terça-feira, 27 de setembro de 2016

Elizabeth Whitcombe - Adorno como Crítico: Celebrando a Força Socialmente Destrutiva da Música

por Elizabeth Whitcombe



A Escola de Frankfurt foi um grupo de intelectuais predominantemente judaicos associados com o Instituto para Pesquisa Social. Ela se originou durante o período de Weimar na Alemanha, e se tornou um bastião da esquerda cultural. Com a ascensão do nacional-socialismo, a Escola de Frankfurt foi fechada pelo governo alemão, e muitos de seus membros emigraram para a América.

Theodor Adorno era o crítico musical (bem como primeiro autor do A Personalidade Autoritária, provavelmente a obra mais famosa da Escola de Frankfurt) da Escola de Frankfurt. Ele olhava para a música como um engenheiro musical olha para música. Mas o mais importante é que Adorno usava psicologia musical como ferramenta revolucionária.

Adorno compreendeu que qualidades tornam a música intelectualmente desafiadora e que qualidades tornam a música "popular" ou não-intelectual. Ele afirmava que música intelectual era mais adequada para fomentar revolução. Por que? Porque ele acreditava que a revolução começaria a partir da camada elitizada da sociedade e desceria até as massas, que ela seria um evento de cima para baixo. Como resultado, ele pensava ser importante que o mundo elitista da música clássica voltasse as costas para a alta cultura tradicional do Ocidente. (Ele estava errado: como discutido abaixo, o tempo provaria que a música popular tinha potencial revolucionário maior).

As opiniões de Adorno foram moldadas por seus tempos. Nas décadas de 20 e 30 a elite intelectual abraçou sua habilidade de reengendrar a sociedade. Edward Bernays (sobrinho de Sigmund Freud) escreveu sua famosa defesa da manipulação pública, Propaganda, em 1928. Dois anos antes, Charles Diserens aplicou a mesma filosofia à música:

"Nosso propósito, então, é estudar a influência da música sobre o organismo. Nós abordamos a música desde uma perspectiva prática, mais do que estética, considerando-a como uma necessidade, um meio possível de reeducação e reconstrução humana para todos, mais do que mero objeto de prazer improdutivo, ou como objeto de crítica de uns poucos eruditos". (A Influência da Música sobre o Comportamento, Diserens, 1926)

Adorno cernamente compartilhava das intuições de Diserens e Barnays. Ele sentia que a sociedade precisava ser reconstruída e a música era uma maneira excelente de fazê-lo.

O critério de Adorno para julgar música era seu potencial revolucionário. Durante a década de 20, a Escola de Frankfurt aspirava a ser a vanguarda intelectual para o marxismo na Alemanha. Segundo sua teoria, a Primeira Guerra Mundial deveria ter precipitado uma revolução socialista europeia, mas isso não aconteceu. A classe média alemã rejeitou coletivamente o socialismo internacional após a Primeira Guerra Mundial. Este foi um tapa intelectual no rosto de Adorno e seus colegas.

Os frankfurtianos culpavam a cultura ocidental por lavar o cérebro das pessoas contra o seu tipo de socialismo. A cultura ocidental precisava ir embora. A teoria crítica foi a contribuição frankfurtiana na guerra contra a classe média ocidental, e Adorno era seu percussionista.

A estratégia de Adorno usava uma página da República de Platão: Inovações musicais pressagiam inovações culturais. Ele queria encontrar um tipo de música que perturbasse o modo de vida burguês e reformasse o Ocidente à sua imagem. (ver o seu "Por que a Nova Arte é tão Difícil de Compreender?")

Que compositores Adorno considerava suficientemente revolucionários? O Beethoven tardio, Mahler e Schoenberg. Por outro lado, Wagner era simultaneamente amado e odiado.

Adorno gostava de Beethoven porque sua obra tardia rompia com normas musicais, ela evitava a "síntese harmônica" e tinha uma violência destrutiva que obras anteriores não tinham ("Estilo Tardio em Beethoven", 1937). Porém, obras como Missa Solemnis, uma peça coral celebrando Cristo, foram "neutralizadas" pela aceitabilidade social ("Obra-Prima Alienada: A Missa Solemnis", 1959). Essa postura negativa em relação a uma obra religiosa cristã é indubitavelmente um reflexo da hostilidade dos intelectuais frankfurtianos em relação ao cristianismo que eles viam como uma força unificadora conservadora na sociedade.

Segundo Adorno, as últimas obras de Beethoven, que foram compostas após sua surdez, ofereciam vislumbres tentadores de mudanças revolucionárias futuras. Para compreender melhor o que havia de diferente em sua música, vamos nos voltar para outro crítico.

Em O que é Arte?, Leo Tolstói oferece uma avaliação crítica da obra tardia de Beethoven. Segundo Tolstói, as inovações tardias de Beethoven eram alienadores e não mais se comunicavam com o homem comum. Elas eram "totalmente artificiosas, inacabadas e, portanto, quase sem sentido, obras musicalmente incompreensíveis".

Tolstói afirma que a música tardia de Beethoven tipifica a desconexão entre as classes superiores e o povo que trabalhava a terra. (Tenham em mente que Tolstói era russo). Na visão de Tolstói, a obra tardia de Beethoven era uma arte imoral, porque o povo que basicamente pagava por ela (as classes trabalhadoras) não podiam desfrutá-la. Ao cultivar um gosto pelo Beethoven tardio, a aristocracia estava se desconectando das pessoas pequenas. Este tipo de arte causa uma ruptura no tecido social. A boa arte, para Tolstói, sustenta valores cristãos e pode também se comunicar com o povo que se sacrificou por ela. Ela unifica a sociedade de uma forma enobrecedora.

Para a Escola de Frankfurt, a visão da sociedade como um todo harmônico e orgânico com cooperação entre classes sociais federia a nacional-socialismo e, consequentemente, seria o epítome do mal. Não é surpreendente, portanto, que Adorno admire o Beethoven tardio.

Gustav Mahler foi o próximo elo na cadeia revolucionária de Adorno. Um correligionário de Adorno, ele era famoso por usar os sons de chicotes e martelos em sua obra. Adorno diz que nas composições de Mahler "O submundo da música é mobilizado contra o mundo evanescente dos céus estrelados para que este seja movido e se torne presença corpórea entre os homens" ("Mahler Hoje", 1930). Os "céus estrelados" representam o establishment musical vienense ossificado, que Adorno acreditava deveria ser trazido de volta à terra a serviço do ativismo revolucionário.

"A ecclesia militans de Mahler é um exército de salvação, melhor do que o real, não moderado de uma maneira pequeno-burguesa, não retrospectivamente proselitista, mas pronto e desejoso por invocar os oprimidos para a batalha adequada pelas coisas que lhes foram roubadas e que apenas eles são ainda capazes de conquistar" ("Mahler Hoje", 1930). Para Adorno, o "heroi é o desertor" nas sinfonias de Mahler ("Marginalia sobre Mahler", 1936).

Adorno afirmava que o mundo musical burguês estava reprimindo a obra de Mahler porque Mahler desprezava o "pacifismo moderado". Nas palavras de Mahler: "A significância genuína de Mahler que pode ser descoberta para hoje jaz na própria violência com a qual ele irrompeu no mesmo espaço musical que hoje quer esquecê-lo" ("Mahler Hoje", 1930).

Adorno equipara a obra de Mahler e a de Schoenberg, ambos rejeitados pelas forças conservadoras do status quo: "Grupos inteiros de fórmulas são comuns na luta contra Schoenberg e Mahler, o intelectual judeu cujo intelecto desenraizado arruina a tão bondosa Natureza; o espoliador de bens musicals veneravelmente tradicionais". Finalmente, Adorno interpreta Mahler como buscando "o fim da ordem que originou a sonata", o fim da alta cultura tradicional europeia.

Este, é claro, é um estereótipo anti-judaico comum na Europa a partir do século XIX: Fossem ou não convertidos ao cristianismo, intelectuais judeus eram vistos como subversores da cultura europeia, estilhaçando a coesão social da sociedade e zombando e desafiando convenções sociais (ver capítulo 2 de Separação e Seus Descontentes, de Kevin MacDonald, p. 51f). Adorno, ele próprio um intelectual judeu (ainda que longe de ser desenraizado), naturalmente simpatiza com essa postura. De fato, a Escola de Frankfurt é geralmente consideradap arte dessa tradição anti-ocidental, precisamente a razão pela qual a Escola de Frankfurt foi exilada da Alemanha nacional-socialista.

As opiniões de Adorno sobre Richard Wagner são fortemente coloridas pelo fato de que Wagner foi idealizado na Alemanha durante o período nacional-socialista. Para Adorno, Wagner é o compositor de pretensões revolucionárias que tenta e falha. Ao tentar romper com a forma melódica temática, ele simplesmente acaba repetindo fragmentos.

Mas o que realmente incomodava Adorno sobre Wagner era a conexão com o nacional-socialismo. Ainda que Wagner estivesse morto antes de Hitler ser concebido, Adorno pensava que não se poderia ter Wagner sem nacional-socialismo. Em toda multidão aplaudindo uma obra wagneriana espreita o "velho ódio virulento" que Adorno chama de "demagogia" ("A Relevância de Wagner para Hoje", 1963).

Adorno acreditava que a obra de Wagner é "proselitista" e "narcisista-coletivista", termos claramente pejorativos. A reclamação de Adorno sobre a qualidade "narcisista-coletivista" da música de Wagner, na verdade, é uma reclamação de que a música de Wagner apela a emoções profundas de coesão grupal. Como os mitos germânicos nos quais sua música era usualmente baseada, a música de Wagner evoca as paixões mais profundas de coletivismo étnico e orgulho étnico. Na opinião de Adorno, tais emoções não são nada além de narcisismo coletivo, pelo menos parcialmente porque um senso forte de orgulho étnico alemão tende a ver judeus como forasteiros, como "o outro".

Não é surpreendente que Wagner fosse de longe o compositor mais popular durante o período nacional-socialista. Também não é surpreendente que Adorno, como intelectual judeu consciente, achasse este tipo de música abominável. Ficamos a imaginar se ele consideraria de forma similar o hino nacional israelense como expressão de narcisismo coletivo.

Adorno jamais conseguiu lidar com a grandeza de Wagner. Ele considerava a música de Wagner eroticamente livre, então ele imaginava que devia haver alguma coisa de "direitista, pequeno-burguesa" em se opor a ele. Na era da psicanálise, nenhum intelectual judeu iria querer parecer anti-erótico. A solução de Adorno era afirmar que as maiores obras de Wagner eram aqueles das quais o público não gostava ("A Relevância de Wagner para Hoje", 1963). Essa era claramente uma tentativa de fazer o bolo e comê-lo também: Se o público era profundamente comovido por Wagner, era um sinal de que Wagner estava apelando a emoções de coesão étnica. As únicas obras seguras de Wagner eram aqueles que não resultavam nessas emoções.

No final, Adorno pende para o lado de desgostar de Wagner porque sua música reforça o status quo. E, é claro, onde a música de Wagner promove etnonacionalismo, deve haver intervenção.

Arnold Schoenberg, cujo "intelectualismo é lendário" era o compositor revolucionário ideal para Adorno ("Rumo a um Entendimento de Schoenberg", 1955/1967). Adorno classifica Schoenberg com Shakespeare e Michelangelo: Ele é um deus no mundo da arte. Schoenberg tinha uma forte identidade judaica e era sionista (Klara Moricz, Identidades Judaicas: Nacionalismo, Racismo e Utopismo na Música do Século XX).

Schoenberg escrevia música atonal, significando que ela era projetada para desafiar formas músicais e expectativas heurísticas tradicionais. É necessário uma pessoa musicalmente treinada para apreciar quão bem projetada a discórdia é; mas mesmo para músicos ouvir Schoenberg é difícil. A música de Schoenberg é uma curiosidade para compositores; tal como um órgão com uma doença incomum em um vidro de formol é uma curiosidade para professores de medicina. Como resultado, a música de Schoenberg jamais foi popular e Adorno se ressentia com isso.

A música que se coaduna com nossas expectativas auditivas tende a ser aprazível. Adorno reconhecia que a música bela possui um efeito pacificador e a pacificação estava em contradição com seus objetivos políticos, pelo menos os objetivos que ele mantinha na Alemanha do pré-guerra. É por isso que Adorno tinha coisas tão boas a dizer sobre Schoenberg.

A característica comum que estes quatro compositores compartilhavam é que eles escreviam música que desafiava as expectativas da audiência em níveis variáveis. Níveis variáveis é a distinção importante aqui.

Algumas das músicas mais belas estão entre aquelas que desafiam nossas expectativas. O prof. David Huron da Universidade Pública de Ohio escreveu um livro fenomenal em 2006 chamado Sweet Anticipation: Music and the Psychology of Expectation (Doce Antecipação: Música e a Psicologia da Expectativa). Huron oferece uma explicação do por que a discórdia resultando em harmonia é bela e nos dá uma sensação prazerosa.

Mas quando a imprevisibilidade é levada longe demais, a música se torna dissonante e feia. Ela deixa o ouvinte insatisfeito e deslocado. Adorno acreditava que estes sentimentos eram necessários para impulsionar as pessoas a pensarem e (naturalmente!) se unirem a sua causa revolucionária.

Adorno aplicou seu desprezo revolucionário pela previsibilidade à tecnologia também. Ele não gostava de rádio e de certas tecnologias de gravação porque ele considerava que elas faziam a música soar mais "achatada", mais similares a pop e jazz ("A Sinfonia de Rádio", 1941). Adorno odiava o jazz das big bands porque ele sentia que ele não era suficientemente destrutiva para a cultura ocidental: Ela satisfazia impulsos eróticos de forma socialmente tolerável. A música verdadeiramente revolucionária não devia desperdiçar energia tal como o jazz o fazia.

Schoenberg, com sua música bizarra e pouco atrativa, deveria iluminar nosso caminho rumo ao futuro. Ele não o fez. Adorno havia confundido intelectualismo com a política da Escola de Frankfurt, os dois não caminhavam junto. Para realmente atingir as massas, o que o movimento frakfurtiano precisava não era de intelectualismo, mas de poder propagandístico. O equívoco inicial de Adorno sobre o que era música revolucionária eficaz seria uma lição útil para outros propagandistas.

Excetuando alguns poucos estetas (tal como pequenos grupúsculos de devotos de Schoenberg), a música revolucionária efetiva trabalha com nossas expectativas de beleza, não contra elas. Melodias revolucionárias efetivas devem ser fáceis de seguir e ter batidas fortes, como a maior parte da música popular. Em seu ensaio, "Sobre a Música Popular", Adorno relata o segredo aberto do que torna uma música um "hit": padronização. O que ele descreve são canções que jogam com nossas expectativas musicais e heurísticas mais básicas, ao mesmo tempo pecando pela simplicidade.

A música é supreprevisível e encoraja a audição irrefletida: "As formas das canções de sucesso são tão estritamente padronizadas, até o número de medidas e duração exata, que nenhuma forma específica aparece em qualquer obra particular". Adorno usa essa frase para descrever o jazz das big bands, mas ele poderia estar também descrevendo a música pop atual: Beatles, Spice Girls, Jackson Five, e por aí vai.

Adorno compreendia como criar música de propaganda ou "música popular" efetivas. Ele sabia isso melhor do que ninguém em sua época, provavelmente. Mas os gostos de Adorno eram elitistas ("Sobre o Caráter Fetichista da Música", 1938). Ele sentiria embaraçado e envergonhado de criar música que ele sentisse ser tão acéfala quanto o jazz das big bands. Adorno queria se enturmar no ar rarefeito dos criadores musicais super-eruditos.

Adorno não gostava da mundaneidade da música pop; ele queria acreditar que sua revolução era, de alguma forma, mais intelectual do que isso. A noção de que as ideias frankfurtianas poderiam ser vendidas por canções pop, o equivalente musical de uma garota em um biquini fazendo propaganda de cerveja ou de um carro esporte, seria repugnante para ele.

Repugnante ou não, propaganda funciona. Compositores como Beethoven e Wagner entendia como brincar com as nossas expectativas auditivas e criar algo significativo ao mesmo tempo. Eles eram autênticos mestres da composição. O valor de choque de Mahler e o intelectualismo forçado de Schoenberg não se comparam, e isso se reflete em sua popularidade relativa hoje.

Adorno jamais superou seu desprezo pela música popular. Ele sempre quis acreditar que, de alguma forma, pessoas revolucionárias superariam suas preferências auditivas evolutivamente determinadas. Mas a Natureza sempre vence ao fim.

E se Adorno quisesse uma revolução frankfurtiana de sucesso ele teria que trabalhar com as ferramentas dadas pela Natureza. É aí que entra a Atlantic Records.

A história da Atlantic Recording Company acompanha de forma estranha a revolução cultural da elite judaico-americana após a Segunda Guerra Mundial. Essa elite promovia as ideias da Escola de Frankfurt em um esforço de enfraquecer a classe média, seu nêmesis político. A Atlantic Records se orgulha em anunciar o mesmo comportamento socialmente destrutivo.

Este artigo explora uma possível ligação entre Theodor Adorno e a Atlantic Records. A ligação: Um professor alemão anônimo ajudou a Atlantic Records a projetar sua sonoridade característica em 1947. Quando este professor não conseguiu mais trabalhar com a Atlantic, ele foi substituído por um pesquisador assistente do Projeto Manhattan. Eu afirmo que este professor era Theodor Adorno.

A importância dessa conexão é que a Atlantic Records foi uma das gravadoras mais influentes durante a revolução sexual, o movimento por direitos civis e a era da reforma da imigração. Uma ligação com Adorno sugeriria que a empresa em suas origens foi pensada para explorar o conhecimento de um dos maiores propagandistas do século XX.

A Escola de Frankfurt

Adorno era o crítico musical da Escola de Frankfurt. Seu forte era analisar o impacto político e psicológico da música sobre seus ouvintes. Ele também estava interessado em como as novas tecnologias de gravação modificavam a experiência musical. É claro, o ponto de todo esse interesse no lado técnico da música era a paixão de Adorno por descobrir como usar a música para atingir os objetivos políticos da Escola de Frankfurt.

Adorno sabia o que tornava a música intelectualmente desafiadora, bem como o que a fazia agradar as massas. Resumidamente, a música opular apela a nossas expectativas sobre que sons devem seguir uns aos outros; a música intelectual desafia essas expectativas.

Em geral, intelectuais de esquerda durante as décadas de 30 e 40 eram hostis à cultura de massa, incluindo todas as formas de música popular. Tantos os intelectuais de Nova Iorque quanto os da Escola de Frankfurt viam a cultura de massas como resultado de uma manipulação elitista, fosse na URSS, na Alemanha nacional-socialista ou nos EUA burgueses. Segundo Adorno, a cultura de massas apelava a prazeres mundanos, insuflava o status quo, e levava a um conformismo generalizado que negava a individualidade e a experiência subjetiva das massas.

Adorno considerava o jazz como uma das piores formas de música popular. Ele achava que o jazz reconciliava impulsos eróticos com a cultura ocidental tradicional: que ela transformava pessoas em insetos.

Ele estava certo e errado ao mesmo tempo. Qualquer música com uma batida forte e constante tende a absorver a atenção do ouvinte, a batida possui um efeito focalizador na música. O jazz das décadas de 20 e 30 era, muitas vezes, feito a partir de canções tradicionais tocadas bem mais alto e com uma batida sincopada, um produto facilmente produzido que desperdiçava energia que Adorno achava deveria ser gasta na revolução. Tudo sobre a música das big bands ia contra a filosofia de Adorno. Americanos dançantes se divertindo satisfazendo seus instintos mundanos não eram bom material revolucionário. Ao invés de expressarem sua individualidade, eles estavam fazendo pouco mais do que se conformar a uma moda cultural.

O desejo de Adorno por uma revolução o levou a favorecer música modernista que deixava o ouvinte se sentindo insatisfeito e deslocado, música que conscientemente evitava harmonia e previsibilidade. Ele acreditava que apenas a discórdia podia inaugurar o que Herbert Marcuse chamou depois de "o retorno dos reprimidos". É por isso que Adorno elogiou interminavelmente a obra de Arnold Schoenberg, seu correligionário e compositor vanguardista.

Uma coleção recente de críticas musicais de Adorno, Essays on Music (Ensaios sobre Música) contém o ensaio Why is the New Art so Hard to Understand? (Por que a Nova Arte é tão Difícil de Entender?), originalmente publicada em 1931. Em seu estilo opaco usual, Adorno explica por que o público geral insintivamente rejeita Schoenberg e "a nova música":

"A dificuldade de entender a nova arte possui sua base específica nessa necessidade da consciência consumidora de se remeter a uma situação intelectual e social na qual tudo vai além das realidades dadas, cada revelação de suas contradições constitui uma ameaça".


Em outras palavras, de modo a compreender sua música, as pessoas tinham que ir além de sua consciência consumidora e perceber as contradições da vida de classe média. Os frankfurtianos oniscientes tinham muito orgulho de sua habilidade de revelar aos consumidores "estúpidos" as contradições na sociedade ocidental e as inadequações psicológicas da classe média.


Platão considerava que novos estilos artísticos poderiam despertar revoluções sociais. É por isso que Platão acreditava que o novo Estado deveria censurar cuidadosamente as artes para garantir que elas preservem os valores nos quais a sociedade está fundada. Adorno e os outros da Escola de Frankfurt queriam usar a "nova música" para solapar os valores ocidentais de classe média, descrito mais completamente em meu ensaio, A Classe Difícil.

O objetivo de Adorno era apresentar sua mensagem política como a solução para os sentimentos de deslocamento que a "nova música" invocava. Adorno pensava que estes sentimentos de insatisfação poderiam ser usados contra a cultura ocidental: Ele queria que os ouvintes associassem estes sentimentos negativos com estilos de vida tradicionais, e olhassem para os frankfurtianos em prol de algo "melhor".

As esperanças de Adorno pelo potencial revolucionário da música de Schoenberg foram varridas porque poucas pessoas queriam ouvi-la. A música de Schoenberg jamais foi popular fora de círculos acadêmicos, parcialmente porque você tem que ser muito musicalmente treinado para até mesmo achá-la um pouco interessante, quanto mais bela. Mesmo que se aprecie a dissonância erudita de suas obras, ouvir Schoenberg é difícil.

Após a Segunda Guerra Mundial ficou claro que as esperanças de Adorno para as obras de Schoenberg eram infundadas. O historiador mais respeitado dos frankfurtianos, Martin Jay, diz que Adorno parou de criticar publicamente a música contemporânea antes de 1960. Isso sugere que ele pode ter mudado de opinião sobre o potencial revolucionário da música popular mesmo antes dessa época.

Atlantic Records

Atlantic Records foi fundada em 1947 por Ahmet Ertegun, um turco-americano, e Herb Abramson, um judeu. Muito do crescimento da Atlantic aconteceu após 1953 quando o produtor musical Jerry Wexler, também judeu, se uniu à empresa.

A história do primeiro engenheiro de som da Atlantic é curiosa. A Atlantic saiu de Washington, D.C. para um prédio na 234 W 56th Street em Nova Iorque em 1947. Ali, um "professor alemão" ajudou os jovens empresários a gravar seus primeiros álbuns de jazz.

Ertegun contou essa história várias vezes, mas ninguém nunca descobriu quem era esse tal "professor alemão".

Mas há bons indícios. Segundo Ertegun, "o estúdio tinha esse professor alemão que fazia o grosso da engenharia de som". O professora era "um pequeno doutor alemão de meia idade" que era "realmente difícil de trabalhar em conjunto". Ertegun afirma que, o professor "não nos deixava ligar o baixo, ou tocar no que quer que fosse, mas nos disseram que ele era um mestre, então nós o aturávamos".

Ertegun também afirmou que o professor "não sabia nada sobre música popular", mas que ele era "tecnicamente confiável".

Não há um número muito alto de professores alemães com conhecimentos sobre gravação musical e uma atitude negativa em relação ao jazz e à música popular em qualquer cidade, mas especialmente na Nova Iorque da década de 40. A evidência disponível aponta para Adorno como este misterioso engenheiro de som.

Ertegun gravava música que músicos mais estabelecidos como Count Basie considerava "ignorante". Ertegun queria especificamente produzir música que apelasse às massas, não aos musicalmente treinados. Como observado acima, Adorno realmente detestava este tipo de produção de massa e fazia questão de nos dizer isso em seus ensaios, particularmente On Popular Music (Sobre Música Popular [1941]) e On the Fetish-Character in Music (Sobre o Caráter Fetichista na Música [1938]).

Não obstante, Adorno era um brilhante analista musical que já vinha pensando em termos de gravação multicanal há muito tempo. Ele compreendia a tecnologia de gravação e seu efeito na música e ele conhecia a indústria musical de dentro para fora. Adorno sabia muito sobre como a música afeta o pensamento das pessoas e ele escreveu proficuamente sobre o efeito emburrecedor da cultura pop.

Parece haver duas possibilidades. Uma é que Adorno ajudou Ertegun a atingir um som musical popular apesar de Adorno pessoalmente odiar música popular por todas as razões notadas acima. Isso pareceria improvável. Por que Adorno, um revolucionário consciente, participaria em algo que ele via como reacionário?

A segunda possibilidade é que por volta do fim dos anos 40 Adorno entendeu que a música popular podia ser usada para promover a causa da revolução. Adorno e os outros teóricos da Escola de Frankfurt e os Intelectuais de Nova Iorque eram bastante conscientes de que a música popular podia ser usada para manipular as massas em sociedades comunistas, fascistas e capitalistas. Como intelectuais alienados vivendo em Nova Iorque nos anos 30 e início dos 40, eles tinham ótimos motivos para desprezar a cultura popular: Nos EUA, ela sustentava o status quo capitalista. Na Alemanha nacional-socialista ela reforçava o antissemitismo e a ideologia racialista. E na URSS, ela era parte da repressão stalinista.

Mas a coisa muda de figura quando eles passam a ter o poder de influenciar a cultura popular, como eles tiveram após a Segunda Guerra Mundial. Se estes intelectuais esquerdistas tivessem o poder para influenciar a cultura popular, eles poderiam usá-lo para manipular as massas nas direções desejadas, rumo ao cosmopolitanismo liberal, à ruptura de barreiras raciais e promoção de ícones culturais negros.

A Atlantic Records com certeza esteve envolvida nessas tendências. Segundo todos os relatos (segundo o de Ertegun), a Atlantic Records liderou a missão de romper com a segregação racial na América dos anos 50. Ertegun diz que ele promovia a música negra quando ninguém o faria. (Ele usava um nome falso para não envergonhar sua família). Ertegun tem os créditos de colocar a América a caminho de apreciar a cultura negra e substituir ícones culturais negros por negros.

Isso é apenas meia-verdade. Segundo o parceiro de Ertegun, Jerry Wexler, a Atlantic estava no negócio de "pegar as canções do evangelho e colocar as palavras do diabo nelas". Eles não estavam representando a cultura negra, mas uma subcultura negra autodestrutiva. Eles estavam promovendo ícones que falavam para o baixo-ventre da sociedade: sexualidade irreprimida, violência e drogas.

A mensagem que Ertegun promovia é a mesma que Herbert Marcuse transmitiu em Eros e Civilização e Adorno vendeu em A Personalidade Autoritária. Com base na psicanálise, sua mensagem era de que o socialismo só poderia se desenvolver se as pessoas se libertassem de suas repressões sexuais. Em A Cultura da Crítica, Kevin MacDonald descreveu as ideias básicas como segue:

"Em Eros e Civilização Marcuse aceita a teoria freudiana de que a cultura ocidental é patogênica como resultado da repressão de impulsos sexuais, homenageando Freud, que 'reconheceu o operação da repressão nos mais elevados valores da civilização ocidental, que pressupõe e perpetua a ausência de liberdade e o sofrimento' (p.240). Marcuse cita a lbra de Wilhelm Reich com aprovação como um exemplar da ala 'esquerdista' do legado freudiano. Reich 'enfatizava a medida em que a repressão sexual é imposta pelos interesses de dominação e exploração, e a medida em que estes interesses são, por sua vez, reforçados e reproduzidos pela repressão sexual' (p.239). Como Freud, Marcuse aponta o caminho para uma civilização utópica não-exploradora que resultaria do completo fim da repressãosexual, mas Marcuse vai além das ideias de Freud em Civilização e Seus Descontentes somente em seu otimismo ainda maior em relação aos efeitos benéficos do fim da repressão sexual" (Capítulo 4)

Claramente, os intelectuais frankfurtianos chegaram a ver virtude em apelar aos prazeres mundanos e à sexualidade liberada. Tais opiniões casam bem com a ênfase de Eric P. Kaufmann no papel de intelectuais esquerdistas na ascensão do individualismo expressivo como tema da contracultura da década de 60 que, de muitas maneiras, permanece dominante hoje. Tais opiniões são bastante contrárias às de Platão que acreditava que elas enfraqueceriam o Estado e preparariam o caminho para a tirania.

A Atlantic passou a trabalhar com rock na década de 60 e na década de 90 eles entraram no "gangsta rap". Eu não consigo pensar em um exemplo melhor de sexualidade "polimorficamente perversa" do que os Rolling Stones ou um ícone mais degenerado do que Snoop Dogg.

Nos anos após a Segunda Guerra Mundial a indústria das gravadoras já estava maciçamente consolidada. Em 1967 a Atlantic Records foi comprada pelo que é agora a Warner Music Group, ainda que a Atlantic continuasse a operar sob sua própria marca.

Mas a Atlantic Records/Warner Music Group não é apenas uma anomalia infeliz. A parte preponderante da indústria das gravadoras promove estilos de vida que os frankfurtianos passaram a identificar como conducente à revolução social. EMI, Universal e Sony recrutaram um exército de artistas que expõem as mesmas mensagens moralmente enfraquecedoras. Como discutido em A Classe Difícil, essa revolução concentrou poder na elite e desmobilizou a classe média.

A Conexão Columbia

Os frankfurtianos haviam sido propagandistas revolucionários desde o início do Instituto para Pesquisa Social na Alemanha em 1923. Refugiados da Alemanha nacional-socialista, a Escola de Frankfurt se mudou para a Universidade de Columbia em Nova Iorque em 1934.

A Universidade de Columba também foi bastante importante para o lado científico do esforço de guerra de Roosevelt. O Departamento de Pesquisa Científica e Desenvolvimento recrutou em peso pessoal da Columbia para o Projeto Manhattan. O DPCD também estava interessado em psicologia e psicoacústica, tópicos que estavam em sintonia com a pesquisa de Adorno.

Também é de interesse que durante a Segunda Guerra Mundial, vários frankfurtianos, incluindo o sociólogo Herbert Marcuse, se uniram ao Departamento de Serviços Estratégicos, que se tornou a CIA em 1947.

As conexões entre frankfurtianos, a Universidade de Columbia, a OSS/CIA e o DPCD são importantes porque quando o "professor alemão" saiu da Atlantic Records em 1947, ele foi substituído por Tom Dowd, um estudante da Universidade de Columbia diretamente saído do Projeto Manhattan do DPCD. As conexões importantes de Dowd o tornavam um candidato provável para substituir o irascível Adorno uma vez que a Atlantic já havia estabelecido sua sonoridade característica.

O "professor alemão" subitamente parou de ajudar a Atlantic Records em 1947. Ertegun só se lembra que Dowd havia sido enviado para ajudar a Atlantic "porque o professor não conseguia mais". Ninguém parece saber como Dowd conseguiu o emprego.

Tom Dowd era um músico classicamente treinado bem como pesquisador do Projeto Manhattan. Dowd afirmou que seu trabalho com a bomba foi pago pelo DPCD, que foi fechado em 1947. Ele afirmou que ele não conseguia continuar estudando física nuclear em Columbia porque ele conhecia muita informação sensível atual sobre o projeto da bomba e não queria ficar assistindo aulas desatualizadas. (Ver Tom Dowd e a Linguagem da Música, um filme por Mark Moormann.) Felizmente para Dowd, Adorno estava infeliz no trabalho.

A Bomba e o Fichamento de Personalidade: Mais próximo do que você pensa

John Marks, autor de The Search for the Manchurian Candidate: The CIA and Mind Control (A Busca pelo Candidato Manchuriano: A CIA e o Controle Mental), mostra que houve muitos elos entre o Projeto Manhattan e a iniciativa de "controle mental" da CIA conhecida como Projeto MK-Ultra. MK-Ultra foi organizado junto ao modelo do Projeto Manhattan, e contratados do Projeto Manhattan foram recrutados pelo MK-Ultra para pesquisas sobre drogas psicotrópicas.

O programa MK-Ultra também estava interessado em fichar personalidades, trabalho no qual a Escola de Frankfurt havia se concentrado para o governo americano desde os últimos anos da guerra.

Eu pesquisei os arquivos do MK-Ultra nos Arquivos de Segurança Nacional. Eu gostaria de esclarecer um equívoco comum sobre eles. A pesquisa sobre LSD foi apenas uma parte dos interesses dessa organização. Seu objetivo principal era descobrir a maneira mais eficiente de manipular pessoas. Os projetos com LSD foram simplesmente os mais espetaculosos, e nem mesmo foram os mais eficientes.

Muitos dos programas do MK-Ultra foram projetados para analisar personalidades diferentes e como eles provavelmente responderiam a certas situações. Equipes do MK-Ultra tentaram mapear crenças e inseguranças de certos grupos étnicos, como os negros; e grupos sociais, como os moradores urbanos de baixa renda; e grupos religiosos, como cristãos evangélicos. Eles estavam construindo um banco de dados sobre como manipular a política étnica e grupos de interesses.

O trabalho da Escola de Frankfurt sobre "personalidades autoritárias" na década de 30 foi repaginado para audiências americanas como Estudos sobre Preconceito, incluindo o A Personalidade Autoritária e outros livros que tentavam desenvolver perfis psicológicos de americanos brancos. Em geral, essas obras eram mais ideológicas do que científicas, confiando tipicamente na psicanálise como meio de atingir objetivos políticos de retratar americanos brancos com tendências etnocêntricas como vítimas de desordens psiquiátricas formuladas de variadas formas.

O programa MK-Ultra da CIA continuou de onde os fankfurtianos pararam analisando grupos minoritários politicamente organizados. Tom Dowd pertencia a um grupo bem seleto de estudantes que tinham permissão para serem expostos ao tipo de trabalho que os frankfurtianos realizavam para o governo americano. Tom Dowd teria sido uma escolha óbvia para substituir Adorno no estúdio de gravação.

Conclusão

Neste artigo eu não forneci evidência provando que a Atlantic Records é um derivado da engenharia social da Escola de Frankfurt. Eu forneci evidência circunstancial que mostra que cooperação entre as duas organizações era muito provável. Muito do que os frankfurtianos estavam fazendo ficou fora do escrutínio público. Mas quando toda uma indústria se devota a ideias defendidos por um punhado de esquerdistas radicais idosos, é um forte indício de que algo está estranho.

Governos sempre existiram para controlar a sociedade. Filósofos humanistas tem reconhecido que um governo legítimo exercita controle de maneira que beneficia seus cidadãos. Tudo o mais é tirania. Companhias musicais como a Warner promovem comportamentos corruptores e danosos. É só perguntar ao palhaço na Casa Branca.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os Homens Herbívoros do Japão: São realmente um problema?

por Otakismo



"Se no Século XIX os Samurais largaram as armas - forçados - os japoneses de hoje largaram o pênis: voluntariamente."

Essa genial frase de tom fálico inicialmente publicada no site reflexoesmasculinas é uma síntese inteligente - melhor do que eu seria capaz de elaborar - sobre um dos últimos fenômenos sociais que ganhou expressão na mídia japonesa e se espraiou nesse lado do mundo de modo distorcido, como não poderia deixar de ser, pelo sensacionalismo da mídia ocidental. Trata-se dos homens herbívoros. Quem não está antenado na trágica situação do Japão e assiste a uma matéria de cinco minutos no Jornal da Globo falando que japoneses não querem mais sexo, já conclui: "Ah, os japoneses são bizarros". Não satisfeito com o senso comum, fui pesquisar e descobrir que o comportamento dos herbívoros é sim bastante excêntrico, porém vou mostrar como ele é de certa forma justificável (fora da lógica de chegar sempre na conclusão de que japoneses são malucos, então pode se esperar de tudo) e indica caminhos até então inéditos para a ainda muito tradicional sociedade nipônica.

Os homens japoneses estão apresentando traços comportamentais que em qualquer outro tempo seria o suficiente para taxá-los como afeminados ou mesmo homossexuais. Justamente eles, que marcaram em pedra o arquétipo do macho rude e viril. Desde os tempos dos leais samurais, passando pelas atrocidades sanguinárias do Exército Imperial nas Guerras Mundiais, até chegar no executivo workaholic que agredia sexualmente as parceiras de trabalho quando as mulheres ainda engatinhavam com o movimento feminista no arquipélago. Esses caras foram sucedidos por homens impactados pela estagnação econômica que paira sobre o Japão desde o início dos anos 90, que reagem à crise com um comportamento diametralmente oposto em relação ao estereótipo do macho japonês.

Falo dos Soushoku Danshi (literalmente "garotos come-grama"), termo adaptado como homens herbívoros, cunhando em 2006 pela colunista Maki Fukasawa e popularizado pelo livro "The Herbivorous Ladylike Men Are Changing Japan" (Os homens herbívoros e afeminados que estão mudando o Japão) de Megumi Ushikubo, presidente da consultoria de marketing Infinity. Esses homens são assim chamados pela sua falta de interesse por sexo (não come carne, daí o herbívoro) e pela negação da vida estonteantemente competitiva e acelerada de tempos passados. Algumas de suas características principais seriam:

Não têm uma postura tão competitiva em relação ao trabalho como os homens de gerações anteriores; Têm consciência de moda e comem de modo balanceado para ficar magros e caber em roupas mais apertadas; Tem amigas mulheres, são ligados às mães e vão às compras junto com elas (se aproveitando do poderio econômico dos pais); Não se interessam em namoros, garotas ou mesmo fazer sexo (optando por um prazer solitário com brinquedos eróticos); São muito econômicos e adoram cupons de promoção, declarando que os que não poupam os centavos são estúpidos. Seus principais interesses passam a flutuar temas como fotografia, gastronomia, jardinagem, moda, desenho e coisas do gênero. Abrem mão de tudo o que possa custar um desgaste físico e/ou psicológico por essas pequenas particularidades inofensivas.

“Os homens japoneses na faixa dos vinte aos trinta e poucos anos parecem desinteressados em fazer carreira e apáticos com os rituais do encontro amoroso, sexo e casamento. Eles gastam a maior parte em roupas e cosméticos como as mulheres, vivem com suas mães e sentam na privada para urinar. Alguns estão até mesmo usando sutiã. O que está acontecendo com a masculinidade do país?” (Takuro Korinaga, economista)

Curiosamente a agitação crítica em cima da percepção inicial de uma anormalidade no comportamento masculino não surgiu das ciências sociais, mas sim do mercado. Nas palavras da marketeira Megumi Ushikubo:

“Nos anos 80 os rapazes tinham que comprar um carro, caso contrário as garotas não olhariam para eles. Nós éramos líderes em consumo. Recentemente as empresas estão perguntando, por que os garotos não estão mais interessados em carros? E por que as garotas estão nos dizendo que elas não estão interessadas em rapazes que gastam seu dinheiro com carros?”

Uma companhia de consultoria subsidiária da Dentsu (a maior companhia publicitária do país) chamada Media Shakers estimou dados alarmantes: 60% dos homens de 20 anos, e 42% dos homens entre 23 e 34 anos consideram-se herbívoros. Dados de diversas fontes afirmam o dito. A empresa de relacionamentos Partner Agent mostra uma pesquisa onde 61% dos homens solteiros na casa dos 30 anos se auto-intitulam herbívoros. Um empresa de apólices de seguro chamada Lifenet fez uma pesquisa online com uma amostragem de mil homens solteiros na faixa dos 20 e 30 anos, e aqui também, 75% da amostra se definiu como um homem herbívoro.

A reportagem feita pelo Jornal da Globo afirma:

"Entre os jovens de 16 a 19 anos, 36% dos rapazes se descreveram indiferentes ou com aversão a sexo. Mas eles também podem reclamar delas. Entre as japonesas da mesma faixa etária, o desinteresse ou aversão ao sexo chega a 59%. O percentual cresceu em relação a mesma pesquisa feita em 2008: aumentou 19% entre os homens e 12% entre as mulheres."


Homem herbívoro.
Em tempos de metrossexuais e David Beckham, por que tanto alarde com os comedores de grama? A resposta é simples. Esse comportamento não é apenas uma afronta às tradições do homem japonês, mas também um fato determinante que está ajudando a manter o Japão na crise, sem oferecer a mínima perspectiva de mudança, uma vez que ele sangra dois problemas cruciais para o futuro do Japão: A baixa natalidade e o esfriamento da demanda interna no mercado de consumo japonês. Os herbívoros seriam o resultado, o protesto (sempre silencioso dos jovens japoneses) contra os valores que alimentaram o crescimento japonês no pós-guerra, como a exacerbação do materialismo e a competitividade desumana. Como gatos escaldados, eles negam aquilo que os alçaram ao topo do mundo.

Essa apatia demonstrada por parte dos homens japoneses já está incomodando a ala feminina do país. Diante de homens que não tomam a iniciativa (por medo de sofrer a ferida narcísica da rejeição), não demonstram interesse por sexo e racham a conta do restaurante, parte das mulheres estão fazendo elas próprias esse papel. Tomam elas mesmas a iniciativa e, apelidadas de mulheres carnívoras, passam a praticar a arte do konkatsu, a busca por um parceiro (20% delas se consideram carnívoras, mas ainda sim essa voracidade não pode ser comparada com os tempos da bolha econômica). Apesar disso, as carnívoras costumam renegar os herbívoros, pois gostam do perfil do macho.

John Greenaway, professor canadense com muito contato com alunos asiáticos, estudante de inglês no país, afirma que as japonesas são muito mais sociáveis, práticas e ativas que os homens do país. Os homens japoneses, mesmo quando herbívoros, se aproveitam das condições no Japão que ainda favorecem o homem, e se mantém passivos, enquanto as mulheres que vão em busca de algo, o fazem de modo mais proativo. A diferença é que no exterior essa proatividade é facilmente igualada, quando não superada, por pessoas de diversas etnias e elas passam uma imagem até conservadora.

Shigeru Sakai do Media Shakers opina que esses homens não tomam a iniciativa por uma dificuldade de auto-expressão. Cercados de eletrônicos, geralmente sem nenhum irmão em casa, e falando com os amigos mais por mensagens de texto e redes sociais, suas habilidades sociais tendem a definhar. Mimados desde o berço, não toleram a frustração e não dão a cara ao tapa na arte da conquista.

“Eu não tomo a iniciativa com mulheres, eu não falo com elas. Eu adoraria se uma garota falasse comigo, mas eu nunca tomo o primeiro passo.” (Yukihiro Yoshida, estudante de Economia)

Men's Fudge, a revista dos herbívoros

É importante ouvir as opiniões dos próprios herbívoros, e o grupo olha para a questão através de outras lentes. Eles não enxergam a situação como um problema (ao contrário de empresas, governo e mulheres). Herbívoro seria um rótulo muito amplo, que abarca uma diversidade de homens e comportamentos diferentes. Seria a soma dos homens que não estão mais dispostos a bancar o preço de viver a imagem do homem feliz empregado numa grande empresa. São pessoas que ligam menos para as cobranças da sociedade, para os papéis sociais, para o arquétipo da masculinidade japonesa. Eles ditam os caminhos de suas próprias vidas.

“As pessoas que cresceram na era da bolha realmente sentiram que eles foram derrubados.Eles trabalharam tão duro e isso tudo não deu em nada. Então os homens que vieram depois deles mudaram.” - Megumi Ushikubo

Há uma crítica tanto ao padrão do homem japonês quanto à monetarização do amor ao modo ocidental (mencionado na explicação do fenômeno moe), que exigem um homem másculo que trabalha como um burro de carga para conquistar a fêmea com mimos caros. Os japoneses tiveram que se adaptar tantos às rígidas posturas sociais da sociedade nipônica quanto aos hábitos ocidentais importados pela ficção, como abrir a porta do carro ou puxar a cadeira para a mulher se sentar primeiro. A mistura dessas culturas, alimentada por uma rede comercial voraz, é insustentável para muitos dos japoneses que se resignam e vão buscar relacionamentos na internet, nos mangás, nos RPG's virtuais (ou em casos mais extremos, se casando com um travesseiro).

Existem uma série de fatores que são levantados por toda uma espécie de pensadores, mas o foco acaba sempre desaguando na situação econômica do país, resultando numa cultura que adoece pouco a pouco. Vou apresentar algumas visões para depois focar, de fato, na parte financeira que parece oferecer uma justificativa mais plausível.

Uma ala sempre presente no pensamento japonês é a defensora dos fenômenos sociais do país como consequência de suas próprias raízes, diminuindo a importância da ocidentalização em sua gênese, encontrando paralelos culturais no Japão pré-Restauração Meiji. É o caso do professor de Filosofia da Universidade de Osaka Masahiro Morioka ao afirmar que esse padrão andrógino também era comum durante os pacíficos anos da Era de domínio do clã Tokugawa (1603-1868), onde o Japão conheceu inéditos 260 anos de absoluta paz interna. Nesse período foi comum meninos serem criados como meninas, usando vestimentas femininas (acreditava-se que era um meio saudável de desenvolvimento); haviam os onnagata no teatro Kabuki (homens interpretando papéis femininos) e o shunga (pornografia do período Edo onde homens e mulheres só se distinguiam pelos genitais, pois os homens também vestiam roupas femininas, penteando os cabelos como elas). A erosão dos papéis sociais não seria, então, um fenômeno novo no Japão.

Morioka continua argumentando que esse novo ciclo herbívoro seria uma maior aceitação das fraquezas e limitações masculinas, uma vez que ser homem no Japão é uma árdua tarefa inimaginável no Brasil, essa terra do improviso, do jeitinho e do imediatismo. As pressões sociais em cima do homem japonês são demasiadamente pesadas. Ele prossegue com uma afirmação muito interessante: Não são os herbívoros que estão pervertendo o "espírito japonês", ao contrário, eles seriam os responsáveis pela regressão a um estado humano mais nipônico. Distorcidos foram os seus pais e avós que aceleraram as coisas no Pós-guerra - através de métodos absolutamente ocidentais - como um modo de afirmação perante os estrangeiros enquanto buscavam o mesmo padrão de vida dos americanos. Passado o limite do crescimento econômico do país, o retorno às raízes seria inevitável.

“Antigamente, os homens japoneses tinham que ser passionais e agressivos, mas agora essas característica são desagradáveis. Nossos membros tem uma personalidade muito branda. Eles simplesmente aproveitam do que gostam sem preconceitos, eles não são limitados por expectativas.” Yasuhito Sekine

Propaganda da Nivea com foco nos homens, em transporte japonês
Outro ponto que destaco é o excesso de paz. Com a submissão das forças armadas japonesas ao Exército Americano que limita as ações militares do país, e com as políticas de segurança interna, a afirmação da masculinidade se torna supérflua quando o assunto é segurança física. Não há mais a necessidade do macho agir como um soldado no campo de batalha, ainda nas palavras de Morioka. A quantidade de assassinatos per capita cometida por jovens adultos no Japão é a mais baixa do mundo! “Além disso, os valores da sociedade que fazia homens cometerem atos violentos estão desaparecendo. Os homens não precisam mais ser violentos, é por isso que podem ser herbívoros”. Se os EUA vive achando alguma guerrinha por aí e tem seu país recheado com veteranos de guerra de todas as idades; se na Coréia do Sul o alistamento militar é assunto estratégico pelo conflito com os norte coreanos; no Japão a afirmação da masculinidade - no que tange a sobrevivência literal - se torna cada dia mais inútil.

O último assunto levantado pelo filósofo que eu sinto necessidade de citar é a distinção entre ser herbívoro e ser gay. Claro que há gays entre os herbívoros e eles se expressam desse modo. É verdade que a Wishroom já vendeu milhares de sutiãs masculinos, mas certamente uma ampla parcela dos compradores são homossexuais que também se definem como herbívoros, e também não quer dizer que eles saem por aí todos os dias usando sutiã, talvez em um ou outro caso. A mídia dá foco em peculiaridades sem importância, não mostra as origens da situação e ainda cria uma imagem fantasiosa e ridícula de uma nação (o mesmo para a mídia japonesa, que adora um sensacionalismo para dizer o quanto o país está perdido). Herbívoro não é gay, o buraco é mais embaixo, como Morioka diz, os herbívoros procuram o “amor hetero enquanto tornam-se unisex”.

Algumas explicações, de origens feministas, afirmam que a situação seria o desabrochar de uma nova masculinidade, que não precisa mais reprimir seu lado feminino para agradar às convenções sociais.

“Não é que os homens estão se tornando mais femininos, o conceito de masculinidade que está mudando.” Katuhiko Kokobun

Homem herbívoro.

Por outro lado, muitos defendem que esse florescimento do lado feminino dos homens ou retorno às origens é pura balela feminista ou ufanista, o problema seria de origem econômica mesmo, pois a geração mais bem instruída da história do Japão não está encontrando perspectivas de futuro nem segurança de emprego. Com muitos homens ganhando menos de dois mil dólares mensais na cidade com o mais alto custo de vida do planeta, tendo acesso à tecnologia e tendo que conviver com a ala feminina que no Japão é abertamente materialista e gananciosa, muitos homens passaram a dar a mínima para o que a sociedade espera deles, pois se resignaram em sua condição miserável.

A questão é que eles não são assexuados, apenas não estão mais dispostos a pagar o preço para ter acesso a uma mulher que valha a pena. Eles simplesmente não querem mais morrer de trabalhar para comer alguém. O interesse por sexo indubitavelmente continua, basta ver a saúde do mercado pornográfico japonês. A queda na venda de preservativos que persiste desde 1999, ano onde se deu o boom da internet no arquipélago, é sinal correlato de virtualização da sexualidade, não de sua extinção.

Candidatos japoneses

O problema é falta de segurança financeira. No período do crescimento, as empresas japonesas ofereciam polpudos salários e um plano de carreira para toda a vida, com reais chances de crescimento dentro da hierarquia corporativa. Era muito mais seguro alimentar o ímpeto consumista das mulheres sabendo que o pagamento seguramente cairá na conta todos os meses. E não venham me chamar de machista, porque o enjo kosaidos anos 90 está ai para provar que muitas japonesas estavam dispostas até a se prostituir por seus desejos materialistas quando a fonte secou. Nos tempos áureos da economia, o emprego funcionava na base do seishain (emprego permanente), mas agora com a crise, mesmo a mão de obra qualificada do país está sendo contratada na base do haken (contrato). A segurança financeira foi parar na mesma lama na qual a economia do país se atolou. Essa situação incomoda muitos os jovens trabalhadores japoneses, os quais, segundo pesquisa da Mitsubishi, 64% deles gostariam de permanecer no mesmo emprego de modo estável.

Não está sendo viável, para a maioria deles, sustentar a utopia da vida feliz, aquele modelo do American Way, do pai de família casado e empregado numa instituição de renome. Está cada vez mais difícil sustentar a condição de macho alfa, rico, bonito, com status e bom de cama, num país em crise onde todos os outros homens tem a mesma educação básica e origem étnica semelhante (dificuldade de achar um diferencial para se destacar). São pessoas que assumem sua incapacidade de competir. Os riscos de tantos esforços são grandes demais, sem oferecer garantias de retorno no futuro.


Menos de 10 mil dólares mensais? ha ha

As mulheres, com as mesmas oportunidades trabalhistas garantidas pela legislação, não se vêem mais na obrigação de casar para garantir seu sustento e saciar seus desejos de consumo, logo, ficam mais exigentes quando o assunto é casamento. Ao mesmo tempo em que os homens estão achando cada vez mais dificuldades para encontrar um bom salário num emprego estável. A pobreza no Japão está crescendo e o país já é dono do segundo pior índice de pobreza relativa, superado apenas pelos americanos (segundo relatório da Organisation for Economic Co-operation and Development). Sentiu o drama?

Essa mulheres, ainda querendo o nível de vida dos tempos de bonança e com iguais oportunidades de trabalho (ao menos na teoria) que as fazem fugir do matrimônio, estão ajudando a criar um sério problema. Uma geração inteira de solteironas que chegarão sozinhas na velhice (um sério problema social no Japão, onde alguns idosos morrem e ficam 15 anos em decomposição na casa sem que ninguém perceba) e um monte de homens de meia-idade que ainda não perderam a virgindade (25% dos japoneses na faixa dos 30 anos seguem virgens). Eles tampouco vão fazer esse serviço em inferninhos, alguns deles porque estão condenando justamente a monetarização dos relacionamentos, a maioria porque não tem dinheiro mesmo. Os prostíbulos japoneses são caros e frequentemente cobram mensalidade de seus frequentadores. Enquanto os que tem dinheiro para bancar a farra também não procuram o serviço, alegando estarem fisicamente exaustos demais, por causa do trabalho, para mesmo pensar no assunto.

Quer? Pague o preço,...
O economista Takashi Kadokura cruzou diversas informações e traçou conclusões perigosas. 30% das mulheres afirmaram se recusar a sair com homens que ganham menos de 10 mil reais mensais. Quase metade da totalidade delas se recusariam a casar com alguém com rendimentos anuais inferiores a 80 mil reais. O problema é que apenas 1,5 milhões de japoneses na faixa etária dos herbívoros possuem rendimentos nessas especificações, enquanto existe um volume três vezes maior de mulheres esperando, no mínimo, mais do que isso. Conclusão, pelo menos 2/3 delas continuarão sozinhas se não diminuírem suas expectativas e exigências, fortemente enraizadas por questões culturais e pela libertação proporcionada pelo movimento feminista. Além disso, a baixa natalidade do povo japonês cobra de toda mulher casada no mínimo um rebento, uma pressão inaceitável para muitas mulheres, até pelos prejuízos na construção de uma carreira sólida numa economia em frangalhos.

Os resultados já são estatisticamente verificáveis. Entre 1975 e 2005 o nível de homens solteiros na faixa dos 30 anos subiu de 14% para 47% enquanto nas mulheres de 8% para 32%. Se o comportamento não mudar, o governo precisará intervir para evitar um colapso. As soluções seriam tentar oferecer salários mais equitativos e diminuir a jornada de trabalho que, exasperante, prejudica a interação social. Mas, como propor diminuição da jornada de trabalho se o país já está economicamente em situação trágica?

As empresas japonesas estão preocupadas pois o padrão de consumo dessa geração não acompanha os desejos das gerações passadas. Caem as vendas, sobretudo dos produtos de luxo e status, como carros e bebidas. O Japão perde expressão mundial a cada dia, já que o mercado externo se torna cada dia mais hostil (crise na zona do euro e na economia americana, além da concorrência dos coreanos e chineses em ascensão) e o mercado interno se recusa a consumir (tanto por ter menos dinheiro para gastar como por recusa aos tempos de consumismo desenfreado). O governo, então, está desesperado porque isso alimenta um ciclo vicioso. Sem dinheiro as pessoas casam menos, se casam menos tem menos filhos, se nascem menos crianças, como sustentar a idosa população japonesa, a mais longeva do planeta? (isso só está sendo lindo para o setor de cosméticos, que dobrou seu mercado potencial com a adesão masculina em massa ao cuidado pessoal).

Além disso, As escolas japonesas que moldaram tantos funcionários competentes hoje são uma barreira para a criatividade, individualismo e empreendedorismo que poderiam ajudar o país nesse momento.

Quem vai pagar as contas? Ninguém sabe...

Esse cenário desesperador afetou a mentalidade dos jovens. Sem estabilidade financeira, sem conseguir mulher, vendo o Japão na beira do precipício, eles se resignaram. Os herbívoros são a expressão maior da desilusão. São homens menos ambiciosos, incapazes de devolver o Japão ao lugar que lhe coube no passado. Não querem trabalhar até a morte como seus pais (ao ver que o projeto fracassou e ao sentir a ausência deles em sua função paterna), nem sustentar mulheres que depois de casadas racionam sexo mas não param de gastar (Japão sempre liderando a lista mundial dos insatisfeitos sexuais e lanterna na lista de frequência do ato).

São jovens que simplesmente abrem mão voluntariamente da riqueza para não precisar se prender à burocracia e ao sofrimento silencioso dentro de uma empresa. São jovens que já não enxergam mais nexo em ficar exibindo aos demais o quanto eles se esforçam, o quão samurais corporativos eles são, bastando fazer as coisas direito. Há uma negação da veneração dos padrões tradicionais do sucesso. Os herbívoros se recusam a colocar o trabalho na frente de suas próprias vidas, ignorando, por exemplo, as saídas para beber após o expediente, ato essencial para fazer seu nome no mundo corporativo japonês. Eles preferem pagar o preço de não lamber as bolas do chefe. São eles os primeiros responsáveis por mesclar cultura ocidental com os preceitos confucionistas. Essa situação foi permitida pelos pais dos herbívoros que, sabendo da vida dura que levavam, encorajaram os filhos a escolher sua própria profissão, permitindo aos jovens deliberar sobre suas próprias existências. O resultado foi esse.

“Tudo o que queremos sentir é que nosso trabalho tenha um propósito. (...) Fazer um grande esforço para ser algo que eu não sou apenas não é para mim. Eu quero ser natural, apenas ser eu mesmo.” Takeuchi


Quero deixar claro que as reivindicações dos herbívoros não são apenas fruto de mimos em demasia, algumas são bem legítimas. Um exemplo tolo. Gostar de comer sobremesa. Sobremesa era coisa de mulher no Japão. Se um homem comprar um pedaço de bolo, o atendente fornece dois garfos pois infere que ele só está comprando para comer junto com a namorada, pois homem não compra bolo. O homem japonês tinha que gostar de bebidas e comidas apimentadas. Hoje eles comem bolo. São fracos por isso?!? Por assumir que gostam de doces? Estão afirmando-se assertivamente do jeito que a sociedade rígida permite. É uma revolução interna e silenciosa que estava sendo esperada no Japão há tempos. O conservadorismo está sendo minado pouco a pouco em suas estruturas. O Partido Liberal Democrata em 2009 teve sua soberania política abalada após mais de 5 décadas de poder ininterrupto, cedendo espaço para um partido de centro-esquerda.

Igualmente o interesse pela moda não tem tanto a ver com frescura, mas como resultado da desilusão com o mundo, com a política, com a economia e com os rumos do país. Na desesperança com o macro, os herbívoros se refugiam no micro, naquilo que conseguem alterar com pequenas ações, sua própria existência. A postura, ao contrário do que aparenta, não é simplesmente hedonista, ela é revestida por uma casca traumatizada.

Enxergo um paralelo entre a realidade japonesa e aquilo que o antropólogo americano Cristopher Lasch enxergou na sociedade ocidental (da qual o Japão faz parte, no caso) ao definir o conceito de Cultura do Narcisismo. Quando as ilusões levantadas pela contracultura nos anos 60 morreram (de transformar o mundo com ações e engajamento político), e o mundo percebeu que os valores modernos não deram conta de resolver os problemas globais, as pessoas experimentaram um enorme sabor de impotência e desencanaram, cuidando de suas próprias vidas, afinal, era a única coisa que lhes restavam (daí os anos 70 e 80 como expressão do supérfluo). Acompanhe o raciocínio e veja se não encaixa perfeitamente:

“Após a ebulição política dos anos sessenta, os americanos recuaram para preocupações puramente pessoais. Desesperançados de incrementar suas vidas com o que interessa, as pessoas convenceram-se de que o importante é o auto-crescimento psíquico: entrar em contato com seus sentimentos, comer alimentos saudáveis (...) aprender a se “relacionar”, superar o “medo do prazer”.

"A inflação corrói os investimentos e as poupanças. À medida que o futuro se torna ameaçador e incerto, só os tolos deixam para o dia seguinte o prazer que podem ter hoje (...) A auto-preservação substituiu o auto-crescimento como o objetivo da existência (...) Esperam não tanto prosperar, mas simplesmente sobreviver, embora a própria sobrevivência necessitada vez mais de ganhos maiores.”

Outros pensadores da modernidade, podem contribuir ainda na mesma linha de pensamento, como Jurandir Freire Costa (válido ressaltar que eles não são pensadores do Japão, o país apresenta suas particularidades): 

"O indivíduo moderno é um indivíduo violentado, antes de ser narcisista.”

Portanto, os herbívoros seriam mesmo um problema? Esse comportamento, a alegação de não ligar para o que os outros pensam, seria uma evasiva para justificar a incapacidade de competir pelos melhores postos ou seria uma reação saudável aos excessos do Japão? É natural que o Yamato trate o problema como uma doença social, pois isso afeta a economia e o futuro do país, mas, até que ponto a economia deve guiar cegamente os rumos da nação? Devemos condenar pessoas que buscam seu modo próprio de viver a vida, uma vez que a manutenção da condição de potência mundial do Japão é notoriamente insustentável? Se a reação é excessiva no sentido oposto, não seria um sinal de que a exposição ao trauma foi forte demais, deixando claro que um retorno ao antigo caminho não é a resposta para essas questões? Isso só os japoneses nos responderão no decorrer da História.

Me questiono se, no longo prazo, a situação é realmente tão ruim para as mulheres. Isso pode variar de acordo com o que elas esperam do relacionamento. Antes o homem japonês era o provedor carnívoro, ele trazia muito dinheiro para a casa, mas ficava o tempo todo fora de casa, fazendo hora-extra ou bebendo com os companheiros de trabalho. A família era afetivamente negligenciada (e os herbívoros são filhos desses pais nada presentes). Os herbívoros tem menos dinheiro, mas procuram tratar esposa e família de modo mais humano e presente. Se ela espera um pai de família que banque seus prazeres ao mesmo tempo que a deixe livre para dar seus pulos por aí, é um desastre. Se elas esperam uma adesão do homem ao papel moderno do pai (que progressivamente perde a expressão no ocidente), no longo prazo os resultados poderão ser positivos.

“Os homens japoneses eram machos e sexistas. E negligenciavam suas esposas, então é bom que eles estejam descobrindo seu lado feminino e aprendendo a colaborar.” (Yuko Kawanishi, sociólogo)

Homem herbívoro

Apenas para situar os navegantes, os herbívoros nada tem a ver com os otaku, apesar de serem ambos faces do mesmo dado (nem falo moeda porque há outros aspectos problemáticos). Ao contrário do otaku que foge da sociedade, mas permanece fazendo parte dela com sua voracidade consumista, o come-planta permanece ligado à sociedade mas privilegia o espiritual em relação ao material, uma postura budista, que faz parte da amálgama cultural japonesa (argumento que joga ao lado do filósofo Morioka).

O medo dos países vizinhos é que o Japão exporte esse comportamento através do gigantismo de sua cultura pop. Obras sobre o assunto já foram traduzidas no leste e sudoeste asiático, inclusive em regiões com o mesmo problema de natalidade, como Taiwan, onde a taxa fica abaixo de 1 (Japão tem 1,3 e já é muito baixo), um dos menores índices da história da humanidade. O mangá Otomen (trocadilho entre otome - menina sonhadora - e men, para simbolizar o personagem herbívoro) já foi licenciado até no Brasil pela Panini. 

Apenas quero deixar claro que o tom do post pode ter soado machista em alguns pontos. Seria natural, pois eu estou falando sobre a visão de mundo desses homens, correspondendo ela com a verdade ou não. Finalizo o post com a citação que eu li hoje por acaso na Folha, numa coluna sobre os pontos positivos do ócio, que cabe muito bem aqui, pois não me espantaria se saísse da boca de um herbívoro. Com a palavra, Karl Kraus:

"Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa"

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Guillaume Faye - Marte & Hefesto: O Retorno da História

por Guillaume Faye



Permita-me uma parábola "arqueofuturista" baseada no eterno símbolo da árvore, que eu compararei ao do foguete. Mas antes disso, contemplemos a dura face do século vindouro.

O século XXI será um século de ferro e tempestades. Ele não se assemelhará àqueles futuros harmoniosos previstos até a década de 70. Ele não será a aldeia global profetizada por Marshall MacLuhan em 1966, ou a rede planetária de Bill Gates ou o fim da história de Francis Fukuyama: uma civilização liberal global dirigida por um Estado universal. Ele será um século de povos em competição e identidades étnicas. E paradoxalmente, os povo vitoriosos serão aqueles que permanecerem fieis a, ou retornarem aos, valores e realidades ancestrais (que são biológicos, culturais, éticos, sociais e espirituais) e que ao mesmo tempo dominarão a tecnociência. O século XXI será aquele no qual a civilização europeia, prometeia e tráfica mas eminentemente frágil, passará por uma metamorfose ou entrará em seu irremediável crepúsculo. Será um século decisivo.

No Ocidente, os séculos XIX XX foram uma época de crença na emancipação das leis da vida, crença de que era possível continuar indefinidamente após ter ido à Lua. O século XXI provavelmente ajustará as contas e nós vamos "retornar à realidade", provavelmente por meio do sofrimento.

Os séculos XIX e XX viram o apogeu do espírito burguês, essa varíola mental, este simulacro monstruoso e deformado da ideia de uma elite. O século XXI, uma época de tempestades, verá a renovação conjunta dos conceitos de um povo e uma aristocracia. O sonho burguês vai desmoronar da putrefação de seus princípios fundamentais e promessas medíocres: a felicidade não vem do materialismo e do consumismo, do capitalismo transnacional triunfante e do individualismo. Nem da segurança, da paz ou da justiça social.

Cultivemos o otimismo pessimista de Nietzsche. Como Drieu La Rochelle escreveu: "Não há mais ordem a conservar; é necessário criar uma nova". O começo do século XXI será difícil? Todos os indicadores estão no vermelho? Melhor assim. Eles previram o fim da história após o colapso da URSS? Queremos acelerar o seu retorno: trovejante, belicoso e arcaico. O Islã volta a suas guerras de conquista. O imperialismo americano está livre para agir. China e Índia querem se tornar superpotências. E por aí vai. O século XXI será posto sob o signo duplo de Marte, o deus da guerra, e de Hefesto, o deus que forja espadas, o mestre da tecnologia e dos fogos ctônicos.

Rumo à Quarta Era da Civilização Europeia

A civilização europeia (não se deve hesitar em chamá-la de alta civilização, apesar dos acovardados xenófilos etnomasoquistas) sobreviverá ao século XXI apenas por meio de uma reavaliação agonizante de alguns de seus princípios. Ela será capaz se ela permanecer ancorada em sua personalidade metamórfica eterna: mudar permanecendo ela própria, cultivar enraizamento e transcendência, fidelidade a sua identidade e grandes ambições históricas.

A Primeira Era da Civilização Europeia inclui a antiguidade e o período medieval: uma era de gestação e crescimento. A Segunda Era vai da Era dos Descobrimentos à Primeira Guerra Mundial: é a Ascensão. A civilização europeia conquista o mundo. Mas como Roma ou o Império de Alexandre, ela foi devorada por seus próprios filhos pródigos, o Ocidente e a América e pelos próprios povos que ela (superficialmente) colonizou. A Terceira Era da Civilização Europea começa, em uma aceleração trágica do processo histórico, com o Tratado de Versalhes e o fim da guerra civil de 1914-1918: o catastrófico século XX. Quatro gerações foram suficientes para desfazer o labor de mais de quarenta. A história se assemelha às assíntotas trigonométricas da "teoria da catástrofe": é no ápice de seu esplendor que a rosa apodrece; é após um momento de claridade e calmaria que o ciclone estoura. A Rocha Tarpeia está próxima ao Capitólio!

A Europa caiu vítima de seu próprio prometeísmo trágico, de sua própria abertura ao mundo. Vítima do excesso de qualquer expansão imperial: universalismo, ignorante de toda solidariedade étnica, assim também vítima do micronacionalismo.

A Quarta Era da Civilização Europeia começa hoje. Essa será a era do renascimento ou da perdição. O século XXI será para essa civilização, herdeira dos povos fraternos indo-europeis, o século fatídico, o século da vida ou morte. Mas o destino não é simplesmente fado. Contrariamente às religiões do deserto, o povo europeu sabe no fundo de seus corações que destino e divindades não são onipotentes em relação à vontade humana. Como Aquiles, como Ulisses, o homem europeu original não se prostra ou ajoelha perante os deuses, mas se ergue reto. Não há inevitabilidade na história.

A Parábola da Árvore

Uma Árvore tem raizes, tronco e folhas. Quer dizer, princípio, corpo e alma.

1) As raízes representam o "princípio", a fixação biológica de um povo e seu território, sua pátria. Elas não nos pertencem; são transmitidas. Elas pertencem ao povo, à alma ancestrai, e vem do povo, o que os gregos chamavam de ethnos e os alemães Volk. Elas vem dos ancestrais; elas devem ir para as novas gerações. (É por isso que qualquer miscigenação é uma apropriação indébita de um bem que deve ser transmitido e, portanto, uma traição). Se o princípio desaparece, nada mais é possível. Se cortamos o tronco da árvore, ela pode crescer novamente. Mesmo ferida, a Árvore pode continuar a crescer, desde que ela recupere fidelidade com suas próprias raízes, com sua própria fundação ancestral, o solo que nutre sua seiva. Mas se as raízes forem arrancadas ou o solo poluído, a árvore está acabada. É por isso que a colonização territorial e a amalgamação racial são infinitamente mais sérias e mortais que a escravidão política ou cultural, das quais um povo pode se recuperar.

As raízes, o princípio dionisíaco, cresce e penetra o solo em novas ramificações: vitalidade demográfica e proteção territorial da Árvore contra ervas daninhas. As raízes, o "princípio", jamais são fixas. Elas aprofundam sua essência, como Heidegger viu. As raízes são ao mesmo tempo "tradição" (o que é transmitido) e "arche" (fonte vital, eterna renovação). As raízes são, assim, manifestação da memória mais profunda do ancestral e da eterna juventude dionisíaca. Esta remete ao conceito fundamento do aprofundamento.

2) O tronco é seu "soma", o corpo, a expressão cultural e psíquica do povo, sempre inovadora, mas nutrida pela seiva das raízes. Ela não é solidificada. Ela cresce em camadas concêntricas e se ergue rumo ao céu. Hoje, aqueles que querem neutralizar e abolir a cultura europeia tentam "preservá-la" na forma de monumentos do passado, como em formol, para estudiosos "neutros", ou simplesmente abolir a memória histórica das gerações mais jovens. Eles fazem o trabalho de lenhadores. O tronco, sobre a terra que o porta, é, era após era, crescimento e metamorfose. A Árvore da velha cultura europeia é desenraizada e removida. Um carvalho de 10 anos não se assemelha a um de mil anos. Mas é o mesmo carvalho. O tronco, que resiste ao relâmpago, obedece ao princípio jupiteriano.

3) A folhagem é extremamente frágil e bela. Ela morre, apodrece e reaparece como o sol. Ela cresce em todas as direções. A folhagem representa psyche, i.e., civilização, a produção e profusão de novas formas de criação. Ela é a raison d'être da Árvore, sua presunção. Ademais, a que lei o crescimento de folhas obedece? Fotossíntese. Quer dizer, "a utilização da força da luz". O sol nutre as folhas que, em troca, produzem oxigênio. A folhagem eflorescente, assim, segue o princípio apolíneo. Mas observe: se ela cresce desordenadamente e anarquicamente (como a civilização europeia, que queria se tornar o Ocidente global e se estender sobre todo o planeta), ela será pega pela tempestade, como uma vela de barco má amarrada, e arrancará e desenraizará a Árvore que a carrega. A folhagem deve ser podada, disciplinada. Se a civilização europeia quiser sobreviver, ela não deve se estender sobre toda a Terra, nem praticar a estratégia dos braços abertos... como a folhagem que é intrépida demais se superestende, ou se permite ser sufocada por vinhas. Ela terá que se concentrar em seu espaço vital, i.e., Eurossibéria. Daí a importância do imperativo etnocêntrico, um termo politicamente incorreto, mas que é melhor do que o modelo "etnopluralista" e, na verdade, multiétnico que ludibria ou esquemas propostas para confundir o espírito de resistência da elite rebelde da juventude.

Pode-se comparar a metáfora tripartite da Árvore com a daquela extraordinária invenção europeia, o Foguete. O motor corresponde às raízes, com fogo ctônico. O corpo cilíndrico é como o tronco da árvore. E a cápsula, a partir da qual satélites ou naves alimentadas por paineis solares são arremessados, traz à mente a folhagem.

É realmente um acidente que as cinco grandes séries de foguetes espaciaias construídas por europeus, incluindo expatriados nos EUA, foram respectivamente chamadas Apollo, Atlas, Mercúrio, Thor e Ariadne? A Árvore é o povo. Como o foguete, ela se ergue aos céus, mas parte de uma terra, um solo fértil onde nenhuma outra raiz parasita pode ser permitida. Sobre uma base espacial, se garante uma proteção perfeita, uma clareira total para o local de lançamento. Da mesma maneira, o bom jardineiro sabe que se a árvore deve crescer alta e forte, ele deve limpar sua base das ervas daninhas que parasitam suas raízes, livrar seu tronco do aperto de plantas parasitárias, e também podar os galhos pendentes e prolixos.

Do Crepúsculo ao Amanhecer

Este séclo será o do renascimento metamórfico da Europa, como a Fênix, ou de seu desaparecimento enquanto civilização histórica e sua transformação em uma estéril e cosmopolita Luna Park, enquanto os outros povos preservarão suas identidades e desenvolverão seu poder. A Europa é ameaçada por dois vírus relacionados: o do esquecimento de si mesmo, da dessecação interior, e o da excessiva "abertura ao outro". No século XXI, a Europa, para sobreviver, terá que se reagrupar, i.e., retornar a sua memória, e perseguir suas aspirações faustianas e prometeicas. Essa é a demanda da coincidentia oppositorum, a convergência de opostos, ou a necessidade dupla de memória e vontade de poder, contemplação e criação inovadora, enraizamento e transcendência. Heidegger e Nietzsche.

O início do século XXI será a meia-noite desesperadora do mundo sobre a qual Hölderlin falou. Mas é sempre mais escuro antes do amanhecer. Sabe-se que o sol retornará, sol invictus. Após o crepúsculo dos deuses: o amanhecer dos deuses. Nossos inimigos sempre acreditaram no Grande Entardecer, e seus estandartes portam as estrelas da noite. Nossas bandeiras, ao contrário, são brasonadas com a estrela do Grande Amanhecer, com raios fulgurantes; com a roda, a flor do sol ao Meio-Dia.

Grandes civilizações podem passar da escuridão do declínio para o renascimento: Islã e China provam isso. Os EUA não são uma civilização, mas uma sociedade, a materialização global da sociedade burguesa, um cometa, com um poder tão insolente quanto transitório. Eles não tem raízes. Eles não são competição verdadeira no palco da história, apenas um parasita.

O tempo de conquista acabou. Agora é o tempo de reconquista, interior e exterior: a reapropriação de nossa memória e nosso espaço: e que espaço! 14 zonas horárias sobre as quais o sol nunca se põe. De Brest aos Estreitos de Bering, é verdadeiramente o Império do Sol, o próprio espaço do nascimento e expansão do povo indo-europeu. Para o sudeste estão nossos primos indianos. Para o leste está a grande civilização chinesa, que pode decidir ser nossa inimiga ou nossa aliada. Para o oeste, do outro lado do oceano: América, cujo desejo sempre será o de impedir a união continental. Mas ela sempre será capaz de impedi-la?

E então, para o sul: a principal ameaça, ressurgindo das profundezas das eras, aquela com a qual não podemos nos comprometer.

Lenhadores tentam cortar a Árvore, entre eles muitos traidores e colaboracionistas. Defendamos nossa terra, preservemos nosso povo. A contagem regressiva começou. Temos tempo, mas pouco.

E então, mesmo que eles cortem o tronco ou a tempestade o derrube, as raízes permanecerão, sempre férteis. Só uma brasa já basta para reacender um fogo.

Obviamente, eles podem cortar a Árvore e desmembrar seu corpo, em uma canção crepuscular, e europeus anestesiados podem não sentir a dor. Mas a terra é fértil, e apenas uma semente já basta para começar a crescer novamente. No século XXI, preparemos nossos filhos para a guerra. Eduquemos nossa juventude, mesmo que seja uma minoria, como uma nova aristocracia.

Hoje precisamos de mais do que moralidade. Precisamos de hipermoralidade, i.e., da ética nietzscheana dos tempos difíceis. Quando se defende o próprio povo, i.e., os próprios filhos, defende-se o essencial. Aí então se segue a regra de Agamêmnon e Leônidas, mas também de Charles Martel: o que prevalece é a lei da espada, cujo bronze ou aço reflete o brilho do sol. A árvore, o foguete, a espada: três símbolos verticais lançados do chão aos céus, da Terra ao Sol, animados por seiva, fogo e sangue.