visita ao Chile em 1953 ele foi ainda mais longe: "Eu acredito que uma unidade chileno-argentina, uma unidade completa e não uma feita pela metade, deve se tornar total e imediata. A simples unidade econômica não será suficientemente forte".

Como primeiro passo para uma América do Sul Unida, acordos sobre os princípios da união foram assinados por Perón com o Chile, o Equador, a Nicarágua e o Paraguai, este até o tornou cidadão honorário. O presidente Vargas do Brasil, admirador de Perón, também se declarou em favor da unidade continental. Como sabemos, a união política permaneceria um sonho: golpes e crises internas logo ocuparam as energias de seus líderes. Mas como o biógrafo de Perón Joseph Page resumiu: "Perón foi o único líder latino a promover vigorosamente a união e ele o fez até o dia de sua morte".

Perón estava tentando fazer pela América do Sul o que Mosley queria fazer pela Europa. Isso certamente teria sido o principal tópico de discussão no encontro secreto entre Perón e Mosley: um no qual eles estariam em completo acordo.

Os dois homens continuaram a se manter em contato pelos anos seguintes, ainda que não esteja confirmado que eles tenham se encontrado novamente. Mas mesmo enquanto escrevo essas palavras, uma carta assinada por Perón no exílio dirigida ao escritório de Mosley apareceu na internet onde se lê: "Eu vejo agora que temos amigos em comum aos quais dou muito valor, algo que me faz reciprocar ainda com mais força as suas expressões de solidariedade... eu ofereço meus préstimos e um forte abraço". - assinado Juan Perón, Hotel Pinar, Málaga, Espanha, 20 de fevereiro de 1960.

Oswald Mosley e Juan Perón vieram de origens inteiramente diferentes, mas eles partilhavam de muitas crenças fundamentais. Ambos defendiam a "Terceira Posição" em economia. Ambos queriam unificar seus continentes e vislumbravam que a civilização, valores e cultura europeus passariam por um renascimento histórico. E ainda que, quando cercados, lutassem como leões, ambos iriam até os limites consistentes com a honra para evidar derramamento de sangue e guerra.

Mais do que nunca tais homens são necessários em uma era na qual pigmeus políticos disputam para descer a níveis ainda mais baixos de corrupção, covardia e mediocridade.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Adriano Erriguel - O Tempo dos Sargentos e dos Poetas: Gabriele D'Annunzio e as Origens do Fascismo

por Adriano Erriguel



Hoje é difícil admitir, mas em seus inícios o fascismo italiano não pressagiava o rumo funesto que terminaria tomando para a história da Europa.

Surgido do caos como uma onda de juventude, o fascismo pertencia a uma época revolucionária na qual, diante dos velhos problemas, se vislumbravam novas soluções. Em seu momento fundacional, o fascismo se apresentava como uma atitude, mais do que como uma ideologia, como uma estética, mais do que como uma doutrina, como uma ética, mais do que como um dogma. E foi o poeta, soldado e condottiero Gabriele D'Annunzio quem esboçou, da maneiras mais rotunda, esse fascismo possível que nunca pôde ser, e que acabou dando passagem para um fascismo real, que malogrou suas promessas iniciais para se encaminhar, da forma mais obtusa, ao abismo.

Poeta laureado e heroi de guerra, exibicionista e demagogo, megalômano e histrião, nacionalista e cosmopolita, místico e amoral, asceta e hedonista, drogado e erotômano, revolucionário e reacionário, talento do ecleticismo, da reciclagem e do pastiche, gênio precursor da posta em cena e das relações públicas: D'Annunzio foi um pós-moderno avant la lettre cujas obsessões nos parecem assombrosamente contemporâneas. O incêndio que ajudou a provocar tardaria a se extinguir, mas depois nada voltaria a ser o mesmo. Por que relembrar, hoje em dia, este maldito?

Talvez porque em uma atmosfera monocórdica de correção política, de transgressões amestradas e de pensamento desnatado, figuras como a sua funcionam como contramodelo, e nos lembram que, depois de tudo, a imaginação pode sim chegar ao poder.

Anos Incendiários

Houve uma época de vitalidade impossível de conter que, sobrecarregada de tensões e ideias de alta voltagem, precisou de uma guerra mundial para ventilar suas contradições. Os poucos anos que mediam entre 1900 e 1914 conheceram um extraordinário incêndio na arte e na literatura, no pensamento e na ideologia, que logo se propagou por todo o mundo. Um dos epicentros desse incêndio foi a Itália, mais concretamente o eixo entre Florença e Milão, lugar onde se acendeu "o sonho de um futuro radiante que surgiria após ter purificado o passado e o presente pelo ferro e pelo fogo". [1]

Esta piromania artístico-literária se alimentava, em seus estratos mais profundos, de uma revolução filosófica e cultural cuidadosamente incubada durante a segunda metade do século XIX: um vendaval ideológico que arremetia contra o positivismo racionalista da triunfante civilização burguesa. Frente à tabulação da existência pela economia e pela razão este novo vitalismo reivindicava o poder do irracional, do instinto e do subconsciente, e frente ao otimismo liberal em um mundo pacificado pelo progresso, opunha uma concepção trágica e heroica da existência. Neste clima intelectual surgiu uma aposta que, por sua radicalidade, bem poderia se qualificar de novo mito. Um mito destinado a cortar a história em duas metades.

O ensaista italiano Giorgio Locchi deu há três décadas o nome de "supra-humanismo" a uma corrente de ideias que encontrou sua formulação mais acabada na obra de Friedrich Nietzsche, em um plano filosófico, e na obra de Richard Wagner, em um plano artístico e mitopoético. Em sua essência, segundo Locchi, o supra-humanismo consistia em "uma consciência historicamente nova, a consciência do fatídico advento do niilismo, isto é, para dizê-lo com terminologia mais moderna, da iminência do fim da história". [2]

Essencialmente anti-igualitarista, o supra-humanismo se situava frente às correntes ideológicas que configuraram dois milênios de história: o "cristianismo enquanto projeto mundano, a democracia, o liberalismo, o socialismo: correntes todas que pertenciam ao campo igualitarista". A aspiração profunda do supra-humanismo, que para Locchi não era senão a emergência do inconsciente pré-cristão europeu ao âmbito da consciência, consistia em proceder a uma refundação da história através do advento de um homem novo. Com um método de ação: o niilismo como única via de saída do niilismo, um niilismo positivo que bebia a taça até a borra e que fazia tábula rasa para construir, sobre as ruínas e com as ruínas, o novo mundo.

Mais que uma corrente organizada, o supra-humanismo se configurou como um clima intelectual europeu que impregnou, em graus diversos, o pensamento, a literatura e a arte de princípios do século XX, com a França como laboratório ideológico e com a Itália como teatro de todos os experimentos. Na ebolução italiana daqueles anos, se agitavam sindicalistas revolucionários, vanguardistas, anarquistas e nacionalistas, e todos levavam, em graus diversos, a impressão supra-humanista. Mas o protagonista indiscutível entre todos os aspirantes a incendiários era o movimento futurista.

O futurismo foi a primeira vanguarda autenticamente global, não apenas no sentido geográfico, mas enquanto veiculava uma espiração à totalidade. [3] Longe de se limitar a ser uma proposta artística, o futurismo se estendia ao pensamento, à literatura, à música, ao cinema, ao urbanismo, à arquitetura, ao desenho, à moda, à publicidade, à política. O futurismo portava "a euforia pelo mundo da técnica, das máquinas e da velocidade" e empregava "uma nova linguagem sintética, metálica, sincopada". Não desdenhava "a apologia da violência e da guerra, exaltava a raça entendida como estirpe, não como racismo vulgar, e acima de tudo como promessa de uma supra-humanidade futura". [4] Seus inimigos eram a burguesia, o romantismo, a tradição, o clero, as famílias, todo o velho, em suma. O futurismo era a vanguarda por excelência, a teorização radical de uma vontade pirômana. Algo que parecia estar, em princípio, nas antípodas de D'Annunzio.

No momento de apogeu das vanguardas e da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Gabriele D'Annunzio, celebrado em toda Itália como Il Vate, era o escritor mais famoso da península, para muitos seu principal poeta depois de Dante. Mas para os futuristas, seu estilo, abundante em maneirismos modernistas, decadentistas e simbolistas, em florilégios e em retórica oitocentista, podia ser considerado, por direito próprio, como a linguagem desse mausoléu ao qual eles pretendiam atear fogo.

Mas entre os futuristas e D'Annunzio, se tratava mais de amor e ódio. No esteio de Byron, Il Vate pensava que um poeta podia ser também um heroi. Ao eclodir a guerra, e fazendo gala da versatilidade que já havia mostrado em sua carreira literária, se tornou de poeta decadente em poeta combatente. E se investiu de uma nova missão, a de exemplarizar o ideal supra-humanista e sua aspiração máxima: a superação do mundo burguês e a chegada de um "homem novo" que encarnasse uma nova ética da ação. O estilo é o homem. Poucas figuras tão dispostas como a sua para simbolizar os novos tempos.

Florilégios para um Massacre

"A morte está aqui (...), tão bela quanto
a vida, embriagadora, cheia de promessas,
transfiguradora". - Gabriele D'Annunzio

Hoje é difícil compreender a pulsão suicida de uma civilização que, no ápice de seu poder, organizou seu próprio holocausto. O eclodir da Primeira Guerra Mundial foi celebrado como esbanjamento de vitalidade, como catarse e como regeneração moral. O entusiasmo belicista não conhecia fronteiras de ideologia ou de classe, e os artistas e intelectuais de toda Europa se apressaram para se converterem na voz da nação. Nenhuma outra voz cantou a guerra com tanto arrebato como a de D'Annunzio. Nenhuma outra oratória preparou tantos compatriotas, pela glória e sedução das palavras, para matar e morrer. Nenhum outro apóstolo da guerra se mostrou tão ávido por assumir, em sua própria carne, os efeitos do que pregava.

Quando a Itália anunciou sua entrada na guerra, Il Vate se encontrava no ápice de sua glória. Celebrado em toda Europa, rodeado de luxos e coberto de mulheres, tudo o convidava a contemplar a guerra desde uma cômoda distância. Mas com 52 anos, se alistou nos Lanceiros de Novara, unidade com a qual chegaria a participar em dezenas de ações. O exército, consciente do potencial propagandístico de sua figura, o permitiu servir da maneira qe o impacto público fosse mais notável. E lhe permitiu utilizar a que seriasua arma mais letal: a palavra.

Durante quatro anos de guerra, D'Annunzio falou e falou. Falou nas trincheiras e nas retaguardas, nos aeródromos e nas bases navais, nos funerais massivos e na hora dos ataques. Seus discursos eram sugestivos e magnéticos, destinados a conquistar não o intelecto, mas as emoções. Neles as misérias físicas mais cruas eram orladas em uma nuvem de glória, os combatentes eram herois e mártires, tão nobres quanto os herois da Antiguidade clássica ou as legiões de Roma, e a guerra era uma sinfonia heroica na qual suas palavras repicavam como "ondas hipnóticas de linguagem: sangue, morte, amor, dor, vitória, martírio, fogo, Itália, sangue, morte...". Ainda que conhecesse de primeira mão o horror da carnificina, continuava pregando sua fé nas "virtudes purificadoras da guerra e dizendo às tropas que eram sobre-humanas". Falava de bandeiras tremulando sobre o céu da Itália, de rios cheios de cadáveres, da terra sedenta de sangue. Não dissimulava a atrocidade da guerra, que descrevia como as torturas que Dante nunca imaginou para seu Inferno, mas aos soldados dizia que seu sacrifício tinha um sentido, e os elogiava de uma forma que nunca ouviram, e lhes repetia que o sangue dos mártires clamava por mais sangue, e que só pelo sangue a Grande Itália se veria redimida. [5]

Uma apologética da matança que resulta, vista cem anos depois, difícil de digerir. Acreditavam nisso?

Não é essa a questão. E parece insuficiente se conformar aqui com uma leitura "não-anacrônica", ou se limitar a assinalar que "essa era a linguagem da época". Talvez seria mais indicado proceder a uma inversão de perspectiva. Ou a uma leitura diferente, em chave supra-humanista.

A Guerra como Experiência Interior

A reputação que D'Annunzio adquiriu durante a guerra se deve mais a seus feitos que a suas palavras. Longe de ser um "soldado de papel", não desperdiçou ocasião de pôr sua vida em perigo, e ao longo de três anos chegou a combater por terra, mar e ar. Com um talento precursor para a publicidade, sabia que os pequenos atos de terrorismo tinham mais força psicológica que os ataques massivos, e se especializou em ações suicidas, aéreas e navais segundo os cânones futuristas, com valor simbólico e impacto midiático. Voou em inúmeras ocasiões sobre os Alpes, em uma época na qual isso era algo extraordinário, para bombardear o inimigo, ocasionalmente com folhas de propaganda. E quando os austríacos puseram preço em sua cabeça, liderou uma incursão suicida, em um torpedeiro com um punhado de homens, contra o porto inimigo de Buccari. [6] Em uma de suas missões aéreas perdiu a visão de um olho e parcialmente a do outro, o que ocultou durante um mês para seguir voando. Finalmente teve que permanecer vários meses imobilizado para salvar a vista.

Suspenso de costas e entre dores e pesadelos compôs seu poema "Notturno". A perspectiva da cegueira era para ele ocasião de superação, mais que de abatimento. Se confessava feliz na grandeza de sua perda, os cegos em ação eram considerados como a aristocracia dos feridos, e se recreava na agudização de seus sentidos da audição e do olfato. Se crermos nele, essa sensação de felicidade nunca o abandonaria ao longo de toda a guerra. [7]

O verdadeiro D'Annunzio se revela, mais que em suas trompeterias patrióticas, em sua correspondência e em seus diários. Neles, transparece sua atitude supra-humanista frente à guerra. Se algo chama a atenção em suas anotações é a "flutuação constante entre o espantoso e o pastoral". Tudo se faz para ele objeto de celebração, até os detalhes mais mínimos: desde as explosões e os ataques a baioneta até o brilho de uma libélula no barro ou a aparição fugaz de um pica-pau entre as árvores calcinadas. Se crermos nele, D'Annunzio foi feliz em meio a fome, sede, frio extremo, feridas e bombardeios, porque seu entusiasmo onívoro pela vida podia com tudo isso, porque tudo isso não era senão uma só coisa: a manifestação dessa vida que ele consumia com um entusiasmo voluptuoso. O que era a guerra, além de um furo na vida ordinária através do qual se manifestava algo mais elevado?...: "a vida tal e como deve ser, e que passa diante de nós, a Vida - nas palavras de Ernst Jünger - como esforço supremo, vontade de combater e dominar". [8]

O paralelismo entre D'Annunzio e Jünger não é casual, ambos manifestam uma comum atitude supra-humanista. A mesma avidez de experiências, o mesmo desafio ao azar, a mesma preocupação estética, a mesma ausência de moralismo. Contrasta no caso do prussiano, à parte a objetividade afiada de seu estilo, a ausência prática de qualquer nota patriótica. Mas cabe também pensar que em D'Annunzio a prosopopeia nacionalista não era o grão, mas a palha. Uma arma de guerra como outras muitas. Cabe pensar que o essencial para ele era essa disciplina do sofrimento da qual falava Nietzsche, esse Amor fati que não é senão um grande SIM à vida em toda sua crueza.

Mais que de exaltação belicista se trata de uma opção filosófica, muito distinta da postura moralizante e lastimosa de outros escritores. Quando Wilfred Owen, Erich Maria Remarque ou Ernest Hemignway denuncia e condenam a guerra, indubitavelmente tem razão, mas não por isso deixam de sublinhar uma obviedade. Ocorre que eles vivem a guerra a partir da sensibilidade horrorizada do homem moderno. Mas quando Ernst Jünger escreve: "aqueles que unicamente sentiram e conservaram a amargura de seu próprio sofrimento, em lugar de reconhecer nela [a guerra] o signo de uma alta afirmação, esses viveram como escravos, não tiveram Vida Interior, mas somente uma existência pura e tristemente material", o que faz é expressar essa sensibilidade imemorial que considera que o espírito é tudo. "Tudo é vaidade neste mundo - continua Jünger - somente a emoção é eterna. Só a muitos poucos homens é dado poder se fundir em sua sublime inutilidade". Amor fati. A linguagem "moral" não tem nada que fazer aqui. Não por acaso esta é a linguagem da Ilíada.

Outro elemento interessante é o uso que D'Annunzio faz do tempo histórico. A dicotomia novo/velho, um tema recorrente em seu pensamento, alcançaria expressão plena em suas anotações bélicas. Sempre à caça de analogias históricas, "cada soldado de infantaria lhe recordava algum episódio do glorioso passado, cada camponês esgotado a um intrépido marinheiro veneziano, a um legionário romano, a um cavaleiro medieval, a algum santo marcial recriado em um quadro renascentista. Sua visão do passado glorioso da Itália recobria o horrível conflito com um véu teatral e rodeava de glamour aos excrementos, ao lixo e às montanhas de mortos". [9] Para o poeta de Pescara o armamento podia ser moderno, mas os homens que o manejavam, os jovens recrutas que assemelhava herois míticos ou arquétipos, pertenciam a uma tradição atemporal.

Essa confusão do passado e do presente ilustra a sua maneira um elemento que Giorgio Locchi associava à mentalidade supra-humanista: a concepção "não-linear" do tempo, a presença constante do passado como uma dimensão que está dentro do presente junto à dimensão do futuro. É a ideia revolucionária, frente às concepções lineares, sejam "progressistas" ou "cíclicas", da tridimensionalidade do tempo histórico: em cada consciência humana "o passado não é outra coisa que o projeto ao qual o homem conforma sua ação histórica, projeto que trata de realizar em função da imagem que se forma de si mesmo e que se esforça por encarnar. O passado aparece, então, não como algo morto, mas como uma prefiguração do porvir".[10]

Locchi associava essa "nostalgia do porvir" à imagem "esférica" do tempo esboçada em Assim Falou Zaratustra, assim como a um dos significados canalizados pelo mitema nietzscheano do Eterno Retorno. Confusão do passado e do porvir, nostalgia das origens e utopia do futuro: a concepção supra-humanista do tempo, sentida de forma seguramente inconsciente por D'Annunzio e muitos outros, põe em primeiro plano a liberdade do homem frente a todo determinismo, porque o passado ao qual se deve religar é sempre objeto de escolha no presente, assim como objeto de interpretação mutante. O momento presente "nunca é um ponto, mas sim uma encruzilhada: cada instante presente atualiza a totalidade do passado e potencializa a totalidade do futuro". [11] De maneira que o passado nunca é um dado inerte, e quando se manifesta no futuro o faz de forma sempre nova, sempre desconhecida.

Assinala Hughes-Hallett que "a guerra trouxe a D'Annunzio a paz". Havia encontrado ma transcendental "terceira dimensão" do ser, mais além da vida e da morte. Partir em missão perigosa era para ele alcançar um êxtase comparável ao dos grandes místicos. A guera lhe trouxe "aventura, propósito, uma coorte de bravos e jovens camaradas aos quais amar com um amor mais além do qe se dedica às mulheres, uma forma de fama, nova e viril, e a intoxicação de viver em perigo mortal constante". [12]

Acabou a guerra reconhecido como um heroi e coberto e condecorações. E então ele e muitos como ele, aqueles recrutas aos quais comparava com os herois míticos do passado, deviam voltar a suas casas, a suas oficinas, a seus matrimônios de conveniência, à monotonia de suas aldeias...

Começava a nascer o fascismo.

Adeus às Armas?

A revolução vitoriosa chegará. Mas não a
farão as almas belas, como a sua, a
farão os sargentos e os poetas - Margarita Sarfatti, no filme O jovem Mussolini, 1993

Quando em 23 de março de 1919 um aglomerado de futuristas, de ex-arditi (tropas de assalto do exército italiano), de sindicalistas revolucionários e de antigos socialistas fundava na praça do Santo Sepulcro em Milão o primeiro Fasci di Combattimento, ninguém sabia em realidade o que resultaria de tudo aquilo. Sua cabeça visível era o ex-sargento Benito Mussolini, um político manobrista e possibilista recém-expulso do Partido Socialista Italiano. Mussolini afirmava que os fascistas evitariam o dogmatismo ideológico: "nos permitimos o luxo de sermos aristocráticos e democráticos, conservadores e progressistas, reacionários e revolucionários, de aceitar a lei e de ir mais além dela". E acrescentava que "antes de tudo somos partidários da liberdade. Queremos a liberdade para todos, até para nossos inimigos". [13] O primeiro programa fascista, visivelmente inclinado à esquerda, recolhia a herança intelectual do sindicalismo revolucionário.

Visto em perspectiva não cabe dúvida hoje de que o fascismo histórico foi um fenômeno ideológico completo. Mas em seus inícios parecia o fruto de um grande improviso. Mussolini proclamava então: o fascismo é a ação e nasce de uma necessidade de ação. Em primeiro lugar, reunia muitas das aspirações urgentes da "geração perdida" que havia feito a guerra, e que considerava que o estado da Itália, um país pobre e atrasado, com desigualdades crônicas, sem comberturas sociais, com uma vitória "mutilada" pelos aliados e à beira da guerra civil, tornava impensável uma volta à era dos partidos burgueses e a suas danças eleitorais. Mas em um sentido mais profundo, tal e como assinala o historiador Zeev Sternhell, antes de se converter em força política o fascismo foi um fenômeno cultural, uma manifestação extrema, ainda que não a única possível, de um fenômeno muito mais amplo. [14]

O antecedente intelectual mais imediato do fascismo era a revisão do marxismo realizada pelo sindicalismo revolucionário, uma revisão em um sentido antimaterialista. O que estes hereges do marxismo recusavam da doutrina era sua pretensão científica, sua infravaloração dos fatores psicológicos e nacionais, sua visão do socialismo como uma mera forma racional de uma organização econômica. Outra de suas motivações era o desencanto diante do valor do proletariado como força revolucionária: os proletários eram normalmente refratários a tudo que não afetasse seus interesses materiais, ou seja a sua aspiração a se converterem em pequenos burgueses. Algo que os primeiros fascistas constataram, assim como também constataram que, entre o socialismo e o proletariado, a relação era meramente circunstancial. Do que se deduzia que a revolução não era já questão de uma única classe social (...), o que por sua vez quebrava o dogma da luta de classes. A revolução passaria a ser, assim, uma tarefa nacional, e o nacionalismo seu fio condutor". [15]

Mas que revolução? Uma revolução de motivos puramente econômicos resultava insuficiente para a cultura política que se estava gestando: uma cultura política comunitária, anti-individualista e anti-racionalista e que aspirava a remediar a desagregação social ocasionada pela modernidade. De fato, na economia, o fascismo se manfiestava como possibilista e declarava querer aproveitar o melhor do capitalismo e do progresso industrial, sendo o essencial que a esfera econômica ficasse sempre subordinada à política. A questão subjacente era outra.

O essencial, seguindo Zeev Sternhell, era "instaurar uma civilização heroica sobre as ruínas de uma civilização rasteiramente materialista, moldar um homem novo, ativista e dinâmico". O fascismo oridinário exibia um caráter moderno e sua estética futurista ferroava a imaginação dos intelectuais, o que explica a atração que exercia sobre a juventude, assim como pregava que uma elite não é uma categoria definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, mas a expressão de um estado de ânimo: a aristocracia forjada nas trincheiras era uma prova disso. [16] E do marxismo tomava a ideia da violência como instrumento de mudança. Alguém definiu uma vez o fascismo como nosso mal do século: uma expressão que evoca uma aspiração à superação do mundo burguês. Mais que um corpo dotrinário o fascismo original era uma nebulosa, uma força rupturista de caráter inédito que aspirava à construção de uma "solução de mudança total".

O que ocorria, seja dito em termos locchianos, é que o princípio supra-humanista estava passando, de forma acelerada, de sua fase mítica a sua fase ideológica e política. [17] No plano ideológico a chamada Revolução Conservadora alemã era uma de suas manifestações. E no plano político o fascismo de Mussolini foi o broto que fez fortuna. Mas não o único.

É aqui que entra D'Annunzio.

A Rota rumo ao Rubicão

No início de 1919, Mussolini era apenas um líder político em processo de amadurecimento, enquanto que D'Annunzio era o homem mais célebre da Itália. Finalizada a guerra com uma "vitória mutilada", os aliados ignoraram as promessas territoriais feitas à Itália, o país se afundou em uma espiral de caos político e social. E então muitos dos que esperavam que um "homem forte" tomasse as rédeas começaram a olhar para D'Annunzio. De sua parte, o poeta-soldado descobria o difícil que lhe resultava viver sem a guerra, e assim como muitos outros italianos ruminava sua amargura pela traição dos aliados.

"Vossa vitória não será mutilada", escreveu D'Annunzio em outubro de 1918. Um slogan que fez sucesso (como tantos outros que cunhou) e que era música nos ouvidos de todos que esperavam um novo chamado às armas. A Itália transbordava de homens acostumados à violência e que, ao invés de receber uma saudação como herois, eram tratados como hóspedes indesejáveis quando não como feras selvagens, destinados ao desemprego e aos insultos dos agitadores de uma revolução bolchevique que amadurecia. Entre esses homens destacavam-se os arditi, os soldados de elite, ferozmente indisciplinados, acostumados à luta corpo a corpo e com adagas e granadas, ataviados com uniformes negros e com jubas às vezes tão grandes quanto crinas de cavalo, os dândis da guerra. [1] Sua bandeira era negra e seu hino a Giovinezza. Todos olhavam para D'Annunzio como símbolo, e alguns deles começaram a se denominar dannunzianos. Um heroi de guerra e um exército de volta ao lar: uma conjunção fatídica para qualquer governo civil. As autoridades começaram a temer D'Annunzio. O Rubicão nunca havia sido verdadeiramente esquecido na Itália.

O poeta-soldado começou a multiplicar suas aparições públicas, a escarnecer do governo que havia aceito a humilhação de Versalhes, a incitar os italianos a rechaçar as autoridades. Em muito pouco tempo se viu no centro de todas as conspirações, e todos os grupos de oposição começaram a utilizar seu nome. Com os fascistas manteve distância. D'Annunzio os considerava como "vulgares imitadores, potencialmente úteis, mas lamentavelmente brutos e primários em sua forma de pensar". [2] E entre todos os que voltavam seu olhar para D'Annunzio se destacavam as comunidades italianas na costa do Adriático que esperavam ser "redimidas" mediante sua incorporação à pátria mãe. D'Annunzio, de sua parte, prometeu que estaria com eles "até o fim".

A cidade de Fiume, porto principal do Adriático, contava com uma maioria de população italiana que em outubro de 1918 reclamou sua incorporação à Itália. [3] Mas os aliados reunidos em Versalhes situaram a cidade sob uma administração internacional. A cidade se converteu, então e, um símbolo para todos os nacionalistas italianos, e grupos de ex-arditi, ao grito de "Fiume ou morte", começaram a formar a "Legião de Fiume" dispostos a "libertar" a cidade. E em meio a uma espiral de violência, os italianos de Fiume ofereceram a D'Annunzio a liderança da cidade.

O poeta-soldado havia encontrado seu Rubicão. E sua nova encarnação: a de condottiero.

Fiume era uma Festa

"O contágio da grandeza é o maior
perigo para qualquer um que viva em Fiume,
uma loucura contagiosa, que impregnou
a todo mundo". - o bispo de Fiume, em uma entrevista

Quando em 11 de setembro de 1919, D'Annunzio chegou a Fiume em um Fiat 501, seguramente não sabia que dava início a um dos experimentos mais extravagantes da história política do Ocidente: o sonho platônico do príncipe-poeta ganhava vida com dois milênios de atraso. Um vendaval de libertação dionisíaca se desencadeou sobre a cidade adriática, uma farra nietzscheana na qual davam as mãos a política e o misticismo, a utopia e a violência, a revolução e Dadá. A era da política-espetáculo havia começado, e D'Annunzio levantava a cortina.

A época de Fiume foi descrita como um microcosmo do mundo político moderno: tudo se prefigurou ali, tudo se experimentou ali, todos somos em grande parte os herdeiros. Um momento mágico, uma bacanal de sonhadores, uma sinfonia supra-humanista e heroica na qual uma sociedade faminta de maravilhas, galvanizada pela guerra, cansada da insipidez de um século de positivismo, se encontrava com um líder a sua altura e secundava, a ritmo de desfiles multicoloridos e multidões enfervorizadas, suas quimeras de César visionário.

A trajetória política da cidade durante esses dezesseis meses foi, como não podia deixar de ser, errática. O primeiro programa, a anexação à Itália, era simples e realistas, mas naufragou em pélago de indecisões e puritanismos diplomáticos. O segundo programa era de caráter subversivo: provocar a fagulha que desencadeasse uma revolução na Itália. Mas havia um terceiro programa, incontrolável e radical: Fiume como primeiro passo, não para uma Grande Itália, mas para uma nova ordem mundial.

Um programa que ganhava força a medida que se dissipava, pela pressão dos aliados e pela indecisão do governo italiano, a perspectiva da incorporação à Itália. Impulsionada pelos revolucionários sindicalistas que rodeavam D'Annunzio, a "Constituição de Fiume" (a Carta del Carnaro) é o aspecto mais interessante do legado de Fiume, pelo que aporta de contribuição original à teoria política. [4] A Carta del Carnaro continha elementos pioneiros: a limitação do (até então sacrossanto) direito à propriedade privada, a completa igualdade das mulheres, o laicismo na escola, a liberdade absoluta de culto, um sistema completo de seguridade social, medidas de democracia direta, um mecanismo de renovação contínua da liderança e um sistema de corporações ou representação por seções da comunidade: uma ideia que faria fortuna. Segundo seu biógrafo Michael A. Leeden, o governo de D'Annunzio, composto por elementos muito heterogêneos, foi um dos primeiros a praticar um tipo de "política do consenso" segundo a ideia de que os diversos interesses em conflito podiam ser "sublimados" dentro de um movimento de novo cunho. O essencial era que a nova ordem estivesse baseada nas qualidades pessoais do heroísmo e do gênio, mais que nos critérios tradicionais de riqueza, herança e poder. O objetivo final, basicamente supra-humanista, não era outro senão a forja de um novo tipo de homem.

A Carta del Carnaro continha toques surrealistas como designar à "Música" como princípio fundamental do Estado. Mas o mais original, o mais especificamente dannunziano, era a inclusão de "um elaborado sistema de celebração de missas e rituais, designados para garantir um alto nível de consciência política e de entusiasmo entre os cidadãos". [5] Em Fiume, D'Annunzio, agora denominado "o Comandante", começou a experimentar com um novo meio, criando "obras de arte nas quais os materiais eram colunas de homens, chuvas de flores, fogos artificiais, música eletrizante, um gênero que posteriormente seria desenvolvido e reelaborado durante duas décadas em Roma, Moscou e Berlim". [6] O comandante inaugurou uma nova forma de liderança baseada na comunicação direta entre o líder e as massas, uma espécie de plebiscito quotidiano no qual as multidões, congregadas diante de sua varanda, respondiam a suas perguntas e secundavam suas invectivas. Todo o ritual do fascismo já estava ali: os uniformes, os estandartes, o culto aos mártires, os desfiles de tochas, as camisas negras, a glorificação da virilidade e da juventude, a comunhão entre o líder e o povo, a saudação com braço ao alto, o grito de guerra: Eia Eia Alalá! [7] Assinala Hughes-Hallett que D'Annunzio nunca foi fascista, mas que o fascismo foi inequivocamente dannunziano. Alguém escreveu que, sob o fascismo, D'Annunzio foi a vítima do maior plágio da história.

Outro elemento pioneiro foi a criação de uma Liga de Nações anti-imperialistas: a "Liga de Fiume", projeto de aliança de todas as nações oprimidas que desenvolvia o conceito de revolução mundial e de "nação proletária" teorizado por Michels, e que aspirava a reunir desde o Sinn Fein irlandês até os nacionalistas árabes e indianos. Algém quis ver o Comandante como um profeta do terceiro-mundismo, se bem seria mais correto ver aqui "a primeira aparição da temática dos direitos dos povos". [8] As potências aliadas começaram a se alarmar. A empreitada de Fiume perdia seu caráter nacionalista e acentuava seu conteúdo revolucionário...

Fazei Amor e fazei Guerra!

"Giovinezza, Giovinezza, Primavera di 
Bellezza!..." - Canção dos Arditi

Um Estado regido por um poeta e com a criatividade convertida em obrigação cívica: não era estranho que a vida cultural adquirisse um viés anticonvencional. [9] A Constituição estava sob a guarda da "Décima Musa", a Musa, segundo D'Annunzio, "das comunidades emergentes e dos povos em gênese (...), a Musa da Energia", que no novo século deveria conduzir a imaginação ao poder. Fazer da vida uma obra de arte. No Fiume de 1919, a vida pública se converteu em uma performance de 24 horas em que "a política se fazia poesia e a poesia sensualidade, e na qual uma reunião política podia terminar em um baile e um baile em uma orgia. Ser jovem e ser apaixonado era uma obrigação". [10] Entre a população local e os recém-chegados se propagou uma atmosfera de liberdade sexual e de amor livre, incomum para a época. Começava a revolução sexual. Assim o queria o novo "Príncipe da Juventude", caolho e de cinquenta e seis anos.

Não é de estranhar que a cidade se convertera em um pólo magnético para toda a confraria de idealistas, rebeldes e românticos que pululava pelo mundo. Uma Cocanha na qual se acotovelavam protofascistas e revolucionários internacionalistas sem que a ninguém ocorresse algo tão vulgar quanto "entrar em diálogo". Um laboratório contracultural no qual brotavam grupos heterogêneos como o "Yoga" (inspirado pelo hinduísmo e pelo Bhagavad Gita), os "Lótus Castanhos" (proto-hippies partidários de um retorno à natureza), os "Lótus Vermelhos" (defensores do sexo dionisíaco), ecologistas, nudistas, dadaístas e outros espécimes de variada índole. O componente psicodélico estava assegurado por uma generosa circulação de drogas sob o olhar tolerante do Comandante, consumidor mais ou menos ocasional do pó branco. [11] Os anos 60 começaram em Fiume. Mas diferentemente dos hippies californianos, os hippies do Comandante estavam dispostos não só a fazer o amor, mas também a fazer a guerra.

Enquanto isso Roma olhava para Fiume com uma mistura de consternação e pavor. Nas palavras dos socialistas italianos, "Fiume estava sendo transformada em um bordel, refúgio de criminosos e prostitutas". O certo é que todo mundo ia para Fiume: soldados, aventureiros, revolucionários, intelectuais, espiões aliados, artistas cosmopolitas, poetas neopagãos, boêmios com a a cabeça nas nuvens, o futurista Marinetti, o inventor Marconi, o diretor de orquestra Toscanini...

Proliferavam a eloquência e o dandismo, a personalidade do Comandante era contagiosa. Condecorações, uniformes, títulos, hinos e cerimônias para todos! O estilo ornamental era de rigor. E por sua vez os novos visitantes se iam fazendo cada vez mais marginais: menores fugitivos, desertores, criminosos e outras pessoas com assuntos a tratar com a justiça... Muitos desses elementos foram recrutados para formar a guarda do Comandante: a "Legião Disperata", de uniformes esplendorosos. D'Annunzio observava seus arditi comendo cordeiro nas praias, em seus fantásticos uniformes resplandecentes à luz das fogueiras, e os comparava a Aquiles e seus mirmidões de volta a seu acampamento frente a Troia. É essa mistura eletrizante de arcaísmo e futurismo, tão própria da sensibilidade supra-humanista. Soava tão antigo, e não obstante era tão novo...

Pressionado por seus compromissos internacionais, o governo de Roma decretou um bloqueio contra Fiume, e a cidade encontrou um método para assegurar sua subsistência: a pirataria. Organizados por um antigo ás da aviação italiana, Guido Keller, os barcos de Fiume passaram a se apossar de qualquer buque que transitasse entre o estreito de Messina e Veneza. E cada captura realizada pelos uscocchi, assim chamados por D'Annunzio em honra aos piratas adriáticos do XVI, era recebida na cidade como uma festa. As atividades ilícitas se ampliaram ao sequestro, um comando de Fiume capturou um general italiano que passava por Trieste, e às expedições para tomar provisões em territórios vizinhos. Também às ocupações simbólicas de outras cidades próximas. O Comandante mandou bordar seu lema Me Ne Frego (algo como: "Não dou a mínima") em uma bandeira que pendurou sobre sua cama. [12] Fiume era um Estado fora-da-lei, o que hoje chamaríamos um Estado ilegal. Assinala sua biógrafa que D'Annunzio, como um novo Peter Pan, havia constrído uma "Terra do Nunca, um espaço liberado das relações causa-efeito onde os garotos perdidos poderiam desfrutar para sempre de suas perigosas aventuras sem se sentirem incomodados pelo senso comum". [13]

Mas o problema da infância é que ela acaba, e chega a hora dos adultos. O Tratado de Rapallo, assinado em novembro de 1920, estabelecia as fronteiras ítalo-iugoslavas e chegava a um compromisso sobre Fiume. D'Annunzio ficou isolado, e até os fascistas de Mussolini retiraram seu apoio. Após uma intervenção da Marinha italiana e da resistência de um punhado de arditi, que findou com várias dezenas de mortos, D'Annunzio foi obrigado a abandonar Fiume ao fim de dezembro de 1920. Em uma cerimônia de despedida seu último grito foi: Viva o amor!

O poeta havia concluído sua revolução. Chegava a vez do ex-sargento.

O Fascismo sem D'Annunzio

Passados os anos, um Mussolini já no poder celebraria Gabriele D'Annunzio como o "João Batista do fascismo". Convertido em lenda, o poeta passaria suas últimas duas décadas recolhido em sua mansão do Vittoriale nas margens do lado de Garda, onde Mussolini o visitava ocasionalmente para encontrar-se com ele.

Hoje se considera D'Annunzio como um personagem do Regime, mas o certo é que nunca foi membro do Partido Fascista e suas relações com o Duce foram muito mais ambivalentes do que se pensa. Em privado, Mussolini se referia a D'Annunzio como a "uma cárie, que se tem que arrancar ou cobrir com ouro", e se referia também ao "fiumismo mal entendido" como sinônimo de atitude anarquizante e de pouca confiança. Em realidade, ambos personagens se observavam com mútua suspeita: Mussolini considerava que D'Annunzio era muito influente e imprevisível, e este se abstinha de prestar apoio expresso ao Duce. Em realidade, o poeta havia recomendado a seus arditi que se mantivessem à margem de qualquer formação política, ainda que muitos acabassem no fascismo e alguns na extrema esquerda, inclusive na Espanha nas Brigadas Internacionais. [14] As únicas ocasiões em que D'Annunzio tratou de influenciar politicamente Mussolini foram para lhe aconselhar a que se mantivesse longe de Hitler ("esse palhaço feroz", "esse rosto engomado e pouco nobre").

O poeta-soldado faleceu em 1938 em sua mansão do Vittoriale, em uma atmosfera tão barroca quanto claustrofóbica, rodeado de espiões italianos e alemães. Com sua morte desapareceu toda uma época: a dos albores desse fascismo que não pode ser. O fascismo real recolheu a encenação e a liturgia de Fiume, mas as esvaziou de liberdade e as transformou em uma coreografia burocratizada a serviço de um projeto que levou a Itália à catástrofe. A história é bem conhecida. Não obstante, é necessário mencionar certas coisas por alto...

Normalmente se passa por alto que esse primeiro fascismo formava parte de um clima cultural vanguardista, sofisticado e plural, muito diferente do provincianismo obtuso que caracterizava os nazistas e sua breguice völkisch. De fato, o pluralismo cultural da Itália fascista, um país onde praticamente não houve qualquer êxodo intelectual, não tem comparação com o dirigismo imposto sobre a cultura na época nazista. Estudiosos como Renzo de Felice ou Julien Freund contrapuseram o caráter otimista e "mediterrâneo" do fascismo, com sua tendência a exaltar a vida dentro de um certo espírito de medida, frente ao caráter sombrio, trágico e catastrófico do nazismo, com sua inclinação germânica ao Ragnarök. [15] Igualmente se poderia destacar o caráter antidogmático, inclusive artístico e boêmio, desse primeiro fascismo, em contraposição às ínfulas "científicas" da dogmática nazista, baseada no racismo biológico e no darwinismo social.

Ao que se há que acrescentar que o primeiro fascismo não tinha qualquer traço de antissemitismo, mas até o contrário: muitos judeus foram fascistas de primeira hora e inclusive tiveram cargos importantes, tais como a publicista Margaritta Sarfati, amante judia do Duce e prima donna da vida cultural do regime. De fato, a política externa do regime manteve contatos frequentes com o movimento sionista. E após a chegada de Hitler ao poder eminentes exilados judeus encontraram acolhida na Itália.

Se passa também por alto que após a "Marcha sobre Roma" em 1922 Mussolini se apresentou perante o Parlamento e obteve um amplo voto de confiança da maioria não-fascista. Se tende a esquecer que a violência das esquadras fascistas, ainda que verdadeira, não era exclusiva do fascismo: essa era a linguagem política em boa parte da Europa. E na Itália foi o fascismo, melhor organizado, o que finalmente se impôs. Se omite também que o fascismo colaborou com os socialistas e com outras forças de oposição, e que ganhou uma maioria de votos nas eleições de 1924. Somente então, após o brutal assassinato do deputado socialista Matteoti e a negativa da oposição de permanecer no Parlamento, os energúmenos do fascismo ganharam a mão e se institucionalizou a ditadura.

Em realidade, 1924 marca o começo do declive. Os anos posteriores são os das grandes realizações do regime: a edificação de um Estado social, as grandes obras públicas e a modernização do país. Logros que conquistaram a adesão de boa parte da população. Mas o fascismo já estava mortalmente ferido. Ao trair aquela promessa de 1919 na Praça do Santo Sepulcro de Milão ("Queremos a liberdade para todos, até para nossos inimigos") o fascismo se transformou em uma burocracia complacente e satisfeita, e Mussolini se foi apartando da realidade para se encerrar em uma megalomania que resultou funesta.

Ainda assim, durante alguns anos o fascismo impulsionou uma política favorecedora da paz e da cooperação internacional, como o provam os Acordos de Latrão em 1929 e as propostas de desarmamento na Sociedade das Nações em 1932. Em relação à Alemanha nazista há algo que também se tende a esquecer: Mussolini foi o impulsionador da chamada "Frente de Stressa", uma iniciativa diplomática que em abril de 1935, junto a França e Grã-Bretanha, tratava de garantir a independência da Áustria e o respeito ao Tratado de Versalhes, e por conseguinte frear Hitler quando todavia era possível fazê-lo. Dois meses depois, em junho de 1935, Grã-Bretanha assinava com a Alemanha nazista um acordo naval que representou a primeira violação desse tratado. Mussolini ficou sozinho.

O isolamento se consumou a partir da invasão da Abissínia e das sanções que foram impostas à Itália, e que levaram Mussolini a uma aliança com Hitler. A partir de então, prisioneiro de uma mistura de temor e fascínio pelo ditador alemão, o Duce se viu arrastado para o abismo. Em 1938 caiu inclusive na abjeção de importar a legislação antissemita do Terceiro Reich.

Teroa sido possível outro rumo, menos ditatorial e mais "dannunziano"? Mussolini, ao contrário de Hitler, nunca teve domínio absoluto sobre o Partido, e dentro do fascismo sempre houve linha contrária aos nazistas e favorável a um entendimento com França e Grã-Bretanha. Sua principal figura era o Ministro da Aviação Ítalo Balbo, heroi de guerra e esquadrista de primeira hora: o autêntico protótipo do "novo homem" exaltado pelo fascismo. Mas um ciumento Mussolini o nomeou Governador da Líbia para apartá-lo dos centros de poder. Ali faleceu em 1940, em um acidente de aviação pouco claro. Os últims restos da oposição fascista foram liquidados em 1944 no processo de Verona, com o ex-ministro de Relações Exteriores Galeazzo Ciano e outros hierarcas executados por insistência dos alemães.

Um Fascismo Democrático?

Há quase cem anos, D'Annunzio e sua aventura em Fiume ainda apresentam interrogações. Há uma especialmente provocadora: poderia ter sido possível um fascismo democrático?

Uma pergunta que só tem o valor que queiramos dar à história-ficção. Porque a história é o que é, e não é possível mudá-la. Falar em "fascismo democrático" é hoje um oxímoro, e isso parece irrebatível. Não obstante, demasiadas vezes nos refugiamos em posturas intelectualmente confortáveis e moralmente irrepreensíveis, e isso dificulta a compreensão de certos fenômenos. Neste caso, o da natureza do fascismo. A interpretação marxista clássica do fascismo como um instrumento defensivo do Capital se condena a não compreender nada, e deixa sem explicação a ampla adesão que obteve um sistema que só foi extirpado pela guerra, uma guerra na qual os marxistas se aliaram com...o capitalismo. Essa interpretação foi superada há tempos, e hoje tende a se admitir que, como assinala Zeev Sternhell, o fascismo era uma manifestação extrema de um fenômeno muito mais amplo, esse que Giorgio Locchi denominava de supra-humanismo, e como tal é parte integral da história da cultura europeia.

D'Annunzio não foi um ideólogo sistemático, mas seu empenho prometeico e nietzscheano simboliza esse clima cultural supra-humanista do qual brotou o fascismo. Fiume foi um momento mágico e necessariamente fugaz: não se pode ser sublime durante vinte anos. Mas Fiume nos recorda que a história poderia ter sido diferente, e que talvez essa rebelião cultural e política, vamos chamá-la de "fascismo", poderia ter sido compatível com um maior respeito pelas liberdades, ou pelo menos evoluir distante das aberrações já conhecidas... Claro que, então, talvez isso não fosse mais fascismo, mas outra coisa...

Se não temos em conta o fenômeno cultural do supra-humanismo, não se pode entender o fascismo. Mas este não foi seu único rebento. Historicamente houve outros dois. O primeiro foi um broto intelectual de grande altura, e que segue falando ao homem de nossos dias: a chamada "revolução conservadora" alemã. E o segundo foi uma planta venenosa: o nazismo. A questão que hoje se poderia apresentar é a de saber se esse humus cultural supra-humanista está definitivamente esgotado, ou se ainda poderia dar lugar a derivações inéditas. Ao fim e ao cabo, e segundo a concepção "esférica" do tempo, a história sempre está aberta, e quando a história se regenera o faz de forma sempre nova, de forma sempre imprevista.

Anarquismo de Direita

"Denunciamos a falta de gosto da representação parlamentar. Nos recriamos na beleza, na elegância, na cortesia e no estilo (...) queremos ser dirigidos por homens milagrosos e fantásticos". - Filippo Tommaso Marinetti

"A arte de mandar consiste em não mandar". - Gabriele D'Annunzio

Mas o interesse de revisitar D'Annunzio vai muito mais além da pergunta sobre a natureza do fascismo. O poeta-soldado prefigura uma forma de fazer política vigente até a atualidade: a política-espetáculo, a fusão de elementos sacros e profanos, a intuição de que em último termo tudo é política. A Carta del Carnaro é um documento visionário na medida em que reune preocupações, liberdades e direitos até então relegados fora do âmbito político, e que durante as décadas seguintes passariam a ser integrados no constitucionalismo moderno. De alguma forma, D'Annunzio parecia possuir a chave de tudo o que viria depois. Todos somos em boa parte seus herdeiros, para o bem e para o mal.

Por isso seria um erro menosprezar D'Annunzio como um esteta diletante metido a revolucionário. Ou despolitizá-lo e considerar, como parece apontar seu perspicaz biógrafo Michael A. Leeden, que o importante de Fiume não é o conteúdo, mas o estilo, e que nenhuma posição ideológica concreta pode se deduzir de Fiume. Pensamos que muito mais acertado esta Carlos Caballero Jurado quando assinala que: "Fiume não era um pedaço de terra. Fiume era um símbolo, um mito, algo que quiçá não possa se entender em nossos dias, em uma época tão refratária ao mito e aos ritos. A empreitada de Fiume tem mais de rebelião cultural do que de anexação política". [16] Que mensagens pode extrair o homem de hoje em dia, não só de Fiume, mas de toda a trajetória de D'Annunzio?

Em primeiro lugar, a ideia de que a única revolução verdadeira é a que busca uma transformação integral do homem. Isto é, a que se apresenta antes de tudo como uma revolução cultural. Algo que os revolucionários de maior de 1968 pareceram entender bem. Mas o que desconheciam é que, em realidade, quase tudo o que propunham já estava inventado. A imaginação já havia chegado ao poder, cinquenta anos antes, na costa do Adriático. A grande surpresa é que o que assim decidiu, e essa é a segunda grande lição de Fiume, não era um progressista utópico, libertário e mundialista, mas um patriota, um elitista praticante de uma ética heroica. Fiume é a demonstração de que ideias como a liberação sexual, a ecologia, a democracia direta, a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade de consciência e o espírito de festa podem se apresentar não só desde posições igualitaristas, pacifistas, hedonistas e feministas, mas também desde valores aristocráticos e diferencialistas, identitários e heroicos.

O gesto de D'Annunzio implica ademais algo muito atual: foi o primeiro grito de rebeldia contra um sistema americanomorfo que naqueles anos começava a estender seus tentáculos, é o grito de defesa da beleza e do espírito frente ao reino da vulgaridade e o império do dólar.

O gesto de D'Annunzio foi também a reivindicação, surrealista e heroica, de uma regeneração política baseada na liberação da personalidade humana, e um grito de protesto frente ao mundo de burocratas anônimos que avançava. [17]

Fiume é, ademais, a demonstração de que é sim possível transcender a divisão direita/esquerda, de que a transversalidade é possível. Valores de direita e ideias de esquerda. A primeira síntese genuinamente pós-moderna. Fiume é o único experimento conhecido até a data do que poderia ser um anarquismo de direita levado a suas últimas consequências.

Há uma última questão, e que tem a ver com a atividade de D'Annunzio como pregador e exaltador da guerra. Isso é algo que hoje nos parece indefensável, ainda que não fosse tanto naqueles anos nos quais a guerra ainda podia ser vivida como uma aventura épica. Mas hoje sabemos que por trás daquela retórica inflamada não havia nenhuma causa real que justificasse tanto sacrifício. E ainda assim...

Sem embargo, é possível que aqueles homens de retórica inflamada, no fundo, também soubessem disso. É muito possível que D'Annunzio e outros como ele, por destilação de um niilismo positivo, soubesse que ao final de contas é muito melhor o patriotismo ao Nada, e desde logo temos menos mortos. Mas cabe se perguntar se graças a isso, em comparação com aqueles homens, estamos também mais vivos.

A era dos anos incendiários ficou submersa no tempo. Passou a época na qual sargentos e poetas faziam revoluções. E como se costuma dizer, o tempo devorou os corpos, a história devorou os sonhos e o esquecimento engoliu a história. Também dizem que os velhos guerreiros nunca morrem, que só desaparecem fisicamente. Depois da catástrofe nos fica a lembrança da grandeza, e dos homens que a sonharam.

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[1]Lucy Hughes-Hallett, Gabrielle D’Annunzio. Poet, seducer and preacher of war. Fourth State, edición Kindle, 2013.

[2]Lucy Hughes-Hallett, Obra citada.

[3] Fiume es la actual Rijeka, en Croacia.

[4]Fiume es la actual Rijeka, en Croacia.

[5]Michael A. Ledeen: D Annunzio, The first Duce. Transaction Publishers 2009, pags XIV y XV.
[6]Lucy Hughes-Hallett, Obra citada

[7]¡Eia Eia, Alalá! era, segundo a lenda, o grito com o qual Aquiles chamava seus cavalos. D'Annunzio o cunhou durante la guerra como substituto grecorromano ao ¡hip hip, hurra! anglo-saxão.

[8]Carlos Caballero Jurado: El Comandante y la décima musa. La fascinante historia de D'Annunzio en Fiume.

[9]O Ministerio de Assuntos Exteriores de Fiume era dirigido também por dois poetas: León Kochnitzky e Henry Furst.

[10]Lucy Hughes-Hallett: Obra citada

[11]Nos anos anteriores à guerra a cocaína, cujos autênticos efeitos não eram ainda bem conhecidos, era considerada como un suplemento para a resistência e a corage. Personagens como Shackleton ou Scott a levaram em suas expedições, e tampouco era infrequente entre os pilotos de guerra. (Lucy Hughes-Hallett: Obra citada).

[12]Anos depois Mussolini adotou este lema como expressão do “estilo de vida” fascista.

[13]Lucy Hughes-Hallett: Obra citada.

[14]Muito significativamente o líder nacional-sindicalista e principal redator da Carta del Carnaro, Alceste de Ambris, passou à oposição radical contra o fascismo. Privado da nacionalidade italiana, murreu no exilio na França em 1934.

[15]É curiosa a este respeito a excelente série de televisão da RAI “O jovem Mussolini” (Gian Luigi Calderone, 1993), na qual o futuro Duce (interpretado por Antonio Banderas) aparece retratado, mais que como un futuro ditador sanguinario, como un simpático destrambelhado.

[16]Carlos Caballero Jurado: El Comandante y la décima musa. La fascinante historia de D’Annunzio en Fiume.

[17] “Una Historia de Europa: De D’Annunzio a Van Rompuy”.