sábado, 26 de novembro de 2016

Andrea Virga - Geração Donbass

por Andrea Virga



No rio de infantis banalidades arrojadas pelos gurus do pensamento único liberal-progressista, que resultam francamente ofensivas, sem levar em conta sua opinião, para qualquer pessoa com um mínimo de inteligência, a pior dessas banalidades é, quiçá, a do mito da chamada "Geração Erasmus", anunciada e enfurecida como se fosse um dos diversos e com que os apátridas tentam preencher o vazio de suas almas. Um culto que agora tem seus mártires: desde os frequentadores do Bataclam às estudantes mortas no acidente de ônibus em Tarragona (e ninguém se importa com o motorista sexagenário obrigado a trabalhar turnos esgotadores por uns poucos euros).

Os muezzins progressistas chamam à oração, Saverio Tommasi e Roberto Saviano à frente, e os salafistas dos gizes coloridos respondem: há uns 2 dias (juro!), vi exibida com orgulho no facebook uma tese de doutorado dedicada a Giulio Regeni e a Valeria Solesin. É objetivamente surpreendente como pessoas formalmente equipadas com conhecimentos especializados (bachareis, doutores, investigadores) podem adotar acriticamente essa mistura de coletivismo individualista e cosmopolita, que nega qualquer diferença para afirmar somente uma massa de átomos humanos desenraizados e nômades, feliz de ser forçado pelo peristaltismo do Capital a se mover constantemente para trabalhar, estritamente mal pagos e sem garantias, não importando onde e como.

Não obstante, aqui, como em todas as mentiras, há um núcleo positivo: "caminhos da Europa, cansados, sujos, mas felizes" cantava uma nossa velha canção. Claro, não é uma novidade: precisamos lembrar que Codreanu estudou em Weimar, Jena e Genebra? Que a Falange Espanhola tinha uma seção em Milão já em 1935? Que Lênin e o jovem Mussolini passaram muito tempo na Suíça? Agora, não obstante, se poderia dizer, é muito mais fácil: uma moeda comum, nem visto, nem passaporte, passagens de avião baratas; com umas centenas de euros se gira pela Europa.

Os horrendos carniceiros de Marne e da Polônia já haviam ensinado a nossos avós a sangrente inutilidade do chauvinismo fratricida, impulsionado pelo provincialismo burguês em benefício dos barões do carvão e do aço. "No more brother wars" era a palavra de ordem a partir de 1945. Segue sendo a mesma, para os que bem sabem que Erasmo era um holandês "bárbaro" que tratava de teologia dogmática e direito romano em latim e grego clássicos, e não um semestre de alcoolismo, maconha e putaria. E então é justo recordar que existe hoje outra geração de jovens europeus, que viaja levando suas próprias raízes no coração, para conhecer e amar à grande Mãe da qual sua pequena pátria não é mais que uma peça: a Europa de cinco mil anos de história, da qual a sexagenária UE é só uma paródia.

O autor, como simples exemplo nada excepcional, viveu pelo menos dois meses em Dresden, Lyon, Berlim, Madri: 21 meses no estrangeiro com várias bolsas, sem a necessidade de programas Erasmus. Bebeu da fonte Castalia de Delfos e se banhou nos lagos alpinos. Foi de carona até a tumba de Nietzsche nas planícies da Saxônia e entrou nas catacumbas abaixo de Paris. Rezou sob a Cruz no Vale dos Caídos e saudou à loba romana na costa do Mar Negro. Ele escreveu poemas para Jan Palach e rendeu homenagem aos soldados do Exército Vermelho em Treptower Park.

Pulsou seu coração em uníssono com os tambores da Guarda Real britânica e do Tercio espanhol. Admirou ao vivo as armas de nossos antepassados: as armaduras dos hussardos alados de Jan Sobieski e as espadas de ferro da antiga Micenas, as armaduras equestres de Carlos V e os caças da Luftwaffe. Bebeu cerveja com jovens patriotas nas vielas da parte antiga de Lyon e marchou para a Revolução no primeiro de maio em Kreuzberg. Desceu pelas ruas com bandeiras dos povos atacados e marchou com tochas e a Tricolor em memória dos caídos. Cruzou antebraço com os que haviam abandonado seus lares para lutar no Donbass, junto a seus irmãos da Eurásia.

Essa é a geração a que pertencemos, que apesar de tudo e todo, não nos resignamos ao pensamento único liberal-democrata, aos defensores do politicamente correto baixados de cima para baixo para justificar o capital-consumismo pós-moderno da atualidade, como se fosse o melhor dos mundos possíveis. E a luta contra a opressão da junta de serviço atlantista ucraniana conduzida pelas populações de Donetsk e Lugansk com o apoio de voluntários europeus e eurasiáticos, é um dos casos mais próximos e evidentes dessa resistência.

Isso se aplica aos que foram lutar em pessoa, mas também para aqueles que apoiam essa luta com artigos ou demonstrações de solidariedade; para aqueles que viajam a Europa saboreando a diversidade de tradições locais e evitando McDonald's e Starbucks como se tratasse da peste; para os que, obrigados a emigrar, não se esquecem de sua própria terra e de seu próprio sangue. Somos nós, irredutíveis aos modelos semicultos ocidentais, a Geração Donbass.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Eric Toussaint & Maud Bailly - A Reestruturação, Auditoria, Suspensão e Abolição da Dívida

Entrevista com Eric Toussaint por Maud Bailly



Eric Toussaint é um historiador e cientista político com Ph.D. das universidades de Paris VIII e Liège. Ele é o Representante da CADTM Internacional onde ele tem sido ativo por muitos anos nas lutas pela abolição das dívidas dos países meridionais e das dívidas ilegítimas dos países setentrionais. Ele foi membro do comitê de auditoria da dívida do Equador criado em 2007 pelo presidente Rafael Correa e durante o mesmo ano aonselhou o presidente equatoriano e o ministro de finanças sobre a criação do Banco do Sul. Ele também aconselhou o secretariado da ONU sobre o mesmo assunto em 2008. No mesmo ano Fernando Lugo, presidente do Paraguai, convocou sua experiência para lançar uma auditoria na dívida pública de seu país.

Ele apoia e está envolvido nas diferenças iniciativas para auditorias populares da dívida na Grécia, Portugal, Espanha, França e Bélgica. Em 2011 ele foi consultado pela CPI da Dívida no Brasil e em 2013 pela Comissão Econômica Senatorial do Brasil. Em 2012 e 2013 ele participou, com Alexis Tsipras, presidente do Syriza, de discussões sobre a dívida grega. Em novembro de 2014, ele foi um convidado da maioria presidencial no Congresso argentino, ávido por dar início ao processo de auditoria garantido pela lei de "pagamentos soberanos" adotada em setembro de 2014. Desde abril de 2015, Eric Toussaint é o coordenador científico do Comitê da Verdade sobre a Dívida Pública Grega criado pelo presidente do Parlamento helênico. Eric Toussaint é o autor de várias obras de referência sobre os problemas da dúvida e sobre as Instituições Financeiras Internacionais e editou dois manuais populares sobre a dívida. Sua última obra em inglês, Bancocracia, aparecerá em julho de 2015.

Segundo Eric Toussaint, a reestruturação da dívida sempre foi o resultado de cálculo econômico e geopolítico, raramente produzindo um resultado favorável a longo prazo para os devedores; a não ser que os credores vissem uma vantagem estratégica para eles nisso. A "reestruturação" soberana da dívida, como ela é agora chamada pelo FMI, pelo Clube de Paris e pelas grandes corporações bancárias, e mais recentemente pela esquerda na Grécia, Portugal e Espanha, não é uma expressão satisfatória, na verdade usar o termo "reestruturação" é perigoso, porque os credores o carregaram com o que eles querem que o termo signifique. O representante da CADTM Internacional recomenda que governos progressistas ponham grande ênfase em realizar amplas auditorias da dívida (com participação popular), associadas onde necessário a suspensão de pagamentos. Essa auditoria deve levar à abolição da parte da dívida que seja ilegal, ilegítima, odiosa e/ou insustentável e a impor uma redução no montante do restante. Este restante pode ser reestruturado, mas de nenhuma maneira uma reestruturação pode ser considerada, por si mesma, suficiente.

P: Assim, o que é "reestruturação" da dívida?


R: Segundo definições vistas em documentos oficiais publicados pelo FMI [1] e pelo Clube de Paris, uma reestruturação de dívida soberana pressupõe, na vasta maioria dos casos, trocar um conjunto de dívidas por um novo conjunto de dívidas ou liquidezes em minúsculas quantidades. Em geral, uma reestruturação de dívida é o resultado de negociações entre países devedores e diferentes tipos de credores.


A reestruturação de uma dívida soberana pode assumir uma de duas formas principais: [2]

1 - Uma nova agenda de pagamentos: pela redução das taxas de juros de modo a reduzir o nível de repagamentos e/ou prolongar o período de repagamento;

2 - A reestruturação pode incluir uma redução da quantidade de dívida (pela renúncia de somas devidas). Na maioria das vezes trata-se de velhas obrigações ou contratos que são substituídos por novos. Uma redução de dívida pode ser implementada por uma recompra de obrigações com liquidezes disponíveis.

Uma recompra de dívida é algo raro. Aproximadamente 600 reestruturações ocorreram entre 1950 e 2012, mas apenas 26 envolveram recompras com liquidezes. Essa é uma pequena minoria de reestruturações as quais, de modo geral, estavam ligadas a acordos HIPC nos quais uma parte dos credores de um país eram reembolsados pelos outros credores. [3]

Dívidas soberanas são reestruturadas em épocas de crise, geralmente após uma situação de inadimplência de repagamento, ou em uma situação de verdadeiro perigo de inadimplência (suspensão total ou parcial de pagamentos). Quando o FMI, o Clube de Paris ou a Troika interferem para organizar uma reestruturação da dívida sua primeira consideração é recriar uma situação de dívida solvível em um país suavizando o fardo dos repagamentos. Muito comumente, em troca da reestruturação eles impõem condições que correm contra o interesse do país endividado e seu povo. [4] Ademais, as estratégias geopolíticas do credor desempenham um papel decisivo na escolha de que países podem se qualificar para a reestruturação de sua dívida e as condições que são impostas em retorno.

P: Já houve alguma vez reestruturação por credores que foi benéfica, a longo prazo para devedores?


R: Sim, há o caso particular da Alemanha. [5] Em uma conferência realizada em Londres em 1953, os credores da Alemanha Ocidental, EUA, Reino Unido, França, Bélgica e Holanda, [6] concordaram com uma importante redução da enorme dívida da Alemanha. Quantias tomadas emprestado entre as guerras e imediatamente depois foram reduzidas em 62.5%. Uma moratória de cinco anos também foi concedida e reivindicações de dívidas e danos de guerra, causados pela invasão e ocupação nazista, foram adiados sine die. É estimado que a dívida total reivindicada pelas potências aliadas da Alemanha foi reduzida em 90%. [7] Além disso, os termos de repagamento para o remanescente foram reestruturados para permitir à Alemanha se reconstruir e reconstruir sua economia rapidamente.


P: Quais foram estes termos favoráveis?


R: 1 - A Alemanha foi capaz de repagar a maior parte de sua dívida em sua própria moeda, apesar do marco alemão ter pouco valor. Como um país derrotado e destruído, o dinheiro da Alemanha era considerado como de pouco interesse nos mercados de câmbio. O marco alemão não era nem uma moeda segura, nem uma moeda forte. Essa possibilidade foi bastante benéfica. Deve ser apontado que é muito raro que credores aceitem que um país repague em sua própria moeda se esta for uma moeda fraca. [8] Normalmente demanda-se moeda forte (euro, dólar, libra, iene, etc.)


2 - Os países credores prometeram comprar bens alemães para poder criar um mercado de exportação que, por sua vez, produzisse renda comercial, reservas de câmbio e uma boa balança de pagamentos.

3 - Os credores aceitaram que, em caso de litígio com a Alemanha, cortes alemães seriam as competentes.

4 - Foi decidido que a Alemanha não usaria mais que 5% de sua receita de exportação para repagar dívida.

5 - Taxas de juros não seriam maiores que 5% e, em alguns casos, poderiam ser renegociadas e revisadas para baixo.

Essas condições permitiram que a Alemanha se erguesse rapidamente a partir dos escombros. Devemos ter consciência de que os Acordos de Londres só diziam respeito ao que era, à época, a Alemanha Ocidental. O país foi dividido em Alemanha Oriental (República Democrática Alemã - RDA) alinhada com o bloco soviético, e Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha - RFA) alinhada com o Ocidente. Se os credores da Alemanha Ocidental fizeram tamanhas concessões foi porque, no contexto da Guerra Fria com a URSS, eles precisavam de uma Alemanha estável. Eles temiam que se grandes movimentos sociais surgissem em uma Alemanha abalada isso seria uma ameaça a seus interesses. Também, eles não queriam cometer o mesmo erro cometido no Tratado de Versalhes em 1919 que impôs condições insustentáveis sobre a Alemanha. [9] Finalmente, não deve ser esquecido que desde o fim do século XIX, a Alemanha havia se tornado a força militar e econômica mais poderosa na Europa.

Para resumir, não só o fardo da dívida foi bastante aliviado e bastante ajuda econômica foi concedida à Alemanha (o equivalente a 10 bilhões de dólares americanos foi canalizado para a Alemanha Ocidental através do Plano Marshall entre 1948 e 1952 [10]), mas especialmente, o país teve permissão para empregar uma política econômica que favorecia seu crescimento. As grandes corporações industriais foram consolidadas, incluindo as mesmas que haviam desempenhado papeis fundamentais na aventura militar da Primeira Guerra Mundial e haviam apoiado os nazistas e o genocídio de judeus e ciganos, o saque dos países ocupados e anexados e o enorme esforço logístico e de produção militar da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha foi capaz de construir uma infraestrutura pública impressionante; o país apoiava suas indústrias para satisfazer a demanda interna e conquistar mercados estrangeiros.

As condições nas quais a dívida da Alemanha Ocidental foi abolida são claramente difíceis de imaginar hoje. Seria muito difícil para países como Grécia, Chipre, Espanha e Portugal obter, por meio de um processo de reestruturação de dívida, condições similares às concedidas à Alemanha na década de 50. Pareceria impossível por causa da composição e políticas de autoridades europeias, dos governos dos países europeus mais fortes, das políticas do FMI e do contexto atual.

P: Que exemplos há, além dos da Alemanha Ocidental, de reestruturação de dívida favorável aos devedores?


R: Outro caso de reestruturação de dívida favorável foi o da Polônia em 1991. O país recebeu uma grande redução, de aproximadamente 50% de sua dívida bilateral aos credores do Clube de Paris. Eles queriam ajudar o governo pró-ocidental de Lech Walesa que havia acabado de sair do Pacto de Varsóvia, a aliança militar entre países do bloco soviético. Essa redução de dívida foi certamente menos significativa que a concedida à Alemanha Ocidental em 1953, mas o contexto era razoavelmente parecido. A Polônia foi um dos países mais importantes a passar ao lado ocidental, adotando as medidas econômicas neoliberais e políticas de privatização demandadas, que levaram a Polônia a se unir à UE poucos anos depois.


Foi durante a mesma cúpula de G7 em Londres de 1991 que o Egito recebeu uma redução de 50% de sua dívida bilateral com membros do Clube de Paris. Os EUA e seus aliados estavam querendo apoio para sua primeira Guerra do Golfo do presidente egípcio Mubarak.

Podemos relembrar que o Iraque, também, se beneficiou de uma redução de dívida em 2004, [11] após os EUA e seus aliados invadirem o país em 20 de março de 2003. Poucos dias depois o Secretário do Tesouro dos EUA convidou seus análogos do G7 a um encontro em Washington, no qual ele declarou a dívida incorrida por Saddam Hussein como odiosa. Ele pressionou os credores do Iraque a conceder uma grande redução de dívida, de modo que as novas autoridades apontadas pelos ocupantes pudessem reconstruir rapidamente o país. Os credires bilaterais principais do Iraque reduziram suas demandas em 80%, os outros credores (privados, Banco Mundial e FMI) se seguiram.

P: Quais são as similaridades e diferenças entre os casos acima?


R: O que estes exemplos tem em comum é que eles todos ocorreram em situações de conflito armado ou tensão extrema entre blocos. Isso trouxe a potência hegemônica, neste caso os EUA, a conseguir que seus parceiros concordassem com uma significativa redução de dívida, servindo assim a seus interesses estratégicos. Não obstante, o acordo de 1953 em favor da Alemanha é um caso excepcional: as condições postas em lugar realmente objetivavam transformar um país em uma potência mundial novamente. Enquanto os outros países foram agraciados por sua lealdade, o objetivo não era criar potências econômicas. Os gestos feitos frente a estes países são comparáveis ao tratamento que senhores medievais poderiam ter reservado a Estados vassalos fieis.


P: Já houve casos em que Estados que tiveram suas dívidas reestruturadas não continuaram a expressar lealdade?


R: Só sei de um caso que não resultou no que os credores haviam planejado. Este foi o caso da Bolívia que, em 2005, se beneficiou de uma redução de sua dívida multilateral dentro do esquema da MDRI (Iniciativa de Alívio de Dívida Multilateral) criado pelo G8, pelo Banco Mundial, pelo FMI e outros prestamistas multilaterais, como prolongamento da iniciativa HIPC (Países Pobres Altamente Endividados). Aqui também, os prestamistas pensavam estar lidando com as autoridades de um país dócil. A Bolívia havia sido exposta à "estratégia de choque" em 1985, na forma de um impenso programa de privatização planejado com a colaboração ativa do FMI, do Banco Mundial, do Clube de Paris e dos EUA. Após 12 anos de políticas de ajuste estrutural a economia boliviana estava de joelhos. Assim ela foi aceita na iniciativa HIPC. A Bolívia concordou com continuar o programa de ajuste estrutural e em retorno recebeu alívio de dívida. [12] Porém, Evo Morales, que não era parte da elite dócil, foi eleito como candidato do partido MAS (Movimento ao Socialismo). Quando isso ocorreu, o alívio da dívida já havia sido concedido e era tarde demais para os credores recuarem.


Essa reestruturação foi, neste caso, benéfica para o país e sua população. Ao mesmo tempo que a redução de dívida aconteceu, o governo inverteu sua política econômica e se recusou a atender às medidas impostas pelos credores. Isso é importante, porque muitos países que obtiveram alívio de dívida comparável continuaram com mais 5 ou 10 anos de políticas de ajuste estrutural e as economias e as populações não se beneficiaram. Observe que sempre que os credores concederam alívio de dívida significativo foi em seu interesse estratégico fazê-lo.

P: E a Argentina? Após a maior suspensão de pagamentos na história, em 2001 o governo argentino renegociou sua dívida soberana. Quais foram as condições?


R: Sim! Em 2005 e 2010 a dívida argentina foi reestruturada através de uma troca de títulos: títulos velhos foram trocados por novos. Foi essa a situação: em dezembro de 2001, as autoridades argentinas, sob o presidente interino Adolfo Rodríguez Saá, suspendeu unilateralmente os repagamentos da dívida em um total de 80 bilhões de dólares para credores privados e o Clube de Paris (6.5 bilhões de dólares). Observe que eles não suspenderam os pagamentos a organismos multilaterais como o Banco Mundial, o FMI e outros. Essa ação foi tomada em uma situação de crise econômica e revolta popular contra as políticas que foram seguidas por anos por sucessivos governos neoliberais, dos quais Fernando de la Rua foi o mais recente. Foi assim, sob pressão das ruas em uma época em que o tesouro estava vazio, que as autoridades argentinas suspenderam os repagamentos da dívida.


A suspensão argentina de pagamentos de títulos da dívida soberana durou de dezembro de 2001 a março de 2005. Isso foi benéfico para a população e economia argentinas. Entre 2003 e 2009, o crescimento econômico argentino foi entre 7% e 9%. Alguns economistas afirmam que este crescimento se deveu ao aumento de preços nas exportações de matéria-prima da Argentina, mas é claro que se a Argentina tivesse continuado pagando sua dívida, a renda aumentada das exportações (em outras palavras, os impostos cobrados sobre empresas de exportação) teria sido utilizada para repagamentos de dívida.

Entre 2002 e 2005 as autoridades argentinas negociaram com seus credores para convencer uma maioria deles a concordarem com trocar os títulos que eles tinham por novos, reduzidos em 60%, mas com uma garantia mais forte e uma taxa de juros favorável indexada pelo crescimento do PIB argentino. Essa foi uma reestruturação da dívida por troca de títulos: até março de 2005, 76% dos títulos haviam sido trocados, uma maioria que foi considerada proteção suficiente contra os 24% que recusaram a troca. As autoridades anunciaram, à época, que aqueles que recusassem a troca não teriam outra ocasião para negociar.

P: Então, por que a Argentina reestruturou sua dívida de novo, em 2010?


R: De fato, em contradição com declarações prévias e apesar dos protestos de Roberto Lavagna, o Ministro da Economia que havia participado nas negociações de 2005, o governo argentino abriu uma nova fase de negociações com os outros 24% dos credores. Um novo acordo foi alcançado com 67% daqueles 24% em 2010. Ao todo, 8% de todos os títulos cujo pagamento havia sido suspenso desde 2001 "sobraram" contra ambos acordos. Ambos acordos continham cláusulas estipulando que em caso de litígio envolvendo as novas questões, cortes americanas seriam a jurisdição competente. [13]


P: No fim das contas, essa reestruturação pode ser considerada um sucesso? Outros governos podem seguir a estratégia argentina?


R: As autoridades argentinas afirmam sucesso por causa da redução em 50-60% da dívida. Mas, em retorno, foram feitas grandes concessões: altas taxas de juros; indexação ao crescimento do PIB argentino, o que significa que na prática o governo concordou em entregar parte dos lucros do crescimento aos credores; renúncia a soberania em caso de litígio.


Na verdade, o exemplo argentino não deve ser seguido, mas ele é uma possível fonte de inspiração. Ele mostra o interesse em suspender pagamentos e os limites de um acordo negociado que dá grandes concessões aos credores. A situação atual é evidência suficiente. Primeiro, as quantias efetivamente reembolsadas aos credores são consideráveis; a própria Argentina reconhece que ela reembolsou 190 bilhões de dólares desde 2003; segundo, apesar de a dívida argentina ter sido certamente menor entre 2005 e 2010, hoje a quantidade de dívida argentina é maior do que era em 2001. Terceiro, a Argentina está sob forte pressão para reembolsar os fundos abutres que se recusaram a aceitar as ofertas de troca, após não só um juiz nova iorquino, mas a Suprema Corte dos EUA decidir a favor dos fundos abutre. [14]

P: A dívida pública do Equador não foi reduzida em 2009 após a auditoria de 2007-2008? Isso pode ser chamado de "reestruturação"?


R: Não, no caso do Equador não se tratou de uma reestruturação genuína. [15] Não houve troca de títulos, especialmente já que não houve negociação com credores. Isso foi uma coisa muito boa. Títulos antigos não foram substituídos por títulos novos. O Equador suspendeu unilateralmente o repagamento de sua dívida pública e disse a credores privados em posse dos títulos, chamados bônus Global 2012-2030, [16] que eles seriam recomprados com um corte de 65% e a prazo fixo. Esses títulos não existem mais. O Equador não reestruturou sua dívida: ele nunca negociou taxas de juros ou reagendamento de repagamentos de novos títulos com seus credores.

O Equador combinou isso com uma auditoria integral de sua dívida pública, que precedeu sua suspensamento de repagamento. Em julho de 2007 uma Comissão para uma auditoria integral, na qual participei, foi criada. Ela trabalhou até setembro de 2008, ou seja, por 14 meses, durante os quais houve diálogo constante entre governo e os membros da comissão. Eles submeteram suas recomendações ao governo e ao presidente. Com base nisso, o poder executivo do Equador decidiu suspender o repagamento de parte de sua dívida, como explicado acima. Apenas depois, em 2009, ele forçou os credores a aceitarem um corte significativo.

Alguns números: O Tesouro Público do Equador comprou títulos que valiam 3.2 bilhões de dólares por menos de 1 bilhão de dólares. Ele economizou, assim, 2.2 bilhões de dólares do principal de sua dívida, ao qual deve-se acrescentar 300 milhões de dólares em juros anuais para 2008-2030. Ao todo, o Equador economizou mais de 7 bilhões de dólares. Isso libertou novos recursos financeiros para o governo aumentar seus gastos sociais nos campos da saúde, educação, assistência social e no desenvolvimento de infraestrutura de comunicação.

P: Podemos dizer que essa abordagem é mais benéfica do que a escolhida pela Argentina?

R: Claramente sim. Pode-se, também, imaginar se a posição determinada do Equador impediu o país de conseguir acesso renovado aos mercados financeiros. A resposta é não. Enquanto em 2009, o Equador forçava seus credores a aceitarem a redução que acabei de mencionar, apenas 5 anos depois, o país lançava novos títulos nos mercados financeiros, a uma taxa de juros de 7%, abaixo da taxa paga pela Argentina ou pela Venezuela (a Venezuela tem pago regularmente suas dívidas desde 1990 a taxas que variam entre 12 e 15%). Isso mostra que posições radicais não fecham necessariamente o acesso a recursos financeiros. 

Assim, no caso do Equador, podemos dizer que houve um ato soberano unilateral suspendendo o repagamento e recomprando dívida sem negociação, combinado com uma auditoria da dívida que foi mais benéfica para a população.

P: E quanto à Islândia após o colapso do sistema bancário em 2008?

R: No caso da Islândia, não houve reestruturação também. O que aconteceu? O sistema bancário privado da Islândia entrou em colapso em 2008, por causa de suas aventuras financeiras fraudulentas. No papel, o valor dos bancos islandeses equivalia a mais de dez vezes a produção anual de riqueza da Islândia! Os bancos haviam crescido fora de toda proporção, como na Irlanda ou na Bélgica ao mesmo tempo. Após o colapso do sistema bancário, o governo islandês não pagou o que era devido àquelas instituições bancárias privadas e se recusou a pagar os 3.5 bilhões de euros que o Reino Unido e a Holanda demandavam para equilibrar as compensações que eles tiveram que pagar a seus cidadãos que tinham dinheiro naqueles bancos. Deve ser enfatizado que essa medida foi tomada sob pressão popular: a mobilização social foi bastante poderosa e teve sucesso em influenciar as intenções do governo do país em várias ocasiões. Dois referendos foram organizados, também graças a pressão popular. No primeiro, mais de 90% votou contra compensar o Reino Unido e a Holanda. [17] Negociações resultaram em um novo plano de compensação, que foi novamente derrubado por 2/3 dos eleitores em um segundo referendo. Essa recusa de compensar foi combinada com outra medida forte tomada pelo governo, nomeadamente um controle estrito sobre fluxos de capital. [18] De fato, como resposta a uma situação de crise na qual o país era ameaçado com evasão massiva de capital por grandes corporações nacionais e estrangeiras, o governo islandês proibiu transferências de capitais. É notável que o FMI, neste caso, deu as costas a sua posição usual e até apoiou essas medidas!

Essas várias medidas foram benéficas para a Islândia, cuja economia se recuperou muito mais rápido do que em países europeus que utilizaram outra abordagem, como a Irlanda e a Grécia, que resgataram seu setor bancário privado, aceitaram empréstimos da Troika, bem como uma reestruturação de suas dívidas, e pagaram seus credores.

É interessante acrescentar que no caso da Islândia em janeiro de 2013, a Corte de Justiça dos Estados Associados para o Livre-Comércio Europeu (mais comumente conhecida como Corte EFTA), que também inclui Liechtenstein, Noruega e Islândia, recusaram o pedido do Reino Unido e da Holanda de que a Islândia fosse ordenada a pagar a compensação pedida. A Corte de Justiça considerou que não havia elemento que pudesse compelir um governo a assumir os deveres de instituições privadas. Essa conclusão é importante de levar em conta já que ela pode fornecer jurisprudência para outras disputas. [19]

No caso da Islândia, não houve reestruturação de dívida também mas sim, repetimos, uma decisão soberana unilateral de não pagar a compensação demandada por duas potências econômicas muito mais fortes.

P: Em 2012, a Troika realizou uma reestruturação da dívida grega: o que deu errado?

R: O contexto foi o seguinte: desde o início de 2010, a Grécia foi sujeita a ataques especulativos pelos mercados financeiros que exigiam taxas de juros excessivamente altas para empréstimos rotativos. A Grécia estava prestes a declarar falência porque não conseguia refinanciar sua dívida a taxas razoáveis. A Troika interferiu com um memorando de ajuste estrutural. Ele concederia novos empréstimos para que a Grécia repagasse seus credores, ou seja, essencialmente os bancos privados europeus. [20] Aqueles novos empréstimos estavam acompanhados de medidas de austeridade que tiveram um impacto brutal, até desastroso, sobre as condições de vida da população e sobre a atividade econômica.

Em 2012, a Troika reestruturou a dívida grega devida apenas a credores privados, nomeadamente os bancos privados, dos países da UE, que já haviam majoritariamente sacado apesar de ainda possuírem algumas dívidas gregas, e outros credores privados como fundos de pensão de trabalhadores gregos. Essa reestruturação envolveu cortar as dívidas gregas com credores privados em 50 a 60%. A Troika, que tem emprestado dinheiro à Grécia desde 2010, reestruturou a própria dívida grega mas se recusou a reduzir o montante a ser pago. A operação foi apresentada como um sucesso pela mídia de massa, pelos governos ocidentais, pelo governo grego e pelo FMI e a Comissão Europeia. Eles tentaram enganar a opinião internacional pública e a população grega para que acreditassem que credores privados haviam se esforçado para alivar a situação dramática da Grécia. Na realidade, a operação não foi nem um pouco benéfica para o país em geral, e menos ainda para sua população. Após um recuo temporário em 2012 e no início de 2013, a dívida grega tem aumentado constantemente e está agora acima do ponto mais alto atingido em 2010-2011. As condições impostas pela Troika resultaram em uma queda dramática na atividade econômica do país: o PIB caiu mais de 25% entre 2010 e o início de 2014. As condições de vida da população deterioraram dramaticamente: violação de direitos sociais e econômicos, retrocesso no sistema de aposentadoria, redução drástica nos serviços de saúde e educação públicas, desemprego em massa, queda no poder de compra... Ademais, uma das condições para qualquer alívio de dívida era uma mudança na lei aplicável e na jurisdição relevante em caso de disputa com credores. Resumindo, essa reestruturação da dívida vai contra os interesses da população grega e da Grécia enquanto país.

P: Como essa reestruturação da dívida grega se compara ao Plano Brady que foi implementado em países do sul como consequência da crise da dívida de 1982?

R: O Plano Brady [21] foi implementado em aproximadamente vinte países endividados ao fim dos anos 80. Ele foi uma maneira de reestruturar dívidas por meio de uma troca com títulos assegurados pelos EUA sob condição de que os bancos credores reduzissem o montanto do que lhes era devido e que eles utilizassem o dinheiro na economia. Em alguns casos a dívida foi reduzida em 30%, e os títulos Brady garantiram uma taxa de juros fixa de aproximadamente 6%, que é bastante favorável para os banqueiros. O problema foi, assim, resolvido para os bancos e apenas adiado para os países endividados.

Nós encontramos os mesmos componentes na reestruturação da dívida imposta à Grécia, Irlanda, Portugal e Chipre que no Plano Brady.

1 - No Plano Brady, tal como no Memorando imposto aos países na "periferia" da UE, governos das grandes potências e instituições internacionais substituíram bancos privados como principais credores. Todos aqueles planos objetivam, portanto, tornar possível para bancos privados se retirarem como credores principais dos países em questão sem grandes perdas, já que eles são substituídos por governos e instituições multilaterais como o FMI. Isso foi o que aconteceu com o Plano Brady. Na Europa, a Comissão Europeia, o Mecanismo de Estabilidade Europeia, o ECB e o FMI substituíram gradativamente bancos privados e instituições financeiras privadas como credores.

2 - Todas aquelas operações são obviamente acompanhadas por condicionalidades que impõem a implementação de medidas de austeridade e políticas neoliberais.

3 - O outro ponto comum jaz na falha fatídica dessas reestruturações para países endividados. Mesmo economistas neoliberais como Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart [22] reconhecem que o Plano Brady não foi benéfico para os países envolvidos: a redução de dívida foi muito mais limitada do que havia sido anunciada e a longo prazo o montanto da dívida aumentou e as quantias sendo pagas eram bem altas. Podemos agora dizer o mesmo sobre Grécia, Chipre, Portugal e Irlanda.

P: Se reestruturar a dívida não é uma solução, o que deve ser feito para ajudar esses países a solucionar a questão da dívida?

R: Esses países devem unilateralmente: 1) organizar uma auditoria integral da dívida, com a participação ativa dos cidadãos; 2) suspender o repagamento da dívida; 3) se recusar a pagar a parte ilegal ou ilegítima dela; e 4) demandar uma redução do remanescente. A redução do que sobrar após o cancelamento da parte ilegítima e/ou ilegal pode ser vista como uma forma de reestruturação, mas ela não pode ser isolada como resposta suficiente.

P: O que ocorre se um governo começar a negociar com os credores sem suspender os repagamentos?

R: Se não há suspensão do repagamento ou auditoria pública, os credores estão em uma posição de vantagem. Não devemos subestimar suas habilidades de manipulação que podem levar governos a compromissos inaceitáveis. Suspender o repagamento da dívida como decisão soberana unilateral cria uma nova relação de poder com os credores. Ademais, com uma suspensão, os credores tem que sair de seus buracos. De fato, se você lidar com possuidores de títulos sem supensão de pagamentos eles permanecem anônimos, já que os títulos não são nominais. Só se essa relação de poder for derrubada os governos podem criar as condições necessárias para impor medidas que legitimem sua ação no direito doméstico e internacional. Nos casos da Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre a troia é o principal credor e seria obrigada a ir à mesa de negociação.

P: Neste caso poderiam os governos iniciar negociações para mostrar à opinião pública que os credores tem uma posição inaceitável e que eles não terão escolha a não ser se voltar para ações unilaterais?

R: Sim, mas tal abordagem tem suas desvantagens. Os credores podem criar confusão nas mentes do povo afirmando que os governos são intransigentes e atrasam negociações. Ao mesmo tempo que os países precisam de soluções urgentes e não podem arcar com usar a renda de seus impostos para repagar suas dívidas.

O momento adequado para suspender o repagamento da dívida deve ser definido segundo as condições específicas de cada país: o grau de consciência do povo, a urgência, as chantagens dos credores, a situação econômica geral do país... Em algumas circunstâncias a auditoria pode ocorrer antes; em outras, os dois devem ocorrer simultaneamente. 


Notas:

|1| O FMI produziu uma grande quantidade de memorandos, trabalhos e proposições sobre reestruturação de dívida. Ver o site do FMI: https://www.imf.org/external/np/exr/facts/fre/sdrmf.ht, IMF working paper WP/12/203, August 2012.ps://www.imf.org/external/np/exr/… Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts Particularly: U.Das, M.Papaioannou and C.Trebesch

|2| "Reescalonar deve ser diferenciado de "reestruturar", que é uma redução de dívida incluindo um montante descartado. Essa definição limitada não é a usada aqui.

|3| Uma reestruturação típica foi realizada para preparar a República Democrática do Congo, em 2002, para a iniciativa da HIPC. A situação financeira foi regularizada e as condições criadas que permitiram que repagamentos fossem feitos. Após 32 anos da ditadura Mobutu (1965-1997) a RDC havia acumulado dívidas importantes. A dívida que o regime Mobutu deixou para trás, após sua queda, deveria ter sido apagada, era uma dívida odiosa. Os credores que haviam financiado Mobutu por tanto tempo concordaram com a reestruturação. Na primeira fase, quatro países (Bélgica, França, África do Sul e Suécia) adiantaram empréstimos que permitiram ao Congo repagar suas principais dívidas antigas com o FMI. Esse foi um arranjo de consolidação que substituiu as velhas dívidas com dívidas novas na taxa de juros "concessional" de 0.5%. Então, o FMI emprestou $522 milhões ao governo congolês de modo que ele pudesse pagar os quatro países de volta. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial emprestou $330 milhões ao Congo para que o Congo pudesse pagar dívidas mantidas com o próprio Banco Mundial. Na segunda fase, a dívida do Congo devida aos catorze países do Clube de Paris foi reestruturada: uma parte da dívida foi cancelada e o restante estendido por um período mais longo. No final as duas fases juntas somaram um 60% de reestruturação da dívida congolesa. Essa reestruturação foi anunciada como sucesso, mas o resultado final foi uma troca de velhas dívidas impagáveis por dívidas novas, mais modestas, pagáveis, e então os pagamentos voltaram. Ao invés de ser descartada, a dívida congolesa foi consolidada. Ela renasceu em uma nova estrutura que agora não é mais "odiosa".
Ver: Éric Toussaint, Arnaud Zacharie, “La République démocratique du Congo”, 2002,http://cadtm.org/La-Republique-democratique-du ; Arnaud Zacharie, “La restructuration de la dette congolaise”, 2002, http://cadtm.org/La-restructuration-de-la-dette.

|4| Este foi o caso da reestruturação da dívida grega de 2012 (ver abaixo) e de centenas de outras gerenciadas pelo FMI e/ou Clube de Paris.

|5| Ver Éric Toussaint: http://cadtm.org/The-cancellation-of-German-debt-in August 2014

|6| Ao todo, 21 países. Ver http://www.monde-diplomatique.fr/2013/02/TSIPRAS/48724 (French)

|7| A Alemanha Ocidental, antes da reunificação de 1990 e depois, a Alemanha reunificada mal foi obrigada a pagar danos e dívidas de guerra (após a SGM) em proporção ao dano humano e econômico causado. A maior parte do que foi pago foi para Israel por causa da perseguição dos judeus. Em março de 2014, o governo grego pediu compensação por danos de guerra causados na Grécia durante a SGM. Naturalmente, o governo alemão recusou. Ver Le Monde, “La Grèce exige des réparations de guerre de l’Allemagne”, 6 March 2014, http://www.lemonde.fr/europeennes-2014/article/2014/03/06/la-grece-exige-des-reparations-de-guerre-de-l-allemagne_4378951_4350146.html.

|8| Isso é permitido pela França para países em desenvolvimento no esquema do "C2D". O Contrat de Désendettement et de Développement (contrato de dívida e desenvolvimento) é um tipo particular de reestruturação por meio da qual a França opera um sistema de concessão de reestruturações. No caso do contrato camaronês, por exemplo, a França retorna diretamente montantes da dívida paga para o pobre país devedor para financiar, por assim dizer, programas de desenvolvimento, assim fingindo auxiliar no desenvolvimento do país. A verdade é bem diferente: por um lado a Agência Francesa de Desenvolvimento decide o uso que deve ser feito do recurso, assim, as escolhas estão claramente no interesse da ex-potência colonial. Ademais, a AFD supervisiona os projetos e pode vetar decisões tomadas pelo governo camaronês emitindo um "memorando de não-objeção". Dessa maneira, a França mantém um domínio político e econômico flagrante sobre a soberania nacional camaronesa.
Ver Owen Chartier, Jean-Marc Bikoko, “Pourquoi faut-il réaliser un audit citoyen de la dette du Cameroun?”, August 2014, http://cadtm.org/Pourquoi-faut-il-realiser-un-audit (French)

|9| Em As Consequências Econômicas da Paz (1919) John Maynard Keynes denunciou as condições que foram impostas à Alemanha ao fim da Primeira Guerra Mundial; ele havia previamente se demitido da delegação britânica de negociação em protesto. Depois, em 1920, houve um grande debate entre ele e outro economista, Bertil Ohlin, sobre as consequências econômicas das compensações de guerra demandadas pelos Aliados. Keynes afirmou que para poder pagar a quantia pedida a Alemanha teria que exportar mais e importar menos, o que inevitavelmente levaria a uma deterioração de sua balança comercial e aumentaria o peso da dívida. Ohlin respondeu que pagara compensação resultaria em um aumento na demanda em outros países, que se voltaria ao menos parcialmente para produtos alemães. Isso limitaria a deterioração da balança comercial alemã. Ohlin defendia que se apoiasse este mecanismo por meio de um acordo comercial internacional permitindo que a Alemanha erguesse suas tarifas, ao mesmo tempo que se reduzisse as mesmas nos países receptores. O resultado teria sido uma balança comercial positiva. (Ver http://perso.univ-rennes1.fr/denis.delgay-troise/CI/Cours/REI223.pdf (French)

|10| Ver Éric Toussaint, “Why the Marshall Plan?”, August 2014, http://cadtm.org/Why-the-Marshall-Plan

|11| Sobre o Iraque ver: Éric Toussaint, « Irak : la dette odieuse », in La finance contre les peuples, pp. 435-451, éditions Syllepse/CETIM/CADTM, 2004.updated version 2006 : « La dette odieuse de l’Irak », May 2006, http://cadtm.org/La-dette-odieuse-de-l-Irak.

|12| O alívio da dívida veio em fases: a primeira, no esquema da HIPC em 1998 e em 2001; em 2005, o alívio final da dívida foi no esquema da Iniciativa Multilateral de Alívio da Dívida (IMAD), a extensão do HIPC para os países mais dóceis. (ver Frédéric Lévêque, “La dette de la Bolivie” , June 2006, http://cadtm.org/La-dette-de-la-Bolivie#nh6

|13| Essa renúncia da soberania começou com a ditadura militar de 1976.

|14| Sobre a Argentina e os fundos abutres, ver: Renaud Vivien, “Un vautour peut en cacher d’autres”, carte blanche, Le Soir, 23 June 2014 ; Jérôme Duval, Fatima Fafatale, “The vulture funds that corner Argentina also comes for you”, July b2014, http://cadtm.org/The-vulture-funds-that-corner; Éric Toussaint, “How to resist vulture funds and financial imperialism?”, September 2014, http://cadtm.org/How-to-resist-vulture-funds-and; Julia Goldenberg , Éric Toussaint, “Vulture funds are the vanguard”, October 2014,http://cadtm.org/Vulture-funds-are-the-vanguard

|15| Sobre o Equador, ver Éric Toussaint, « Les leçons de l’Équateur pour l’annulation de la dette illégitime », 29 May 2013, http://cadtm.org/Les-lecons-de-l-Equateur-pour-l(in French only), also U. Das, M. Papaioannou and C. Trebesch, Sovereign Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts, FMI working paper WP/12/203 http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2012/wp12203.pdfp. 25 et 78
Ver ‘Islande : le CADTM salue le Non massif au référendum sur la loi Icesave’, 8 March 2010, http://cadtm.org/Islande-le-CADTM-salue-le-Non

|16| O bônus Global é resultado da reestruturação da dívida comercial externa do Equador que ocorreu em 2000 no contexto de uma operação de resgate após a crise financeira de 1999. Títulos Brady foram trocados por novos títulos (bônus Global A e B) em condições que eram extremamente vantajosas para credores (notavelmente a altas taxas de juros de 10 a 12%). Os próprios títulos Brady haviam sido o resultado de uma troca de dívidas bancárias de 1995 que haviam se tornado impossíveis de pagar com uma nova dívida na forma de títulos garantidos pelo Tesouro americano (sobre o Plano Brady ver a resposta para uma outra pergunta posterior). Essas duas ações sucessivas de reestruturação haviam sido apresentadas tanto por credores como pelo governo. Na verdade, elas foram afetadas por irregularidades e atos ilegais que a comissão de auditoria pôde identificar. Ver pp. 46-47 do Relatório Final http://cadtm.org/IMG/pdf/Informe_Deuda_Externa.pdf

|17| Ver : CADTM, “Islande : le CADTM salue le Non massif au référendum sur la loi Icesave (Iceland! The CADTM welcomes the massive non in Iceland ’s “Icesave” referendum)”», Press release 8 March 2010, http://cadtm.org/Islande-le-CADTM-s…(French)

|18| O FMI também sancionou os controles rígidos de movimentação de capital introduzidos no Chipre em março de 2013. Se um país da UE pode fazer isso, por que não os outros?

|19| Ver http://cadtm.org/EFTA-court-dismisses-Icesave

|20| Bancos franceses, alemães, italianos e belgas, principalmente.

|21| O plano foi batizado por causa de Nicholas Brady que foi o Secretário do Tesouro dos EUA entre 1988 e 1993, http://www.treasury.gov/about/history/pages/nfbrady.aspx

|22| Kenneth Rogoff foi o principal economista com o FMI e Carmen Reinhart, professor universitário, é  was chief economist with the IMF and Carmen Reinhart, university professor, é assessor com o FMI e o Banco Mundial. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Alexander Dugin - Sobre os Identitários, a Tradição e a Revolução Global

por Aleksandr Dugin



Considero que os identitários são aliados quando rechaçam a modernidade, a oligarquia global e o capitalismo liberal mortífero para as culturas étnicas e as tradições. 

A ordem política moderna é essencialmente global e se baseia puramente na identidade individual. É a pior ordem possível e deve ser totalmente destruída. 

Quando os identitários militam por uma reafirmação da Tradição e das antigas culturas dos povos europeus, têm razão. Mas quando atacam os imigrantes, os muçulmanos, os nacionalistas doutros países (baseado em conflitos históricos), quando defendem os EUA, o atlantismo, o liberalismo ou a modernidade, quando consideram a raça branca (a que criou a modernidade) como a raça superior e afirmam que outras raças são inferiores, estou em total desacordo com eles. 

Mais do que isso, não posso defender brancos contra não-brancos apenas por ser branco e indo-europeu. Reconheço a diferença de outros grupos étnicos como uma coisa natural e rechaço qualquer hierarquia entre os povos, dado que não existe, e não pode existir, uma medida universal para a comparação das sociedades étnicas e os sistemas de valores. 

Tenho orgulho de ser russo, exatamente como os estadunidenses, os árabes, os chineses, e os africanos estão orgulhos de ser como são. É nosso direito e nossa dignidade afirmar nossa identidade. Não a de uns contra outros, mas a de uns ao lado dous outros, sem ressentimento para com os outros ou remorso em relação a si.

Não posso defender a nação, porque a nação é um conceito burguês imaginado pela modernidade para destruir as sociedades tradicionais (Império) e as religiões para sua substituição por pseudo-comunidades artificiais baseadas na identidade individual. Atualmente, a nação está sendo destruída pelas mesmas forças que a criaram no primeiro período da modernidade. As nações têm cumprido seu papel de destruidor de identidades orgânicas e espirituais e agora os capitalistas destroem seus próprios instrumentos para fazer possível a globalização. 

Devemos atacar o capitalismo como um inimigo absoluto, responsável tanto pela criação da nação como simulacro da sociedade tradicional, como de sua destruição atual. A razão da catástrofe atual tem suas raízes nos fundamentos ideológicos e filosóficos do mundo moderno. E a modernidade que era branca e nacional em sua origem tornou-se global finalmente. É por isso que os identitários devem escolher seu campo real: a Tradição (o que inclui sua própria tradição indo-europeia) ou a modernidade? O atlantismo, o liberalismo, o individualismo, são as formas do mal absoluto para a identidade indo-europeia, são incompatíveis por si. 

Se os identitários realmente amam sua identidade, eles converter-se-ão em eurasianos e unir-se-ão aos tradicionalistas, aos inimigos do capitalismo de todos os campos políticos, raças, religiões ou culturas. Ser hoje anti-comunista, anti-muçulmano, anti-oriental, pró-yankee, atlantista, significa pertencer ao outro lado, estar ao lado da Nova Ordem Mundial e da oligarquia financeira. Mas é uma atitude ilógica porque as consequências da globalização destroem todas as identidades exceto as individuais, e fazer uma aliança com aqueles que a apoiam significa trair a própria essência da identidade cultural.  

O problema com as esquerda é diferente. É positiva em sua oposição a ordem capitalista, mas carece da dimensão espiritual. A esquerda se apresenta habitualmente como uma via alternativa para a globalização, que é a razão de sua oposição aos valores orgânicos, às tradições e à religião. 

Seria bom ver aparecer algo como “identitários de esquerda” que por um lado defendessem a justiça social atacando o capitalismo, e por outro, defendessem as tradições espirituais atacando a modernidade. 

O inimigo é único, é a ordem global liberal do capitalismo da hegemonia norte-americana (que também é dirigido contra a verdadeira identidade americana)

Nós ganharemos se unificarmos nossos esforços.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Eugene Montsalvat - Precursores Iranianos da Quarta Teoria Política

por Eugene Montsalvat



Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana, Ahmad Fardid, Jalal Al-e-Ahmad e Ali Shariati, partilham de muitos pontos em comum com a Quarta Teoria Política. Bebendo da herança intelectual comum de Martin Heidegger, eles desenvolveram uma crítica da hegemonia ocidental. Em muitos casos, as ideias expostas por estes pensadores iranianos prefiguram a Quarta Teoria Política, ainda que em uma aplicação especializada ao Irã. O Irã apresenta um exemplo de uma revolta política e intelectual contra a hegemonia liberal ocidental que está fora das categorias da segunda e terceira teorias políticas (comunismo e fascismo), mas ainda assim puxa influências importantes delas e as recontextualiza na estrutura singular da essência histórica iraniana.

Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana fundiriam com sucesso o pensamento mais radical do século XX com a tradição islâmica do Irã para desenvolver uma síntese autenticamente revolucionária. Como na Quarta Teoria Política, Heidegger desempenha um papel fundamental, como o filósofo de um novo começo, que anuncia o retorno a uma essência autêntico. A fundação do pensamento heideggeriano iraniano foi estabelecida por Ahmad Fardid, como Ali Mirsepassi nota em “Islã Político, Irã e o Iluminismo”:

“O pensador cujo trabalho mais contribuiu para estabelecer as bases para um discurso político heideggeriano no contexto iraniano foi Ahmad Fardid (1890=1994). Ele foi a principal autoridade em filosofia alemã e particularmente em Heidegger da década de 50 em diante. Finalmente, ele contribuiu bastante para a evolução dos discursos intelectuais que culminaram na Revolução Iraniana de 1979. Sua obra envolvia revestir o par Oriente-Ocidente em uma linguagem de concepções filosóficas emprestadas de Heidegger. Em uma veia historicista, ele defendia que a ‘verdade’ dominante da era havia sido, desde o século XVIII, a de uma civilização ocidental que roubou todos os ‘países islâmicos’ e ‘nações orientais’ de suas ‘memórias culturais’ e de sua própria ‘confiança histórica’. Essa posição é constituída primeiramente por uma afirmação anti-iluminista de que o crescimento da vazia e externalista civilização ocidental é uma ameaça direta à vitalidade de culturas locais não-ocidentais, e em segundo lugar a afirmação de que essa ameaça deve ser confrontada pela reivindicação do que é uma memória cultural apagado e pela tomada de um passado roubado” (pg. 30-31)

Como na Quarta Teoria Política, Fardid usa Heidegger para desafiar a dominação unipolar da ideologia ocidental clamando por um retorno a um modo “autêntico” de ser. Este grande retorno do Ser no momento em que a história é mais sombria, no momento em que passamos através da escuridão do “niilismo ocidental”, recebe uma interpretação iraniana particular de Fardid. Citando Mirsepassi novamente:

“Em um remodelamento do relato de Heidegger sobre o declínio ocidental e a necessidade de recuperar a experiência grega do ‘ser’, Fardid relocaliza a experiência espiritual original e autêntica da humanidade em um Islã/Oriente nebuloso. Em efeito, as modificações de Fardid transferem o papel da ‘nação espiritual no meio’ da Alemanha ao Irã, dentro da mesma problemática do cerco da Guerra Fria e da modernidade secular ‘universal’. Neste dilema é necessário abandonar Gharb (o Ocidente) tanto enquanto ontologia como enquanto modo de vida. Curiosamente, de modo a fazê-lo, é primeiro necessário descobrir a ‘essência do Ocidente’ como pré-requisito para uma vez mais resgatar a autêntica essência islâmica. Isso, naturalmente, não é diferente da ideia de Heidegger de uma ponte para de volta ao Ser através de uma desconstrução da tradição dominante. Os termos da necessidade de uma obediência espiritual socialmente embasada mudaram, mas a necessidade permanece a ideia determinante”. (pg. 119)

É precisamente este retorno do Ser, chamado Ereignis por Heidegger, que jaz no coração da Quarta Teoria Política, como Dugin afirma:

“Heidegger usou um termo especial Ereignis, o ‘evento’, para descrever este súbito retorno do Ser. Ele ocorre exatamente à meia-noite da noite do mundo, no momento mais sombrio na história. O próprio Heidegger vacilava constantemente sobre se este ponto já havia sido alcançado, ou ‘ainda não’. O eterno ‘ainda não’.

A filosofia de Heidegger pode se provar como o eixo central ligando tudo ao seu redor, indo da reconcepção da segunda e terceira teorias políticas ao retorno da teologia e da mitologia.

Assim, no coração da Quarta Teoria Política, em seu centro magnético, está a trajetória da aproximação do Ereignis (o ‘Evento’), que incorporará o retorno triunfante do Ser, no exato momento em que a humanidade esquecê-lo, de uma vez por todas, ao ponto em que os seus últimos traços desapareçam”. (“A Quarta Teoria Política”, pg. 29)

Para Fardid, o Ser iraniano, seu controle sobre sua própria narrativa histórica e destino, estava se perdendo sob as influências intelectuais perniciosas do Ocidente, que ele chamaria de “Ocidentoxicação”. Outro grande pensador iraniano, Jalal Al-e-Ahmad, definiria essa “Ocidentoxicação” assim: “o agregado de eventos na vida, cultura, civilização e modo de pensamento de um povo sem apoio em tradição, sem continuidade histórica, e sem gradiente de transformação”. O livro de Al-e-Ahmad “Ocidentoxicação”, se provaria um guia intelectual para a crescente resistência. Ele estava respondendo ao regime modernizante pró-ocidental do Xá, que viu uma cultura iraniana enraizada sendo destruída pelos valores do Ocidente, que se apresentavam como valores universais para toda a humanidade. A “ocidentoxicação” traria a obliteração do passado iraniano e do futuro se não fosse impedido. Como na Quarta Teoria Política, há uma crítica comum da pretensão ocidental a uma civilização global, que seria equivalente à morte do Ser, como Dugin aponta:

“Globalização é equivalente ao fim da história. Ambos caminham juntos. Os dois estão semanticamente ligados. Sociedades diferentes tem histórias diferentes. Isso significa diferentes futuros. Se nós vamos criar um ‘amanhã’ comum a todas as sociedades existentes no planeta, se vamos propor um futuro global, então primeiro precisamos destruir a história daquelas outras sociedades, destruir seus passados, aniquilar o momento contínuo do presente, virtualizando as realidades que são construídas pelo conteúdo do tempo histórico. Um ‘futuro comum’ significa deletar as histórias particulares. Mas isso significa que não haverá quaisquer histórias, nem seus futuros. O futuro comum é futuro nenhum. A globalização é a morte do tempo. A globalização cancela a subjetividade transcendental de Husserl ou o Dasein de Heidegger. Não haveria mais nem tempo, nem ser”. (Quarta Teoria Política, pg. 165)

De modo a desenvolver seu ataque contra a modernidade ocidental, Al-e-Ahmad puxou influências da Revolução Conservadora alemã, particularmente de Ernst Jünger, cuja obra ele traduziu ao persa e de quem ele diria, “Jünger e eu estávamos ambos explorando mais ou menos o mesmo tema, mas de duas perspectivas diferentes. Estávamos abordando a mesma questão, mas em dois idiomas”. Al-e-Ahmad buscou transfigurar a modernidade, reconhecendo a presença inevitável da tecnologia, mesmo que destrutiva, mas utilizando-a a serviço de um Estado xiita revitalizado. Como os conservadores revolucionários alemães, Al-e-Ahmad não recuou à mera reação, ele percebeu que era impossível fugir para um passado pré-tecnológico, ao contrário ele apontou a uma terceira posição entre subjugação pelo poderio técnico do Ocidente e um recuo ao primitivismo, questionando “Devemos permanecer os meros consumidores que somos hoje ou fecharemos nossas portas à máquina e à tecnologia e recuaremos às profundezas de nossos caminhos antigos, ou haverá uma terceira possibilidade?”. A “terceira possibilidade” implicada seria canalizar a modernidade para destruir seus efeitos tóxicos. Al-e-Ahmad afirmou sua vontade de “colocar (na máquina) um arreio como se fosse um animal de carga... e imprimir nela a vontade humana”. A tecnologia deveria estar subordinada, não mais uma força de atomização social e degeneração cultural, mas um instrumento de construção. As forças titânicas da modernidade seriam capturadas para dissolver a modernidade e retornar à essência da civilização iraniana. Neste contexto, Al-e-Ahmad se torna um conservador revolucionário iraniano. Conservadores, que seriam defensores da cultura islâmica no contexto iraniano, liderarão a revolução, ao invés de se opor a ela. O projeto continental da Eurásia assume uma posição conservadora revolucionária similar ao fundir revolução e tradição, como afirma Dugin:

“Eu estou convicto de que a história política bem logo nos forçará a esclarecer nossas posições e polir nossa retórica para torna-la mais precisa. Não temos escolha além do conservadorismo: nós seremos empurrados em sua direção desde fora, bem como de dentro. Mas do que faremos com o espírito da revolução, a vontade, a chama abrasadora de rebelião que secretamente jaz no coração russo e perturba nosso sono, nos convidando a segui-la até terras distantes? Eu penso que devemos investir nossa força continental em um novo projeto conservador. E que seja esta a nova edição de nossa Revolução, a Revolução Conservadora, a Revolução Nacional em nome de um grande sonho...” (“Putin vs. Putin”, pg.157)

Outro grande pensador iraniano que articulou uma visão de revolução fundindo influências do Islã xiita, do Terceiro Mundismo e Heidegger foi Ali Shariati. Shariati adaptou as ideias de “Ocidentoxicação”, afirmando em “Shieh, Yek Hezb-e Tamam” (Xiismo, um Partido Completo), “Eles [o Ocidente (farang)] poluíram nosso mundo com seu capitalismo e nossa religião com suas igrejas! Eles ensinam a nossos modernistas o dandismo [gherti-bazi], danças, coquetéis e meras liberdades sexuais em nome da civilização... Eles lentamente insuflaram as profundezas de nossos corações e mentes e nossa fé racional e religião progressiva, prática e humana. Eles escureceram e arruinaram tudo que previamente considerávamos caro a nós: a alma [ruh], a intercessão [shefaat], a invocação [tavasol], a confiança [velaayat], e o martírio”. Para combater as influências tóxicas do Ocidente, Shariati iria expor um xiismo de libertação, chamado de “Xiismo Vermelho”, assim chamado pelo sangue dos mártires. Assim, Shariati invoca a herança revolucionária dos xiitas que resistiram à ocupação mongol do Irã:

“Este foi o início da explosão, bem simples e rápido! A hoste vai ao povo e chamando as massas xiitas, exclama que o governante mongol está pedindo suas mulheres. Qual é sua resposta? Eles dizem ‘Nós preferimos morrer a sermos assim tão aviltados! Nossas mulheres para nossos inimigos serão nossas espadas’. O resultado é inevitável. As massas se decidiram. Eles matam todo o grupo de uma só vez. Como eles sabem que não há como voltar atrás, como eles sabem que já escolheram a morte, eles param de titubear. A escolha da morte lhes dá tamanha energia que sua pequena aldeia se revolta contra aquele regime sanguinário e vence. Os aldeões tomam a cidade, lutando contra o exército mongol e os decretos dos pseudo-clérigos da religião do Estado. Eles são vitoriosos. Seu grito: ‘Salvação e Justiça!’ e ‘A destruição do poder dos governantes mongóis e da influência dos sacerdotes da religião dos governantes e dos grandes proprietários da classe governante’. As vítimas da ignorância do pseudo-clero e os prisioneiros da opressão dos mongóis continuam se unindo às fileiras dos rebeldes. Sabzevar se torna um centro de poder; como um fogo que se espalha por arbustos secos, os guardas revolucionários xiitas, que desfrutam do apoio de guerreiros rurais e campões das massas, e tem a ideologia do Sheikh Khalifeh a do Sheikh Hassan e de tipos similares de homens missionários justos, bem informados e de saber, engolem todo o Khorasan e o norte do Irã e inflamam até o sul do país. E pela primeira vez, um movimento revolucionário baseado no xiismo alavita, contra a dominação estrangeira, a enganação interna, o poder de senhores feudais e ricos proprietários, teve um levante armado, liderado por camponeses há sete séculos, sob a bandeira da justiça e a cultura do martírio, pela salvação da nação escravizada e das massas despossuídas.

E esta foi a última onda revolucionária do xiismo alavita, o xiismo vermelho, que continuou por sete séculos a ser a chama do espírito da revolução, da busca pela liberdade, e pela justiça, sempre se inclinando para o povo comum e lutando impiedosamente contra a opressão, a ignorância e a pobreza”. (Xiismo Vermelho vs. Xiismo Negro)

Shariati deu uma essência explicitamente religiosa à posição de libertação nacional. Enquanto ele adotou muito da retórica e ideologia da libertação terceiro-mundista da esquerda, Shariati se recusou a ser aprisionado pela dicotomia capitalista/comunista, condenando concepções econômicas da vida como insuficientes, afirmando:

“Ambos estes sistemas sociais, capitalismo e comunismo, apesar de diferirem em configuração exterior, consideram o homem como um animal econômico... a humanidade está a cada dia mais condenada à alienação, mais afogada neste louco vendaval de velocidade compulsiva. Não só não há mais ócio para o cultivo de valores humanos, grandeza moral, e aptidões espirituais (mas isso também) fez com que os valores morais tradicionais declinassem e desaparecessem também”.

Ao invés ele deu precedência a uma força apocalíptica unindo povo, ideologia e Deus em um poder coerente de renascimento espiritual, assim ligando libertação nacional e refundação espiritual. Mirsepassi resume a crítica de Shariati à modernidade, citando suas afinidades com Heidegger:

“A principal crítica da modernidade em sua obra é o ataque ao que ele chamou de ‘cosmo materialista’, onde ‘o homem se torna um objeto’. Em contraste, o Islã mostra ‘um laço fundamental, uma relação existencial (entre o homem e o mundo), ao considerar os dois como surgindo de uma ‘única origem (sublime)’.’ Isso reproduz quase palavra por palavra a filosofia central de Heidegger, que também sentia que um pano-de-fundo religioso onipresente, havia esvanecido e deixado as pessoas atomizadas em relação a seu elo ontológico com sua comunidade. O propósito de Shariati, então, era trazer este elo explicitamente ao quotidiano político das vidas dos iranianos, como uma recuperação da sociedade islâmica ideal e unificada. Ele objetivava superar o desenraizamento cultural na vida quotidiana infligida pela existência moderna. Pensando nessa linha, ele representava a dominação do Irã pelo Ocidente menos em um sentido político ou econômico e mais em termos de uma infestação ocidental na sociedade iraniana. Novamente, então, foi necessário dividir a sociedade contemporânea entre a autêntica e a inautêntica, ou Gharbzadegi”. (“Islã Político, Irã e Iluminismo”, pg. 127)

Ao buscarem um retorno a uma unidade espiritual entre homem e Deus, Shariati partilha de uma afinidade com Tradicionalistas como Evola ou Guénon, mas ele se aproxima deles em um contexto bastante revolucionário, que parece partilhar mais com os proponentes da libertação terceiro-mundista entre a esquerda. A recusa de Shariati em aceitar as barreiras impostas pela dicotomia “esquerda-direita” ocidental pressagia a Quarta Teoria Política. Tal como Shariati fundiu tradição islâmica e revolução, assim o faz a Quarta Teoria Política, que busca “unir direita, a esquerda e as religiões tradicionais em uma luta comum contra o inimigo comum. Justiça social, soberania nacional e valores tradicionais são os três principais princípios da Quarta Teoria Política”. Ao articular uma resposta que toma influências do Islã e do pensamento radical do século XX ao colonialismo e exploração ocidental, conduzidos com a aquiescência de uma elite iraniana cosmopolita, Shariati e outros criaram um precursor da Quarta Teoria Política para o Irã, afirmando a essência espiritual do Irã contra a dominação da ideologia unipolar.

À época da Revolução Iraniana de 1979, apenas Fardid permanecia vivo do trio de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati. Porém, suas ideias exerceram uma influência definitiva sobre a oposição ao Xá Reza Pahlavi, sob o qual um regime modernista e ocidentalizante governava, ajudado pelas forças repressivas da brutal polícia secreta SAVAK. A oposição popular e islâmica mobilizou milhões, culminando na expulsão do Xá. Após sua chegada no Irã, o próprio Khomeini visitou o cemitério em que muitas das vítimas do Xá haviam que haviam caído na revolução foram enterrados para prestar tributo a seus sacrifícios. O “xiismo vermelho” do martírio havia conquistado uma vitória crucial. Após a Revolução, o Irã seria reconstituído, não nas bases das ideologias modernas do comunismo ou do capitalismo, mas segundo sua própria tradição islâmica. Em face das disputas por poder da Guerra Fria, o Irã traçaria um caminho independente, pressagiando a visão multipolar da Quarta Teoria Política. Ademais, o Irã eventualmente desenvolveria um programa nuclear, subjugando o poder da tecnologia à vontade do Estado islâmico, um desenvolvimento que Al-e-Ahmad certamente aprovaria.

Intelectuais como Al-e-Ahmad, Fardid e Shariati plantaram as sementes do poder iraniano, um poder baseado em sua essência histórica, em um mundo multipolar. Sua integração orgânica das antigas tradições de seu país com as ideias mais revolucionárias do século XX fornece um mapa para os partidários da Quarta Teoria Política. A obra de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati é um excelente exemplo do que deve ser feito em todo país que busca construir a base intelectual para sua libertação do globalismo ocidental de modo a garantir seu futuro em um mundo multipolar. Eles mostraram o caminho para a renovação das grandes civilizações tradicionais em uma era de forças culturalmente destrutivas emanando do Ocidente.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Aleksander Dugin - O que acontece com a Europa?

por Aleksander Dugin



Para entendermos corretamente a natureza da crise atual precisamos fazer uma breve análise da situação. Sugiro três níveis: 

- Ideologicamente,

- Economicamente,

- Geopoliticamente.

A ideologia liberal é a fonte do problema

Ideologicamente o problema é o liberalismo como única ideologia imposta à Europa e ao resto da humanidade pelo mundo anglo-saxão. O liberalismo afirma somente a identidade individual e proíbe qualquer tipo de identidade coletiva ou orgânica. Então, passo a passo, o liberalismo nega a religião, a nação e a associação de gênero a fim de estabelecer um indivíduo completamente livre de qualquer tipo de holismo. O gênero é o núcleo do problema político porque os liberais insistem no caráter facultativo do gênero, um gênero como eleição individual (antes a luta estava próxima da religião como opção individual ou da nação como escolha individual). O outro ponto importante é a imigração. O liberalismo nega-se a reconhecer identidades religiosas ou culturais, assim como as de gênero: assim, um imigrante não é considerado como portador de uma identidade diferente, mas um indivíduo numérico e atomizado. O liberalismo destrói qualquer identidade coletiva. Logicamente o liberalismo destrói a identidade europeia (com a chamada tolerância e as teorias dos direitos humanos). Junto com a destruição intensiva da identidade sexual acelera o fim da sociedade como tal. O fim da Europa está garantido pelo próprio fato da aceitação do liberalismo como ideologia dominante.

O último passo no desenvolvimento do liberalismo será negar a identidade humana coletiva. Assim sendo bem vindos ao trans-humanismo. Essa é a agenda liberal para o amanhã.

O liberalismo é uma ideologia niilista. Ele insiste na liberdade de qualquer tipo de identidade, mas nunca sugere algo positivo. Na última competição com as ideologias totalitárias – o comunismo e o fascismo – o liberalismo era concreto e atrativo porque negava o totalitarismo concreto considerado como uma alternativa. De fato, foi uma alternativa. Mas quando os totalitarismos foram superados, a natureza niilista do liberalismo revelou-se. Ele só pode negar. Não pode afirmar nada. Não é a ideologia da liberdade positiva, é a ideologia da liberdade negativa. Antes não era tão explícito, agora é. 

O liberalismo se tornou totalitário. Você não tem liberdade de não ser liberal. Você deve ser liberal. Você pode optar por ser liberal de esquerda, liberal de direita, ou liberal de centro. Pode ser – em casos extremos – liberal de extrema-esquerda ou liberal de extrema-direita. Mas sempre é liberal. Se você é julgado pelos liberais como não liberal, você está acabado – etiquetado como extremista, terrorista e assim sucessivamente. Os liberais podem tolerar, mas só as pessoas tolerantes. Se você não é tolerante (no sentido liberal), você é intolerável. 

O que podemos fazer para opor-se ao liberalismo? No século XX houveram duas opções: o comunismo (socialismo) e o fascismo. Ambos fracassaram historicamente – política, filosófica, militar e economicamente. Agora existem como simulacros. São ou marginais ou manipulados pelo liberalismo: daí o liberal-comunismo do pós-modernismo, anarquistas e trotskistas ou liberal-fascistas que servem aos liberais para promover sua causa exatamente como o fundamentalismo islâmico é utilizado como arma dos EUA. Assim, a minha ideia para opor-se ao liberalismo (primeira teoria política), não é a segunda teoria política (o marxismo), ou a terceira (o fascismo), mas a quarta. Eu desenvolvi essa ideia no livro A Quarta Teoria Política, traduzido em muitos idiomas. Temos que lutar contra o liberalismo, refutando-o e desconstruindo-o totalmente. Ao mesmo tempo, temos que fazer isso não em nome da classe (como no caso do marxismo) ou em nome do Estado-Nação ou da raça (como no fascismo), mas em nome da unidade orgânica do povo, da justiça social e da democracia real. Os liberais interpretam a democracia como o domínio das minorias. Necessitamos restaurar o sentido original do termo: a democracia é o governo da maioria, da maioria orgânica, maioria que partilha uma identidade em comum – que é a laocracia, governo do povo, como a unidade histórica e cultural.

O capitalismo financeiro é uma catástrofe 

Economicamente, o problema está no capitalismo financeiro que finge superar o setor real da indústria em favor da tecnologia dos mercados financeiros virtuais. Tal capitalismo é monopolista e cria bolhas no lugar de desenvolver a infraestrutura econômica. Essa economia se baseia nas especulações financeiras (do tipo de George Soros) e alimenta a ilusão do crescimento infinito. Isso contradiz a realidade. A classe média não está crescendo mais. O crescimento dos mercados financeiros não corresponde com o crescimento do setor real. Por toda a atenção nas instituições financeiras que promovem a deslocalização do setor real até os países do Terceiro Mundo no curso da globalização é o caminho até o abismo. 

As primeiras ondas da crise já passaram, mas novas ondas virão em breve. O colapso econômico dos países do sul da Europa como a Grécia, e num futuro próximo Itália e Espanha, é só o pico visível da imensa catástrofe. A unidade europeia se baseia na aceitação total da logística do capitalismo financeiro. Só a luta da Alemanha agora, a fim de manter a economia em contato com as realidades industriais, se recusa a embarcar no trem que vai para o nada. Essa é a razão da histeria anti-alemã na Europa e nos EUA. A economia alemã pode ser a última economia real, o resto são economias virtuais.

Portanto, temos que reconstruir a Europa sobre bases econômicas alternativas. 

O crescimento infinito não é mais que uma ilusão liberal. A caída da classe média é a severa realidade. A maneira de sair disto é a revisão completa dos mitos do capitalismo financeiro.

O Atlantismo é um mal 

Geopoliticamente a Europa é hoje uma entidade atlantista. A teoria geopolítica criada pelo inglês Sir H. Mackinder declara que há dois tipos de civilizações – a civilização do Mar (Seapower) e a civilização da Terra (Landpower). Ambas estão constituídas sobre sistemas de valores opostos. O Seapower é puramente mercantil, modernista e materialista. O Landpower é tradicionalista, espiritual e heroico. Esse dualismo corresponde ao par conceitual de Werner Sombart: Händlres e Helden. A sociedade europeia moderna está plenamente integrada na civilização do mar. Isso se manifesta na hegemonia estratégica norte-americana e na OTAN. 

Essa situação impede que a Europa se converta numa entidade geopolítica independente. Mais profundamente, perverte a natureza geopolítica da Europa como entidade continental – Landpower. 

Portanto, há uma necessidade de mudar a situação e restabelecer a estratégia do Landpower baseada na verdadeira soberania europeia. Em vez do atlantismo, a Europa necessita converter-se numa potência estratégica continental.

Europa e Rússia 

Se nós resumirmos os pontos podemos logicamente deduzir onde estamos nas relações entre a Europa e Rússia. 

No presente a Rússia é: 

- Relativamente hostil ao liberalismo (mais inclinada ao tradicionalismo e ao conservadorismo). 

- Economicamente, está tratando de liberar-se da ditadura do Banco Mundial e do FMI. 

- Geopoliticamente, continental e anti-atlantista. 

Essa é a razão pela qual a Rússia está sendo atacada – em Ucrânia, em Moscou, em todas as partes. 

O recente assassinato do liberal Boris Nemtsov foi uma provocação que serve para demonizar a Rússia cada vez mais aos olhos do Ocidente. Os liberais, a oligarquia financeira mundial e atlantista (os EUA e a elite financeira), tratam de provocar hostilidade entre a Rússia e a Europa, assim como tratam de salvar seu trêmulo império promovendo conflitos étnicos. A guerra na Ucrânia é o primeiro passo na série de conflitos étnicos em solo europeu. A elite liberal mundial planeia a guerra étnica não só na Ucrânia ou Rússia, mas na Alemanha, França, no leste da Europa e em outros lugares. O império liberal trata de salvar sua hegemonia, que se desmorona, nos dividindo. 

Temos que resistir a fim de construir uma Europa melhor, a Europa verdadeiramente europeia. E em tal situação a Rússia é o amigo e os EUA é o inimigo. Temos que trabalhar numa aliança russo-europeia, não porque os europeus gostam da Rússia ou os russos gostam dos europeus. A razão é diferente: temos que estar juntos para salvar a cada um de nós do perigo que nos ameaça. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Eugene Montsalvat - Degeneração e a Geração Eu: A Decadência da Juventude Revolucionária

por Eugene Montsalvat



Revolução, violência política, de fato toda violência é um jogo para o homem jovem. Jovens rebeldes determinados forjaram nações, como vimos ao longo da história. Mas esses homens foram verdadeiros revolucionários, fanáticos dispostos a sacrificar tudo, eles incorporavam a descrição de Nechaev, "O revolucionário é um homem condenado. Ele não tem interesses pessoais, negócios, emoções, ligações, propriedade ou nome. Tudo nele é completamente absorvido no único pensamento e na única paixão pela revolução".

Tal devoção é rara no Ocidente moderno. Ademais, quando ela vem em formas estrangeiras, tal como o militante islâmico ou o guerrilheiro latino-americano ela se torna o grosseiro "radical chic" de rebeldes universitários que vestem camisetas de Che Guevara ou keffiyehs manufaturados em fábricas capitalistas escravagistas. Todo espírito pseudo-revolucionário juvenil existe hoje inteiramente dentro dos parâmetros do capitalismo, desenraizado, commodificado, certamente não-ameaçador à ordem estabelecida. A parafernália da revolução é apenas um instrumento de marketing por valor de choque. Isso aponta para uma questão maior, que a pose de resistência ao sistema foi já totalmente integrada ao sistema.

Nós devemos perguntar como chegamos a essa sitação. Jean Thiriart oferece uma possível explicação, o RPG juvenil revolucionário tomou o lugar das iniciações à masculinidade em sociedades modernas. A rebelião é apenas uma fase pela qual se passa antes da sua integração plena na sociedade burguesa. Como ele escreve em "Pretorianos Políticos ou o Preço Humano do Poder Militante":

"Aqui lidarei com o culto juvenil.


O adolescente deve passar por uma marca psicológica em cujo curso ele é obrigado a se afirmar para ingressar no mundo dos adultos. Em sociedades primitivas (África e Amazônia, por exemplo) essa passagem é objeto de um ritual preciso, formal, imutável, indisputável. Após passar pelos testes (geralmente testes de coragem e/ou leves mutilações), o adolescente se torna um homem. Uma vez feito isso, seu caráter como adulto não é mais contestado. Sociedades primitivas são melhor organizadas que as nossas, nesse esquema específico. Muito depois, na antiguidade grega por exemplo, os ritos de adolescência eram igualmente bem definidos, bem ritualizados da maneira mais oficial possível.



Hoje, tudo isso é deixado para a iniciativa pessoal. A sociedade plutodemocrática não se preocupa com estes problemas importantes. Assim, os próprios adolescentes criam os ritos: trotes estudantis, pornografia verbal, alcoolismo juvenil e, é aqui que nosso interesse aparece, participação em um culto 'durão'.



O fenômeno neonazista pós-guerra é assombrosamente comum entre jovens. Não há qualquer questão de uma opção filosófica aqui, mas uma cativação por um ritual mágico. Cada maravilhamento assombrado é ligado aos souvenirs da SS e do NSDAP. Assim, certos jovens que passam pela crise obrigatória de afirmação em relação a seus status de adulto, frequentemente criam cultos juvenis.



A máquina de propaganda sio-americana apresenta estes cultos juvenis como cultos políticos. Essa exploração é bastante lucrativa para os sionistas, para os milieus judaicos fanáticos da extrema esquerda. É a perpetuação do mito do 'perigo fascista' justificando suas próprias ações. É o pretexto para demandar mais centenas de milhares de marcos da República Federal Alemã. Todos os pequenos círculos de assim chamados estudantes 'nacionalistas' igualmente se revelam como estes cultos juvenis. É por isso que a população desses grupos é extremamente mutável. A juventude permanece ali no máximo 1 ou 2 anos em geral, o período de sua crise. Uma vez ultrapassada a marca, ele se crê adulto, ele deixa o culto juvenil e se integra bem à sociedade adulta e burguesa...



É necessário se resguardar contra confundir o culto juvenil com o culto político. O primeiro se caracteriza por sua indisciplina interna, o adolescente deve se afirmar e ele ingenuamente sustenta que a indisciplina é uma marca de maturidade, e pela ausência de uma ideologia política nova e original. O culto juvenil é barulhento, sem hierarquia funcional e procurando elementos mágicos em um passado supostamente prestigioso. Ele é feito e desfeito constantemente, seus membros são passageiros efêmeros".



A sociedade plutodemocrática ocidental moderna não fornece quaisquer ritos reais para a passagem à idade adulta, por isso a juventude desenvolve os seus próprios, que geralmente envolvem adotar comportamento pessoalmente arriscado ou ultrajante, os quais apesar de talvez colocarem o participante sob risco através da violência, uso de drogas ou promiscidade, representa risco absolutamente nulo para o regime governante. Uma vez que a juventude se canse dessa fase, eles deixam suas caras universidades onde lhes foi permitido brincar de revolucionário e em troca assumem uma dívida imensa, e ingressam no mundo corporativo para pagá-la.


Ademais, podemos notar o aspecto individualista dessas rebeliões adolescentes. Ao se pavonearem com a camuflagem da extrema-direita ou da extrema-esquerda eles realmente só enfatizam sua separação de seus compatriotas, ao invés de buscarem forjar laços com a sociedade ao seu redor como precursores de uma mudança política, eles se alienam das mesmas massas que eles gostariam de liderar. Na realidade, essa é uma forma de chamar atenção, comum entre jovens ocidentais cujos pais os ignoraram para perseguirem suas carreiras. Essa busca por atenção não raro tem um componente sexual, se torna um "pavonear-se" para atrair uma parceira, como notamos na fetichização do nazismo nas subculturas punk ou gótica.

Ademais, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, nós temos visto movimentos políticos estudantis cujo objetivo preciso é o individualismo radical, disfarçado de comunismo ou socialismo. Assim, encontramos declarações como a do radical dos anos 60 John Sinclair que demandou, "Ataque total contra a cultura por todos os meios necessários, incluindo o rock and roll, drogas, e sexo nas ruas". As raízes desse estilo de pensamento estão no movimento situacionista, que influenciou a subcultura punk (o empresário dos Sex Pistols Malcolm McLaren foi influenciado pelo movimento de forma significativa). O situacionismo emergiu da esquerda anti-autoritária na França para defender atacar o capitalismo através da construção de "situações", para citar Debord, "Nossa ideia central é a construção de situações, quer dizer, a construção concreta de atmosferas momentâneas de vida e sua transformação em uma qualidade passional superior". Essas situações tomam a forma de uma libertação e experimentação individual radical, movimentos artísticos de vanguarda e a celebração do lazer. Enquanto o situacionismo se situava na esquerda comunista, ele replicava o individualismo capitalista, como Kazys Varnelis observa:

"O situacionismo pode ter começado como um movimento antiburguês, mas já que ele era fundamentalmente burguês em sua defesa da experiência individual, quando ele havia finalizado sua crítica tudo o que sobrou foi melancolia. Finalmente, mesmo a ideia da Internacional Situacionista era estranha à ideologia. Organização, mesmo a sua própria, era inaceitável. O fim do situacionismo diz tudo: um alcoólatra solitário se suicidou com um tiro no coração. Raoul Vaneigem uma vez escreveu 'a saciedade de conveniências e elementos de sobrevivência reduz a vida a uma única escolha: suicídio ou revolução'. À época em que o movimento situacionista havia se esgotado, estava claro que a revolução demandava esforço demais.

Enquanto Debord apontava uma arma para seu peito no Loire, a indústria situacionista, liderada por Greil Marcus, estava girando com força total. Como Steven Shaviro escreve em seu excelente comentário sobre a abordagem equivocada de Marcus sobre Michael Jackson:

'O próprio situacionismo, não apesar de, mas precisamente por conta de sua crítica virulenta de toda forma de produto cultural, se tornou um dos 'memes' ou 'marcas' de maior sucesso comercial do final do século XX'.

Deliberadamente obscuro, o situacionismo era legal, e assim a ideologia perfeita para a geração do know-how. O que poderia ser melhor para provocar conversa no Starbucks local ou na cantina da empresa, especialmente uma vez que o livro de Marcus, que traçava um dúbio fio vermelho entre Debord e Malcolm McLaren, chegou às gráficas? Rock n'roll + política neoliberal disfarçada de esquerdismo: uma mistura perfeita. Para a geração que virou a dulta com o situacionismo-via-Marcus e a era ponto.com, trabalhar em escritórios como os da Razorfish ou Chiat/Day era a mais elevada forma de diversão. Bastante pop-tarts para charettes no meio da noite e um bocado de design colorido garantiam que trabalho e vida haviam finalmente se fundido no local de trabalho ponto.com. Ou pelo menos em teoria. A realidade era Como Enlouquecer seu Chefe.

Hoje, o situacionismo parece mais popular do que nunca, servindo como a justificativa mais recente para a cidade neoliberal. Ao invés de uma ideia mais ampla de um coletivo, o situacionismo luta pelo direito de não trabalhar (mas como viveremos? A Amazon fará remessas grátis após a revolução?).

Ao invés de convocatórias cansativas em prol de justiça social, o situacionismo demanda o direito à ludicidade ébria, ao jorro de semen sobre paralelepípedos. Tudo isso sua menos como Utopia e mais como Amsterdã, Dublin, Praga ou qualquer cidade europeua invadida por universitários americanos bêbados no verão.

Se um Debord embriagado teria aprovado, temo dizer que isso não parece liberação para mim, parece inferno".

Na perspectiva geopolítica mais ampla esses grupos da Nova Esquerda influenciados pelo situacionismo na verdade ampliaram o poder do capitalismo americano na Europa. O maio de 1968 quebrou a força do governo gaullista, que vinha afirmando sua independência em relação a OTAN e perseguindo políticas econômicas dirigistas que solapavam a força do capitalismo internacional. Devemos notar, de passagem, que o líder neoesquerdista David Cohn-Bendit tinha ligações com a CIA também. Como Alain de Benoist notou o maio de 68, longe de instilar disciplina revolucionária, promoveu a atomização individualista e a satisfação mercadológica de desejos hedonistas:

"O grande erro foi crer que ao atacar valores tradicionais eles poderiam lutar melhor contra a lógica do capital. Havia sido ignorado que estes valores, bem como o que restava de estruturas sociais orgânicas, constituía o último obstáculo para a expansão planetária dessa lógica. O sociólogo Jacques Julliard fez uma observação bastante correta sobre isso quando ele escreveu que os militantes de maio de 68, quando denunciavam valores tradicionais 'não notaram que estes valores (honra, solidariedade, heroísmo) eram, de forma bem próxima, os mesmos que os do socialismo, e ao suprimi-los, eles abriram caminho para o triunfo de valores burgueses: individualismo, cálculo racional, eficiência'.

Mas houve também outro maio de 68, de inspiração estritamente hedonista e individualista. Longe de exaltar uma disciplina revolucionária, seus partidários queriam acima de tudo 'proibir o proibir' e 'desfrute sem impedimentos'. Mas, eles rapidamente perceberam que isso não fazia uma revolução nem 'satisfazer estes desejos' os colocaria a serviço do povo. Ao contrário, eles compreenderam rapidamente que estes seriam mais garantidamente satisfeitos em uma sociedade liberal permissiva. Assim, todos eles naturalmente se bandearam para o capitalismo liberal, o que não foi, para a maioria deles, ausente de vantagens materiais e financeiras".

De modo geral, a Nova Esquerda continuou o trabalho do capitalismo ao reforçar os valores individualistas do Ocidente e removeu as últimas barreiras no caminho da dominação de desejos consumistas em todas as esferas da vida. Nas instâncias em que a Nova Esquerda ocidental se apaixonou por revolucionários do Terceiro Mundo, isso tomou a forma de um escapismo orientalista rumo a fantasias exóticas que não tinham nada em comum com as perspectivas de stalinistas convictos como Che Guevara ou Mao Zedong. A solidariedade de hippies americanos para com revolucionários camponeses vietcongues parece patentemente absurda. O Vietnã foi vencido em nome do coletivismo radical, da virtude militar ascética e da libertação nacional, não do libertinismo sexual e do ofender os próprios pais. É claro, pode-se notar exceções legítimas no meio da Nova Esquerda, como a Fração do Exército Vermelho, da Alemanha Ocidental, que realmente incorporou a disciplina exaltada por guerrilheiros até a morte.

Concluindo, podemos dizer que o espírito revolucionário da juventude foi sabotado pelos valores ocidentais contra os quais ele deveria estar travando um conflito revolucionário, nomeadamente individualismo, egoísmo, hedonismo, a recusa da autêntica disciplina revolucionária. O potencial revolucionário da juventude foi transformado em mais um mercado. O sofrimento e sacrifício de combatentes ao redor do mundo se tornaram acessórios para jovens alienados pavonear seu "individualismo", que na realidade não é nada além de conformismo à vasta gama de opções oferecidas pelo capitalismo. Outro sinal da degeneração da "Geração Eu". A verdadeira revolta vindoura deve necessariamente varrer essa falsa rebelião que satura a juventude ocidental, junto a todos os outros falsos valores do Ocidente.