sexta-feira, 3 de março de 2017

Angel Millar - A Idade de Ferro está se dissolvendo: Reflexões sobre a Modernidade e o Kali Yuga

por Angel Millar



Há algum debate sobre exatamente quando as eras começam e terminam, mas, segundo os Tradicionalistas, que se inspiram no hinduísmo, nós descemos da Idade de Ouro (Satya Yuga), quando a humanidade era intimamente ligada ao Divino e vivia em harmonia com a natureza, e estamos agora na materialista Idade do Ferro (Kali Yuga).

No Kali Yuga, a quantidade impera sobre a qualidade; a riqueza (não a inteligência ou a sabedoria) é vista como prova do valor de um homem; as pessoas não se importam mais com seus pais ou anciões, e homens e mulheres se unirão exclusivamente por atração física.

Talvez por nós termos passado a associar a Era com "quantidade" e, mais especificamente, com o "reino da quantidade", nós tenhamos passado a pensar no Kali Yuga como pesado, um tempo de ferro e ruína. Ainda assim, não é este o caso hoje.

Em Modernidade Líquida, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve como a política do Iluminismo pretendia corroer o que havia se tornado estático e opressivo. A ideia era de que uma vez que o velho regime houvesse sido desruído, sistemas novos, mas efetivamente mais justos e mais recompensadores seriam postos no lugar. Mas acabou não sendo assim. O ácido corrosivo seguiu desintegrando tudo que ele toca, de modo que temos agora uma "modernidade líquida", uma modernidade onde tudo é leve, fugidio, fluido, mutante, autodestrutivo, e, talvez mais importante, vazio de sentido.

A visão orwelliana de nosso mundo após a Segunda Guerra Mundial era cinzenta, rígida, opressiva e industrial. Algumas características "orwellianas" são parte de nossa era, admissivelmente; em particular o abuso político das palavras, transformando-as em seu oposto ("dano colateral", um termo militar para mortes, sendo um dos mais conhecidos), e o "duplipensar" que o "politicamente correto" impõe a seus crentes, que devem acreditar em coisas diferentes dependendo de quem esteja falando, e que categoria política sua "identidade" se encaixa.

A opressividade aparece também na multidão berrante, denunciando o indivíduo por pensamentos incorretos. Mas tais multidões são feitas de voluntários, ao invés de atores estatais, e ainda que elas se vejam como guardiães da alta moralidade, e denunciem a superficialidade de ocidentais interessados apenas em filmes, música popular e televisão, é seu comportamento berrante que objetiva criar tal mundo de desinteresse por questões sérias, e de ausência de pensamento. Em outras palavras, em contraste ao 1984 de Orwell, a opressividade, também, age para liquefazer e tornar leve. Mas vamos olhar para alguns exemplos de realidade líquida em nossa Idade do Ferro.

Nós todos ouvimos sobre a necessidade de "liquidez" nos mercados financeiros, há muito libertos do sólido e pesado "padrão-ouro", e da necessidade de que corporações individuais tenham liquidez. Desde que Bauman escreveu Modernidade Líquida "gênero fluido" se tornou parte da linguagem e da ideologia do mundo moderno. O gênero é mutável, e assim a "heteronormatividade", ou o padrão-gênero tradicional, poderíamos dizer, é opressiva. A fluidez no gênero é tão desejável quanto a fluidez nas finanças, não que estas estejam inteiramente separadas.

"Quantidade" não é uma questão de peso e imovibilidade, mas do que é leve, menor, vazio e fluido. Considere comida, por exemplo. Há comida barata por todo lado. E mesmo assim essa comida geralmente produzida em massa nos dá pouco mais que "calorias vazias" que às vezes contribuem para adoecermos. De vegetais borrifados com pesticidas a fileiras e fileiras de caixas coloridas com personagens de desenho na frente, apelando a crianças pequenas, o reino da quantidade está ou oculto ou evidente, mas amigável em aparência.

E então tem a guerra. Essa não é mais uma questão de defesa da nação, e certamente não de sua cultura tradicional. A guerra, diz Bauman, "parece cada vez mais como uma 'promoção do livre comércio global por outros meios'." (p. 12). Mas ela também é justificada pelas coisas mais escorregadias: para levar "liberdade", "democracia", ou talvez direitos das mulheres. Guerra também significa nomadismo. Culturais tradicionais são arrancadas de seu solo pela primeira vez em mil anos ou mais.

Além de mais leve e mais fluida, há outra característica da modernidade: mais barata. Há um século, ou menos, nós compreendíamos que valia a pena comprar algo que durasse por toda uma vida. Ela poderia ser passada para a próxima geração. Hoje, o consumidor médio quer comprar o produto mais barato, mesmo que ele se despedace após pouco uso, já que a probabilidade é de que, não importa o que seja, a coisa já estará fora de moda até antes disso.

"Trabalhadores ilegais" obviamente ajudam a manter os preços baixos. Quando as pessoas falam no "sonho americano" em relação à imigração, subjazendo a ideia consciente confortável de imigrantes se dando bem nos EUA está o "sonho" inconsciente, mas verdadeiro: que a cada vez mais empobrecida classe média pode manter um estilo de vida de classe média sobre as costas de um trabalho cada vez mais barato.

Na Europa, também, os imigrantes e refugiados não serão integrados ao sonho britânico, francês ou alemão, quaisquer sejam. Eles são úteis para trabalho barato, e úteis para as elites que precisam mostrar quão morais e conscienciosas elas são, mas que não querem fazê-lo com custo para elas próprias.

Apesar de todo falatório sobre integração, as pessoas não conseguem se integrar à existência vazia, líquida e mutante da modernidade. Ao contrário, ironicamente, os imigrantes da Síria, Líbia, Paquistão e outros lugares trazem o que é definido e enraizado na tradição e religião, e não deixarão isso facilmente, particularmente por serem imigrantes. Os EUA, que até pouco tempo atrás era pouco mais que a Europa transportada ao novo mundo, se apegou à religião e a tradições europeias de uma maneira que Estados europeus modernos não o fizeram, porque ela, também, é uma "nação de imigrantes".

No filme Duna "a especiaria deve fluir". A especiaria é similar ao que conhecemos por Soma ou a Hoama zoroastrista, algum tipo de narcótico ou substância que aparece para trazer iluminação de algum tipo. Talvez porque o filme, e o livro no qual ele está baseado, se passa no deserto, a "especiaria" tem sido naturalmente comparada ao petróleo: "o petróleo deve fluir", preferivelmente para o oeste. Mas o petróleo era o economicamente instável de ontem. Hoje, para sustentar a ilusão de riqueza e modernidade, é a imigração que deve fluir. 

"Nós estamos testemunhando a vingança do nomadismo sobre o princípio da territorialidade e do assentamento", diz Bauman. "Na fase fluida da modernidade, a maioria assentada é governada pela elite nomádica e extraterritorial. Manter as estradas livres para o tráfego nomádico e fazer esvanecer os checkpoints remanescentes se tornou agora o metapropósito da política, e também das guerras..." (p. 13).

Mas mesmo o trabalho barato não pode ser tornado suficientemente barato. Se temos problemas para substituir o petróleo por energia solar, nós temos menos problema substituindo pessoas por máquinas, o que começou com a Revolução Industrial. Recentemente, a Oppenheimer Funds lançou sua propaganda "o inumano é belo". Na propaganda nós vemos um robô ajudando uma mulher a colocar seu casaco e outro robô, pequeno, servindo bebidas em uma festa de piscina. Nós podemos ter medo de robôs, da mesma maneira que as pessoas temem a imigração descontrolada, talvez, mas a companhia de investimentos globais nos garante que haverá robôs em todas as casas por volta de 2025. Robôs são "belos", e nós devemos investir em um "futuro belo", ou, para dizer de outra maneira, um futuro mais líquido. 

A Idade do Ferro foi derretida. Como podemos, então, viver em tal era líquida? "Tradição", nos diz Gustav Mahler, "não é preservar as cinzas, mas passar adiante a chama". Nós devemos também dizer que é passar adiante a essência. Mas ela também deve ser passar adiante as formas das coisas, passar adiante um reino que morreu e se tornou psíquico, com guerreiros, sacerdotes, místicos, amantes, grandes obras de arte, grandes construções, perícias, ideias, e por aí vai existindo agora como lenda, histórias, filosofias, ditos, pinturas, escultura, etc. 

O ferro é uma coisa peculiar. Considerada pelos alquimistas como um dos metais básicos, e pelos homens modernos como arcaico e não tão útil quanto o aço, os antigos o viam diferentemente. Os zoroastrianos pensavam que os céus eram feitos de "pedra duro", pelo que eles pareciam estar se referindo a ferro meteórico, algo que muitos povos antigos utilizaram, especialmente ritualisticamente. O ferro, escuro e denso, é, como descobrimos, simbólico do céu, dos deuses, do Divino. Seja intencional ou não, nós podemos tomar isso como sinal de como viver na atual Idade do Ferro: fortalecer nossos corpos, e afiar nosso espírito, mente e habilidades.

Intencional ou não, podemos tomar isso como sinal de como viver nessa era. Como o metalúrgico podemos aplicar calor a nossas próprias vidas, nos purificando, mas nos tornando mais sólidos, moldando nossas vidas em algo que reflita o eterno. Nós podemos pensar em exercícios, onde nossos corpos ficam encharcados com nosso próprio suor "líquido", mas são moldados e endurecidos por causa disso. A derretida Idade do Ferro quer nos varrer com ela, mas aplicando a chama e reimaginando as formas dos valores e práticas antigas, das áreas da força e saúde físicas à elevação mental e espiritual, e nos remodelando de acordo com eles, podemos resistir aos rios derretidos da modernidade. 

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